Vainglory

1 Capítulo 1


Vainglory

vanglória
van.gló.ria
sf. (vã+glória)Presunção mal fundada acerca do próprio merecimento ou de dotes pessoais; bazófia, jactância, vaidade.

Ao toque suave de suas impressões digitais na água quase transparente, a luz solar irradiou do baixo horizonte, trazendo as cores púrpura e magenta para o céu da manhã, misturando-se aos raios amarelos e laranja. Quase como mágica, o enorme castelo de pedra cinza clara iluminou-se e as dezenas de riachos que o cercavam pareciam correr mais rápidos em volta de um ciclo constante, nunca interrompido desde as épocas antigas. Era reconfortante ver a mesma imagem todos os dias; era como se o ar dissesse que sua pressão seria a mesma, e que os porcos e javalis que corriam soltos na floresta à sua frente teriam sempre o mesmo tempero quando servidos à mesa do jantar. Era familiar, agradável. Quase lhe fez deitar na grama com os pés n’água e dormir olhando para o céu.

Não passava das nove quando finalmente foram procurá-la, afinal, já não mais se encontrava em seu quarto de dormir como antigamente, quando o café-da-manhã era servido só às dez. Desde que o pai havia desenhado seu destino como um cartomante, o sono lhe havia sido tirado pelos deuses; sabia que o seu velho pai apenas queria o melhor, contudo, a ideia de ser esposa e amante de um jovem mesquinho que mal conhecia doía-lhe o ego espesso. Se ela não fosse tão orgulhosa, ou se fosse comportada como sua irmã, talvez ajudasse na terrível tarefa de deitar-se com um homem que não conhecia pelo resto de sua vida. As criadas disseram que ia melhorar, e que sua própria mãe falecida um dia não amara seu pai, mas que isso mudara e era por isso que ela estava viva, agora. Portanto, seguindo as leis da vida e dos homens, ela deitar-se-ia com Perseu Jackson e lhe daria filhos até o dia que os deuses desejassem por fim aos batimentos de seu ainda jovem coração.

Desfrutou seu último dia nas fronteiras das terras do pai correndo pelos rasos riachos, as pedras ao seu fundo massageando os pequenos pés e os peixes azul petróleo fazendo cócegas quando passavam entre seus tornozelos. Tudo parecia tão certo ali, desde que nascera às margens do riacho, como era tradição da família, e sido banhada com essas águas desde então, brincado nessas águas, bebido dessa água; em sua utopia, ela ficaria ali até completar dezoito anos, e então, se casaria com Luke Castellan, agora chefe da Casa do Elmo, que ficava a apenas algumas léguas da Casa da Coruja, a sua própria, e eles teriam filhos com cabelos cor de areia e seus olhos cinza. Mas assim que completou dezessete anos e seu pai ouvira falar do novo chefe da Casa do Tridente – o pai de Perseu morrera na última quinzena – levou a filha até o palácio deste, junto com as outras vinte garotas que esperavam ser escolhidas para serem sua esposa.

Por mais que a ideia de casar-se com alguém que não conhecia a perturbasse, não podia negar que havia algo crescendo dentro dela, como uma falsa expectativa, desde que ela havia visto Perseu pela primeira vez. Suas criadas a banharam na água fria do riacho, a perfumado com os óleos do Jardim e respingado leite de tulipa em seu pescoço e pulsos; o pai escolhera o vestido azul escuro bordado para que destacasse sua pele branca, os cabelos dourados e os olhos cinza, além de um colar trabalhado em prata e rubis anil em volta de seu pescoço. Seus cachos dourados foram presos num coque desajeitado, ainda que bonito. Sentia-se bela, mas não o suficiente.

Assim que chegaram de carruagem até a sede da Casa do Tridente, ela agitou-se por dentro. Ela e as outras vinte garotas – todas muito parecidas, de cabelos curtos e negros e olhos castanhos claros – foram colocadas em fila no salão principal. Pensou como o lugar era imenso, ao menos vinte vezes maior que a Casa da Coruja, que fora seu lar por tanto tempo. Anunciaram a entrada de Perseu, e ela endireitou as costas, sentindo os olhares de sua família e de criados do jovem nela e em todas as outras.

Ele chegou vestido de preto, de luto por causa do falecido pai. Seus brilhantes olhos verdes traziam tristeza e preocupação, e ela teve pena dele por estar tão preocupado na idade de dezoito anos, mas afinal, ele era um homem feito e tinha o dever de comandar tudo que o pai havia deixado. Seus cabelos negros eram como petróleo, e a pele, levemente azeitonada. Era certamente mais alto que ela. Enquanto ele passava, olhando as moças dos pés a cabeça com certo desinteresse – ele obviamente não queria casar-se tão rápido, ao contrário das outras jovens, que pareciam estar no cio sendo observadas por um rapaz tão belo – o seu intendente anunciava o sobrenome de cada uma. Perseu continuou desinteressado, sem pronunciar nenhuma palavra. Sendo a última da fila, a pressão da escolha pesava sobre a cabeça de Annabeth, mas quando ele ignorou a moça ao seu lado e olhou para ela com os olhos mais bonitos que já havia visto, ela ergueu o queixo. Não importa o que acontecesse, não ia ficar submissa. Por alguns momentos, ele apenas encarou-a, coisa que não havia feito com as outras.

