V2 - Vinculo Demoníaco
7 Treinamento
Acordei sozinho, largado naquela cama gigante, esperando que ela viesse e me beijasse, mas ninguém estava perto então tomei um banho e troquei de roupa. Saí do hotel quando eram 11 horas da manhã, procurando entre os grandes edifícios um lugar coberto por arvores e grama, um lugar onde eu pudesse treinar e me concentrar, criar um plano que salvaria nossas vidas.
A maldita cidade parecia um labirinto sem fim, e eu não podia correr ou me transformar no meio de todos; nem conseguia imaginar o que aconteceria se um guepardo estivesse atravessando a cidade.
Peguei um taxi e disse ao motorista para ir a um lugar afastado, com grama, arvores; etc... Ele me encarou desconfiado, provavelmente achando que eu iria arrancar seus órgãos para vender em algum hospital falso.
– Eu não vou te matar. – Disse divertindo-me.
– Ufa. – Ele disse. – Que bom. – Soltou um risinho nervoso.
– É mesmo. Que bom. – Eu conjecturei num sorriso malicioso.
Ele parou o carro em silêncio e esperou que eu saísse, mas não consegui deixar de notar seu nervosismo diante de mim. Peguei minha carteira e lhe dei 3 notas de cinqüenta.
– Pode ficar com o troco. – Lhe disse num meio tom de voz
Saí do carro, e dei um tchauzinho de leve, enquanto ele corria de volta para a civilização, tão amedrontado que eu ainda podia sentir seu medo ecoando por seus lábios.
O lugar era de longe o menos movimentado. Nem ao menos eu via um mosquito ou qualquer ser vivo passando. Já era o meio dia, eu teria que começar logo minha bateria de treinos. Cada músculo em meu corpo respondia a qualquer comando meu, por menor que ele fosse.
– Rhazhart. – Disse com firmeza. O mundo lentamente começou a parar, mudando do seu colorido para um cinza morto, e então nada se movia, só eu podia correr ou fazer qualquer outra coisa. Tudo parecia ser tão fácil, tão simples, que me fazia pensar na possibilidade de eu conseguir derrotá-lo.
Fitei o abismo em tons de cinza, maravilhado por minhas conquistas. Ser um demônio não era assim tão mau. De fato, nunca fora. Eu estava absorto por isso, imaginando que eu poderia fazer o que quisesse, mas a verdade não poderia fugir de mim; eu só tinha 2 dias.
Deitei-me na grama verde e fiquei encarando o céu. Fechei os olhos por um instante, e foi quando a terrível sensação caiu sobre mim. Asas. O que eu estava escutando não vinha da minha cabeça. Eram asas batendo, tão apressadas e graduais;
“O que esta acontecendo?” Perguntei a Azharar, que me observava desanimado.
“Há falhas!” Ele respondeu simplesmente.
Falhas! Eu não era forte o suficiente e não poderia vencer se não aperfeiçoasse o que eu havia aprendido. Mas era tarde demais para pensar. Eu não tinha tempo suficiente para isso. Abri os olhos. La estava a criatura com as asas apressadas. Um beija-flor. Voava livre por todos os lados, ignorando a minha presença — se é que aquilo estava me vendo – sentindo o cheiro das flores enquanto meu mundo cinza se despedaçava lentamente...
Entendi então, aquele seria o meu fim...
Claudia>
Eu sabia onde estava, e o que queria. Só não sabia como encontrá-la. Mas eu iria!
“Você não vai achá-la” Sakuya gritou. Eu arfei de dor. Ela era tão irritante as vezes. “Eu escutei isso” Ela disse rispidamente.
“Que bom!” Rebati categoricamente.
Só um rosto estava pregado em meus olhos e por mais que eu tentasse não conseguia ver nada além dele. Seu sorriso me iluminava, mas havia algo de diferente; sua luz não me machucava.
“Você não vai cometer o mesmo erro” Sakuya disse decidida.
“Ele é diferente” Me apressei a responder, esperando para mim mesma que fosse verdade.
“Não! Não é.” Ela falou irritada!
Deixei sufocar aquele sentimento de dor, aquelas memórias horríveis nunca iriam se apagar da minha memória...
Ele me olhava como se eu fosse a única coisa ao redor, como se tudo se resumisse a mim. Seus olhos eram azuis e magnéticos, puxavam meu corpo sem esforço algum, e eu só me deixava guiar por todo o seu charme.
– Charles? – Eu o chamei. As vezes ele parecia viajar para um mundo distante.
– Sim? – Ele perguntou distraído.
– Eu te amo. – Eu disse envergonhada. Sentia as bochechas queimando, tomando a cor que me denunciaria.
– Eu também te amo. – Ele respondeu beijando minha testa. Leve e rápido.
