Vainglory
21 Capítulo 21
Notas iniciais
parto1
par.to1
sm (lat partu) 1. Ato ou efeito de parir. 2. Produto da concepção. 3. Dar vida à.
Havia encontrado uma árvore larga logo à margem do Rio Central, que ligava todos os cantos do Reino juntos, e, parando o corcel assustado, decidiu que teria de parir ali mesmo se quisesse que o bebê sobrevivesse.
Abafando um grito de dor mordendo o lábio inferior, conseguiu segurar-se à rédea do cavalo para descer de sua cela e rapidamente o amarrou a um dos galhos da árvore, já que o animal estava estressado e ela não poderia arriscar que fugisse. A dor estava beirando o insuportável, mas Annabeth conseguiu remover a cesta de vime presa ao corcel e carregá-la até a margem do rio com ela, onde estendeu o único pano que possuía dentro da cesta sentou-se em cima deste, colocando a cesta de lado enquanto enfiava a mão dentro do próprio vestido para pegar o pano bordado da filha. Segurou-se a ele como seguraria a mão do marido se ele estivesse lá e apertou-o, deixando escapar um baixo choro antes de usar sua outra mão para abaixar suas roupas íntimas (notou que estavam molhadas de urina, já que havia estado tão assustada que se molhara) e abrir as pernas, inspirando e expirando lentamente, tentando esquecer o porquê de sua situação atual.
Sua bolsa havia quebrado instantes depois que a serpente vermelha cruzara o céu. Os convidados não desperdiçaram tempo em correr em desespero, mas o dragão já havia pousado na floresta do quintal, e as chamas do fogo já estavam tão perto que o instinto havia sido o único sentimento presente em todos.
- Zachary. – Annabeth conseguiu falar, apressando-se em virar para o lado e agarrar o menino que se escondia embaixo de sua cadeira com os olhos fechados, arfando em dor ao sentir o útero se contrair. – Perseu, eu... – Ela voltou-se novamente para o marido que já apunhalava a espada e pôs-se a agarrar a cintura dela. – Perseu. O bebê.
- O bebê? – A voz do marido foi baixa quando o grito do dragão ainda oculto pela vasta floresta (agora em chamas) ecoou pelo céu novamente e, enfim, o monstro apareceu novamente. Pela primeira vez, Annabeth olhara nos olhos dele: Eram tão vermelhos quanto suas escamas, e oh, deuses, ela deveria saber que a previsão da velha vidente era verdadeira, afinal de contas, ela nunca se enganava. – Você precisa ir. Agora. – Percebeu que Perseu, como ela, já lutava para segurar as lágrimas de desespero.
- Ir? – Ela questionou, colocando a mão sobre a barriga inchada quando outra contração atacou e, em contrapartida, o dragão se distraiu, botando fogo na parte da floresta à esquerda do castelo. Tudo acontecia tão rápido, numa velocidade quase inacreditável, e ao mesmo tempo, a dor irradiante no ventre de Annabeth apenas aumentava, e deuses, como ela queria ser fraca, frágil, implorar que o seu marido a salvasse, a tirasse dali, mas não, ela não se fingiria de fraca no momento que Perseu mais contava com sua força e sua coragem: seria a mulher corajosa e forte que nasceu para ser.
E fora assim que havia sido colocada em sua situação atual: Perseu a guiara pelos arredores do castelo, seus urros de dor mascarados pelos gritos muito mais altos do dragão enfurecido; a situação, ironicamente, a lembrava de como os costumes diziam que os deuses castigavam o excesso de felicidade por inveja: sabia que estava sendo castigada por ter sido feliz com Perseu e Zachary, e se Hades tomasse sua vida naquela noite, ao menos ela havia conquistado aquilo em seus poucos anos de vida... Havia sido feliz, muito mais feliz do que imaginara ser, havia encontrado o amor de sua vida, e esperava ao menos conseguir parir sua segunda cria e cumprir seu dever no mundo naquela noite.