Realmente não conseguiu dizer se era porque era a última opção, ou se as cores dos vestidos das outras jovens fossem chamativas demais, ou se era porque ela era a única que se destacava em aparência, mas ele a encarou por um bom tempo. Fez um gesto com as mãos, chamando o intendente, e a sala se lotou de tensão. Lambendo os lábios finos, ele por fim perguntou.

- Qual o seu nome, amada? – ele questionou.

- Annabeth Maria Chase, senhor. – abaixou a cabeça, como se fizesse reverência, e ele segurou uma de suas mãos na sua.

- É belíssima, dama. Algo me diz que você é tão inteligente quanto formosa. – ele anunciou, e antes que pudesse controlar seu físico, suas bochechas tingiram-se de vermelho quando ela murmurou um agradecimento envergonhado.

Desde então, os pensamentos da jovem Chase flutuavam de Perseu para sua vida perfeita em Casa da Coruja. Seu amado pai, Frederick, trazia as marcas do tempo em seu rosto e ela percebia o quanto sofria por nunca ter tido um filho homem; desde que a mãe dela morrera, ele planejara o casamento de Maura – sua irmã mais velha – cuidadosamente; acabou por casar-se com um jovem comerciante, o que não agradou muito, mas ainda assim, Frederick não se deu por vencido. Só deixaria a caçula sair de casa quando encontrasse o melhor pretendente possível, e aparentemente, o nome dele era Perseu Jackson, o novo chefe da Casa do Tridente.

Ao lanche da tarde daquele esperado e tenso dia, Frederick comeu em silêncio. Annabeth tentara fazer algum comentário ou outro sobre Maura, que havia mandado uma carta há dois meses contando que estava à espera do primeiro filho, mas o pai apenas fez que sim em silêncio e quando terminou de comer, pediu licença, e de repente, os cabelos grisalhos em sua cabeça pareceram um bilhão de vezes mais fartos. Temendo pelo estado emocional do pai, Annabeth foi deitar-se, afofando o travesseiro de penas de ganso e memorizando o cheiro eternamente úmido da Casa da Coruja e seus riachos.

No dia seguinte, as criadas lhe acordaram cedo; era uma longa viagem de carruagem até a Casa do Tridente, já que Casa da Coruja ficava ao Norte, e seu futuro lar, ao Sul. O casamento aconteceria no dia seguinte, e quando chegasse ao castelo, ela dormiria num quarto reservado da noiva, e somente após a oficialização do casamento os dois se deitariam como marido e mulher. O pensamento lhe reconfortava; seu romance de verão com Luke não havia passado de beijos inocentes, não suficientes para quebrar a barreira de sua virgindade. Temia pelo momento, mas sabia que teria que ser feito, cedo ou tarde.

As escravas então lhe deram um banho relaxante, e ela sentiu as águas do riacho pela última vez. Secaram-na enquanto algumas lágrimas lhe escapavam os olhos. Perfumaram-na com os óleos do Sul, novamente, e respingaram leite doce por seu pescoço, axilas e no bico de seus seios, apertando-os gentilmente para que ficassem rijos. Colocaram-na em um vestido verde escuro, dessa vez, deixando os cachos soltos e em seu pescoço, uma simples corrente de ouro com o semblante de sua casa: a sábia coruja.

Deu um beijo demorado na bochecha do senhor seu pai, segurando as lágrimas para que não manchassem o pó de arroz que tinha sobre o rosto. Abraçou as criadas, já que provavelmente, nunca mais as veria. Homens como Perseu Jackson não concediam visitas familiares, quem diria de escravas. Por fim, Annabeth enfiou os pés em um dos riachos antes de secá-los e calçar suas sapatilhas de cetim beges. Antes de saírem, ela fez certeza de que sua égua branca, Myr, fosse bem escovada para a viagem e que suas bagagens, incluindo os livros que tanto amava, estivessem todos junto dela. Quando a carruagem passou pela ponte, ela observou o maior dos riachos e todos os que amavam lhe acenando. Ao invés de retribuir, preferiu por enterrar a cabeça em uma almofada e não deixar que o cocheiro visse.

Quando chegaram a Casa do Tridente, ela vislumbrou sua nova casa. O castelo de pedra escura era enorme, e havia bandeiras azuis escuras em todas as suas torres, além de o lugar ser extremamente iluminado. Havia um imenso terreno atrás do castelo, aonde seu pai lhe contara que cachorros de estimação e caça brincavam na grama e cresciam azeitonas nas oliveiras gigantes, sem mencionar o estábulo com os mais belos garanhões e pôneis.

Surpreendeu-se a a quão discreta fora sua recepção. Todos pareciam extremamente felizes em vê-la, apesar de ela não conhecer nenhuma das criadas ou intendentes. Foi apresentada dos chefes até os cozinheiros, e quando finalmente fora levada aos seus aposentos de noiva, que tinham as paredes brancas para representar a castidade, sua mais nova aia lhe informou que Perseu encontra-se em seu quarto resolvendo assuntos políticos urgentes, e que se desculpava por deixar a futura esposa sem companhia. Jantou com a aia – seu nome era Zola, que tinha pele tão negra quanto carvão e olhos mel – e deitou-se cedo mais uma vez, tentando imaginar o cheiro de Casa de Coruja para chamar o sono.

Notas finais
Tcham tcharam tcham! Aí está a fic nova, meninas.
Vamos combinar? 10 reviews e posto o novo capítulo. Infelizmente, se não atingir minha meta, vou deletar a fic.
Beijos,
Juh