Fitei o lugar onde estávamos. O céu azul cheio de nuvens e pássaros voando. A grama onde estávamos sentados, tão verde e viva. Os campos floridos. O cheiro delicioso das margaridas. Um dia perfeito.
– Amor? – Ele disse. Olhei em seus olhos azuis e me senti derreter por dentro.
– Sim? – Perguntei. Um sorriso bobo nasceu em meus lábios. Ele encarou o horizonte, deixando os meus olhos sozinhos outra vez.
– Quer casar-se comigo? – Ele falou bem baixinho, mas eu entendi. Meu coração pulou acelerado. Meu corpo queimou numa combustão de felicidade.
– Quero. – Eu respondi firmemente.
Deitei meu corpo sobre o dele, e senti que ele cheirava meu cabelo e de vez em quando beijava o topo da minha cabeça. Ficamos assim até o entardecer.
– Acho que esta na hora de irmos. – Ele disse jogando para o lado seus cabelos castanhos.
– Também creio que já esta na hora. Disse levantando-me. Ele o fez em seguida e juntou nossas mãos.
Andavamos em silêncio. Já estávamos perto da fazenda. Já era de noite e as estrelas brilhavam no céu, A lua crescente era linda. Sempre fora a minha preferida.
– Estou tão feliz que tenha aceitado. – Ele exclamou aliviado.
– Você me faz feliz. – Respondi.
Ele se virou e me beijou suavemente. Como fazíamos escondido quando meus pais saiam da sala de estar.
– Ohhh que cena bonita. – Alguém falou interrompendo nosso momento.
Estava escuro, eu não conseguia enxergar muito bem. Mas sabia que ali haviam 3 homens com espingardas. O medo vaio à minha garganta.
– Estamos partindo. – Disse meu amado Charles, puxando-me lentamente pelo caminho.
– Por que estão com pressa? – Um deles disse, acariciando sua arma.
– Não estamos. – Charles disse, se apressando.
– Eu não ira se fosse vocês. — O outro falou apontando a espingarda para mim.
Charles se pôs atrás de mim, segurando meu pulso com uma das mãos. Uma gota de suor desceu por sobre a minha face. Eu estava apavorada por dentro. Eu iria morrer, mas iria morrer nos braços do meu amado. Os homens explodiram, o coral de risadas vindas deles me fez pensar em que pegadinha seria essa.
– Eu vou matar você primeiro. – Um deles falou apontando para Charles.
– Não. – Ele gaguejou ao dizer. Iriam matar o meu amor, a amor minha vida. – Matem-na primeiro. – Ele falou. E antes que eu pudesse perceber estava caída no chão.
Ele havia me empurrado. Eu não estava acreditando. Ele fugira e me deixara aqui para morrer. Meu coração se despedaçou. Eu já não tinha mais nada a ser feito. A dor se apossou do meu corpo e me curvei como uma bola.
– O que devemos fazer com ela? – Um deles perguntou.
– Ela é bem bonitinha. – Um deles respondeu.
– Eu não sei. – O terceiro exclamou. Ela esta tão tapada. Acho melhor tirarmos esse vestido.
– Não. – Eu gritei desesperada.
Era tarde demais. Eles estavam tirando minhas vestes. Rasgando meu vestido branco enquanto eu estava sozinha, caída no chão. Escutei um deles tirando o cinto...
– Não. – Gritei de dor quando um deles me violou. Lágrimas de ódio e dor caíram dos meus olhos enquanto eles me destruíam.
Era o fim. Dor, medo, solidão, ódio. Eu sentia tudo. Implorava por favor, para que eu morresse. Vergonha! E a pessoa que eu sempre amei não veio me salvar. Entregou-me de bandeja para os outros...
– Qual o seu nome em linda? – Um deles disse segurando meu rosto. Tentei me soltar, mas seu aperto era forte demais para mim. – Diga. – Ele gritou enquanto os outros colocavam suas roupas.
– Claudia – Eu disse chorando.
– Claudia! – Ele exclamou. –É um lindo nome. – Ele falou. Me olhou como se eu fosse um cachorro antes de apontar a arma em minha direção e...
“Não é hora para você remoer isso.” Sakuya me despertou rispidamente.
“Eu sei!” Respondi categoricamente.
Andei pela rua sem me importar onde estava. Não era o bairro mais agradável, mas de qualquer forma eu não era o alvo, e mesmo se fosse... – bem eu tinha pena de quem achasse isso.
Eu precisava encontrá-la. O problema era que eu não tinha ideia de onde ela estivesse! O vento correu através dos meus cabelos, me deixando como uma louca despenteada, mas seu cheiro era de ervas... Segui a direção do vento. Fui correndo – como um humano – seguindo todas as direções que o vento tomava, entrando em ruas cada vez piores, mais sujas, mais feias, mais perigosas. Havia um homem encostado numa parede branca. Ele me olhou dos pés a cabeça antes de dar um sorrisinho significativo.