O bicho se aproximava, ela sabia, mas Annabeth, Perseu e Zachary conseguiram chegar aos estábulos, ela ainda aos gritos. Perseu trabalhou rápido em guiar um cavalo já com sela e rédea até a esposa, Zachary aos choros em seu colo.
- Vá. – Perseu instruiu, e Annabeth mal conseguia ouvir sua voz entre seus próprios choros, os gritos de medo do filho e os barulhos do dragão e de tudo que destruía, cada vez mais próximo. Naquele instante, seus olhos cinza encontraram os de Percy e ela envolveu seu pescoço num beijo tenro e rápido, um soluço de choro escapando seus lábios enquanto eles trocaram uma última carícia, ou, ao menos, o que parecia ser a última carícia que fossem trocar. Por fim, acariciou os cabelos negros do filho, dando um longo beijo em sua testa, contemplando o sangue de seu sangue por eternos segundos, memorizando cada detalhe de seu rosto belíssimo, como sempre fora. Lembrava-se do dia que o havia parido como houvesse acabado de acontecer, e como sentia falta de segurar o pequenino em seus braços, de amamentá-lo, dos longos momentos em que pensava que nunca teria de se separar dele, ou de seu amado Perseu...
- Mamãe? – Zachary perguntou com dúvida quando, com a ajuda do braço forte de Perseu, subiu no corcel alto e branco que carregava uma cesta de vime de costura em seu lombo, já que se tratava do cavalo de uma das costureiras do castelo. Annabeth rezou para que a cesta possuísse algo que a ajudaria no parto.
- Vá. Esconda-se na floresta à Oeste, o mais longe que puder... Deixarei Zachary a salvo no porão subterrâneo, e assim que for seguro, virei procurá-la, e o bebê... Cuide-se, querida, cuide-se... – Perseu insistiu, e o coração de Annabeth partiu-se em mais um milhão de pedaços. Estava deixando seu marido, seu tão amado, belo, gentil, engraçado e divertido marido, e seu filho, seu tão igualmente amado e belo filho, seu filho de apenas três anos, oh deuses, ela rezava para que ela morresse no lugar dele, que Zachary sobrevivesse naquela noite e que, no futuro, ele virasse o homem grandioso e inteligente que estava destinado a ser. – Eu amo você. Vamos ficar bem. – Ele completou, agora ambos chorando em desespero e tristeza, já que não sabiam se realmente se veriam novamente, ao menos não em vida. As patadas do animal sobre o solo indicavam sua crescente proximidade, e por mais que fosse extremamente difícil, Annabeth deveria realmente partir.
- Cuide de nosso filho... – Ela implorou, deixando escapar mais um urro de dor quando o corcel branco disparou na direção oposta ao caos, deixando Perseu, Zachary, o castelo em chamas e o monstro que havia destruído sua paz para trás.
Agora cá estava ela, Annabeth Maria Chase, uma mulher amada, linda, gentil, extremamente inteligente e cheia de compaixão, esparramada sobre um pano improvisado, prestes a dar a luz, sozinha, amedrontada como nunca havia estado em sua vida, e, sobretudo, numa dor física e emocional que nunca havia sentido antes. Seus gritos de dor a cada vez que empurrava para a expulsão do bebê ainda eram mascarados pelos urros já distantes do dragão vermelho, e ela segurava o pano bordado de Claire com força ao pensar no marido e no filho. E se estivessem mortos? E se estivessem feridos? Seus pensamentos de preocupação eram frequentemente interrompidos pelas rajadas de dor entre suas pernas e seu abdômen: se lembrava do parto de Zachary, e sabia que havia sido doloroso, mas deuses, ela se sentia quase como se estivesse sendo rasgada ao meio. Eventualmente, enxugava o suor da própria testa, sua única motivação a vida do bebê que, ainda dentro dela, estava em risco. Havia lido livros de Medicina o suficiente para saber que se não fosse expulsa logo, a criança logo ficaria sem oxigênio.
Não sabia se haviam passado horas ou simples minutos, mas, enfim, sentiu um peso sair de seu corpo assim que recebera um choro agudo de bebê em troca pelo seu esforço.
