Ema Cavalcante era uma moça rica de 24 anos, que vivia com seu pai e avô em uma confortável residência no Vale do Café. Filha única, tornara-se a senhora da casa desde a morte prematura de sua mãe quando ela ainda era adolescente. Destacava-se das demais jovens da sua idade não apenas pela sua beleza distinta e excepcional, mas também por suas maneiras sofisticadas, demasiada cultura e coração benevolente. Em seu interior, jamais se permitira ter quaisquer aspirações ou ambições pessoais, pois acreditava firmemente que seu único propósito na vida era promover a felicidade e o conforto de sua família. Para seu deleite e ocupação, intitulava-se “casamenteira” da região, pois sua maior alegria era promover encontros entre pares que considerava semelhantes e arranjar bons casamentos para as amigas.

Ema era a melhor amiga de Elisabeta Benedito, uma moça de origem humilde, brilhante e sensata. Enfrentando o descontentamento de sua mãe Ofélia e da amiga, que sonhavam com um bom casamento para ela, Elisabeta não tinha quaisquer aspirações em esposar algum rapaz. Para ela, não poderia existir felicidade conjugal se para isso teria que abrir mão de sua independência e viver em prol do marido, como acontecia com as moças naquela época. Não tendo muitas opções de ofício naquela região, arranjara um emprego como secretária de Darcy Williamson, um homem experiente e sedutor que administrava os negócios ferroviários da família. Com o dinheiro que auferia no trabalho, ajudava a família nas despesas, economizando o resto para um dia realizar o seu sonho de viajar e conhecer o mundo.

Apesar das personalidades distintas e diferenças sociais, as duas amigas divertiam-se muito na companhia uma da outra e eram inseparáveis desde que a família de Elisabeta se mudara para o Vale do Café quando Ema tinha 17 anos.

Era uma típica tarde de outono e Elisabeta andava pela cidade, pois havia pedido o dia de folga para resolver algumas pendências pessoais, quando ouviu acidentalmente uma informação que aguçara sua curiosidade: Ernesto Pricelli havia retornado ao Vale do Café após 7 anos de ausência.

Nunca havia conhecido o rapaz e tinha muito pouco conhecimento sobre ele, uma vez que ele havia partido sabe-se lá para onde poucos meses antes da chegada dela à localidade, mas graças a um comentário ou outro nos jantares da família Cavalcante, sabia que ele trabalhara como ajudante do Barão durante a adolescência e que ele e Ema eram muito amigos naquela época. Nas poucas vezes em que tentou questionar a amiga sobre ele, Ema ficou um tanto desconcertada e desviou o assunto. Não era novidade para Elisabeta que Ema era muito contida quando se tratava de falar sobre seus próprios sentimentos, mas havia algo em seu olhar quando alguém mencionava o nome do italiano que despertava sua curiosidade sobre o que haveria acontecido entre eles na época em que conviveram juntos.

Diante do boato do retorno que já circulava perante todo o povoado, achou por bem dirigir-se à residência de Ema imediatamente e comunica-la pessoalmente da notícia: em parte por curiosidade sobre como a amiga reagiria à notícia do retorno do rapaz, outro pouco por achar mais apropriado que ela soubesse de fonte amigável tão cedo pudesse caso não viesse a reagir bem àquela informação.

Ao chegar na casa da amiga, encontrou-a na sala de estar conversando descontraidamente com um homem. Ao aproximar-se, reconheceu-o como Jorge Nascimento, advogado e grande amigo da família Cavalcante. Jorge era um homem de meia idade, muito polido e afável. Casado com Amelia, uma moça rica e doente, era muito estimado pela sociedade por ser um marido tão apaixonado para uma mulher aparentemente pouco sociável e sequer capaz de lhe produzir um herdeiro. Por ser tão próximo da família de Ema, tornaram-se grandes amigos e ela o admirava acima de qualquer pessoa.

Ema abriu um sorriso alegre ao avistar a presença da amiga, pedindo desculpas a Jorge e interrompendo-o para cumprimenta-la:

— Elisa, minha querida, que alegria lhe ver! Junte-se a nós!

Elisabeta percebeu que Jorge parecia incomodado com a sua chegada, como se ela estivesse lhe privando da companhia isolada de Ema, mas ele logo lhe concedeu um sorriso e estendeu a mão para beijar a sua.

— Senhorita Elisabeta, que prazer reencontrá-la. Por favor, sente-se conosco. – Disse Jorge, ao que Ema retribuiu com um sorriso, apreciando sua boa educação.