– A senhorita esta perdida? – Ele perguntou, dando pequenos passos em minha direção.
– Não. – Eu respondi nervosa. Ele só estava usando uma calça moletom cinza e uma camiseta branca que se juntava aos seus músculos.
– O que esta fazendo aqui então? – Ele perguntou se aproximando de mim até ficar na minha frente.
– Estou procurando uma pessoa. – Falei envergonhada por seu avanço indesejado.
– Quem? – Ele disse colocando sua mão em minha cintura.
– Raquel! – Eu disse firme. Ele parou, me olhou com duvida e depois medo. Se afastou de mim, recuando 3 passos.
– Ela? – Ele falou.
– Ela! – Eu exclamei séria.
Ele apontou para frente com seu braço direito antes de me falar...
– Final da rua. Casa roxa. – Ele disse e depois correu para longe de mim.
Me dirigindo a direção apontada, encontrei a pequena casa roxa, com uma janela na frente e plantas por todos os lados.
Zac>
Medo! A face mais obscura de um ser é o seu próprio espelho. Eu me vi refletido nos olhos de um demônio, e a cada segundo meu mundo se despedaçava. Apertei os olhos com força e forcei meu mundo improvisado, consertando cada rachadura ao redor. O silencio foi tomado de repente e o som das asas foi interrompido. Olhei com satisfação para o beija-flor que estava paralisado. Eu havia feito.
A satisfação queimava em meu corpo, brilhante e sedenta pelo meu sangue.
“Muito bem” Azharar disse. Sorri. Meu corpo queimou intensamente, uma dor insuportável caia sobre os meus ombros. Deitei no chão, esperando que ela enfim fosse embora.
“O que esta acontecendo?” Perguntei.
“Efeito colateral” Disse Azharar com escárnio. “Você não esta pronto.” Grunhi de ódio.
Claudia>
Pronta! Talvez até achasse que estava pronta; não mais, no entanto. O nervosismo correu por minhas veias, trazendo adrenalina ao meu corpo. Juntei as mãos para bater palmas, porém fui interrompida pelo pequeno portão de metal, que se abriu solitário, convidando-me adentro.
O quintal da casa estava apinhado com tantas plantas e raízes. Bati uma vez na porta.
– Pode entrar. – Disse uma voz estridente. Girei a maçaneta e entrei dando pequenos passos, vagarosamente, até meu destino. Foi onde a encontrei, sentada em sua cadeira de balanço no meio da sala de estar. Seu cabelo loiro-gordura pendia até os ombros, caídos e embaraçados.
Vestia uma blusa roxa que lhe vinha até os joelhos, e por baixo uma calça de couro preta. Seus grandes olhos verdes estavam cobertos por olheiras gigantes. Trazia em seu pescoço um pentagrama parecido com o que Nezar usava em seus ataques, o que atraiu minha atenção.
– Ola. – Ela disse educadamente.
– Olá. – Respondi categoricamente, Ela fez uma pequena menção, pedindo que eu me sentasse.
Olhei de relance o local. Paredes roxas, pisos de madeira, um sofá preto posto no centro da sala, a janela coberta por uma cortina preta, uma pequena TV no canto da parede. Havia também uma poltrona preta – e ela estava sentada nela — e um pouco de teia de aranha nos cantos da sala.
Em seu colo havia um lindo e magro gato cinza da raça Sphinx ronronando entediado. Lentamente me sentei no lugar onde ela havia oferecido. Nos olhamos por algum tempo.
– Okay. – Eu falei desconfortável. – Eu vim aqui...
– Eu sei por que veio aqui. – Ela me interrompeu sem animo. – Você quer salvar Zac! – Ela falou sem hesitar, embora eu nunca tivesse falado o nome dele.
– Sim. – Assenti brevemente.
– Mas você sabe que interferir com o tempo e o destino é algo perigoso... – Ela falou distraída. – Mas talvez... – Ela indagou pensativa. – O futuro de vocês...
Eu a observava obsessivamente enquanto ela arregalava os olhos e depois parecia distraída ao que quer que estivesse acontecendo ao nosso redor.
– É tão incerto. – Ela desabafou e depois pareceu meio aborrecida.
– Como assim incerto? – Perguntei. Não pude deixar de sentir uma pontada de esperança.
“Nem comece.” Sakuya me repreendeu.
“Desculpa.” Eu pensei.
– Eu não consigo ver! – Ela falou; claramente irritada. – Vocês estão sob uma nuvem escura.
– Nuvem escura? – Indaguei surpresa.
– Sim. – Ela me disse encarando-me com aqueles grandes olhos verdes. – E isso não é um bom sinal.
– Mas então o que eu posso fazer? – perguntei desolada.
– Nada. – Ela me disse simplesmente.
Notas finais
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