Poncho

Andei de um lado para o outro do quarto, pensando na melhor forma de contar. Pensando na possibilidade de contar tudo a ela.

:- Vai falar logo ou vai ficar feito barata tonta andando de um lado a outro? – ela me perguntou impaciente. Cruzando os braços.

:- Eu preciso confessar algo a você. – disse a ela, parando de andar.

E ela ficou calada apenas esperando que eu falasse o que tanto queria dizer. Os papéis que ela tinha estavam espalhados pela minha cama, estávamos olhando e analisando eles durante muito tempo.

A falência de Eugênio era algo ao nosso favor.

Talvez ela tivesse de bom humor.

:- Faz algum tempo que eu tenho alguns encontros com Angelique. – falei olhando para ela. Sentada na cadeira de frente para mim. – Sem você saber.

:- COMO É QUE É? – escutei seu grito. Fiz careta, me preparando para escutar e muito dela, foi ali que me decidi não contar tudo a ela. Além de não dizer a seu respeito, ela não estava preparada para saber que eu tinha um filho.

E muito menos preparada para saber que esse filho é da Angelique.

:- Eu me encontro com ela e o garoto às vezes. – mantive meu tom calmo.

:- COMO É QUE NÃO ME CONTA ALGO ASSIM ALFONSO? SEU IMBECIL. – ela levantou! – COM ANGELIQUE? SÃO AMIGUINHOS AGORA? QUE LINDO.

:- Se acalma Dulce, espera eu explicar. – tentei me defender com cuidado, mantendo distância dela.

:- ME ACALMAR? É A VAGABUNDA DA ANGELIQUE E VOCÊ QUER QUE EU ME ACALME?

:- NÃO ESTOU ENTENDENDO O MOTIVO DO SEU ESCÂNDALO! – fui me aproximando dela. – Se você também saiu com Eugênio.

:- NÃO HÁ COMPARAÇÕES!! EU SÓ ENCONTREI COM ELE UMA VEZ E TIVEMOS APENAS UMA CONVERSA, NADA MAIS QUE ISSO. – ela desviou o olhar, e soube ali que ela estava escondendo alguma coisa.

:- MENTIROSA! – me aproximei dela, lendo a mentira nas suas ações.

:- QUEM VOCÊ PENSA QUE É? – ela deu um empurrão no meu peito.

:- QUEM VOCÊ PENSA QUE É? – eu peguei pelos seus braços e a puxei para o meu encontro, tentando me controlar, mas ela me voltava como louco.

Ficamos nos encarando fuzilando pelo olhar. Esperando o que o próximo faria para o outro contra atacar. Eu soltei o braço dela e comecei a andar por meu quarto, além de afrouxar minha gravata, desabotoando minha camisa, estava com falta de ar.

:- Depois de tudo! De tudo, você não sente nojo? Nojo de tocar nela? – escutei a voz de Dulce, mas não me virei para olhá-la.

:- Não senti. – disse grosso. – Assim como você não sentiu quando ia disfarçada para o Elite Way, assim como você não sentiu quando seguia Eugênio. Não venha brigar comigo por algo que você também fez. Não vou carregar esse peso Dulce. – fui claro com ela.

:- Um beijo.

Escutei e voltei para onde ela estava, perto da janela de costas pra mim.

:- O que?

:- Eu e ele nos beijamos. Não foi nada demais, era isso que eu escondia de você.

Se ela se virasse e me visse. Teria se assustado. Fechei o punho tão forte que até minhas unhas que não estavam grandes machucavam a palma da minha mão. Estava tão nervoso que sentia meu pulso saltar no pescoço, e o pior eu conseguia escutar. Eu já tinha visto isso antes. Já tinha visto um beijo de Dulce e Eugênio naquela época eu não me importava.

Entretanto agora era totalmente diferente, isso me afetava e muito.

Não disse absolutamente nada, e um silêncio perturbador reinou no quarto, ou melhor, o silêncio das palavras que deveriam ser ditas. O que cortava o silêncio eram nossas respirações ofegantes.

Fui até a frente do espelho e comecei a desabotoar minha camisa, tentando focar meu cérebro em outra ação. Me lembrando de como fazia para me acalmar e ser frio, na prisão. Meus olhos estavam vermelhos.

Diferente de Dulce o que houve entre eu e Angelique era pior. Estamos envolvidos eu notava isso e ela também, só que nenhum dos dois dava importância a isso desde que Enzo estivesse se divertindo diante de nós. Lembrávamos do passado, aquele que ainda não existia nem Dulce e nem Eugênio. Eu a beijei, isso é verdade, recebi tapas por conta das minhas ações, eu fazia isso por que era divertido. Só que da última vez mesmo recebendo meu tapa, ela correspondeu.

:- Tenhamos talvez que mudar algumas regras. – escutei a voz de Dulce. E parei a olhando pelo reflexo no espelho, com a camisa aberta e minhas mãos paradas na cintura. – Cada um pode ter seu segredo, afinal cada um tem sua vida e quando tudo acabar será assim. Cada um na sua vida.

:- Você quer dizer que vamos acrescentar algo em nossa vingança? – perguntei. – Vamos separar Eugênio e Angelique dessa forma? Nos usando para isso?

