VSM-02
14 Capítulo 14
Notas iniciais
O Czar ralhou comigo por cinco minutos inteiros me dizendo o quanto seu tempo era muito importante para ser desperdiçado. Ridículo. A desculpa que criei foi a de que o tal Ryank não tinha nada de especial, e que o efeito de humanidade foi rapidamente consumido pelo instinto. O comandante Silva me disse que fiz a coisa certa.
E que Frank foi um herói.
Mas, indiretamente, de um jeito ou de outro, eu matei um deles.
Paro novamente na frente do vidro blindado da prisão e enxugo os olhos. Faz três dias que o incidente aconteceu e Reyna explicou para os irmãos o que houve.
Por três dias, não consegui sair do quarto.
Respiro fundo.
—Abra. -ordeno.
O guarda revira os olhos. -Não tente suicídio, comandante Chase.
—Abra as grades 1 e 3.
—A senhora ouviu o que eu disse? A vice-comandante vai me matar!
—Ela continua sendo a "vice-comandante". Agora abra! -grito.
As jaulas são abertas e o vidro sobe. O barulho faz os prisioneiros se virarem para olhar. Cela 1: Hazel caminha com braços cruzados na minha direção. Cela 2: Leo mexe freneticamente no botão de sua camiseta, num tique nervoso e assustador.
—O que você quer? -Hazel cospe as palavras com o máximo de desprezo que consegue.
—Seu irmão salvou muitas vidas.
—E perdeu a dele. -ela retruca.
—É bem a cara do Zhang. -Leo sussurra, trançando algumas linhas na alça do botão arrancado.
Desvio o olhar para a garota. -Eu fiz uma promessa. E devo cumpri-la.
Seus olhos se enchem de lágrimas. -Não quero nada que venha de você.
Belisco forte minha perna para aliviar a tensão do corpo. Ela cai de joelhos no chão.
—É tudo culpa dessa droga de doença! Eu não quero mais ser um animal! Um monstro! Eu não... -sua voz é encoberta por soluços.
Leo guarda o botão no bolso e a abraça. Viro de costas.
O que está acontecendo? Já vi cenas como essa antes. Na verdade, não. Já vi crianças chorarem por causa de parentes... Mas nunca Ryanks.
Me ocorre então que eles não são totalmente zumbis.
É isso!
Eles ainda são humanos. Nem que seja em seu âmago, no mais profundo meio, ainda lhes resta humanidade. E eles estão lutando contra isso. Eu matei o irmão de duas crianças de catorze anos. Vi minha família morrer por causa dessa peste. Milhares de crianças passaram por uma tristeza que nenhuma delas deveria conhecer.
Ninguém mais vai precisar lutar contra esses monstros. Não se eu puder evitar.
Volto-me para os dois.
—A promessa que fiz foi a seguinte: eu devo a vocês dois um futuro. Era o que Frank queria.
Leo abaixa os olhos. -Sinto muito, comandante Chase. Não vai conseguir manter sua palavra. -seu tão costumeiro sorriso desaparece. -Passamos anos tentando. Não podemos mudar o que somos. Ninguém pode.
Agacho-me à sua frente. -Exatamente. Ninguém pode mudar o que você é. E vocês são humanos. Posso ver em seus olhos, sorrisos e... sentimentos.
—Eu já comi carne humana. -Hazel sussurra. -Não sou mais eu.
—Eu acredito que essa não era a garota irritante e natural que eu conheci. E, acredite, vou te devolver quem você é.
Ergo então os olhos para outra cela.
—Todos vocês.
Olhos verdes me encaram de volta com calma, tentando compreender o que quero fazer. Eu não vejo nem mesmo uma gota de dúvida.
Ele vai vir comigo.
Levanto-me, caminho até suas grades e me assusto com o que vejo. Seu rosto está pálido e sua respiração, acelerada.
—O que houve com você? -digo, baixo. Ele se aproxima das grades também. Vou instintivamente um passo para trás.
—Lembra da regra para determinar se um zumbi deveria pensar ou não?
Busco no fundo da mente. -Um foco. Ele deve ter um foco.
Sua voz sai tão baixa quanto a minha.
—Uma coisa você esqueceu de me perguntar. Qual era o meu foco.
Me aproximo, porém ainda receosa.
—E qual era?
—Quando cheguei, meu foco era saber se vocês tinham descoberto alguma coisa que pudesse nos ajudar. Descobrir como andava as pesquisas.
Fecho os olhos, temendo perguntar.
