Vai um sorvete ai?
2 Capítulo 1 - Enfim, cansei.
Notas iniciais
E lá estava eu, com o cabelo pingando água do banho e ainda com resquícios de shampoo que não tive tempo de retirar por completo, com apenas uma toalha colorida de azul cobrindo meu corpo úmido e tenso, enquanto encaro sentada o culpado pelo que aconteceu e sua respectiva namorada. Ou eles não namoravam, não sei. Só sei que esse carinha com uma feição de tacho na minha frente me viu nua, ou seja, QUERO ELE FORA DA MINHA CASA AGORA!
— isso tem que acabar hoje, Branca.
Duas horas antes...
Bip, bip, bip. Bip, bip, bi-Pah!
Essa foi a minha bela tentativa de ser sonoplasta. Bem, se você, meu querido(a) moçoilo(a) não entendeu que se tratava de um som importuno de um despertador, creio eu que falhei categoricamente. Despertador este que me recordo de ter comprado a onze meses atrás, pensei ter sido um bom começo (Sabe como é, faculdade, casa nova, vida nova, e um maravilhoso despertador de companhia. Por que não, não é?), afinal, acabara de tomar um novo rumo, e com isso, eu teria que mudar toda minha rotina de preguiçosa. Quando tomei a decisão de comprar esse apetrecho barulhento era muito jovem e desprovida de intelecto[Tudo isso para não dizer Burra (Não sei porque estou filosofando, na boa, fazem só onze meses, nem a própria terra terminou de dar um giro completo e eu estou aqui, dizendo que era jovem como se agora fosse a idosa.)], enfim, em minha cabeça, era uma boa ideia.
No entanto, todos os dias quando acordo com esse maldito "bip" me atormentando os ouvidos (exatamente como agora) querendo que eu acorde pra vida consigo concluir que essa escolha que fiz, assim como muitas outras, foi um drástico erro de cálculo. E quando digo cálculo, quero realmente dizer cálculo. Não me julgue, escolhi o preço mais acessível da loja pelo fato óbvio de que era (e ainda sou, na verdade) uma universitária mão de vaca.
Mas eu tenho minhas justificativas okay?! É como uma conta do primário, basta prestar atenção em quantas laranjas há, para descobrir quantos litros consegue fazer de suco. Caso não tenha entendido, vou explicar lerdamente: Era (e ainda sou) uma garota que havia acabado de passar no vestibular, toda minha possível bufunfa (Uau, a quanto tempo não ouço essa palavra ser usada? alguns milênios talvez?!)se origina das sobras do lanche na escola e mesada que ganhava de minha mãe, o que não era lá grande coisa (Caso você leia isso algum dia mãe, é um mero engano, esse nome que diz no fim de cada texto não é o nome de sua filha e isso é um sonho muito fantasioso induzido por algum ser que entende de hipnose. Por falar em hipnose, você agora está caindo em um sono profundo... Bem profundo... PROFUNDÉRRIMO... E quando acordar, não vai mais ler esse site. 3. 2. 1. ), então tudo que eu conseguia economizar com muito suor (E FOME. Por isso, desde já, quero que todos aqueles que por ventura tiveram o desprazer de estudar comigo me perdoem pelos eventuais incidentes de roubo de comida. Era por uma boa causa, coleguinhas.) era destinado, com sabedoria, ao meu futuro.
Em suma, todo esse papo (Furado, digo, quê?!) significa que eu guardava moedinhas pra gastar tudo em trequinhos de decoração quando fosse pra faculdade. Lindos sonhos eu tinha, não era mesmo? Todos eles muito bem realizados, graças a muita perseverança e empréstimos familiares, hoje, posso dizer com orgulho que tenho três prateleiras completas de bonecas russas, letras que formam palavras como "amor" e "comida" o que são, claramente, sinônimos, canecas personalizadas, miniaturas de personagens de filmes (Aqueles tais de Funko pops) esculturas pequeninas e tudo quanto é bandalheira que consegue acumular poeira rapidamente que você conseguir imaginar (Estou falando sério, chega a ser impressionante como aquilo atrai o pó). Ai você pode querer me perguntar "e então, está feliz com isso?" (talvez você realmente não gostaria de me fazer essa pergunta, mas me deixe iludir a mim mesma, okay? Okay.), mas a resposta é um redondo e sonoro não!
