V2 - Vinculo Demoníaco
1 Planos
Estava no sofá da casa de Angela; as paredes verde-caqui e os moveis tabaco combinavam-se sutilmente, harmonizando o ambiente. A TV de 32° widescreen não me deixava entretido por muito tempo.
Eu olhava pela grande janela atrás do sofá vermelho onde eu estava sentado. Um dia bonito em Lairwood. O céu estava azula claro, sem nenhuma nuvem. O sol era o rei dali, e agora estava sozinho em uma bela manhã.
- Zac, você não vem tomar o café da manhã? – Perguntara Angela, maternalmente.
Eu nunca havia visto prestado atenção à Angela. Seus olhos castanhos eram muito bonitos, seus cabelos grisalhos até os ombros, os “pés de galinha” abaixo do circulo dos olhos e seu sorriso maternal que eu adorava ver.
- Já estou indo. Obrigado. – Disse mostrando um sorriso agradecido, não conseguiria achar uma pessoa mais bondosa.
- Não demore! – Disse ela andando para fora, indo à cozinha.
- Tudo bem. – Ela já havia saído.
Respirei fundo e me mantive ali, parado; por cinco minutos, observando a terra girar enquanto eu estava imóvel como uma estatua. Os gritos de Gabriella cortaram meu transe; vinham da cozinha. “Urras” de alegria ecoavam de sua boca. Acho que ela tinha ganhado alguma coisa, e eu sabia o quê.
- O que esta acontecendo? – Perguntei a Gabriella, que pulava como uma mola na cozinha.
- Eu ganhei, ganhei. – Gritava ela estática, pulando para me abraçar. Eu a peguei no colo e ela pôs seus braços no meu pescoço, me apertando.
- Ganhou o quê? – Disse sem fôlego, fazendo-a afrouxar os braços do meu pescoço.
- Ganhei, ganhei. — Urrava a menina de 11 anos, feliz, com alguma coisa. – Eu ganhei vovó. – Gritou à avó, que também não entendeu nada. – Eu ganhei um prêmio na escola. Mas só posso levar uma pessoa. – A menina aquietou-se, triste e confusa. Os olhos disparando entre mim e Angela.
- Ah! – Eu disse. – Vocês podem ir, eu vou viajar daqui a uma semana.
- Zac, eu já estou velha, e você deve aproveitar a sua vida. – Eu não poderia achar alguém que fosse mais mãe do que Angela.
- Ah. – Apressei-me a responder. – Eu não, vou viajar com a Claudia.
Angela soltou um “uhh”, olhando-me sugestivamente. Ri. Não consegui controlar a vergonha e ela me fez corar.
- Nós somos só amigos. – Falei, tentando me salvar de suas especulações.
- Vocês têm passado muito tempo juntos. – Arfou ela, constrangendo-me.
- Angela, por favor. – Implorei.
- Tudo bem. Vou te deixar ter um ar. – Gabriela agora começando a entender a expressão de sua avó.
- Zac ta namorando. Zac ta namorando! – Cantarolava Gabriela, me deixando envergonhado.
- Ah. Vou pegar você. – Disse e dei um abraço nela girando-a no ar.
Foi um dia feliz – único – na minha vida. Eu nunca tive alguém de verdade. Depois que meus pais morreram eu me isolei. Ninguém gostava de mim. Ninguém sequer olhou para mim. Eu me tornei uma pessoa invisível.
Mas desde que fui exorcizado, desde que falei tudo o que precisava para os outros; desde que contei como me sentia tudo mudou.
Todos começaram a olhar para mim, me reconheceram. Deram-me uma oportunidade, e até lá eu estava me saindo bem. Desde o exorcismo de Baudy eu fui promovido a “legal” em Lairwood.
Já estava no meu quarto. Um lugar que eu amava. As paredes brancas com traços pretos horizontais ainda assustavam vovó Angela. “Nunca vi uma parede maluca assim! Cadê a alegria de viver?” Dizia ela, meio que debochando da minha cara.
A noite fria de março ainda me deixava feliz, e Azharar não se importava em passar os dias onde quer que eu estivesse. A lua cheia fazia a terra ficar clara, e eu podia ver entre as arvores, embora eu não precisasse disso.
Deitei-me sem sono e comecei a cantarolar a musica que Amanda costumava cantar para mim. Fitei as estrelas, brilhantes e distantes de mim. Eu queria tocá-las, só por um instante sentir a pureza de algo que estivesse perto do céu. “Isso deve nos machucar.” Resmungou Azharar irritado.
Minha vida já estava condenada, mas eu não me importava com isso. Contanto que Claudia estivesse comigo eu estaria bem. “Não se esqueça da Sakuya” Resmungou Azharar ofendido pelo meu descaso por ela.