—E depois?
A resposta demora alguns segundos para vir.
—Você.
Um leve tremor percorre minhas mãos. Cruzo os braços. Não tenho coragem de encará-lo, então encaro meus sapatos.
—É por isso que você parece tão mal?
—Perdi a chance de ter minhas respostas. Perdi sua confiança. E perdi você. Não tenho mais como me focar em qualquer coisa, porque não tenho bons motivos. Ainda não enlouqueci totalmente por que passo o tempo todo conversando com Hazel, Leo e Calipso. Mas não é tão fácil. Principalmente porque sei que a culpa é minha.
Aperto as unhas nas palmas. E respiro fundo. Ele segura as barras de metal com força, posso ver suas juntas esbranquiçadas.
Então, sem conseguir me controlar, coloco uma das mãos sobre a dele. O gesto o surpreende. Rapidamente, seus dedos se entrelaçam nos meus.
Mas não consigo mantê-los assim por muito tempo. Puxo-os devagar antes que as lágrimas me vençam.
—Vou precisar de você para isso, Percy. Preciso que estabeleça como propósito encontrar uma cura.
Um sorriso cruza seus lábios.
—Pode contar comigo.
...
Passamos pela enfermaria e pego as amostras de sangue de Percy. Ele começa a voltar à sua saúde comum. As pessoas ao redor não fazem idéia do que Jackson realmente esconde. Subimos as escadas e vamos para a sala de combate. Rryna chega logo após.
—Trouxe os livros que a senhora pediu, comandante.
Percy ergue uma sobrancelha. -Livros?
—Você acha que uma comandante é apenas músculos e estratégia? Sou mais inteligente do que pensa.
Ele ergue as mãos. Reyna faz um aceno com a mão.
—Só um segundo, Jackson.
Ele assente. Nós vamos para um canto da sala.
—Comandante Chase, -ela começa. -sabe que eu te seguiria até a última guerra. Afinal, você me treinou, me ajudou, e também é uma grande amiga. -Sorrio. -Mas tirar o tenente Jackson da prisão foi, devo admitir, bem inesperado.
Coloco uma mão em seu ombro. -Vice-comandante, Reyna, preciso que confie em mim. Mais uma vez.
Ela revira os olhos. -É claro que confio em você, sua grande cabeça dura! Só quero saber se você confia... bem, nele.
Recosto-me na porta. -Não. Não consigo. Mas preciso de ajuda.
Ela respira fundo e pressiona meu ombro. -Faça o que fizer, eu, Thalia, Michael, e toda a colônia, estamos do seu lado. Agora, vou estar na sala dos computadores, Quíron no laboratório e Rachel na biblioteca. Qualquer informação, te avisamos. Leo e Hazel estão com Yew. Calipso passa o dia todo na estufa do sexto andar, aliás, parece se acalmar em meio às plantas. Com licença, comandante.
—Obrigada, Reyna. Por tudo.
Ela bate continência, sorri e sai rapidamente. Respiro fundo e volto para o tatami.
Jackson folheia um livro sem nenhuma animação.
—Como isso vai ajudar?
—Não despreze o poder da palavra escrita. Às vezes, a força deve se curvar diante da sabedoria. -Ele ergue uma sobrancelha. -E tem algumas fórmulas de antigas tentativas de misturar espécies diversas com humanos. Meu plano é o seguinte: vamos ter que cooperar, trabalhar juntos. Você não vai poder esconder nada. Não quero segredo algum sobre o que o VSM-02 causou.
Ele assente, encarando o chão. Reparo que ele ainda está com as roupas escuras da prisão.
—O vestiário fica à esquerda. Tem roupas de combate disponíveis.
—Certo. -ele responde.
Antes de entrar, porém, Jackson vira-se e pergunta:
—O que significa?
Franzo as sobrancelhas. -O que?
—VSM-02? Por que o vírus tem esse nome?
Coloco o cabelo atrás da orelha e cruzo os braços.
—Vasos Sanguíneos Modificados. Segunda tentativa.
...
Quando ele volta, coloco o livro que estou lendo de lado e me levanto. Jackson aparece com a regata branca e as calças cinza camufladas.
—Certo. Em primeiro lugar, quero saber até que nível o vírus evoluiu. Vou testar seus reflexos.
Vou até suas costas e passo-lhe uma venda nos olhos.
—Ahn... -ele pergunta: -O que está fazendo?
—Dê um jeito de não ser atingido.
—O que? Como as...