Elisabeta retribuiu os cumprimentos e sorrisos, juntando-se à eles nas poltronas da grande sala de estar.

— Minha cara amiga, estava agora mesmo contando a Jorge como você pouco vem me visitar graças ao egoísmo do filho do Lorde Williamson, que é incapaz de executar qualquer tarefa sem o seu auxílio. Sim, penso que essa dependência dele para com você teria qualquer valor se não fosse sua absoluta relutância ao casamento e o fato dele ser um mulherengo desenfreado. Minha maior frustração como casamenteira é ver dois indivíduos tão próximos e orgulhosos, sendo que jamais terão qualquer outro tipo de relacionamento se não o profissional. Acredite, meu caro Jorge, eu tentei uni-los, mas nunca vi dois tipos tão orgulhosos e pouco predispostos a relacionarem-se. Enfim, eis que diante disso tudo não há perdão para você ser uma amiga tão ausente por culpa dele. Na minha próxima visita aos Williamson, farei questão de dizer à Darcy que deixe você me visitar mais vezes ou irei denunciá-lo por trabalho escravo! – Disse Ema, em tom de brincadeira, embora levemente magoada. Sentia muita falta de Elisabeta nos últimos meses, uma vez que a amiga passava cada vez mais tempo no serviço e pouco tinham tempo de encontrar-se para conversar como antigamente.

— Não há necessidade de denúncia alguma, Ema. Sabe que amo meu trabalho e ficaria infeliz se fosse privada de realiza-lo por qualquer dia que fosse além do necessário. Mas não há necessidade alguma de fazer drama ou sentir-se abandonada, pois aqui estou e não pretendo ir embora até que matemos toda a saudade uma da outra ou eu seja convidada a me retirar. – Respondeu Elisabeta, divertindo-se e abraçando a amiga.

— Ora essa! Vejo que se terei que me conformar com os frangalhos de seu tempo e atenção, então irei desfrutar de sua companhia hoje o máximo possível. Não existe a menor possibilidade de eu manda-la embora, uma vez que tenho ficado muito desde que papai se envolveu com a senhora Bittencourt. E vovô, a senhorita sabe, está sempre ocupado com seus jogos e negócios... Não sei o que seria de mim se não fossem as suas poucas visitas e a presença de Jorge, quando os negócios o trazem de São Paulo.

— Ema, minha querida, não diga isso... Sabe que tento visita-la o mais frequente possível e se não venho mais, é porque a saúde de Amelia me impede que a deixe sozinha por muito tempo. – Disse Jorge, segurando a mão de Ema.

— Não há necessidade alguma de desculpar-se, meu caro amigo. Estou apenas fazendo um pouco de drama. Eu sei o quanto o senhor é um bom marido e jamais ousaria privá-lo da companhia de sua tão estimada esposa por causa de meus caprichos. – disse Ema, docemente. Então virou-se para Elisabeta, entusiasmada. – Vamos lá! Sei que não pediu dispensa apenas para me visitar. Conheço a senhorita muito bem e não imagino que viria aqui sem antes ir ao vilarejo resolver seus negócios pessoais. Conte-me tudo agora, quais as fofocas que estão contando pelo Vale do Café? Desde o casamento de Camilo e sua irmã Jane não fico sabendo de qualquer acontecimento da cidade... Estou morrendo de curiosidade, conte-me tudo.

— Acho que podemos deixar as trivialidades para depois, Jorge não deve achar interessante saber mexericos que desenrolam pela cidade... – Disse Elisabeta, desconcertada. Não sabia se deveria revelar o motivo de sua visita na frente do sujeito.

Ema percebeu o desconforto de Elisabeta e tranquilizou-a:

— Elisa, a menos que queira confidenciar-me algo pessoal, não existe motivo para qualquer pudor na frente de Jorge. Ele me conhece desde minha adolescência e existem muito poucos assuntos os quais eu não trataria na frente dele. Vamos, chega de mistério! O que ficou sabendo?

— Bom, a verdade é que eu estava no correio... enviando umas cartas... quando ouvi Luccino Pricelli comentando sobre o retorno de seu irmão Ernesto para o Vale do Café. – Disse Elisabeta, cheia de dedos e incerta se deveria ter contado aquela notícia na frente de Jorge.

