Vírgulas nostálgicas
1 Vírgulas nostálgicas
É o que dizem, é natal. Luzes pineais por toda a cidade, almas cintilantes, lampejos de felicidade entre a família. Pode ser apenas uma lembrança vaga, uma memória abraçada para nunca ser esquecida. Jantar em família, meu pai, minha mãe e a minha irmã, algumas anedotas banais, alguns desentendimentos corriqueiros, no meio do âmbito é difícil parar para apreciar o que resta... Aqui estou agora, o abajur cor de carne ilumina apenas uma rodela do quarto escuro, meus pais enfeitam a noite feito estrelas radiantes, minha irmã... Querida irmã, por onde andas?
Poderia voltar no tempo e aproveitar tudo como se fosse um fato fugaz que não pudesse ser relembrado? Meus amigos não estão emoldurados, alguns estão em becos entorpecidos, outros em escritórios que os deixam exasperados, ninguém sabe o que ocorre comigo, passei a vida inteira procurando alguém que me ouvisse com condescendência, e aqui estou, só, com a solidão transformada em vício.
Defronte a janela, sentado diante a escrivaninha, aprecio o céu estrelado, a Lua não se rende a um piscar, quem dera se eu pudesse invadir cada morada em uma missão de paz, esbravejar a todos como a vida é efêmera, e que não existe maior poeta que si mesmo, queria dar uma dose de autoestima a todos, queria fazê-los sentir a felicidade nas veias, já aceitam a tristeza como uma velha amiga, isso basta.
Apesar de ser muito espiritualista, e saber que a morte não é o fim, é duro... Pensar que passamos a vida inteira soldada em promessas, achamos que há tempo, e então, ele acaba. Minha tia, já jazida, disse uma vez a mim: “Queria ser um polvo para que com as minhas mil patas empurrar mil canoas.”, um grande sábio, esquecido entre os livros, reforça essa ideia: “Não há salvação sem caridade”.
Conheci tantas pessoas, ilusionei tantos panteões, travei um litígio intenso com a minha alma, com o meu pensamento. Então chega certo momento na sua vida, que é preciso responder certas perguntas: “Quantos amigos você jogou fora? Quantos amores jurados para sempre? Quantos você conseguiu preservar? Quantos mistérios você soldava? Quantos você conseguiu entender? Quando aos quinze anos ouvi essa música de Oswaldo Montenegro, chorei lembrando dos amigos que ficaram para trás, agora meu pesar se rende a esse cubículo, lembro dos meus sonhos, das minhas aspirações, dos meus erros. Lembro das minhas fotos passadas, das minhas abnegações, dos meus pensamentos considerados sábios, tolos de quem acreditavam em mim, apenas um pseudo-sábio. Guardava tantos segredos, “Agora são bobos, ninguém quer saber”.
Meus vícios pareciam deliciosos, na adolescência tudo parece que jorra em borbotões, os hormônios, as tesões, os pensamentos devassos, enquanto outros estavam em festas magníficas, sabe onde eu estava? Sentado, escrevendo como agora, lembrando da minha vida, arquitetando o futuro perfeito. Sonhava verdadeiramente com festas de faculdade, com belas garotas a busca de meu órgão flácido, percebi que eu não era aquele tipo de garoto quando beijei uma menina, e não senti mais nada. Ainda esperava ansiosamente que alguém ouvisse a música clássica, e pensasse: “Nossa, ele é diferente!”.
Deve achar isso absurdo, ou simplesmente muito melancólico lembrado horas antes de partir para outra dimensão, todavia eu me orgulho disso, a castidade foi a melhor jogada que eu fiz na minha vida.
Estive dotado do amor de todos os mortais, estudava todas as noites em busca de expressões novas para impressionar as pessoas em fatos consumados, em realizações formais ou simplesmente em conversas cotidianas.
Experimentei durante a minha existência, nem metade das sensações que poderia ter aproveitado, não entrei na cavidade de veludo que as mulheres têm, não acordei com ninguém encostado no meu peito em uma manhã ensolarada. Senti a luxúria no sangue, senti o prazer, e percebi o quão parvo é quem se rende a esses prazeres mundanos, certas ações não adicionam nada de produtivo na nossa vida.
A vaidade, antigamente usufruía arduamente desse luxo, sabe? Agora é hilário, minha beleza está no baú da indecência. Veja toda essa água, veja todo esse céu, aproveite enquanto pode, pare em certos momentos, sinta a perfeição divina no seu sangue, abrace seus amigos lembrando que morrerá sem dizer adeus, beije seus pais sem pensar em incesto, não cometa os meus erros, não chore tanto como choro agora. É, eu encarno o personagem, nas minhas histórias, já fui assassino, caridoso, monge, salvador, tirano... Agora sou paciente terminal, sem retorno, sem dizer o quanto amei, e o quanto amo pessoas que despeitam os outros, algo que não acontecia antes.
Não é uma carta de despedida, não a veja assim, apenas estou dizendo com meias palavras o resumo de uma vida inteira, parece que passei por esse quadro trezentas vezes, a vida pode ser mesmo atemporal, e cada minuto que se passou pode ter sido a mais eterna ilusão, portanto se for para viver inebriado por ela, viva com honra, para valer a pena, nessa briga de galo, ou botamos nosso pescoço a prova, ou o arrancamos tentando arrancar o dos outros.
Termino com um aviso explicado, quando ter a sensação de que não acordará vivo ou de que tudo que viveu terá fenecimento em alguma situação, trágica ou não, redija um relato, ponha tudo em uma balança, não cometa o erro de usar palavras difíceis para impressionar os outros, use as mais simples possíveis, quando seu corpo estiver estendido e alguém ler, não se importará com a linguagem e sim com o conteúdo. Passamos a vida inteira tentando não nos render a uma simples declaração, usamos desculpas, temos que ser eviscerados por nossos problemas, quem sabe Hitler só queria um abraço? Após passar por todas as fases, compreendo qual o verdadeiro sentido de viver, aprender a falar “eu te amo!” sem mentir.
Por hoje é só, se puder mandarei outra mensagem de onde eu estiver. Deve estar se perguntando qual será a causa da minha morte, na mais chula linguagem, o câncer da vida, cerebral para ser mais preciso. Ele se espalhou, metástase. Não é tarde, é cedo, quando eu finalmente acordar, será mais cedo ainda, um amigo me disse uma vez: “A morte é a própria vida em uma nova edição”.
“E então, ele olhou para o abajur, deixou uma lágrima no papel, guardou o relato amargurado na gaveta da escrivaninha, tirou a luz, e apenas com a claridade da Lua refletida pela janela se dirigiu a cama de solteiro, repousou sua cabeça no travesseiro, comprimiu a face e deixou-o encharcado. Quando percebeu, um último lampejo de vida se tornou ar, vagando pelas rua da cidade, abençoando casas, salvando vidas, beijou as crianças, abraçou os pais, consolou os médicos, comprou café aos pobres. E em um sutil sentimento, partiu.”
FIM
26/06/14
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