Desfiro um tapa em seu rosto. Ele reclama e toca o lugar.
—Preste atenção!
Ele respira fundo, afasta os pés e dobra um pouco os cotovelos. Quando miro em sua barriga, ele já está preparado e agarra meu punho.
—Muito bom. -digo.
Sigo com golpes, em vários locais diferentes, usando minhas pernas e braços. Analiso cada movimento que ele faz para me parar, sua postura e agilidade.
Fazemos esse exercício por um tempo, até que a velocidade esteja muito alta e possamos descansar. Com cuidado, tiro a venda de seu rosto. Os famosos olhos verdes-mar me recebem com desânimo.
—Onde está o espírito da coisa?
Ele passa os dedos pelos cabelos. -Não é tão animador testar os instintos de animais no seu corpo.
Tomo o cuidado de me afastar. -O que está sentindo?
—Raiva desse maldito vírus? -ele sugere.
Mordo o lábio. -Quero dizer fisicamente.
—Bom...
—Detalhes. -peço. -Sem delongas.
—Posso senti-los vindo à tona. Acontece toda vez que luto, corro ou forço meu corpo com alguma atividade física. Sinto meus sentidos se aprimorando. Sinto o sangue pulsando. Minha visão fica com menos riqueza de cores, mas posso enxergar coisas que estão à longa distância. Não me sinto cansado ao correr normalmente, o que me faz forçar ainda mais e me leva a correr muito mais rápido. Tudo parece pesar menos do que o comum. É isso que sinto. Mas é apenas uma reação. Se eu estiver andando, parado, ou fazendo qualquer coisa comum, nada acontece.
Anoto mentalmente tudo o que ele disse. Sento no chão e rabisco algumas fórmulas de reações do corpo, tentando encaixar as coisas. Mas não consigo. Não acho brechas, padrões ou qualquer ligação.
—Eu não entendo. -sussurro para mim mesma.
Jackson senta-se à minha frente.
—Falta um detalhe. -Ergo os olhos para os dele. -Com as qualidades, vêm a fome. A fome dos carnívoros. É como o DNA entrando em conflito.
Bato freneticamente a caneta no tatami e encaro-o até uma luz surgir em minha cabeça.
—DNA... É isso! -Ele franze as sobrancelhas. -Bom, não é a cura, mas já é um começo.
—Diga.
—A diferença entre vocês e os outros Ryanks comuns. O DNA em conflito. Eles deram errado porque o DNA de cada animal tem seus anseios, motivos... focos. Mas não conseguiram se estabelecer de uma única forma. Isso explicaria por que a pele deles é tão pálida. O nível de células que a faz corar abaixou porque a maioria dos animais não são protegidos pela pele, mas sim por penas ou pelo. E porque perderam a consciência, nenhum conseguia assumí-la por inteiro. Lembra do namorado da Calipso, aquele que só a perseguia, sem atacar ou qualquer outra coisa? -Com um sorriso avoado, ele assente. -Acredito que nenhum dos zumbis a reconhecia, nem como Ryank, nem como humana. Como não raciocinava, não sabia se atacava ou deixava para lá. O fato é que todos os instintos retardavam suas ações; por isso apenas a seguia. É isso! Esse é o problema, Percy!
Ele ri enquanto eu ergo os braços e agradeço aos céus. Deixo minhas mãos escorregarem por meu cabelo cacheado e caírem em meu colo. Fecho os olhos e me permito um sorriso.
—Eu disse que você ficava mais natural pensando. -ele diz.
Abro-os e encaro-o. Desvio depois de alguns segundos, para a folha do caderno e me esforço para me concentrar.
—Próximo tópico. -digo. -Quero saber mais sobre a marca.
—Acho que isso eu posso explicar.
Ergo uma sobrancelha. -Vai lá.
—Bom, durante todos esses anos, Hazel, Leo, Frank e eu estivemos estudando o que fazemos. Aquilo que Quíron disse, sobre os primeiros seresm marcados à ferro quente...
—Não é uma resposta completa, -interrompo. — por que não há como uma queimadura ser transferida assim.
Ele assente. -Exatamente. Os Ryanks foram marcados com ferro e algo mais. Uma substância que corroeu suas peles e faz isso até hoje. Pressionar a cicatriz é quase uma tortura.
Anoto tudo. Devagar, ergo os olhos.
—Posso?
Ele franze as sobrancelhas. -Você quer me torturar?
Abano a cabeça. -Não, esquece.
—Hey, tudo bem.
