Vínculos das almas
21 O desespero de A-Ji
Notas iniciais

— Por que vocês me impediram de seguir eles?
— Será algo brutal. Com certeza, o tritão vai lutar.
— Sim. Não deseje ver como eles fazem. — Qu Xiaoxing implora.
— Não deseje saber o que eles fazem com os demônios lá. Nós mesmos estamos cuidando de burocracia ao aproveitar o fato do nosso pai nos ignorar. A última vez que ousamos assistir, nós passamos mal.
— E eu tenho sorte de ter sido enviado como aprendiz de Haoqing após cometer um grave erro que enfureceu o Mestre do vale, fazendo-o me condenar a trabalhos burocráticos.
— O mesmo para mim. — Luo Jinsang comenta.
Ela sente o seu coração se restringir e após suspirar, decidindo que era tudo culpa dela, a princesa consegue se desvencilhar e corre até o local que viu eles desaparecem com os seus amigos a seguindo e tentando inutilmente impedi-la.
Quando a jovem chega em frente a porta, a mestra de demônios sente a prisão sendo sacudida por puro poder demônio apesar do local ser feito de pedras negras que podiam conter o poder de um demônio conforme o que estudou nos livros porque aprendeu a usar os seus poderes espirituais por si mesma ao ser autodidata e que depois, foram aprimorados ao receber posteriormente orientação e treinos dos irmãos e seus discípulos.
A princesa também se afastou da porta ao sentir um vento que era cortante e que por pouco não a feriu. Ao olhar para o chão, observa chocada uma grande quantidade de sangue escorrendo por baixo da porta apesar de já ter presenciado uma cena de sangue que tingiu de carmesim todo um terreno além de vísceras e membros humanos voando pelo ar e que foram oriundos de inúmeras pessoas, com a maioria esmagadora destas mortes sendo ocasionadas por pura estupidez.
Ela sai de suas reminiscências desse dia e que foi inevitável em decorrência do sangue massivo ao ouvir gritos lacerantes de agonia e de medo quando a porta negra maciça foi sacudida novamente, assim como a prisão conforme sentia a emanação de um poderoso poder demoníaco.
A-Ji podia jurar que viu um membro voando e quando conseguiu olhar por uma fresta, a primeira coisa que viu foram os olhos azul gelados do jiaoren que eram como um mar congelado enquanto exalava uma aura arrepiante. Ela temeu frente a esta aura e não duvidava que foi o mesmo com os outros ao mesmo tempo em que viu momentaneamente uma postura de calma e de prestígio, além de nobreza inerente dele por ser o príncipe herdeiro do oceano.
Naquele instante, os seus olhos vigilantes eram ameaçadores, além de exibir uma aura assassina e de extrema indiferença como se fosse uma lâmina de gelo que perfurava o coração das pessoas.
Então, ao se refazer das sensações, a jovem sentiu o seu coração cair e lágrimas brotarem dos seus olhos ao ver que ele levantava a majestosa e imponente cauda novamente apenas para o movimento ser cessado por uma longa flecha dourada que disparou de alguém que estava atrás da porta e que ela não conseguia ver com exatidão de onde partiu enquanto identificava o objeto que foi conjurado e qual era a sua função.
Então, a cauda é pregada na parede atrás da gaiola, com a jovem chorando em silêncio enquanto observava uma corrente de ferro preta que era controlada por um feitiço e que começou a se enrolar rapidamente pela cauda, subindo como se fosse uma videira, fazendo com que o membro ficasse completamente imóvel, com a garota sentindo dor em seu coração ao ouvir o gemido abafado de Chang Yi.
Mesmo escorrendo um suor frio da sua testa, os seus olhos azuis gélidos tomados pela fúria não mostravam nenhuma fraqueza e as correntes não o impediram de lutar, fazendo com que o local onde a flecha havia perfurado a sua cauda começasse a sangrar quando a área ao redor foi dilacerada pelas tentativas de movimentá-la, fazendo escorrer muito sangue no processo.
— O que vocês estão fazendo deitados?! Levante-se e formem uma formação!
Ela reconhece a voz autoritária como sendo de Yin Song, percebendo que foi ele que usou a técnica da flecha dourada, fazendo-a torcer o punho com fúria.
