Vainglory

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo =3

aleivosia
a.lei.vo.si.a
sf (aleivoso+ia1)1. Fingimento de amizade;2. Dolo, fraude, traição.

Quando Thalia e Silena chegaram à Casa do Tridente, era em torno das três da manhã. O enorme castelo de pedra cinza escura ainda era o mesmo: Bem iluminado, bem vigiado, arborizado, formado por quatro torres, as bandeiras azul marinho em cada uma delas com o semblante da família. Nas mãos trêmulas de Silena, a caixa de música vermelha enfeitada de rubis prevaleceu durante toda a viagem, o coração de veado posicionado cuidadosamente em seu centro. Após amarrar muito bem o cavalo roubado contra uma árvore na floresta a certa distância, ambas trocaram um olhar nervoso, contudo, sabiam que quanto mais rápido executassem a tarefa e fizessem com que Luke Castellan acreditasse que o coração dentro da caixa de música era o de Annabeth Chase, a vida das duas estariam a salvo, e isto não tinha preço; além de tudo, Silena enfim receberia os tais cobiçados e caros medicamentos para salvar Peter, que a cada dia ficava mais fraco e debilitado.

Os seguranças da torre Sul, dos empregados, felizmente, conheciam ambas as moças que haviam trabalhado por lá por certo tempo, afinal de contas. Silena, no entanto, escondeu o rosto, já que rumores corriam pela Casa do Tridente que ela teria sido a última pessoa a ver ou falar com Annabeth Jackson, que havia saído de seus aposentos no meio da noite quando fora sequestrada. Após uma pequena fiscalização para armas pontudas ou de fogo, a entrada das duas mulheres foi concedida. Era estranho estar em Casa do Tridente, pisar ali, respirar seus ares, escutar seus barulhos taciturnos. Thalia já havia se acalmado há dias, e eventualmente, se acostumado com a sensação. Já Silena, por outro lado, tremia de nervoso e culpa enquanto as moças andavam juntas até a torre do Leste, onde os nobres ficavam hospedados, aonde encontrariam Luke Castellan. Por mais que Silena soubesse que estava fazendo o melhor para Peter, a pessoa que mais amara no mundo, sentia pontadas de dor em seu peito quando se lembrava do que havia feito à Annabeth, que aparentemente ainda estava desaparecida. O que lhe haveria acontecido? Os sátiros haveriam a matado? Não importa, uma voz rápida passou pela mente de Silena. Se um dia Annabeth Jackson retornar, já estarei muito longe daqui para que Castellan me alcance; Este pensamento era o único que fazia com que a moça não desabasse.

Após passarem por mais dezenas de seguranças – Silena adivinhou que a segurança houvesse sido triplicada após o acidente com Annabeth – finalmente um centauro alto, negro e musculoso as acompanhou lentamente pelos corredores até que atingiram o aposento de Luke. Thalia e Silena trocaram outro olhar, um olhar que dizia que, se morressem, ao menos morreriam juntas. Ambas sabiam o que a outra sentia: pisar novamente naquele maldito quarto, onde haviam sido violentadas, molestadas, onde enxergaram dia após dia Luke perdendo cada vez mais a cabeça parecia impossível, mas o fariam, uma última vez. Uma última chance, ambas pensavam quando Silena apertou a caixa de música contra seu corpo magro.