O coração de Ema parou. Suas pernas vacilaram. Sentia-se incapaz de executar qualquer movimento ou pronunciar nenhuma palavra diante do choque daquela notícia. Sem se dar conta que segurava a respiração e esquecendo-se de onde se encontrava, sua mente viajara para um turbilhão de lembranças detidas na memória há muitos anos que agora vinham à tona, desenterrando sem dó nem piedade todos aqueles sentimentos os quais Ema havia lutado durante muitos anos para soterrar.

“Ernesto está de volta...”

Ernesto Pricelli era um lindo e jovem italiano de origem humilde que nasceu no Vale do Café. Tudo que lhe faltava em fortuna, lhe sobrava o dobro em alegria e vontade de viver. Quando ambos tinham 14 anos, o rapaz foi trabalhar com o seu avô com o objetivo de juntar dinheiro e ir embora para São Paulo. De lá, ganharia o mundo. Apesar da pouca idade, Ernesto tinha grandes sonhos e principalmente, determinação para persegui-los. Era engajado e levava a vida com muita simplicidade. Para ele, não havia convenções sociais ou obrigações, não havia correntes que fossem capazes de prendê-lo. Vivia cada dia como se fosse o único e conseguia extrair absolutamente todo o enlevo de cada situação. Ema sabia que Ernesto amava sua “mama” com todo seu coração, mas que nem ela nem ninguém jamais seriam capazes de prendê-lo a qualquer lugar, muito menos àquele vilarejo pacato como o Vale do Café.

Desde que Ernesto entrara em sua vida, Ema tinha consciência de que um dia seria confrontada com sua partida, mas isso não foi o suficiente para evitar que ela se apaixonasse perdidamente por aquele italiano sonhador.

Se o sentimento fora correspondido, as circunstâncias da vida nunca permitiram que ela soubesse. Mas a verdade é que ele estivera com ela em todos os momentos importantes de sua breve existência. Ernesto ensinou-a nadar, foi seu acompanhante em seu primeiro baile e também seu maior suporte durante os meses difíceis que se passaram durante a doença que tirou a vida de sua mãe.

Lembrou-se daquela tarde de verão como se fosse o dia anterior. Estavam ambos sentados sob um pomar, comendo maçãs e implicando um com o outro – Ernesto tinha o dom de tirá-la do sério –, quando um funcionário de seu pai apareceu para informa-la de que sua mãe não resistiria muito mais e que ela deveria ir se despedir. Sentira naquele instante o mundo balançar, não havia mais equilíbrio, segurança, seu peito a sufocava, sentia-se desprotegida, não conseguia raciocinar... Até que Ernesto segurou a sua mão. A partir daquele momento, Ema soube que enquanto ele estivesse com ela, jamais estaria sozinha.

Como último desejo, a mãe de Ema – uma senhora elegante, de ascendência e costumes tradicionais e de coração altruísta – a fez prometer que cuidaria de seu pai e de seu avô assim que ela partisse. Sua mãe fora a matriarca da família Cavalcante, sempre cuidando da felicidade e necessidades de todos, e assim seria seu dever a partir de então.

Ernesto também estava com ela quando seu pai, viúvo recente e ainda desolado demais para protestar, concordara com o plano de seu avô de noivá-la com Edmundo Tibúrcio – um rapaz alguns anos mais velho, espirituoso e de grande fortuna, que recentemente havia partido para a Europa concluir os estudos. O plano do Barão era unir as riquezas e salvar sua família da iminente falência que sua própria incompetência nos negócios havia ocasionado.

Assim fora firmado o compromisso; tão logo Edmundo retornasse ao Brasil em alguns anos, Ema seria sua esposa. Naquele momento, Ema queria protestar, chorar, implorar que o pai não a obrigasse a se casar com um homem que ela sabia que jamais amaria, mas de seus lábios nenhuma palavra saiu e seus olhos nenhuma lágrima derramou. Tinha compreensão de seu dever como filha e neta. Jamais seria egoísta de arruinar a velhice de seu avô ou perturbar o luto de seu pai por causa de seus próprios sentimentos. Dessa forma, honraria com graciosidade e esmero a promessa feita à sua falecida mãe, nem que isso significasse abrir mão para sempre e jamais relevar a ninguém sua verdadeira e única paixão.

Os eventos que se seguiram àquele arranjo foram tão previsíveis quanto infelizes... Três anos após a chegada de Ernesto em sua vida e poucas semanas depois da notícia de seu noivado, ele finalmente decidira partir rumo a São Paulo, deixando para trás somente um vazio no coração de Ema e a certeza de que mais do nunca, ela estava sozinha no mundo.