Então, A-Ji ouve o som de um mecanismo sendo adicionado e fica horrorizada ao ver que dois ganchos de ferro dispararam de uma parede, perfurando as clavículas do tritão e que eram acompanhados de relâmpagos ocasionais oriundo desses ganchos negros enquanto que os seus gemidos dolorosos foram suprimidos por Yin Song que começou a entoar sutras para aumentar o selamento, criando uma luz dourada que fazia as pedras negras e o ferro ônix irradiar luz juntas, fazendo com que a masmorra se tornasse radiante, com Chang Yi não possuindo forças para resistir, exceto tremer de dor.
A jovem está horrorizada ao ver tudo isso e está chocada com o sangue no chão e o que espirrou nas paredes, além do liquido carmesim que brotava dos vários ferimentos do belo jiaoren e dentre as escamas secas e reviradas da sua cauda.
Enquanto chorava em um pranto mudo, ela observa relâmpagos caindo em cima dele, novamente, o eletrocutando e provocando novos cortes além de agravar os antigos ao mesmo tempo em que arrancava mais sangue. As escamas da sua cauda estavam levantadas enquanto que algumas foram arrancadas.
Perante o espetáculo cruel e igualmente grotesco da perversidade dos mestres de demônio, a princesa está muda e chora em puro desespero e agonia enquanto que os irmãos e seus discípulos viravam o rosto porque conheciam os métodos e eram demasiadamente brutais, além de perversos ao mesmo tempo em que Si Yu se encontrava chocada e igualmente apavorada com a metodologia usada pelos mestres de demônios.
O seu amado havia explicado como era feito a doma. Mas, ouvir era diferente de presenciar pessoalmente com os seus próprios olhos.
Afinal, era a primeira vez que a demônia de metal presenciava o que eles faziam com os demônios capturados e não pode deixar de sentir arrepios com essa visão.
— Por quê? – A-Ji pergunta em um fio de voz embargada em decorrência das lágrimas que brotavam profusamente de seus orbes e a cada golpe que o tritão sofria, uma ferida pungente se abria em seu coração enquanto se sentia impotente.
— É a forma como domam os demônios — Haoqing fala tristemente – É um método comum usado não somente pelo Vale demoníaco e sim, pelas outras duas regiões demoníacas restantes uma vez que a quarta região demoníaca que compreendia a Ilha demoníaca foi destruída no passado e todos que se encontravam no local morreram perante um poder avassalador. Os monstros são punidos brutalmente e cruelmente até que a linha de defesa psicológica deles seja quebrada. Então, os demônios começam a cooperar com os mestres de demônios para fazer o que eles querem e contanto que cooperem uma vez, o mestre de demônios os recompensará. A longo prazo, eles obedecerão habitualmente ao mestre de demônios e cooperarão com todas as suas instruções.
A jovem cai de joelhos enquanto Qu Xiaoxing e Luo Jinsang afagavam as suas costas visando confortá-la. Com muita persuasão, os irmãos e seus respectivos discípulos, além de Si Yu conseguem arrastá-la do local e a levam até um lugar repleto de flores.
Em seguida, Xiaoxing desaparece por alguns minutos, para depois, aparecer com um chá calmamente e seis xícaras, tomando o cuidado de colocá-los sobre uma mesinha em um local próximo dali. Também havia algumas cadeiras prontamente posicionadas.
Após se servirem de chá, com Haoqing colocando um pouco de chá na xícara de A-ji, ela fala enquanto o seu semblante, refletido no liquido da xícara, se encontra umedecido pelas lágrimas:
— Eu preciso salvá-lo. Ele salvou a minha vida e cuidou de mim, além de me proteger. Ademais, ele me mostrou parte do seu reino. Eu devo isso ao jiaoren. Ele não merece sofrer humilhação, tortura e dor por causa dos desejos da bastarda da Ru Ling.
Os irmãos e o aprendizes se entreolham, para depois, suspirarem.
— Como pretende fazer isso? – Ru Jun pergunta – Ele terá guardas vigiando a cela.
— Mesmo que por um milagre consiga tirá-lo, como irá retirar ele de um local repleto de Mestres de demônios e de escravos demônios? – O mais velho deles pergunta.
— Infelizmente, é verdade. Esse vale está cheio de Mestres demoníacos e seus respectivos escravos porque é somente uma minoria junto dos novatos que não possuem um demônio como escravo. – Xiaoxing falava enquanto suspirava.