Entraram.

~~~~~~

- Annabeth? – a moça ouviu uma voz distante de si, pulsante, quase como que uma brisa de oceano a puxá-la. – Annabeth?

Sabia que deveria abrir os olhos, e que, por algum estranho motivo esteve desacordada, mas não conseguia. Perdia-se na repetição constante de seu nome, e o quão doce e familiar a voz lhe parecia. Annabeth, Annabeth, Annabeth, lhe chamava, semelhante a uma melodia, oh, uma melodia. A mais doce melodia, a de seu amado. Perseu. Perseu Jackson.

Assim que chegou à esta conclusão, sentiu um pano gelado sendo pressionado contra sua testa, e soltou um pequeno soluço. A primeira face que encontrou fora de Perseu, sim, saberia que isso aconteceria. Sentiu um enorme alívio ao perceber que estava nos braços de seu marido como uma criança, e apertou-se contra seus braços protetores mais uma vez quando os acontecimentos da última vez em que esteve consciente lhe atingiram em cheio. A face de seu pai, tão cansada como sempre fora, mas com uma dica de maldade e fraude em suas rugas. Charles, preso sobre a gaiola escondida nos panos cor de berinjela. Lembrou-se de sentir-se tonta, e de Percy a segurando antes de atingir o chão. Lembrou-se dos guardas reais e mais sátiros que surgiram da floresta, aprisionando os comerciantes de escravos e matando-os com flechas e tiros. Lembrou-se de encarar nos olhos do pai, olhos que espelhavam os seus, antes de ser levada para fora da área de conflito por um aflito Perseu. Lembrou-se de ver o pano roxo sendo removido da cela, e lembrou-se de ver uma parte do corpo raquítico e fraco do homem que um dia fora chamado de Rei Charles. Por fim, sentiu a decepção inserir-se dentro dela, tão forte e tão absurda que foi o suficiente para coloca-la para dormir.

- Percy? – Ela forçou a palavra de sua boca, sua voz fraca. – P-Percy? – Questionou novamente, quase como se tivesse medo que ele fosse apenas uma visão e que desaparecesse de sua visão.

- Sim, querida. – Perseu fez que sim com um pequeno sorriso, preocupação ainda evidente em seus olhos quando o pano foi pressionado contra sua face. Só então Annabeth sentiu o movimento debaixo de si: Estavam dentro de uma carruagem. Estava à noite, isto percebia, mas os interiores do veículo eram inconfundíveis, ornamentados de azul e branco, que pertencia a sua amada Casa do Tridente.

- Percy. – Repetiu. – Onde estamos indo?

- Para casa. – Perseu respondeu assim que Annabeth lhe perguntou, e um imenso alívio se espalhou pelo peito da moça, que arquejou contra os braços fortes do marido em relaxamento, sentindo seus olhos se inundarem de lágrimas que, quando caíram pelas suas bochechas, foram rapidamente limpadas pelo pano úmido.

- Casa? – Annabeth sorriu um sorriso maior, desta vez. – Zachary?

- Isso. – Percy parecia tão animado quanto a maneira que sua voz soava aos ouvidos de Annabeth. – Isso mesmo, querida. Estamos indo para casa. Prometo que podemos ver Zachary quando chegarmos lá.

Zachary. O nome ecoou pela mente de Annabeth, e milhões de lembranças de felicidade e amor lhe vieram à cabeça, onde ela segurava, alimentava, passeava e fazia o pequeno bebê de cabelos negros como piche e olhos verdes como o mais belo mar sorrir, um bebê que se parecia exatamente com Percy. Zachary, oh, seu precioso Zachary, que havia confirmado seus maiores medos, que havia provado com sucesso que Annabeth amava Perseu do fundo de seu coração, não importasse o casamento arranjado. Parecia-lhe impossível ter vivido sete meses longe dele, da perfeita criança que amava tanto, e como ela deveria ter estado lá por ele; forma ou outra, isso não importava. Eles iriam para casa agora. Ela, Percy e Zachary, e Annabeth sabia que, desta vez, nada de ruim aconteceria com nenhum deles.

Antes que pudesse responder mais algo, Annabeth aconchegou seu rosto contra o peitoral extenso de Perseu e adormeceu mais uma vez, acalmada e ninada pela melodia de um futuro perfeito que ela tanto almejava, um futuro onde ela possuía tudo que precisava; seu marido, seu filho, e uma promessa de para sempre.

~~~~~

Quíron estava impassível quando lhe entregaram as notícias de que Rei Charles havia sido encontrado. Suspirava, esfregava as mãos no rosto cansado e balançava a cabeça quando o mensageiro lhe explicava detalhes que conseguira de um dos sátiros que participara do resgate. Aparentemente, algum chefe de uma poderosa casa já estava ciente do plano, e para piorar, auxiliando naquele inesperado motim, já que centenas de guardas reais adentraram a área onde Charles era mantido prisioneiro segundos após a identidade de seus sequestradores fora revelada. Com o auxílio de guardas tão bem armados, foi fácil resgatar Charles e controlar os sequestradores, que, segundo o mensageiro, já estavam sendo levados ao palácio para que fossem condenados pelo ministro. A sobrevivência do Rei, contudo, não era o maior problema de Quíron: Annabeth Jackson havia sido encontrada e ela e o marido estavam a caminho de volta para Casa do Tridente. Perseu dissera ao mensageiro para que avisasse Quíron que queria tudo perfeitamente arrumado para a esposa quando chegassem no dia seguinte, e que, de maneira que Rei Charles estava vivo e, em algumas semanas, em perfeitas condições de governar, que Luke e Tyson deveriam ser convidados a sair, já que uma hospedaria não seria mais necessária; enfim, as decisões políticas voltariam ao Rei, e não a eles.