Suspirei e fechei a janela, preparando-me para dormir. O sono começou a me entorpecer. Só tive tempo de expirar o oxigênio capturado uma vez, até perceber que eu já havia caído no meu mundo das trevas, onde eu dormia.
Acordei cedo, a noite trocava de posição com o dia, o sol tomando o seu lugar enquanto a lua retirava-se. O sono não havia ido embora mas meu corpo não me deixava dormir. Abri a janela e pulei para fora, andando pela madrugada.
- O que você está fazendo acordado a essa hora? – Perguntou Sakuya. O corpo agarrado em cima de um grande galho, numa arvore antiga.
- Andando pela madrugada. – Respondi uma pergunta que me pareceu óbvia.
- Azharar está bem? – Não sei por que, mas ela sempre se apressava em perguntar sobre ele.
- É claro que está. Eu cuido muito bem dele.
- É bom mesmo. –Disse ela ameaçadoramente.
- Calminha aí gatinha. – Disse mostrando as garras, como se eu estivesse imitando um gato.
- Desculpe, ela não se controla. – Disse a mesma voz, mas de uma maneira sedosa; calma. Claudia.
- Ah, tudo bem. – A alegria passou por minhas veias, tirando o efeito do enxofre e da ferrugem.
- Então... – Disse ela envergonhada, com o rosto corado, os olhos vendo o chão. – Como... Er, você está?
- Estou ótimo. – Nem consegui esconder meu sorriso.
- Ahh.
- Então... – Parei, olhando para os lados, falar de alguma intimidade com ela não era muito fácil. — A gente vai viajar?
- Vamos sim. – Ela olhou para mim. Nossos olhos se encontraram e ela virou seu rosto, respirando ofegante por um minuto, antes de se recompor.
- Então tá. . É... – Comecei a gaguejar. – É, é, é melhor, eu, eu, eu ir. – Estava morrendo de vergonha. As mãos suadas e aquele maldito calor que invade o pescoço, a tremedeira no corpo todo, aquela onda de calor que aparece do nada.
- Tudo bem. Vejo-te em dois dias. – O silencio preencheu o espaço. Olhei para o alto. Ela não estava mais lá. Já havia sumido entre as arvores.
Olhei o dia nascer por um instante; o sol saindo detrás das longas montanhas de neve. A ultima semana de neve. Teria que esperar até Julho para ver minha adorável neve de novo.
Voltei para a cama e deitei-me sem sono. Dormir não era uma coisa que eu fazia com frequência – ou precisasse – de qualquer forma eu fingia o Maximo que podia. Não queria preocupar Angela.
Ela certamente ficaria assustada se um demônio–zumbi vagasse pela casa de madrugada; então eu ficava deitado esperando o relógio tocar para eu poder acordar. Uma tarefa no mínimo chata, mas que eu fazia de bom grado, afinal Angela sempre quis o meu melhor e esforçou-se para isso.
Levantei-me após Gabriela ter saído. Angela tinha saído para fazer compras e por mais que eu quisesse ajudar com as despesas e o resto ela sempre me dizia que eu devia guardar a minha herança, que um dia eu precisaria dela. Eu sempre achei que fosse bobagem.
Já era hora do jantar quando eu voltei ao trabalho. As duas estavam me olhando, esperando-me para comunicar as boas novas. Eu já sabia do que se tratava, mas fiz cara de surpresa.
- Oi Zac! – Disse Gabriela pulando em cima de mim e me dando um beijo na bochecha.
- Então?! – Disse eu, esperando que Angela começasse.
- Eu sinto muito; não o queria deixar sozinho. – Dizia ela tristemente, fragilizada por te deixar que me deixar sozinho, em casa. – Mas nós duas vamos viajar. Você pode ficar sozinho?
- Ahh Angela. Eu vou viajar com a Claudia; não vou ficar aqui, mas é certo que eu vou voltar. – Pausei. – Espero que vocês se divirtam. – Disse trocando de assunto.
- Zac! – Protestou Gabriela. – Você tem que voltar. Você promete que vai voltar? – Ordenou ela com lagrimas nos olhos, sentando-se no meu colo de lado.
- É claro que eu vou voltar. – Respondera tirando as lagrimas do seu rosto. – De qualquer jeito; sairemos hoje.
- Vou sentir sua falta irmaozão. – Essa foi a primeira vez que alguém me chamava de irmão, como se eu fosse de fato parte da filha. Isso me fez brilhar, estar no céu e voltar para a Terra no mesmo instante — o céu não era lugar para mim. – talvez porque meu destino era o inferno, as portas do céu estavam fechadas para mim, porque meu cérebro não me permitia ter sentimentos de bondade por muito tempo.