Levantou-se do tronco da árvore em desespero, suas mãos imediatamente segurando o corpo do pequeno bebê contra o seu vestido, agora manchado de sangue. Com uma das mãos, procurou uma tesoura pontuda da cesta de vime (o kit de costura) e quando a encontrou, usou-a para romper o cordão umbilical.
- Não chore... Não chore mais... – Annabeth sussurrou, todavia, ela mesma estava derramando lágrimas de alegria e medo. Usou um pequeno pedaço de tecido de dentro da sacola de vime para limpar o corpo do bebê, e conseguiu formar um sorriso quando notou que era mesmo uma menina, como Perseu havia previsto... Sua menina, linda princesa... Agora que grande parte do medo estava dormente por enorme felicidade, Annabeth podia examiná-la melhor: Ela era tão pequenina como Zachary fora, mas sua pele era pálida, perfeitamente branca como pó de arroz. Seus cabelos eram cacheados como os dela, porém, negros como os de Percy e de Zachary. Seus olhos, no entanto, oh, seus belos olhos cinza, característicos de Casa da Coruja, herdados da mãe que a amava tanto... Parecia-se com ela, sua pequena Claire, princesa Claire, uma bênção num dia tão tenebroso...
Com todo o amor e carinho que inundava o seu ser, Annabeth levou o bebê até o largo rio, usando a água doce e límpida para limpar a bebê, que havia parado de chorar e apenas soltava barulhinhos de contentamento de infanta, que encarava Annabeth com certo ar de curiosidade para uma recém-nascida. As mãos calmas da mãe percorriam o corpo pequeno de Claire, e, depois, limpando seus cachos negros de todas as impurezas ali presentes. Annabeth chorou quietamente enquanto silenciosamente rezava, rezava para que ficassem seguras naquele canto da floresta até que Perseu as achasse, rezava para que ele e Zachary tivessem a chance de conhecer Claire, e que estivessem a salvo, os homens de sua vida, que amava tanto. Como se os deuses houvessem se arrependido de permitir o acontecimento de tantas discórdias, os gritos do dragão à distância haviam acabado, e Annabeth esperava que o fato significasse que o bicho estava morto.
- Vamos ter que vestir você nisso aqui, mas acho que pode funcionar, não é mesmo? – Annabeth sorriu, pegando o grande pano bege e bordado da filha e envolvendo seu corpo pequeno gentilmente com a superfície. Ficou inteiramente coberta, apenas com sua cabecinha de fora, já que a vestimenta era mesmo grande para o tamanho do bebê. Apoiou a criança sobre a saia de seu vestido que escondia a sujeira do parto do chão, e mais uma vez retirou um pano pequeno de dentro da cesta de vime, juntamente com um alfinete de prata. Desta forma, conseguiu fazer uma fralda para a bebê, que já dormia tranquilamente quando terminou de ser vestida.
- Claire Gemma Jackson... – Annabeth admirou o bebê que dormia em seus braços, pela primeira vez ao dia agradecendo ao Olimpo por estar em sua companhia quando ela pariu a criança aparentemente sozinha... Agradeceu que sua filha tinha saúde, e agradeceu que, por enquanto, as duas estavam bem.
Adormeceu segurando a criança possessivamente contra seu peito, esperando o marido que nunca viria.
Notas finais
Novamente, peço 1000000000 desculpas pela minha demora, já que nunca demorei tanto assim pra postar. Sumi, sumi mesmo, minha tia não está muito bem (ela é bipolar, teve uns surtos) e eu amo MUITO, muito ela, e infelizmente, com ela internada, eu não conseguia prestar atenção em absolutamente mais nada. Ela já saiu, já está MUITO melhor, então voltei à ativa com as minhas fics :)
Obrigada pela compreensão, eu NUNCA , NUNCA NUNCA NUNCA vou largar Vainglory, prometo! Obrigada pelas recomendações, pelas anjas que me mandaram msgs perguntando, pelos reviews, pela a atenção que eu não mereço!
Mereço reviews?
Beijos,
Ju
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