Dulce

Forcei meus músculos os estimulando para dar o sinal ao meu corpo que tinha despertado. E até mesmo dar o sinal para quem estivesse próximo a mim. Que estava acordada. Entretanto ele não parecia ligar e continuou o que estava fazendo.

Abri meus olhos para ter a certeza do que eu estava sentindo.

Ele estava lá, metade de seu corpo em cima do meu colocando um peso sob meu corpo, os olhos compenetrados no meu rosto ou meu corpo talvez busto, não sei estávamos falando de Poncho, então aquela cena tinha que ter algum sentido para mim.


Porque ele estava simplesmente me olhando dormir e mais que isso, parte de seu corpo estava sob o meu e com uma mão fazia cafuné em mim. Calma, estou falando de Alfonso Herrera realmente?

:- O que está fazendo? – tive que perguntar estranhando.

:- Te olhando dormir. – ele continuou o que fazia, acariciando meus cabelos como se eu ainda estivesse dormindo, como se não importasse se eu estivesse acordada ou não.

:- Por quê?

:- Eu tive vontade. – deu um ombro como se essa cena fosse normal de um casal e ele fizesse isso todas as manhãs. Fazia muito tempo que eu não via aquele olhar novamente em seus olhos. O mesmo olhar que ele tinha quando olhava crianças.

Ele fez uma carícia mais intensa nos meus cabelos, quando voltou apertou os dedos e puxou de uma forma que me fez fechar os olhos. Não de dor, mas de aprovação, ele sabia ter as mãos macias quando queria.

:- Dessa forma eu vou voltar a dormir. – falei suspirando resignada pensando na ideia de ficar mais tempo assim com ele, por mais estranho que aquilo me parecesse.

:- Eu não me importaria, mas tenho uma reunião hoje vamos fechar com o novo patrocinador eu fiquei encarregado. – ele desceu a mão dos meus cabelos para o meu rosto sempre acariciando, eu sentia sua respiração de perto e ela era tão tranquila. Ele parecia estar me reconhecendo com cada toque.

:- Eu não te entendo. – disse a ele me referindo a suas ações, abrindo os olhos e o vendo de perto, contive minha mão que tinha vontade de retribuir cada toque que recebia dele... Carinhoso?

:- Existem coisas que não se devem entender apenas sentir. – ele finalmente olhou em meus olhos, devo dizer que não reconheci aquele Poncho sereno que acordou do meu lado, quando fechei os olhos estava o Poncho enlouquecido que sequer me deixava respirar.

Agora ele continuava com suas carícias, porém olhando nos meus olhos sabia que eu estava completamente confusa. Ficamos assim no silêncio até o seu celular tocar e ele finalmente sair de cima de mim.

Aproveitei para me espreguiçar enquanto o via apenas de samba canção caminhar pelo meu quarto e falando no telefone em italiano, me encostei na cama e fiquei apenas observando aquela ligação trouxe Poncho novamente para a realidade, por que apagou qualquer vestígio do homem carinhoso e sereno de minutos atrás.

:- Eu tenho ir estou atrasado. – ele encontrou sua calça e a colocou amassada mesmo.

:- Sabe que hoje não vou para a agência verdade. – disse para lembrá-lo.

:- Sei. – ele me olhou rápido e subiu o zíper da sua calça enquanto colocava a camisa social rosa amarrotada aberta mesmo. – Posso perguntar o que vai fazer?

Tive vontade de rir da curiosidade dele demorei alguns segundos pensando se contaria a verdade ou não.

:- Resolver os meus problemas. – Disse apenas e ele levantou o rosto para me olhar sério, sabia que eu não contaria a ele, sabia que cada um com os seus segredos. Ninguém era dono de ninguém. – Hoje a noite vou sair para dançar.

:- Então não vai para o meu quarto?

:- Não. Nem você vem ao meu. – disse clara.

Ele me olhou levantando uma sobrancelha sabia que aquilo significava que encontraria algum homem para me divertir, sexo casual, nem eu, nem ele deixamos de fazer isso. Só se tornava estranho por agora estarmos mais envolvidos. Eu sabia que ele me descontaria essa, pagaria com a mesma moeda.

:- Ok. – foi o que disse e voltou a se arrumar, guardou o seu celular no bolso e veio ao meu encontro. – Tenha um bom dia. – E me deu em seguida um beijo de tirar o fôlego talvez fosse uma forma de me mostrar o que eu ficaria sem a noite toda.