Gabriela me deu um beijo e saiu pela porta enquanto Angela se levantava da cadeira e lavava os pratos. A lua cheia brilhava no céu distante, escuro e sombrio. Só mais uma noite comum.
A bagunça no meu quarto era humilhante – para uma pessoa normal – mas eu gostava dele assim, sabia onde tudo estava e encontraria tudo o que eu precisasse com a maior felicidade. A cama de casal desarrumada, os sete travesseiros espalhados por ela e a coberta de pêlos marrom.
Todos os móveis era pretos e brancos; minhas cores favoritas. A janela do meu quarto sempre ficava aberta, ninguém ousava entrar por ela. Embora eu fosse amigo de todas as pessoas da cidade agora eu era temido também, respeitado.
Já era quase meia-noite e eu estava acordado fazendo as malas; quer dizer, fingindo fazê-las. Eu tentava parecer o mais normal possível para não assustar minha avó e minha irmã, que dormiam tranqüilas agora. Suas respirações lentas e estáveis, os batimentos leves de cada coração; o ronco baixo de Angela e os gemidos inconscientes de Gabriela.
Tudo parecia calmo, calmo o suficiente para ser até incômodo, a não ser pelos galhos que pareciam quebrar-se por algum tipo de pressão; peso. Alguém estava me vigiando. Eu sentia agora outra onda de ódio – que era como se fosse o sangue de um demônio – que pairava na noite fria e escura.
- Quem está ai? – perguntei ameaçador, mais um pouco amedrontado.
Nada se mexeu. Vagarosamente dei os três passos suficientes para me fazer chegar à janela. Esperei e respirei fundo, antes de colocar a cabeça para fora e olhar para a escuridão – bem; nem estava tão escuro por causa da lua cheia – procurando alguém ou alguma coisa.
Olhei para todos os lados e não encontrei nada, então olhei para frente e me perdi nos pensamentos.
- Oi. – Disse uma boca linda, um sorriso brilhante, só para mim.
O susto foi tão grande que eu pulei e acabei batendo a cabeça no teto.
- Auuuhh. – Eu rugi. – Precisava me assustar desse jeito?
- Desculpe. – Disse ela corada. – Não foi minha intenção te assustar.
Seu rosto sempre me paralisava; deixava-me bobo. Eu era completamente doido por ela.
Ela nunca me olhava nos olhos, sempre abaixava a cabeça depois de me olhar por dois segundos. Era sempre assim. Eu a olhava tentando resistir ao seu corpo demoníaco, os cabelos negros já estavam na cintura.
Eu queria puxá-los e morder sua orelha; mas eu me continha. Já brincávamos quando Sakuya e Azharar trocavam de lugar com a gente e faziam coisas que certamente não passariam na TV antes de 01h30min da madrugada.
- Zac? – Perguntava uma voz familiar. – Você está bem?
- Ahh. – Disse encabulado. – Eu estou bem. Estava deitado na cama e bati a cabeça na parede.
- Não minta para mim. – Disse ela me conformando. – Eu sei que você se assustou com o gato e bateu a cabeça no teto. Eu sei que... – Ela hesitou, respirando fundo e continuou. – Você ainda tem um demônio dentro de você. – Só assenti.
- Eu... Não diga isso à Gabriela. Eu não quero assustá-la.
- Ela também sabe. Ela adora isso em você.
- Ahh! Desculpe-me, eu nunca quis assustá-la. Não foi minha intenção.
- Ela quer ser igual a você. – Disse Angela, triste, as lágrimas estavam começando a correr descontroladas.
- Eu não quero que ela seja igual a mim. Eu não desejo isso a ninguém. – Acabei mostrando a raiva que nascera do vazio em minhas palavras.
- Eu sei, mas... – Ela se interrompeu. – Eu vou dormir.
Ela saiu pela porta tão triste que quebrou meu coração, o deixou em pedaços e o sangue parou, não bombeava, tudo foi jogado numa lata de lixo gigante. Não havia nada para reciclar, nada que pudesse ser salvo.
Dois braços macios envolveram-me num abraço forte que tinha intenção de me consolar. Me virei para olhá-la nos olhos e ela virou seu rosto, colocando os olhos no chão.
- Desculpe-me. – Disse sinceramente.
- Eu sou quem deveria pedir desculpas. – Disse ela envergonhada. – Bem, que tal irmos de uma voz?
- É. Acho que é melhor assim. Vou deixar uma carta.
Angela; sinto ter te magoado e prometo que não farei mais isso. Diga a Gabriela que a amo como se fosse minha irmã. Eu realmente a adoro, da mesma maneira que gosto de você. Como não voltarei mais para incomodar peço-lhe que dê um abraço em Gabriela por mim.
Zac...
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