Nunca cheguei a pensar em quanto tomar conta de uma casa (E isso inclui todos os deveres) é complicado, eu até achava que sabia a dimensão das coisas, mas pra mim era muito mais fácil, afinal eu nunca tinha posto a mão na massa e a cabeça pra funcionar em cálculos para ver quanto podia gastar de energia para ter dinheiro o suficiente para pagar a água. Entende o que quero dizer? Se sim, lhe dou um conselho, aproveite bem seu tempo na casa de seus pais. Quando tiver de ir embora (Todos temos, se você não foi, ta meio atrasadinho hein, amigo?!) vai sentir saudades de não ter de se preocupar com contas a pagar, compras a fazer e principalmente vizinhos para brigar. A sua vida deve ser bem boa e você nem notou.
Enfim, acho que divaguei um pouco... Ou muito... De qualquer maneira, quando me toquei que tinha parado pra pensar sobre a vida já era 6:23 da manhã, segundo meu adorável companheiro de todos os dias, despertador. Pode parecer cedo, mas acredite, é muito, mais muito tarde. Para uma pessoa como eu, que divide o apartamento-ovo com uma amiga de infância e tem sérios cronogramas a cumprir, estar atrasada vinte minutos significa um passo para morte. Me levanto em um salto e calço minhas pantufinhas de monstros S.A. as pressas (sim, você leu certo, sinceramente não tente me entender, só saiba que não sou o que se denomina de madura) e corro para o banheiro, ficava no fim do corredor com uma belíssima e exótica porta de madeira que range quando abrimos e a maçaneta já deve ter caído umas 17 vezes no mínimo (sendo que 9 delas devia ter alguém dentro que acabou ficando preso e tendo de pedir ajuda pela inocência que teve ao se confiar em minha velha amiga traiçoeira, a porta.), ao entrar no minúsculo exemplar de banheiro, o reflexo do espelho me oferece uma bela visão de mim mesma, sério, se eu disser que estava linda ia estar usando um eufemismo, e eu realmente gosto de ser bem sincera com meus dois leitores assíduos. O cabelo igualzinho uma juba de leão e uma cara amassada que denunciava minha tentativa de dormir mais essa noite.
Lembro-me de ter feito o mesmo de sempre, mas de um jeito Barry Allen, porque né, não podia atrasar mais nenhum segundo. Foram cinco minutos e eu já estava debaixo do chuveiro brigando comigo mesma mentalmente enquanto cantava Imagine Dragons e lavava o cabelo com o shampoo de sempre, viu? Sou uma garota altamente funcional! No entanto, eu esava distraída demais pra notar o barulho da maçaneta, quando ouço o macabro ranger na porta me viro naquela direção já começando a abrir a boca para gritar com o fantasma que obviamente devia estar mexendo aquele treco, quando o que vejo me surpreende mais ainda. O atual peguete daquela amiga que eu já disse antes entrou as pressas e levantou a tampa do vaso, começando a urinar como se eu não estivesse ali.
Eu fiz a coisa mais lógica que pude. Gritei feito uma louca. Ele no mesmo momento se assustou e quase sujou o banheiro todo com seu amiguinho ali de baixo (Diminutivo sim, se é que me entende...), eu a esta altura já estava toda encolhida no banheiro, mesmo que o box estivesse embaçado pelo vapor, mas não me confiei muito nesse fato. Ouço desculpas seguidas e logo ele se vai, deixando uma eu profundamente irritada. Pode não, meu filho! vem querer ver meu corpinho e sai assim? Faz-me rir.