Quíron estranhava o fato, porém, de Nico di Ângelo não ter sido convidado para deixar Casa do Tridente também. Sabia, no fundo, que provavelmente o jovem era o responsável pelas forças armadas que atuaram no resgate do Rei Charles, e que era ele quem dava apoio à trupe de sátiros e centauros que executaram o plano, e ao mesmo tempo, mantiveram Annabeth Jackson a salvo. Mas é claro, Quíron pensara. Patriotas filhos da puta. Acabaram de devolver o reino a um incompetente.

De maneira ou outra, não desistia facilmente. Já havia passado por muitas humilhações, quando Poseidon Jackson, o pai de Perseu, rejeitara qualquer plano que lhe oferecesse, e, quando este morrera, Perseu continuara recusando a guerra e a conspiração da mesma forma. Não iria parar agora, que já estava com as mãos e os cascos imundos da massa da rebeldia. Possuía os recursos, no entanto, precisaria de um aliado. Alguém que detestasse Perseu, Annabeth e toda a vida perfeita e calma que os circundava mais do que ele próprio.

~~~~~~

- Tem certeza que abrirá a tempo? – Luke questionou em voz baixa, encarando o ovo grande e vermelho. – Preciso que germine logo antes da lua crescente na próxima semana.

- Sim senhor. – O criador respondeu rapidamente, um homem baixinho e gordo que usava um avental e tinha cabelos ralos. Parecia muito nervoso, e suava enquanto observavam o grande e majestoso ovo cor de sangue posicionado contra panos. – Todas as outras ovas dessa ninhada já eclodiram, menos este. Tenho certeza que em alguns dias estará satisfeito. – O homem explicou, e Luke mordeu a língua para não reclamar mais. Não estava em posição de se opor, ainda mais porque encarava sua última esperança. Recebera pela manhã o coração ainda quente de Annabeth Jackson, e após ter mandado Silena e Thalia embora com os remédios e um pouco de dinheiro que prometera, chorara sozinho em seu gabinete: Sabia que fora ele próprio que mandara que o coração da moça fosse arrancado, contudo, ao lembrar-se dos anos em que Annabeth foi sua, mesmo que brevemente, sentia pontadas imensas de culpa, algo inédito para ele. Arrependia-se também de ter mandado o bebê embora, sua filha; Não lhe serviria para nada, porém, ainda assim era sua filha.

- Vou levar. – Luke fez que sim, entregando um gordo maço de notas para o criador dos ovos, que fez que sim rapidamente e agachou-se, enrolando o morno ovo novamente contra os panos e com certa dificuldade o entregando para Luke.

- Aqui está, senhor. – O homem disse, porém, foi interrompido por um rugido alto da sala ao lado, que o fez suar e ficar ainda mais nervoso. Luke assumiu que fosse novo, já que naquelas catacumbas mais próximas do inferno tais barulhos fossem normais.

- É mesmo o mais agressivo? – Luke perguntou em voz baixa, limpando a garganta segundos depois. Estava curioso, e, afinal, havia pagado uma grande quantia pelo ovo em seus braços e queria saber se os rumores eram verdadeiros.

- Sim. – Respondeu o aflito vendedor, apertando o avental contra as mãos sujas de fuligem. –Vermelho como sangue, e voraz como o mais corajoso predador. Os antigos o chamavam de O Impiedoso. O senhor não irá se decepcionar.

Luke confortou-se, enfim, segurando o ovo contra si mais apertado, todavia ainda se sentindo culpado. De maneira ou outra, águas passadas eram águas passadas, e o espetáculo continuaria.

Notas finais
Oi meninas, espero que tenham gostado. Desculpem a demora, mas meu avô está na UTI muito doente, e por conta disso, demorei um pouquinho mais. Espero que gostem do capítulo. Antes que se desesperem, não vou demorar pra atualizar She Falls Asleep.
Beijos
Ju