Mordo o lábio inferior e me levanto. Jackson fica de pé também e arranca a regata. Tento não me focar no abdômen sarado que já toquei uma vez, mas sim na marca. Me aproximo, devagar, passo os dedos pela elevação da pele e sinto como uma corrente elétrica. Balanço a cabeça. Foco, Annabeth!
Três círculos, com seis riscos que os interligam. Infectante.
—Seja lá quem os marcou, foi depois que descobriram os males do vírus. -constato. -Eu posso...
—Pode.
Elevo meu olhar para o seu e, lentamente, aperto a cicatriz. Ele aguenta. Pressiono um pouco mais e vejo seus músculos se retesarem. Um pouco mais...
—Annie. -ele diz ao afastar minha mão.
—Desculpe. -sussurro.
Ele não a larga. -Tudo bem.
Nos encaramos alguns segundos a mais que o necessário. Forço-me a desviar e soltar sua mão.
—Bom, realmente não é apenas ferro. Talvez possa ser... -apanho o caderno e começo a escrever.
Ele sorri de canto. -Acredito que, se esses cientistas doidos não tivessem feito essas aberrações, eu diria que você é com certeza uma nerd.
Sorrio, mas depois abaixo o olhar.
—Não teríamos nos conhecido.
Ele passa os dedos pelos cabelos. -Você acha que seria melhor?
Brinco com a tampa da caneta, em silêncio. Escrevo palavras aleatórias no caderno. Fecho os olhos.
—Você mentiu para mim.
—Acha que eu quis fazer isso?
Sinto o sangue gelar. -De qualquer forma, fez.
—Você me prenderia, me mataria, colocaria meu corpo naquelas redomas, se soubesse o que eu sou.
—Não vem ao caso.
—Não? -ele questiona. -É claro que vem. O que faria se eu te contasse? De verdade? Agiria como a Comandante Chase, ou como Annabeth?
—Eu sou Annabeth Chase, comandante da Colônia 3! -grito.
—Estou falando da minha Annabeth!
Abro a boca, mas as palavras simplesmente não saem. Minha mente fica enevoada e aperto os braços ao redor do corpo.
—Te prenderia. -digo. Ele fica em silêncio, apenas assente com a cabeça. Sinto as lágrimas começarem a surgir. -Você escolheu mal de quem se aproximar. E eu te prendi mesmo, no final das contas. Você e seus irmãos.
Viro-me de costas e passo por debaixo dos elásticos, indo em direção à porta.
—Nós dois erramos. -ele diz.
Seco os olhos e respiro fundo.
—Eu fiz o meu trabalho. -respondo. -E devo continuar à fazê-lo.
—E eu fiz o que era certo. E não vou voltar atrás.
Aperto as unhas nas palmas.
—Nem eu.
Saio da sala e me dirijo o mais rapidamente possível para meu apartamento. Abro a porta e bato-a atrás de mim. Deito-me no chão e coloco as mãos na cabeça.
E grito.
Que droga eu me deixei envolver? Eu o odeio, Jackson! Te odeio por me fazer perder a cabeça! Te odeio por me fazer confiar em você! Te odeio por ter mentido, por todos os sorrisos, sussurros e por todos os beijos. Te odeio por que não posso mais ser quem eu era. Te odeio por me fazer pensar em você! Seu idiota, eu te odeio!
Uso a força dos braços e entro debaixo da cama. Controlo a respiração e abro e fecho as mãos. Mas algo me chama a atenção.
Um x em vermelho marca uma parte do colchão. Franzo as sobrancelhas, enfio a mão no coturno, tiro minha adaga e uso-a para cortá-lo. Mas que...
Consigo colocar os dedos no forro e sinto alguma coisa. Faço esforço para puxá-la. Um... caderno? E uma lanterna.
Rio, irônica. Que raios é isso? Ainda debaixo da cama, folheio-o e me surpreendo. Não tem nada. Nada mesmo.
Analiso o outro objeto. A letra Z reluz, prateada, no cano. Aperto o botão e um filete roxo ilumina minhas mãos. Luz negra? Espera aí...
Jogo o feixe sobre o caderno e sorrio. Palavras e mais palavras surgem nas páginas. Na primeira folha, um nome me faz travar.
Zeus.
"Este diário pertence à Leonard Olimpus. Comandante Zeus".
...
—Dr. Brunner! -grito, arfando pela corrida.
Invado o laboratório e todos me encaram. Um cientista aponta para o fundo da sala. Agradeço e avisto então a cadeira de rodas.