Desde então, nunca mais teve notícias do jovem italiano. Soube apenas pelos comentários do povoado que poucos meses após a sua chegada em São Paulo, ele partira novamente não se sabe para onde e foi apenas isso.

Em algumas ocasiões, Ema pensou em escrevê-lo, mas tampouco sabia para onde enviar alguma carta como se ele teria algum interesse em ter conhecimento dela. Com medo de vacilar à tentação do contato, evitava a qualquer custo mencionar o nome dele e jamais buscou qualquer informação sobre ele com sua família, apesar da proximidade na vizinhança.

E agora, 7 anos depois, ele estava de volta. Estaria casado? Teria filhos? Ainda se lembraria dela? Conformar-se-ia com a ideia de que ele tivesse conhecido uma moça com ideias similares e coração, desde que estivesse feliz... Mas o pensamento de que talvez fosse apenas uma vaga lembrança do passado sem qualquer significância para aquele cujo seu coração jamais foi capaz de esquecer-se durante quase uma década, provocou lágrimas indesejáveis aos olhos de Ema.

Não, ele não pode ter me esquecido... Eu suportaria tudo, exceto sua indiferença...”.

— Ema, você está bem? – Ema ouviu a voz distante de Elisabeta, despertando-a de seus devaneios. – Você está chorando?

Ema tomou percepção de onde se encontrava e em movimento ligeiro, recompôs-se na poltrona, soltando a respiração e sorrindo, enquanto disfarçadamente limpava as lágrimas que teimavam em cair.

— Ora, Elisa! Você está delirando. Que razões teria eu para chorar? Foi apenas o tempo que está pulverulento e vento soprou um cisco no meu olho. Sua imaginação está cada vez mais fértil!

— Não sou capaz de dizer se você teria alguma razão, mas a sua reação quando contei do retorno de Ernesto Pricelli... Tem certeza que está bem?

— Não diga impropérios! – Ema interrompeu-a. – Porque eu haveria de reagir mal à uma notícia tão agradável? Nada no mundo me faria mais feliz do que a possibilidade de rever meu velho amigo! Aliás, corrijo. Muitas coisas me fariam mais feliz do que isso, uma vez que mal me recordo de sua pessoa. Agora vejamos, era só isso que tinha para contar? Essa cidade está cada vez mais desestimulante, preciso dizer. Não existem mais fofocas como antigamente!

— Sim, acredito que era só isso que eu teria para contar mesmo... Sinto por não ter nada mais interessante para compartilhar. – Respondeu Elisabeta, insegura.

— Ora, não é sua culpa! Não é como se pudesse fabricar um escândalo apenas para meu deleite, não é mesmo? – Disse Ema, rindo, apesar de não parecer estar divertindo-se nada naquele momento. Virou-se para Jorge, como numa tentativa desesperada de desviar o assunto. – Então, Elisa chegou e acabei não lhe perguntando... Como está Amélia? Por que não a trouxe consigo? Faz tanto tempo que não a vejo, fiquei muito sentida que ela não pode comparecer com o senhor no último baile em razão de sua saúde, mas espero que ela sinta-se melhor para comparecer ao nosso jantar de sexta-feira.

— Fico muito agradecido em nome de minha esposa pela sua preocupação, minha querida Ema. Você é sempre tão gentil e preocupada. A verdade é que não sei dizer se ela terá condições de deslocar-se para tão longe no momento, você sabe como o tempo fica inconstante agora no outono e temo que isso seria mais prejudicial à sua saúde. Mas você é convidada para passar o tempo que quiser conosco em São Paulo, posso mandar Tenória preparar agora mesmo o quarto de hóspedes para você, se quiser...

— Ah, Jorge! Muito obrigada pelo convite! No momento, não posso aceitar. Sabe como é, logo teremos a realização do noivado de meu pai com Julieta... Enfim, tenho que estar com minha família nesse momento. Mas assim que puder, ficarei contente em visita-los.

— As portas de nossa residência sempre estarão abertas para uma amiga tão querida. Venha quando quiser! Agora, se me permitem, vou deixar as senhoritas conversarem sobre me retirar e procurar o Barão. Ainda tenho assuntos para resolvermos.

Jorge levantou-se e, em um sinal de cortesia e despedida, beijou a mão de Ema e depois a de Elisabeta, encaminhando-se logo para o escritório.

Elisabeta o observava. Jorge era um homem benquisto por toda a sociedade e aparentemente, um marido muito enamorado. Nada nem ninguém jamais ousaria suspeitar qualquer malícia de alguém tão amável e complacente, principalmente Ema, a quem o estimava acima de todos.