— Sim. É uma missão praticamente impossível. — Luo Jinsang comenta com evidente preocupação em seu semblante.
— Eles estão certos. Eu acho que é impossível. – A demônia de metal, Si Yu, comenta.
Aji suspira para depois falar:
— Eu vou dar um jeito. Nem que eu tenha que encarar uma punição horrível. Eu não me importo. Para conseguir o que desejo preciso encarar isso como um jogo de weigi ou de xiangqi. Se há algo que sinto orgulho é o quanto eu sou excelente nesses jogos por ser uma ótima estrategista.
Nesse instante, ela não pôde deixar de se lembrar do seu shifu porque além das artes marciais e técnicas de luta com armas, ele também a ensinou a jogar weigi e xiangqi.
Quando o questionou porque não escolheu um deles por ser comum a pessoa escolher apenas um, o homem gentil disse que nunca conseguiu se decidir em toda a sua vida.
Então, A-Ji aprendeu ambos e buscou superá-lo para agradecê-lo, assim como fez nas artes marciais e no manuseio de armas porque leu uma vez que para agradecer tudo o que o seu shifu lhe ensinou, você tem que superá-lo e ela seguiu isso à risca.
A pergunta de Ru Jun a tira de suas reminiscências.
— Entendo... Quando você vai ter que voltar para a capital?
— Quando eu desejar. Os reis não se importam comigo. Ru Ling também não se importa, desde que não deseje me usar para tortura com o uso do chicote carmesim dela e que é uma réplica daquela usada nas regiões demoníacas contra os demônios sendo que a única exigência é que os ferimentos não sejam em áreas visíveis. No final, o melhor para mim é ficar longe do palácio porque assim não sou humilhada e usada como brinquedo de tortura da bastarda.
Os irmãos e os jovens aprendizes sabiam o que ela falava. Eles haviam presenciado várias vezes o tratamento que davam a segunda princesa. O descaso e as punições eram na maioria das vezes injustas e cruéis. Mesmo que A-Ji estivesse certa, Shun De sempre seria a vítima e se havia algo que a mais velha aprendeu é que ela era a favorita. A irmã mais nova era apenas um incomodo e ela poderia fazer o que desejasse desde que não deixasse quaisquer marcas visíveis.
O motivo de tanto desprezo era por causa do nascimento da mais nova.
Quando a rainha deu à luz a segunda princesa, ela teve graves complicações durante e após o parto. No final, a vida dela foi salva, mas, a rainha se tornou incapaz de conceber.
Para piorar a situação, o rei ansiava por ter mais filhos, principalmente um menino para passar o seu título ao mesmo tempo em que a genitora desejava ter mais filhos e mesmo que o imperador possuísse concubinas que conceberam filhas e filhos, ele queria filhos da imperatriz porque seria o filho oficial.
Afinal, o imperador desejava seguir a tradição iniciada pelo seu avô.
Portanto, na visão deles, a pequena era culpada e seu nome significa memória em decorrência da perda da capacidade da imperatriz de ter filhos.
Inclusive, desde bebê era desprezada e se havia sobrevivido até ser um pouco mais velha foi graças a babá e quando a serva demonstrou que amava a menina, os reis a expulsaram do palácio. Tudo o que a jovem podia amar ou as pessoas que a amavam eram tiradas dela. Se ela tivesse nascido homem, A-Ji teria sido favorecida porque o rei ansiava, principalmente, por um menino.
Os irmãos eram os únicos que permaneceram porque não havia como tirar eles dela e o fato de ambos serem desprezados pelo seu genitor, assim como era com A-Ji, fez com que os monarcas tolerassem a presença deles.
E mesmo ela possuindo irmãos e irmãs não oficiais por serem filhos de concubinas, havia uma regra instransponível de que os filhos oficiais não podiam ter contato com os irmãos não oficiais, mesmo que a mãe deles tivesse o título de Concubina imperial ou de Nobre dama. Todos os servos e soldados sabiam disso e havia penalidades brutais para os jovens não importando a idade assim como para as concubinas caso transgredissem essa regra.
Portanto, como A-Ji não queria ser a causa de punições para eles, ela nunca tentou se aproximar deles, limitando-se a olhar a distância enquanto as mães destes habitavam outros pequenos palácios dentro do complexo da cidade imperial de Dacheng.
