Vítima.

2 Maria de Fátima: Vítima da Ambição, parte 1.


Maria de Fátima estava farta daquela vida. Não aguentava mais a pobreza da família, pois desde que o pai falecera em um acidente de trabalho a dois anos e a mãe estava dando um duro danado pra manter a casa.

Sendo filha única, Maria de Fátima sempre foi muito mimada pelo pai e não crescera com um senso de justiça muito aflorado. Sendo uma menina linda, sempre soube que usaria sua beleza para atingir o ponto mais almejado de sua vida: casar-se com um homem rico e mudar de vida no Rio de Janeiro, porém agora, mais do que nunca ela ambicionava, pois sabia que quando a mãe ganhasse o processo contra a empresa onde o pai morrerá, ela ganharia muito dinheiro, o suficiente para que ela fosse ao Rio.

— Eu não acredito! — Célia falou frustrada – como é que eles não vão me dar nada? Eu tenho uma casa e uma filha pra manter, você tem que fazer alguma coisa doutora!… Tá bem, essa semana eu vou aí, vamos ter que ver a papelada do seguro também, vamos ter que cancelar.

Ela desligou o telefone e olhou para a porta e notou que Maria de Fátima a observava.

— quem era mãe? — ela perguntou à mãe.

— a advogada, perdemos a causa! — Célia estava muito nervosa – aquela empresa maldita conseguiu convencer o infeliz do juiz que a culpa do acidente foi do teu pai, que ódio! Mas idiota sou eu que acreditei na justiça dessa merda de país!

— tá, e quer dizer que a gente não vai ter um centavo? — Maria de Fátima ficou chocada – a gente aqui passando um diabo e não vai entrar um centavo? Como é que eu vou pro Rio mãe?

— você de novo com essa história Maria de Fátima? Para de delirar! Vai arrumar um emprego que é mais útil.

— ficar nesse buraco? Pelo amor de Deus mãe, vamos vender essa casa e com o dinheiro e gente vai pro Rio!

— Para minha filha, essa história é absurda! Se você me dissesse que quer ir estudar eu vendia, vendia tudo e a gente ia recomeçar nossa vida, mas não você quer investir tudo em roupa pra casar com homem rico? Tenha a santa paciência Maria de Fátima!

— para, chega desse nome de pobre, essa é a principal maldição da minha vida, Maria de Fátima, é óbvio que eu estou fada a ser pobre, me coloca um nome de doméstica desses – disse Maria de Fátima, que foi para seu quarto e bateu a porta.

Quando entrou no quarto, ela sentou na cama e lembrou-se de uma coisa que a mãe falou. Célia havia falado no telefone com a advogada que levaria os papéis do seguro. Que seguro era essa que ela nunca havia ouvido falar? Ela estava disposta a encontrar esses papéis antes que a mãe levasse para a advogada.

Algumas horas depois, Célia saiu de casa para ir à feira onde ela trabalhava e Maria de Fátima foi até seu quarto, ela olhou a em todas as portas do guarda-roupas e na última ela achou, atrás do monte de roupas, uma caixa de sapatos preta que ela nunca havia reparado, então ela pegou a caixa e voilà, havia uma série de documentos em especial que chamou a atenção de Maria de Fátima, era um que ao ler ela notou que era um seguro pela casa que o falecido seu pai deixará para sua mãe ao morrer e que o valor bruto atualizado pela última vez era de quarenta e três mil reais

Quarenta e três mil reais, quarenta e três mil reais que fizeram os olhos de Maria de Fátima brilharem como nunca antes. Ela viu naqueles quarenta e três mil reais a chance da sua vida, de ir ao Rio de Janeiro conquistar um marido rico. Seu plano era dar um jeito de conseguir pôr as mãos naquele dinheiro e dentro de alguns meses fazer sua vida no Rio e voltar buscar sua mãe.

— Mas Fátima, não tem como ir lá sacar essa grana, não é uma conta de banco que você simplesmente vai lá e pronto – disse Carlos. O Namorado de Maria de Fátima estava tão animado quanto ela, pois ele sabia que se Fátima conseguisse colocar as mãos no dinheiro, os dois iriam juntos para o Rio para dar o golpe em algum ricaço.

— eu sei, não sou idiota. A gente precisa bolar alguma coisa. Eu me informei sabe, tem que acontecer algum acidente pra que a grana caia na mão da minha mãe. Se essa maldita casa pegasse fogo, a única coisa que prende minha mãe aqui não existiria mais! — Maria de Fátima, tomou mais um gole do café. Como sempre, ela estava no café que ela e Carlos sempre iam para lá quando precisavam bolar alguma coisa.

— tá, mas acidente Fátima, que acidente? — ele estava curioso.

— é aí que você entra Carlos, eu pensei em um incêndio. Tem como fazer um incêndio parecer acidente? — Ela deu mais um gole e olhou nos olhos de Carlos, aguardando a resposta.