No mesmo momento eu desliguei o chuveiro e me enrolei em minha toalha, não me importando de ainda ter uma boa porcentagem de shampoo em meus fios. Eu tinha que resolver isso antes que aquele carinha tivesse tempo de escapar. Saí do cubículo que chamamos de banheiro e olhei ao redor, nenhum sinal de mocinho-invasor-de-banheiros-com-donzelas-inocentes-dentro.
Dou uma corridinha até a cozinha e vejo sua amiga com look de pós noite com peguete. Ou seja, uma blusa de botões xadrez que era azul antigamente, mas hoje já está desbotada. De qualquer forma ainda é utilizável, pelo menos para o objetivo dela, que é fisgar garotos deixando as pernas todas de fora, nunca verifiquei (Nem pretendo) mas tenho quase certeza que ela também está sem roupa íntima... De qualquer forma, funciona.
Ela fazia ovos mexidos e o café estava sendo feito pela cafeteira, uma das nossas melhores aquisições. Vou chamar minha amiga aqui de... Branca de neve! Afinal, ela tem uma lista incontestável de homens ao seu redor, mesmo que não sejam necessariamente anões.
— Branca de neve, precisamos conversar. Tipo assim, agora. Cadê o garoto?
Ela vira na maior cara de pau e me lança aquele sorrisinho sem vergonha de sempre, que acaba se transformando bem no meio em "O quê que aconteceu contigo?" quando vê meu estado pingando espuminha.
— O que foi, (Preciso de um apelido aqui também... Já sei, agora quando chamarem meu nome vocês irão ler como Prior, de certa forma eu sempre tive uma pinta de divergente mesmo.) Prior?
— Cadê ele? — Indago já impaciente, não podia perder tempo, vai que ele era o Peter Parker e estava pulando pela janela agora mesmo para se safar.
— Deve estar no meu quarto, okay? Eu hein, pra quê esse estresse todo?
— Chame-o, ele vai ouvir umas poucas e boas!
— Uou... Okay...
Ela me analisa por alguns segundos com as sobrancelhas arqueadas e a testa franzida, fazendo um leve menear de cabeça em seguida. Isso significa que não irá questionar minha ordem, maravilha! Continuo segurando minha toalha ao redor do corpo e a observo sair da cozinha. Minutos depois estamos os três sentados a mesa, nos encarando. O carinha, que irei nomear aqui de Romeu, estava olhando para todos os locais possíveis menos a minha cara, agora não tinha coragem de olhar para mim, que idiota não?!
— Isso tem que acabar hoje, Branca (Diminuído por preguiça minha).
— Olha, eu não sei o que aconteceu, mas você não pode interferir na minha vida amorosa e... — Branca começou, mas eu a interrompi.
— Na sua vida amorosa não, mas na minha nudez eu posso sim!
E foi assim que começou uma briga de no mínimo duas horas. Adivinha quem ganhou? Caro(a) moçoilo(a), se você imaginou que fui eu, você está tão enganado quanto eu estava quando achava que ia resolver meus problemas naquela manhã. O que aconteceu na verdade foi que ela decidiu me expulsar de casa:
Alguns sérios minutos depois...
— Quer saber de uma coisa?! Você é uma ridícula! Não te aguento mais, sai da minha casa agora! — Ela gritou enquanto segurava um tomate, do jeito que a discussão ia não duvido nem um pouco que ela pretendia fazer um picadinho com salada me utilizando como ingrediente principal.
— Essa casa é minha também! Saí você, Lambisgoia egoísta! — Gritei tendo de me proteger com a tábua de cortar do limão que ela lançou na minha direção.
— Eu pago cinco centavos a mais todo mês, tenho mais direito! Sai antes que eu rasgue toda a tua coleção de Sherlock!
— Você não ousaria... — Digo entre dentes e a vejo dando um sorriso vitorioso.
— Teima pra ver...
E foi assim, meus caros, que eu juntei minhas coisinhas e me mudei da rua Augusta, sem qualquer ideia de onde iria parar...
A. Sales — 2016 — ArroteiTocade.com
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