:- Talvez. Se for necessário. Sabe que eu não vou poupar esforços para machucar e destruir eles. – ela continuava de costas para mim.

Então ela queria ficar com Eugênio. Então era isso.

:- Quem sabe essa seja uma forma de destruí-los mesmo.

Não deu tempo de pensar em nada, ela se virou e veio andando até onde eu estava, sem nem me olhar direito me puxou pela cintura e beijou. Possessiva como se me dissesse que eu era dela de alguma forma.

E eu correspondi também puxando sua cintura, só que Dulce estava muito mais ativa no beijo e não sei como me empurrou me fazendo bater minhas costas na parede atrás de mim. Quase fazendo o espelho cair, puxou minha cabeça para aprofundar mais nosso beijo que terminou com ela me deixando sem fôlego e ainda mordendo meu lábio inferior o puxando.

Aquele beijo foi para descontar nossa raiva por ter escondido os fatos um do outro. Era uma punição.

:- Sou fiel a você. Não importa ninguém. – disse olhando em seus olhos para que ela tivesse certeza, independente do que acontecesse dali para frente, eu seria fiel a ela.

‘●’

:- Salve, salve marinheiro! – disse assim que ele atendeu minha ligação.

:- Alfonso.

:- Você pode falar? Ou eu ligo mais tarde? – perguntei enquanto manobrava o carro para estacioná-lo.

:- Posso falar sim.

:- Só tenho uma pergunta, Rodrigo Nehme, te diz algo? – Estacionei o carro, mas fiquei ali dentro, por que ela estava terminando de se maquiar.

:- Rodrigo... Rodrigo. – Ele ficou pensando. – Aquele que faltava mais que vinha para a universidade?

:- Esse mesmo. Sabe algo de interessante sobre ele?

:- Bom, ele era dono de muitas festas, ele as promovia, rolava de tudo nessas festas. Ele era popular no campus dele, mas como fazia adaptação se dava bem com as outras pessoas também, ele fazia amizade fácil. Não tinha muito contato com ele, para ser sincero, mas me lembro que ele era amigo de Eugênio.

:- Amigos? – apertei os olhos e juntei minhas sobrancelhas.

:- Sim, pelo que sei amigos entre aspas. Lembro que desde quando Angelique e Eugênio começaram a frenquentar as festas que ele promovia rolavam aquela coisa de amizade para sempre, promessas de bêbados.

:- Entendo. – Me lembrei das vezes que via Eugênio e Angelique saindo com Rodrigo e o pessoal do outro campus, os que antes eram nossos rivais. Era um traidor desde sempre.

:- Só isso? – o escutei perguntando e um barulho de televisão ao fundo.

:- Sim. Se não souber de mais nada. – comentei olhando para ela que estava pronta do meu lado. – E você por que não está aqui?

:- Não estou a fim de encontrar esses filhas das putas. Que assim que acabou a universidade mostraram quem realmente eram. Prefiro ficar com minha filha e meu marido. – eu ri.

:- Entendo sua parte. Ao contrário de você não perderia essa oportunidade, tenho certeza que essa será uma grande festa. – sorri.

:- Imagino. Eduardo acabou de chegar com nosso jantar tenho que desligar.

:- Ok. – eu desliguei. Até que não tive muitos problemas com Marinheiro ele sempre me ajudava com as informações que eu queria.

Guardei meu celular no bolso da minha calça social e olhei para ela ao meu lado. Estava ansiosa de saber como foi a ligação.

:- E então?

:- Rodrigo tinha algum envolvimento com Eugênio e Angelique.

:- Eu sabia. – ela soltou.

:- Ele promovia algumas festas e o casal frequentavam elas.

:- Temos que pesquisar mais sobre isso, você sabe, tenho certeza que existe algo a mais nesse envolvimento deles, que está ligado ao crime e também ao caçador de vocês. – Maite me disse séria e eu concordei, por que ela está certa.

:- Está nervosa? – Perguntei dando um sorriso.

:- Ansiosa, seria a palavra certa! Não vejo a hora de entrar nessa festa e oficialmente entrar no jogo. – ela correspondeu meu sorriso. – Dulce já chegou? – Eu sempre ria do interesse de Maite em conhecer Dulce.

:- Não sei. Ela não responde meus recados.

:- Estão assim desde a última discussão de vocês? – ela perguntou, mas sabia que estava diretamente ligado a isso.

:- Conversamos mais sobre os assuntos da agência, nenhum de nós damos o braço a torcer, admitimos que seria uma forma eficaz em separar Eugênio e Angelique ficando com eles, mas ela não sabe como isso me deixa incomodado.

:- Por Deus, Poncho está com ciúmes de Dulce com Eugênio? – ela me perguntou surpresa.

:- Não. – disse rapidamente. E ela ergueu a sobrancelha desconfiada para mim.

Não admitiria isso a ninguém, se possível nem para eu mesmo. Só que imaginar Dulce e Eugênio juntos me dava mais raiva que qualquer outra coisa. Ela era minha. E isso Eugênio não tomaria de mim.

:- Sei. Sei.

Antes que Maite me perguntasse mais alguma coisa, que não lhe interessava, eu abri a porta do carro indicando que devêssemos ir à festa de uma vez por todas.

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