— claro que tem, mas tem certeza que a velha não vai implicar? Ela é esperta, tu sabe bem a mãe que tem Fátima.

— velha é uma vírgula Carlos, olha lá como fala da minha mãe. Ela é uma boa mãe, o problema dela é a falta de ambição. Mas é perfeito! Ela agora perdeu a causa, ainda não superou a morte do meu pai, se a casa pegar fogo, ela vai ficar devastada, vai ser fácil de convencer ela a ir embora, é perfeito! Tem que ser em dia de semana, um horário em que ele trabalhe, a gente bola alguma coisa enquanto não tiver ninguém em casa!

— claro gata, fazer um incêndio parecer crime é moleza, mais fácil do que você imagina…

Era 13h30 da tarde, o sol estava a pino devido o horário de verão, Célia havia saído para trabalhar ainda de manhã e não vinha para casa ao meio dia, e Fátima estava colocando o plano em execução. Ela havia passado praticamente toda a manhã secando os móveis com um secador de cabelo para tirar toda a umidade dos móveis, ela também colocado uma imagem de uma santa na parede e abaixo dessa imagem uma mesinha de MDF com um guardanapo de renda. No chão da casa tinha um tapete felpudo e os móveis todos eram de fácil combustão, era tudo perfeito para o plano de Fátima. Ela deixou uma panela de pressão cheia em cima do fogão e deixou a chama apagada, deixando que gás circulasse pela casa, e saiu, em direção a uma farmácia que ficava a 30 minutos de sua casa.

Fátima já havia saído de casa e Célia voltou para buscar sua carteira com seus documentos que ela havia esquecido em casa. Ao abrir a porta ela sentiu o cheiro do gás, mas era tarde demais, ela correu até a cozinha para desligar o gás, a cozinha era separada apenas por uma meia parede, no estilo americano de sala/cozinha, porém era tarde demais, ao chegar no meio da sala nem tempo de gritar ela teve antes que a explosão acontecesse.

O timing foi perfeito, ela estava cruzando a esquina de casa com uma sacola nas mãos e viu as viaturas, tanto da polícia quanto dos bombeiros e fingiu espanto, correu para casa e chegou gritando e dirigiu-se a um policial.

— o que houve meu Deus, essa é a minha casa!

— não sabemos ainda, mas parece que foi o gás. Tinha alguma coisa ligada?

— sim, eu deixei uma panela no fogo, mas estava ligada a hora que eu saí, estava tudo certo! Eu só fui na farmácia ali do lado!

— bom, deve ter apagado a chama então, mas parece que a senhora que estava ali dentro não sobreviveu. O pessoal já está socorrendo para levar ao hospital, eu poso arrumar alguém pra te levar junto…

Maria de Fátima mudou o semblante na hora, ela foi de falsa preocupação e um arrependimento real, com um frio que lhe cortou a espinha.

— senhora?

— sim, há um corpo no meio dos escombros…

Em questão de sete dias, Maria de Fátima havia preparado o velório da mãe e o amargor lhe consumiu. Ela sabia que fora culpada pela morte da mãe, mas a perícia chegou a conclusão que a explosão havia sido acidental e ela teria direito a sacar o dinheiro. Ela preparou o velório da mãe e a missa de sétimo dia, e pegou todo o dinheiro, mesmo com a dor da morte da mãe, ela não desistira de sua ideia. Agora mais do que nunca ela iria para o Rio de Janeiro, estava sem ninguém no seu passado, exceto Carlos, e o dinheiro em mãos, mas ela decidira que Carlos não faria parte de sua nova vida.

Carlos chegou na casa da Tina, a amiga de Fátima que havia dado hospedagem a ela e perguntou por Fátima. A resposta que ele ouviu foi “Mas ela não te avisou? Ela embarcou hoje, achei que vocês tinham se despedido”

— embarcou pra onde? — ela perguntou frustrado.

— não sei direito, ela me disse que manda um postal quando chegar lá. — disse Tina, estranhando toda aquela situação.

Maria de Fátima já havia feito os 1,348 km de Cascavel – PR ao Rio de Janeiro. Já no primeiro dia ela se instalou em uma pensão diária, comprou roupas novas e elegantes e foi ao um salão de beleza e gastou uma nota para ficar deslumbrante e foi rumo a Vieira Souto, onde passou por aquele prédio maravilhoso onde ela sabia que seria um começo perfeito, ela foi até o prédio onde ficava o escritório da revista Fama, e ao longe ela viu Ângela Machado entrando em um carro, rindo ao telefone de uma maneira graciosa. Ela entrou no carro e o chofer fechou a porta. “Eu ou ter a vida dela, custe o que custar” pensou Maria de Fátima, andando em direção ao prédio da revista.