V Í C I O
1 Capítulo único
Notas iniciais
Fernando simplesmente não se sentia culpado no momento, ele só ficava gemendo e fechando os olhos toda vez que sentia aquele prazer único.
Há muito tempo ele não experimentava algo daquele tipo: aquela pele tão alva, aquele sabor adocicado.
O pobre rapaz queria se deixar levar, somente naquela noite. Estava cansado de ficar sozinho, desde que seus pais lhe deram aquele apartamento ele nunca teve ninguém para convidar. Não gostava que seus amigos, que eram “os infantis” da turma, no mínimo pensassem em ir lá. Geralmente ele só estudava e estudava. Até gostava de uma garota da faculdade, mas não se dava ao trabalho de ir atrás dela, não queria que nada atrapalhasse seu progresso no curso.
Contudo, aquela tarde foi diferente. Fernando acordou lá pelas seis da tarde e decidiu ir ao supermercado, aproveitar um pouco do seu tempo livre, que não era muito, para fazer... nada. Sentia-se ansioso, como se pressentisse o que iria acontecer.
Após passar pela sessão dos produtos de limpeza, Fernando virou o carrinho na direção do corredor de lanches e lá estava ela, tão graciosa e radiante. Ele, por míseros segundos, conseguiu encorajar-se mentalmente e se aproximar de onde ela estava.
Mais alguns passos à frente e ele sentiu que as outras os observavam pelas costas. Fernando sentia que eles tinham aquela conexão à la Romeu e Julieta.
Ela apenas o acompanhou até o caixa. De vez em quando, Fernando sorria timidamente para ela, como se não pudesse acreditar que aqueles momentos estivessem acontecendo, seu coração batia tão forte que as vibrações reverberavam até sua boca. Suas mãos estavam frias e sua perna direita, levemente bamba.
Como se por telepatia, ela simplesmente foi para o carro junto com ele e o esperou guardar tudo no porta-malas, então ele a levou à porta e a abriu. Gentilmente a ajudou a por o sinto de segurança porque ela parecia estar um pouco atrapalhada, talvez nervosa.
No caminho para o apartamento dele, vez em quando trocavam algumas palavras, mais alguns sorrisos e aquela confiança que sua psicóloga tanto falou sobre fluía pelos poros dele. Arriscou até elogiá-la duas ou três vezes.
Em trinta minutos eles estavam de frente para o hall de entrada do prédio onde ele vivia. Era até bem luxuoso, mas ela não pareceu se importar com isso.
Antes de abrir a porta para que ela saísse, fez um pedido simples:
– Espere um pouco, querida, por favor – e sorriu.
Chamou José, um dos funcionários do prédio para o ajudasse com as compras. Queria segurá-la e somente a ela, nada de compras no caminho deles.
O jovem José entendeu o que se passava, Fernando era seu amigo e sabia de algumas coisas de sua vida, sabia o quão importantes aqueles momentos eram para Fernando. Decidiu ir pela área de serviço dos funcionários para que não ficasse “segurando vela”.
Fernando e ela ficaram colados no elevador. O ascensorista viu que ele estava de mãos dadas com ela e sorriu de costas para o casal. Estava feliz por seu “patrão” porque em todo o tempo que morou ali nunca levou ninguém especial ao seu apartamento.
Mais alguns segundos e Fernando destrancava a porta. Suas mãos tremiam. No mesmo momento que entraram, José chegou com as compras apenas aproveitando a deixa para colocá-las em algum lugar qualquer perto da cozinha e saiu, recebendo um “Obrigado, José”.
Ela ficou no sofá, apenas encarando-o enquanto ele bebia um pouco de água. Fernando nunca se sentira tão tentado assim em sua vida.
Ficaram em silêncio por mais alguns instantes e ele se controlava para não fazer nada estúpido à medida que ela fervorosamente continuava encarando-o.
Em certo momento, sem mais conseguir manter para si aquela onda de desejo que o instigava, Fernando pôs-se a despi-la.
Começou rasgando a parte superior da roupa dela e estava maravilhado de tão branca que a pele era. “Isso não deveria estar acontecendo! Não deveria!”, ele pensava de vez em quando, mas não se deu ao luxo de parar, não tinha forças para tal ato.
Em seguida ele a cheirou, e que cheiro inebriante ela possuía! Deu uma leve mordida em sua pele e que textura, que convidativa! Ela era definitivamente uma criação divina, tudo de bom concentrado em um único ser.
Secretamente ele a definiu como se guilty pleasure, ninguém saberia sobre ela, queria tudo aquilo só para ele e ninguém os julgaria.
No meio do processo todo, começara a chover, melhorando ainda mais o clima entre os dois e, passado algum tempo, depois de atingir seu auge de prazer, Fernando olhava para o teto, sorrindo, repassando cada instante em sua mente. Estava despreocupado e feliz, não havia mais motivos para se sentir inseguro.
Aquela foi a primeira vez em que, após quatro anos, coincidentemente a época que se mudara para aquele apartamento, Fernando iniciara a luta contra seu vício. Em todo esse tempo ele se propôs a sequer pensar em uma barra de chocolate, especialmente do tipo branco, que era seu sabor preferido.
Ele sabia que haveria outras agora, mas com moderação, já que não queria voltar para o tratamento, muito menos voltar a ter acne ou ser gordinho novamente, mas aquela seria especial.
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