VSM-02
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Acordo de manhã e coloco a mão no rosto, lembro do que aconteceu ontem e sinto-o queimando.
Não acredito.
Só agir naturalmente. Troco de roupa e vou abrir a janela.
]E do outro lado vejo ele.
Acho que eu ainda estou dormindo. Deixa explicar: Ele. No apartamento ao lado. Abrindo a janela.
Ele me vê. Fecho os olhos e conto até cinco. Ele ainda está ali. Tiro a arma do cinto e aponto.
–Você tem 2 minutos pra se explicar.
–Foi a Reyna! -Jackson se defende.
Arqueio a testa.
–Foi quem? -pergunto, descrente.
–A Reyna. Quer dizer, Srta. Ramirez tralala.
Eu me lembro de pedir para alguém colocá-lo em um apartamento perto do meu. Não ao lado. Guardo a arma.
–Você quer... -ele diz e passa a mão pelos cabelos negros. -Quer, ahn, tomar café?
–Se eu quero tomar café?- pergunto, levantando uma sobrancelha.- Eu tomo café todo dia.
–Eu sei. Queria saber se você quer ir comigo?
–O refeitório é publico.- digo, mas depois de alguns segundos sorrio. -mas posso sentar com você sim. Queria conversar sobre uma coisa.
–Te vejo lá embaixo.
–Ah, claro. -e fecho a janela. Termino com minhas armas e facas e me olho no espelho. Cabelo preso. Rosto limpo. Munição quase até os dentes.
Desço um lance das escadas e vejo Percy lá embaixo, encostado na parede do prédio. Vou até ele. –E aí? Oque você quer tenente?
Ele suspira. –Pensei que fosse Percy.
Reviro os olhos e sorrio. –Fala logo Percy.
Ele se anima.–Vamos tomar café!
...
–Um café preto sem açúcar e ovos com tomate- pede. Eu reviro os olhos.
Estamos no refeitório do sétimo andar. É amplo e cheio de mesas de piquenique. As famílias sentam e conversam depois de pedir o café (não é um Starbucks, mas temos algumas opções).
–Um café cremoso com leite, chantilly e canela. Um suco de maracujá sem açúcar e bacon com panquecas e creme de caramelo.- percebo que ele arregalou os olhos e levanto uma sobrancelha.
–Oque é?- digo, pegando minha comida e indo até a mesa.
–Para onde vai tudo isso? -pergunta.
–Você pulou algum ano da escola? Vai para o estômago, depois é digerido e vira...
–Okay, Okay. Não quero detalhes.- ele ri. -Mas para que o café, se tem o suco?
–Para ficar atenta o dia inteiro.
–E o suco de maracujá?
–Para não matar ninguém. -pisco um olho e sento. -Oque queria falar comigo?
–Eu queria saber se... Ahn... Se...
–Meus Deus, Jackson. Desembucha!
–Queria saber se aqui tem área de treinamento.
Engasgo com meu café.
–Se tem oque Percy? -falo, tentando não rir.
–Um lugar para eu treinar, sabe. Lutas e tudo mais.
–Tem. Claro que tem. Mas ninguém vai querer treinar você.
–Por que não?
–Percy? Nós treinamos crianças. Preparamos elas para o que tem lá fora. Já não é mais como antigamente. -suspiro. -Mas tem uma opção.
–Oquê?
Sorrio, olhos cerrados, me divertindo. –Posso treinar você.
–Sério?
–Com uma condição. Quero detalhes sórdidos de todos os seus dias lá fora. E tudo oque você sabe sobre os Ryanks.
Ele demora uns minutos no seu ovo mexido, mas finalmente me encara
–Muito bem. Eu faço.
Tomo um grande gole do meu café e vejo uma pessoa nova entrando no refeitório. Depois penso nela, agora tenho um aluno novo.
...
A sala de treinamento é imensa. Há aparelhos de musculação e de treinamento militar. Bem no centro, há vários tatami's negros de 3x3m. Como um ringue de boxe, em volta de cada um, cordas de elástico os cercam. No aproximamos do primeiro tatami. Digo:
–É aqui. Eu vou te ensinar...
–Me ajudar a melhorar...
Minha mão voa para sua bochecha. Jackson não perde a postura. Isso nele me irrita. Mas, eu tenho o observado e essa rebeldia é apenas brincadeira. Desde que eu diga oque fazer, ele ganha uma luta facilmente.
Será uma experiência única treinar alguém afastado dos outros.
–Eu já disse para não me cortar. Continuando, vou lhe ajudar a melhorar seus movimentos em uma luta corpo a corpo.
–Sabe que não precisa desse discurso todo, não é?
Eu o encaro. Abro a boca para falar mas ele levanta uma mão. -Annabeth, você está treinando alguém exclusivamente. Formalidades são perda de tempo.
Eu paro por alguns segundos. Depois dou uma rasteira em suas pernas. Ele cai, surpreso.
–Tem razão, Percy. Hora de começar a agir.
Ele se senta.
–Você fica mais natural quando está tramando.
–Eu não estava tramando. Não num sentido expressivo.
–Estava sim. Eu não sou cego, Annie. Você está sempre analisando as coisas e escolhendo o melhor modo de agir. É muito inteligente. — Jackson se levanta devagar. -É analista. Não age por impulso. E você estava discutindo mentalmente se eu sou ou não um caso perdido.
–Você poderia até ser um caso perdido. Mas eu não desisto tão facilmente.- digo. Ele sorri.- e não me chame de Annie. É intimidade demais para você.
–Tudo bem, mas aposto que sou a única pessoa que já morou no apartamento ao lado sem nenhum motivo profissional. E você está me treinando pessoalmente. Fora o fato de que salvei sua vida uma vez.