—Annabeth, o que houve? -ele diz, alarmado.
—Zeus. -respondo. -Encontrei algo.
O homen arregala os olhos. -Vamos para a outra sala dos arquivos.
Assinto e sigo-o para uma das portas. É um lugar amplo, com estantes do chão ao teto repletas de papéis. Eu costumava vir bastante aqui, quando era vice-comandante.
—O que encontrou?
—Um diário. Mas não comum, ele fala sobre coisas que eu nunca soube. Tem muitos tópicos importantes que podem, chutando alto, até nos ajudar no caminho para a cura.
Ele pega o caderno e a lanterna das minhas mãos. Seus olhos parecem vagar para longe.
—Lembra-se do Comandante Zeus? -sua voz sai baixa.
—Se eu fechar os olhos, ainda posso vê-lo. Apesar de não sermos próximos, foi ele quem me escolheu para a elite. -respondo.
—Ele sabia que você era um prodígio.
Coloco as mãos ao redor da cintura. -O meu quarto era dele antes de morrer. É um dos quartos específicos para líderes. Acho que foi assim que o comandante deixou o caderno.
Sento na cadeira à sua frente. -Quíron, aí Zeus faz uma acusação muito discrepante. É sobre o vírus.
—Vasos Sanguíneos Modificados, Segunda Tentativa?
—Nesse caderno ele narra a primeira tentativa.
O queixo de Brunner cai. -Como assim?
Levanto-me e vou para uma das estantes, na terceira fileira, tiro do lugar uma pasta azul. Passo meus dedos pelo buraco e torço para que ninguém tenha encontrado isso antes.
—Tem que estar aqui... -sussurro.
Então sinto-a. A pequena alavanca de madeira. Sem conseguir enxergar, forço-a até que outro compartimento seja aberto. Isso!
Tiro outra pasta, com as letras e números VSM-01 escritas. Ergo-os ao meu lado.
—Zeus diz que o a primeira tentativa deu errado. São os Ryanks. Em VSM-02, o resultado não foi tão ruim.
Quíron leva as mãos à testa. -Tenente Jackson?
Assinto. -Ele não é um erro. É um aprimoramento. Zeus diz aí que o vírus 02 também não deu certo, mas é bem melhor que o primeiro.
Ele usa a lanterna e lê algumas frases.
—Annabeth, isso é um passo... Não! Um salto! Um salto para a cura!
—Já fiz cópias para o caso de perca ou coisa assim. Vou deixar o diário com você e seus cientistas. A pasta de VSM-01 fica comigo. Tenho que entender algumas coisas.
...
O sol bate em meu rosto e insiste em me fazer acordar. Minha coluna dói. Estou inclinada na mesa do meu apartamento. Tem livros de biologia e física por todos os lados e, no meio deles, a lanterna negra e...
O diário de Zeus.
Não dá para acreditar em quanta coisa ele escondeu. Porque raios não deixou o caderno num lugar mais prático? Eu teria entendido táticas interessantes sobre fraquezas de Ryanks e, provavelmente, teria reconhecido-os quando quase matei Jackson na primeira vez.
Ainda me lembro do seu sorriso besta quando apontei a arma para sua cabeça. Como fui deixar tudo acontecer?
Mas, por trás da raiva, sinto admiração. Claro, Zeus poderia ter contado tudo aos moradores. Mas... para quê? Para dar esperanças de uma cura inexistente?
Não lembro quando dormi. Mas me xingo veementemente por não ter fechado a cortina. Me levanto, lenta, e me arrasto até a janela.
Sinto a luz tocar minha pele e, de repente, não é tão desagradável. Olho para o céu e suspiro.
Dias tristes não deveriam ser tão bonitos.
Depois da epidemia, só imaginava dias com céus cinza e chuvas fortes. Sem árvores, sem flores, sem brisa e sem vida. Imaginava uma Terra estéril.
Mas, aparentemente, quando os humanos se preocupam em sobreviver, e não em desmatar, as coisas começam a melhorar.
Pena que não totalmente.
Fecho as cortinas. Não tenho tempo pra prazeres pessoais. Me troco rapidamente e desço as escadas, viro alguns corredores e entro na estufa. Calipso está aqui e preciso conversar com a garota sobre seu namorado.
Bem, ex.
—Calipso? -entro e o cheiro forte de lírios penetra minhas narinas. Me sinto tonta. Dou a volta nas flores e a encontro.
