V4mpires
1 Prólogo
Ela era linda, seus olhos azuis eram tempestuosos. Seus cabelos, negros como as trevas, pendiam lisos do coro cabeludo e escorriam dançantes pela lateral do rosto até a cintura, transformando-se em cachos nas pontas. Seus lábios, carnudos e vermelhos, aparentando serem macios como veludo. A pele, branca como a neve, as bochechas com pequenas sardas claras, quase imperceptíveis, suas sobrancelhas arqueadas, olhos envoltos de preto. Seu pescoço, branco e delgado.
Ah, o pescoço.
Ela parecia ser forte, valente. E ela era. Mas não perto de mim. Toda sua força, sua valentia, sua bravura eram nulas à minha presença. Talvez ela pudesse vencer em sarcasmo e ironia, mas diante a mim ela era completamente frágil. Fácil de cair, fácil de quebrar. Ela me lembrava alguém. Na realidade, ela era idêntica. Digo, suas fisionomias, os olhos, cabelos, rosto, corpo. Idênticas. Porém ela era mais invocada. Tirando isso, ela realmente me trazia lembranças boas de certo alguém. Não só boas, mas também lembranças terríveis, que arrepiariam os pelos de sua nuca e lhe correria um choque intenso por toda sua espinha.
Eu não a via a séculos. E, acredite, não estou dizendo isso no sentido figurado. Não a vejo a 286 anos. Ah, ela. Katherine. Minha primeira paixão. Eu a amei com todas as minhas forças, e ainda a amava, até pouco tempo. Mas ela está morta. Seus cílios permanecerão entrelaçados por toda a eternidade, e não a nada que eu possa fazer. Não houve nada que eu pude fazer. Ela era um monstro, uma ameaça para a raça humana. Katherine não merecia toda a mordomia que recebia de todos. Por mais que eu a amasse eu tinha que admitir isso. Admito também que guardo comigo as cenas de sua morte. Queimada junto a tantos outros dentro de uma igreja. E dela, só me restaram umas poucas coisas: algumas lembranças, um anel que ela me dera — e também a meu irmão —, e a sede incontrolável de sangue, que eu sentirei por toda a eternidade. Além do ódio de meu irmão por mim.
Claro, não posso dizer nem fazer nada a respeito, apenas que aprendi. Aprendi a conviver com tudo isso. Com a sede. Com o palpitar da pulsação humana, o desejo de drenar cada ser vivo que passasse por mim. Aprendi também a não recear mais a perseguição de meu irmão. Eu sabia que seu plano maior era me matar, mas não receei. Hora alguma. Eu sei que com o passar do tempo eu me tornara mais fraco. Sabia que ele ampliara e conquistara Poderes que eu nunca seria capaz de conquistar. Não com minha dieta. Me adaptei à beber sangue de animais. Pode parecer nojento — e é, acredite-, mas me adaptei. Não estou livre da sede por sangue humano nem da tentação de tê-lo, quente, úmido, escorrendo por minha garganta, o líquido vermelho cobrindo cada centímetro de minha laringe. Sangue animal fortalece, mas não como sangue humano. Fortalece o suficiente para sobreviver.
Eu tinha em minha mente a certeza de que meu irmão continuava matando pessoas inocentes. Pobre alma. Não posso culpá-lo. Eu o fiz ser assim. Eu o obriguei a completar sua transição, a beber sangue humano. Eu o condenei à eternidade fria e sangrenta que todo vampiro leva consigo. Ele tinha todo o direito de ser assim. Não posso dizer que nunca fui, porque seria mentira. Já fui pior. Mas assim é nossa pós-vida. Somos a espécie predatória, somos os famosos “walking deads”. Nosso destino é matar, matar e matar. Beber o sangue de dezenas de pessoas até o batimento cardéaco diminuir mais a cada segundo, a cada milésimo, e se tornar quase impossível de ouvir. Até a pulsação parar.
Meu irmão sempre foi mais forte, sempre foi ‘o protetor’. Era ele quem me protegia, quem me defendia. Ele sabia se cuidar. Servia para o exército, portanto era um dos mais temidos de Mystic Falls. Mas sempre foi o mais dócil, mais companheiro. Hoje levo comigo o arrependimento de tê-lo transformado. Afinal, ele sempre sofrera muito -em silêncio-. Não era de se abrir, mas creio que tínhamos uma ligação. Sempre estávamos com o mesmo humor. Bom, quase sempre.
Caso ainda não tenha me apresentado, meu nome é Stefan. Stefan Salvatore. E este é meu irmão, Damon. E essa é a nossa história.
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