— Eu gostaria de acessar a biblioteca do Vale demoníaco. Talvez, eu encontre algum meio de salvá-lo.
— Vamos ajuda-la.
— Com certeza.
Ela olha para ambos, vendo a determinação em seus olhos e pergunta com visível preocupação porque sabia que Lin Canglan era igual aos seus pais com a diferença de que o Mestre demoníaco odiava ambos os filhos enquanto que os reis desprezavam e até odiavam apenas A-ji ao mesmo tempo em que favoreciam e amavam Ru Ling:
— Mas... e o pai de vocês? Ele não vai perdoá-los. Ele e os reis podem dar as mãos. Eu sei que vocês sofrem assim como eu sofro.
— Será uma vingança de nossa parte. Ele perder o jiaoren será um golpe brutal. Além disso, o tiazi (príncipe herdeiro) dos oceanos salvou a sua vida. Portanto, ele não é um demônio perigoso e por isso, não merece o que está acontecendo com ele.
— Sim. Nós achamos injusto o que está acontecendo com ele. Conte conosco para ajudá-la. Além disso, você também vai ter que encarar a fúria da sua família e se mesmo sabendo disso, ainda quer salvá-lo, conte com o nosso apoio. Se você não teme as consequências, nós também não temeremos. – Ru Jun fala com visível determinação em seus olhos.
O mais jovem dos irmãos idolatra o mais velho que sempre buscou protegê-lo do pai deles.
Claro, ás vezes era impossível, mas mesmo assim, ele tentava e conseguia na maior parte das vezes. Com seis anos de diferença, o mais velho protegia o caçula e ao contrário do mais novo, chegou a presenciar um pai diferente antes do falecimento da mãe deles após dar à luz. Lin Canglan mudou drasticamente após o funeral da sua amada esposa. Era como se o seu coração tivesse sido sepultado junto dela, restando apenas a dor que se transformou em ódio pelos filhos.
Na verdade, o maior ódio era direcionado ao filho mais novo porque o culpava pela morte da amada quando ela deu à luz ao mesmo tempo em que respeitou o desejo dela ao dar o seu sobrenome ao filho enquanto que o mais velho tinha o sobrenome do pai. A mãe de Jun e de Haoqing era prima do rei, mas, nunca tiveram uma relação próxima. O soberano daquele reino era indiferente a morte da mãe deles porque era um ramo distante da sua família, do qual ele não teve nenhuma interação no passado.
Porém, como Haoqing protegia o irmão, o ódio passou a ser espelhado ao filho mais velho que buscou ser o centro da raiva do pai para poupar o caçula dos castigos, muitos destes injustos ao mesmo tempo em que gerenciava o descaso com ele. Foi o mais velho que praticamente criou o mais novo desde que Ru Jun era bebê. Uma criança cuidando de outra criança. Essa foi a situação dos irmãos e dentre esse mar de infelicidade, eles conheceram A-ji ao vagarem nos jardins do palácio quando decidiram visitar o local junto dos seus respectivos discípulos enquanto o seu pai e os outros dois líderes das três regiões demoníacas restantes se encontravam com o grão-mestre na reunião anual em sua seita que era uma construção imponente que ficava no meio da parte mais prospera da cidade. Ambos foram liberados desse compromisso enfadonho porque Ying Song estava acompanhando o pai deles.
Ao presenciarem o tratamento cruel e injusto em relação a ela, com ambos descobrindo sobre a terceira tentativa de suicídio dela, eles passaram a sentir empatia por vivenciarem uma situação quase que semelhante, para depois, essa empatia se transformar em uma forte amizade ao mesmo tempo em que os três se consideravam azarados na loteria referente a família. No caso dos irmãos, seria mais precisamente na loteria do pai enquanto que para a amiga dele era para ambos.
— Nós também vamos ajudar.
— Sim. Basta falar o que precisamos fazer.
Ela fica emocionada e exibe lágrimas de agradecimento enquanto fala com a voz repleta de emoção:
— Muito obrigada.
— Disponha.
— É para isso que servem os amigos.
— Com certeza.
— Nós sempre a ajudaremos.
— Eu também vou ajudar. – Si Yu fala enquanto corava ao olhar para o seu amado ao seu lado.
— Eu aceito, mas, com uma condição. – A princesa fala de forma séria.
— Qual condição?
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