Poncho

:- Ora, ora, ora, sempre desconfiei dos ditados da minha mãe, que Deus a tenha. Mas, não é verdade que ela estava certa. Quem é vivo sempre aparece. – depois riu com os dentes, ou melhor com a falta deles.

:- Vê se me erra, praga. – falei com ele, irritado com a sua ironia.

:- Senhor Herrera? – me chamaram.

:- Nossa como o mundo dá voltas, agora é senhor Herrera. – Praga voltou a ironizar, ele era um dos presidiários mais antigos que estava ali. Desde que me viu chegando e esperando me chamarem estava me encarando, em vez de fazer o seu trabalho que era passar o pano no chão.

:- Sim. – eu respondi o policial, ignorando o presidiário.

:- Me acompanhe.

Eu o segui até uma sala que eu quando estive aqui no mesmo lugar de praga, nunca visitei sequer me aproximei. A sala de visitas, as poucas visitas que eu tive já tinha uma influência na prisão suficiente para recebê-las na minha sela.

:- O preso logo chegará sabe que não tem muito tempo.

:- Eu sei, já fui informado. – disse sentando, sem me importar com a ignorância dele. Era um dos policiais que me colocou na solitária quando eu estive aqui, como era interessante o meio da vida mostrar como ela muda a todo o momento.

Não esperei muito até ele ser trazido por outros policiais, estava algemado e com o típico uniforme laranja, por um instante eu me vi no lugar dele. Isso não significava pena, apenas sabia que isso eu não queria mais pra mim. Essa vida sofrida.

Fazia algum tempo que não nos víamos desde o dia da tortura na mansão, agora ele parecia está muito pior, bem mais velho, com um olho roxo e os lábios cortados. Soube que ele se envolveu em brigas de sobrevivência aqui dentro.

:- Jorge! – Eu fui o primeiro a falar.

Ele apenas me encarava com um olhar zangado sabia que eu era um dos culpados por ele ter uma vida miserável agora.

:- Estou aqui para fazer algumas perguntas a você. Está gostando de seu mais novo lar? – eu sorri por que aquilo era engraçado, ao menos para mim. Ele fechou mais a cara e apertou as mãos em punho a qualquer momento eu poderia jurar que ele me socaria.

:- Ok, não quer falar sobre isso, então não serei sarcástico e vou direto ao ponto. Qual é sua ligação com Gonzalo?

Jorge apertou o olhar sobre mim eu sabia das minhas semelhanças físicas com Gonzalo. Ele sequer abriu a boca, eu teria que forçar a barra para que ele respondesse minhas perguntas.

:- Sabe Jorge, eu soube que essas pessoas vieram o visitar hoje. – eu falei e com o meu celular mostrei fotos que me enviaram, eram a mulher e filhos dele. Imediatamente ele tencionou os ombros e além de seus lábios os olhos também tremeram. Eu estava no caminho certo. – Você tem uma bela família, soube que eles ficaram devastados por te ver preso, fazia quanto tempo mesmo que não os via? Soube que muito tempo. O seu filho menor te jogou na cara que não quer saber nunca mais de você. – neguei com a cabeça fingindo lamento — Quanto ressentimento pelo pai bandido.

:- Escute só Alfonso. – ele começou a falar pela primeira vez. – Eu sei que você provavelmente será uma das poucas visitas que receberei, então quero que faça algo por mim.

Ele só poderia está brincando, queria algum favor meu?

:- Eu acabo de me decidir de uma vez por todas denunciá-lo, sei que no mínimo daqui uns trinta anos eu não sairei dessa prisão. Quero jogar a merda no vento logo.

:- Quem você quer denunciar?

:- Seu irmão, Gonzalo.

Essa foi a minha vez de ficar em silêncio, apenas cruzei os braços e esperei ele começar a contar o que eu tanto quero saber.

:- Eu conheci Gonzalo quando era um garoto ainda, ele deveria ter seus quinze anos, sempre foi usuário de drogas ele sempre usou as mais “leves” assim ele não era o que nós chamamos de dependentes, seu vício maior era dinheiro sempre foi. Até hoje, de usuário passou a traficante estava mais envolvido nesse mundo. Para resumir, ele era tão bom na arte de traficar que se tornou o meu “patrão”. Hoje ele é um dos melhores do país, tem fama internacional. Claro que não é conhecido pelo nome verdadeiro, é famoso por ser o Príncipe.

Príncipe das drogas, como a mídia intitulava um dos maiores traficantes do país, nunca havia uma foto para identificá-lo, não havia alguém para descrever como era esse tal homem. Tudo o que sabiam dele é que era um cruel e bonito homem e acabo de descobrir que o príncipe era o meu irmão.

:- Continue a sua história, Jorge.

:- Uma vez eu estava decidido a sair dessa vida de drogas, pararia com tudo até mesmo com os assaltos que eu praticava. Mas, Gonzalo me ameaçou eu não dei a mínima, mas quem sofreu foi minha família ele os fizeram passar por um acidente por pouco eu não perco todos. Ele tem esse lado agressivo e violento, não é a toa que ele eliminou vários rivais seus do mundo do trafico.

:- Ele já chegou a matar?