Não consigo respirar. Fico paralisada. Meus pés não se movem e meu peito arde com alguma coisa parecida com ódio.
Calipso está sentada em uma mesa tendo uma conversa, bastante interessante, eu diria, com Jackson. Interessante o suficiente para depositar a mão sobre a dele.
O ato é como um balde de água fria. Me tira do torpor. Forço uma tosse desconfortável e eles se desgrudam no mesmo instante em que me notam.
Não olho pro Jackson.
—Calipso? Eu gostaria de falar com você sobre algumas coisas.
—Annabeth, querida... -ela começa.
—Comandante. -interrompo. -O seu namorado. Aquele que te seguia.-a menina sorri, mas o sorriso não chega aos olhos.
Ótimo.
—Vou direto ao ponto. Sabe como ele morreu? -pergunto.
Odeio o fato de Jackson precisar escutar.
—Ele não está tecnicamente morto, você sabe. Assim como eu não estou completamente morta ...
—Não, Calipso. Ele está morto. — ela me olha confusa e respiro fundo. -Eu e Quíron pesquisamos. Sabe oque significa VSM-02, não sabe?
—Vasos sanguíneos modificados. Segunda tentativa — responde Jackson, orgulhoso, tentando fazer graça. Reviro os olhos.
—Brilhante, Jackson. Vasos sanguíneos modificados, segunda tentativa. Segunda. Um aprimoramento. A primeira tentativa resultou em seres como o seu namorado. Seres miscigenados com pessoas, irracionais. Assassinos sem cérebro. E com fome -Calipso ainda não entende e começo a me sentir exasperada. Brinco com ps cachos presos. -A segunda tentativa deu... ahn... mais certo. Os novos Ryanks tem a mesma força e poder da primeira tentativa, mas também podem pensar. Leo, Hazel, Frank e você são a segunda tentativa do VSM. Seu namorado te seguia, não porque te reconhecia ou qualquer coisa assim. Ele te seguia porque não conseguia identificar se você era humana o suficiente pra comer seu cérebro.
—E-e-eu não... -lágrimas escorrem por sua face agora.
E eu só consigo sentir o mortífero cheiro de lírios. Jackson tem os braços sobre a pequena mesa rústica de madeira, mas não toca a garota. Seus olhos parecem longe, encarando as estranhas flores ao meu lado.
Calipso enxuga o rosto, respira fundo e tenta de novo. -Eu não entendo ainda. Porque ele está morto? Ele anda e, bem, come. Isso significa que só esta doente.
—Ele está morto porque não temos como curá-lo, Calipso. Uma coisa seria produzir uma cura para Ryanks como vocês. Metade de você é humana. Se conseguíssemos... De qualquer forma, seria difícil algo numa escala suficiente para seres como eles, uma vez que nem temos noção de quantos ainda estão por aí. A primeira tentativa quase acabou com o mundo, Calipso. No planeta todo, a porcentagem de humanos vivos hoje é de 24%. Não vamos conseguir produzir um soro pra 76% do mundo. Consegue me acompanhar? -suspiro e olho para ela, que não tem expressão.
Eu não disse que tentaríamos. Nem que já começamos os testes. Mas não vou dar esperança para uma adolescente melancólica quando nem eu tenho.
—Oque você vai fazer com os zumbis que não conseguirem a cura? -ela pergunta.
Não respondo. Não tenho tempo. Ele responde por mim, o que me assusta, pois tinha esquecido da sua presença.
—Ela vai matá-los. -diz, ríspido, e se levanta, derrubando a mesa a menina junto, saindo da estufa.
MAS QUÊ DIABOS..?
É o estopim para mim. Não tenho nem coragem de ajuda-la a levantar. De um pulo, corro atrás do ex-tenente.
—JACKSON! -grito.
Mas as plantas parecem que não querem me deixar ir. Parecem me envolver com os dedos verdes e odores distintos. Odores...
O cheiro dos lírios me rodeia.
Pontos brancos dançam em minha visão. Não, por favor, não agora. Não desmaie aqui. Não com eles. Oh, isso é tão...
Leve. Me sinto leve.
E me sinto caindo. Minhas costas, costuradas e já sofridas, esbarram em algo duro e, logo após, no chão. Vejo Jackson num borrão. Ouço-o ao longe, me perguntado o que aconteceu. Meus lábios não obedecem, nem mesmo o resto do meu corpo. Ouço Quíron no walkie-talkie, mas também não posso vê-lo, por que tudo está branco.
E algumas palavras... emergência. Agora.
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