Vai e vem
2 Não feche os olhos
Descendo pela escada, olhei para a do lado na esperança de que ela estivesse lá, mas era tanta gente que não consegui acompanhar e desisti. Cheguei na plataforma e olhei o relógio digital da estação. "Muito bom" Pensei comigo, tinha chegado meia hora adiantado.
Sentei no banco laranja e puxei um livro da bolsa, onde tentei ler os primeiros parágrafos milhões de vezes, pensei no que eu faria se eu a visse novamente. Foi então que uma mão agarrou meu livro e o jogou no chão. Lá estava a mesma ruiva, dessa vez com uma roupa mais curta e justa, ela colocou as mãos no meu ombro enquanto lambia os beiços de um modo erótico. Puxava minha gravata e eu apenas deixei, paralisado e assustado. Bem ali, na minha frente, no meio daquela estação de trem, a ruiva me atiçava. Quando notei, ela segurava um pirulito e o lambia com muito prazer. Quanto mais tentava olhar para ela, mais afastada parecia estar, cada vez mais longe, mais, e mais, e então ela caiu na linha do trem. Me levantei horrorizado com a cena e fui andando até o vão na esperança de que ela conseguisse se salvar.
O trem se aproximava. Gritei para ela segurar minha mão, mas ela só olhava para aquelas luzes fortes e chorava. A filha da mãe de jeito nenhum queria subir. Pensei em pular lá e traze-la de volta, já estava ficando irritado, eu nem conhecia a moça e ela já ia se matar bem diante dos meus olhos. O trem buzinou, o ar quente saía das ferragens, e os trilhos estavam agitados, tudo ficando cada vez maior e próximo.
Meu livro caiu no chão, e eu olhei em volta para saber onde diabos eu estava, e graças a Deus ainda estava sentado no mesmo banco. Sem dúvidas era um sonho, eu havia cochilado. Me abaixei para pegar o livro quando uma mão mais branca e com as unhas longas pintadas de vermelhos tocaram também a macia capa. Era ela. Usando uma saia preta justa e uma blusa social, quase o mesmo look do dia anterior. "Obrigado" pensei em dizer, mas mesmo assim ela sorriu e continuou andando indo em direção a escada rolante que subia. Eu estava atordoado demais depois daquele sonho que nem tive condições de ir atrás dela. Olhei no relógio e estava atrasado, o trem já vinha vindo, me levantei e esfreguei os olhos, enquanto bocejava.
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