:- Sim. – disse seguro. – Friamente e sem arrependimento.

:- Qual a ligação dele com Rodrigo?

:- Eles são sócios se assim posso classificar, Rodrigo sempre foi traficante, outro que começou cedo também eles se conheceram por sua causa. — Pela primeira vez ele esboçou um sorriso por que disse algo que me surpreendeu. – Uma vez ele foi te buscar na universidade e ali conheceu Rodrigo, lembro de Gonzalo comentar que tinha encontrado um parceiro perfeito. Rodrigo além de traficante de drogas, também é de pessoas.

Isso eu já sabia, Maite tinha me contado.

:- E assim ficava dividido Gonzalo responsável pelo trafico de drogas e Rodrigo pelas pessoas traficadas.

:- Gonzalo conhecia pessoas da minha Universidade? – eu arrisquei uma pergunta, ainda não era exatamente o que eu queria saber.

:- Supostamente. Vários universitários são usuários, eu mesmo já vendi muito para eles. Até mesmo já tenha te visto entre eles. – Agora ele me surpreendeu mais uma vez. – Gonzalo comparecia as festas que você deixou de ir, só que a identidade dele era preservada.

:- Ele conhecia Felipe, meu professor? Dulce? Angelique?

:- Não que eu saiba com certeza isso terá que perguntar a ele.

:- Ele foi o mandante do sequestro de Nicole? – fiz uma pergunta referente ao meu primeiro encontro com ele.

:- Sim, ele voltou de viagem estava na Colômbia e quando voltou ficou alucinado por que descobriu que tinham reaberto um caso de assassinato eu não soube dizer por que ele ficou tão nervoso. Ele e Rodrigo, falavam constantemente da morte de um tal professor. Mas, foi ele que nos propôs a sequestrar à menina.

:- Gonzalo tem apenas você e seus companheiros como capangas?

:- Não. Ele é chefe como já disse, o maior traficante desse país, homens trabalhando para ele é o que não falta. Ele usa algumas de suas propriedades como rotas de fugas e também como ponto de drogas.

Então por isso Gonzalo usava e queria a casa na praia, ele queria expandi seu negócio ou fugir quando a investigação do caso de Felipe surgisse algo que incriminasse ele, cada vez mais eu acho que ele está envolvido em tudo isso.

:- Ele é o caçador? – Perguntei e Jorge fez uma expressão confusa a mesma quando escutou o nome de Dulce e Angelique.

:- Não sei dizer, isso deve ser algo entre vocês?! O que eu sei é que ele sempre foi reservado por isso até hoje nunca foi preso ele sabe se safar da polícia, mesmo assim é foragido. A única vez que ele mandou eu interferir na sua vida particular, foi sequestrado a bebê. Falava algo sobre um tal caçador, mas nunca nada concreto. Também não dava importância a isso ele usava suas drogas.

:- Por que desde a primeira vez que me viu, você me odiou?

:- Por que você é o irmão mais novo dele! – ele voltou a ficar com raiva. – Você me lembra Gonzalo e sabe de uma coisa eu sempre o detestei. Não é um bom líder, eu deveria está no seu lugar.

Isso explica muito.

:- Se assim que eu sair daqui denunciar meu irmão, você depõem contra ele?

:- Certamente. Eu não tenho nada a perder já que estou aqui dentro.

:- Então, Jorge prepare seu depoimento. – eu falei seguro estava decidido a entregar Gonzalo a polícia.

:- O tempo esgotou, senhores! – o policial surgiu novamente na sala, e outros chegaram também para acompanhar Jorge de volta.

:- Alfonso?

Ele me chamou assim se levantou, eu estava de cabeça abaixada refletindo, encarei logo sua tatuagem na mão e depois encarei seus olhos.

:- Sim.

:- Gonzalo sempre que se drogava, chamava pelos nomes Judite e Tadeu, eram conhecidos seus?

:- Sim. Meus pais. – respondi depois de engolir saliva.

:- Como eles morreram? – ele perguntou com um olhar malicioso e não tive a oportunidade de falar mais nada por que ele foi embora com os policiais. Assim como o outro também me apressou para sair da sala.

Eu segui pelo corredor agora limpo, sem praga, com o meu celular na mão já ligando para Dalton para me informar melhor como faria a denunciar a Gonzalo, se fosse preciso eu me identificaria, o que eu mais queria agora era ver Gonzalo ser preso ou no mínimo investigado, ele escondia muitos mistérios, fora que ambos estavam numa guerra.

E outro pensamento que não me saia da cabeça. Meus pais, por que Jorge fez aquela pergunta, eu não estava no momento que aconteceu o pior, quem me deu a notícia por sinal foi justamente Gonzalo, ele foi o primeiro, a saber, de tudo. Dona Judite e Dom Tadeu morreram num acidente de carro foi o máximo que eu soube, não quis saber de detalhes e quem resolveu toda a burocracia e o enterro dos dois foi Gonzalo.

Estava num estado profundo de luto que não conseguia sair do antigo quarto dos meus pais.

Será que Gonzalo tem a ver a morte de meus pais? Se isso fosse possível eu acabaria com ele, prisão seria pouco, muito pouco ele pediria misericórdia.

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