A única exceção à essa regra era Elisabeta. Nunca havia dito nada em voz alta, uma vez que jamais houvera qualquer prova de suas suspeitas, mas a verdade é que, para ela, havia algo muito errado por trás de todo aquele comportamento polido de Jorge. O modo como ele olhava para Ema, como ficava desconfortável com qualquer intromissão aos dois... O beijo que dera na mão da amiga, como se durasse 1 segundo a mais do que deveria. Também não pode deixar de notar como ele sentiu-se incomodado pela notícia do retorno de Ernesto. Ousaria dizer que ele ficara mais abalado que a própria Ema. Além de tudo, havia aquele abatimento afetado sempre lhe perguntavam acerca de sua esposa. Parecia que ninguém mais reparava como ele soava dissimulado quando demonstrava descontentamento por ela não poder acompanha-lo em suas viagens ou compromissos sociais.

Contudo, Elisabeta conhecia bem a amiga e sabia que ela jamais admitiria qualquer dúvida acerca do caráter de alguém a quem tanto confiava, então, ignorou suas desconfianças. Voltou-se para Ema:

— Agora que Jorge se foi, tem certeza que está bem? Não há nada que queira compartilhar comigo? – Perguntou Elisabeta.

— Ora, que tolice é essa! Se disse que estava bem antes, é porque estou mesmo. Não tenho razão alguma para mentir e tampouco acho agradável você me questionando desse jeito! Agora, Elisa, se me permite, ouso dizer que teremos que encerrar nossa reunião por aqui. Lembrei agora que ainda tenho muitas tarefas para concluir. Sexta-feira, como sabe, teremos um jantar aqui em casa e ainda nem fui capaz de selecionar o cardápio, quem dirá escolher a prataria. – Disse Ema, levantando-se.

— Achei que nada no mundo faria você me deixar ir embora hoje... – Respondeu Elisabeta.

— Pois eu estava enganada. Como disse, tenho muitos afazeres a cumprir. A senhorita, de todas as pessoas, deve entender que às vezes precisamos priorizar as nossas responsabilidades acima de nossa própria satisfação. Agora, por favor, seja uma boa amiga e despeça-se de mim antes que eu seja obrigada a pedir que um funcionário venha leva-la pelo colo para que eu possa finalmente me dedicar às minhas obrigações.

Apesar de levemente incomodada pelo comportamento afetado de Ema e por ter sido dispensada, Elisabeta achou melhor respeitar o seu desejo e não questioná-la mais naquele dia. Então, despediram-se, com a promessa de que Elisabeta compareceria ao jantar que a família Cavalcante estava proporcionando no final daquela semana.

Ema levou Elisabeta até a porta e sorriu ao abanar enquanto ela atravessava o portão. Contudo, assim que teve certeza da partida da moça, se permitiu finalmente sucumbir àquela dor que a dilacerava e a rasgava por dentro desde a notícia do retorno de Ernesto. Correu até o seu quarto, chaveou a porta e atirando-se na cama, pôs-se a chorar copiosamente tarde adentro, deixando o coração remediar naquele momento todas àquelas feridas que haviam sido expostas instantes atrás... até que adormeceu.

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Nos próximos capítulos:

"E ali ela estava diante dele, mais bela e graciosa do que ele poderia lembrar. A sua baronesinha. Nem em seus maiores sonhos e devaneios, ela era tão encantadora quanto naquele momento. Durante todos esses anos, conhecera inúmeras e diferentes mulheres pelo mundo e envolvera-se com várias... Mas nenhuma, por um instante sequer, fora capaz de despertar nele uma fração que fosse da paixão que ele sentira na juventude pela sua baronesinha. Como gostaria agora de voltar no tempo e nunca ter partido sem revelar seus sentimentos. Mas o temor pela recusa e a ciência de sua incapacidade de lhe proporcionar os confortos os quais ela era acostumada o haviam impedido. Contudo, isso agora não era mais um problema. Não, agora estava tão rico quanto qualquer rebento afortunado das famílias tradicionais do Vale do Café.

(...)

Nada nem ninguém jamais o separaria de seu verdadeiro amor... com exceção dela mesmo.

(...)

Ela sorria para ele, mas havia algo em seu olhar: um nervosismo, uma ansiedade... Estaria Ema tão afetada pela sua presença tanto quanto ele pela dela? No final das contas, precisaria mesmo reconquistá-la? Seria possível que ela, mesmo que remotamente, retribuísse o seu afeto?"