–Não leve para o lado pessoal.
–Então realmente tem um lado pessoal nessa história?
–Perseu Jackson!-grito, e o treinamento começa.
Passamos duas horas lutando, brigando e conversando sobre os Ryanks. Em um certo momento, Percy se desvia de um golpe e pede tempo.
Ele se aproxima. Instintivamente vou para trás, até esbarrar nos elásticos.
–Calma, não vou comer seu cérebro.- ele diz.
–Não sei se acredito.
Jackson ri.- É só uma dica sobre os zumbis.
Ele toca um ponto em minha cintura com a mão direita e meu pescoço com a esquerda.
–É aqui que você deve acertar. Um golpe na marca "infectante" do VSM-02 e eles caem mortos.
Sinto um formigamento no lugar onde estão suas mãos.
–Certo -digo. -Vou me lembrar.
Ele sorri. Devolvo o sorriso, sarcástica. Sua boca se abre, mas antes que ele possa falar algo, Reyna entra na sala de treinamento.
–Comandante Chase, a tenente La Rue...- ela pára de falar quando nos vê. Rapidamente, empurro Jackson para longe de mim e me viro para a visita inesperada.
–Vice-comandante Avilla-Ramirez. Hã... Qual é a mensagem?
Reyna se recupera do susto e parece fazer esforço para se lembrar.
–Ah! A tenente La Rue deseja falar com a comandante. Eu não lhe avisaria se as circunstâncias fossem outras, mas devido ao estado de saúde de Clarisse, achei melhor dizer.- ela ainda parece desconcertada, olhando de um lado para o outro.
–Entendo. Você agiu bem, vice-comandante. Eu já vou. Dispensada.
Reyna bate continência e sai da sala andando rápido.
Olho para Percy. Ele não está nem um pouco preocupado. Dou um soco leve em seu ombro.
–Até amanhã, então.
Ele me encara.
–Até parece. Eu vou junto.
–Não vai.
–Por favor, comandante. Afinal, eu também estava lá quando aconteceu. E eu estou te ajudando e tudo mais, eu sou útil e o ataque dos Ryanks também é do meu interesse.
Paro para pensar. É, ele tem razão, mas isso é um assunto delicado ao qual não quero envolver muitas pessoas. Por outro lado, ele já está envolvido. Enquanto penso, Jackson sorri.
–Eu disse. Você sempre analisa uma situação antes de agir.
Reviro os olhos.
–Vamos logo!
...
O apartamento da tenente La Rue é igual a quase todos os outros. Alguns tem duas beliches (dependendo do número de pessoas da família, podem haver mais colchões), outros apenas duas camas. O de Clarisse é a segunda opção. Ela está sentada em uma das camas, o traje de combate está à sua frente, na outra cama. Ela veste roupas brancas, provavelmente do hospital, mas parece deslocada com elas.
Mas, como ela é Clarisse La Rue, sua bandana vermelha continua amarrada ao rabo-de-cavalo. Sua expressão é de descrença.
Me aproximo e sento ao seu lado. Percy se encosta no batente da porta.
–O que acha disso, Chase?- sua voz é baixa.
–Do que se lembra, garota?
Ela pára para pensar.
–Lembro que ontem eu e Chris passeamos pelo rio Sena. Atrás de corpos, na teoria. Mas não há nada naquela região. Eu quase me senti uma garota normal, com ele e tudo mais, sem ligar para os zumbis. Mas... aí eu acordo e me dizem que isso aconteceu a três anos.
Ela ri.- Eu me sinto péssima, Chase. Quero ver o Chris. Aos poucos, vou me lembrando de alguns detalhes e logo, já tenho uns três dias aqui dentro.- ela aponta para a cabeça. -Mas eu quero ver o meu namorado. Quero ver Chris Rodrigues! Por que raios ainda não o vi?
Eu a encaro.
–Clarisse, eu...
–E não tente me enrolar!- há lágrimas em seus olhos.
–Você já sabe, não é?
Ela se levanta bruscamente e joga o travesseiro no chão.
–Não é verdade! Não pode ser verdade! É... Loucura! Todo mundo pirou da noite para o dia!- Clarisse grita, movendo os braços como...
Como uma louca.
Seu corpo se esborracha nas paredes, mas ela parece não percebê-las ao seu redor.
Olho para a porta, Percy entende o recado e entra. Juntos, nós a agarramos e eu chamo Reyna pelo walk-talk. Em alguns minutos, três enfermeiros chegam com uma maca e levam La Rue, que chora como uma criança.
Fecho a porta do apartamento e deslizo as costas sobre ela no outro lado, caindo sentada no chão. Ao meu lado, Jackson se senta também.
–O que acha?- ele pergunta.
Demoro um tempo para responder.
–Eu... Ela era minha melhor guerreira, fora a vice-comandante. E agora está louca.- coloco as mãos no rosto.
–Ela não está louca. É só até ela se lembrar de tudo.- Percy diz, tentando me consolar.
Me viro para ele e estudo seu rosto. Os olhos verdes-mar, a pele clara e os lábios naturalmente levantados nos cantos da boca. Na testa, a marca de um machucado antigo que eu já vi uma vez, quando achava que ele era só outro problema para eu resolver. Bem, talvez ele seja. Mas é realmente útil.
Não sei se posso confiar nele. Não o suficiente para dizer o que estou sentindo nesse momento. É uma mistura de raiva, dor e ódio. Ódio daqueles que destruíram uma civilização inteira.
Os Ryanks.
–Eu vou caçar cada um deles. Todos.
Não preciso dizer quem são. Percy entendeu. Ele estende a mão.
–Pode contar comigo.
Eu a aperto. O inimigo do meu inimigo, eu sei, é meu amigo.
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