Quando sentiu que eu queria mais, quando já tinha uma mão em seu peito e outra puxando o seu cabelo para ele vir mais ao meu encontro, ele se soltou de mim. E simplesmente foi embora do meu quarto, sem mais nem menos. Como eu suspeitava ele pagaria com a mesma moeda, só que ainda me devolveria o troco, me deixar acesa de manhã era pouco para ele.

‘●’

Quase ajoelhei no chão daquele banheiro e dei graças o que seria totalmente ridículo vindo de uma pessoa como eu. Descrente.

Me olhei rindo no reflexo do espelho, sorriso esse que foi cortado quando a porta do banheiro se abriu e eu a vi. Não que isso significasse que meu descanso acabou e sim que meu mal humor viria com força total.

:- Boa Tarde. – ela disse educada no espelho ao meu lado e começou a arrumar seu cabelo.

Será que eu estava em vantagem? Não tinha essa certeza, ela poderia ser bem mais esperta do que eu poderia julgar. Eu tinha que arriscar.

:- Boa tarde minha jovem.

E ela sorriu e se virou para mim.

:- Vamos sair daqui e tomar um café? Eu tenho que te contar algumas novidades, Clotilde! – e agora ela sorriu de verdade, eu sabia que com Maite eu não poderia deixar abaixar a minha guarda.

Ponderei antes de aceitar o seu convite, eu realmente queria saber algumas verdades sobre essa mulher, além do que tinha uma curiosidade grande em saber como ela estava aqui no Elite Way e por qual razão!

No caminho até o estacionamento pude observar de longe que ela cumprimentou Eugênio no corredor, ele não fez nada não retribuiu o aceno e também não estranhou.

:- Está indo embora Dona Clotilde? – ele me perguntou amável.

:- Sim, meu filho tenho que pegar meus netos na escolinha. – fui gentil também me lembrando que estava na pele de Clotilde. Ele apenas deu um aceno se despedindo, aquele dia particularmente ele estava mais abatido. Será que está sentindo falta da amada?

Pronto, Maite e eu estávamos em um café distante da universidade, não queríamos ser vistas juntas, eu já estava sem o disfarce da bondosa Clotilde.

:- Você é muito boa no que faz. Excelente. – Maite me olhou rindo se divertindo. – Eu não te reconheci como Clotilde. Se Poncho não tivesse me dito, eu não te reconheceria no seu disfarce. – tinha uma expressão impressionada.

:- Onde está querendo chegar?

:- Apenas estou te elogiando, Dulce. – falou como se fosse óbvio.

:- Eu sei das minhas qualidades e não preciso de seus elogios, sabe que não gosto de você. – fui clara.

:- Sim eu sei. – ela deu uma pausa e pegou o seu café para tomar um gole demorado. – E ao contrário de você sei admirar as qualidades das pessoas, mesmo que estas sejam minhas rivais ou inimigas, na realidade a razão de ter te chamado para essa conversa é para propor uma trégua.

Cruzei meus braços aquela mulher era um caso a parte, se não sentisse tanta raiva dela eu poderia rir.

:- Eu tenho um interesse particular em saber quem é o assassino de Felipe e creio que esse tal caçador que vive mandando mensagens anônimas a você e a Poncho, são a mesma pessoa, talvez Poncho não tenha te mostrado, mas caçador enviou esse bilhete a ele.

E ela abriu a bolsa e me passou o papel dobrado com letras impressas.

Então quer dizer que de dupla dinâmica, agora são um trio? Os mosqueteiros? Será que estão seguros do que estão fazendo eu vejo a chegada de Maite como manifestação do medo. Vocês estão com medo de mim. A questão é, vocês conseguem admiti-lo?

Caçador.

Passei minha mão no rosto esse bilhete só mostrava o quanto caçador estava atento a tudo.

:- Ele acha que nós três estamos juntos. – disse em voz alta.

:- Exatamente, apesar de bem informado ele não sabe de tudo, porque senão saberia que nós não nos damos bem.

De fato, ela tinha razão talvez caçador não saiba de tudo, mas a questão era, até onde ele sabia?

:- Por isso que sugiro ele deve acreditar o que já esta pensando. – deixei de olhar o bilhete para olhá-la. – Ele deve pensar que estamos juntos nessa, eu você e Poncho. Não estou te propondo algo tão absurdo.

:- Como não? – coloquei minhas mãos sobre a mesa, tentando esquecer que eu tinha vontade de enfiar minhas mãos no rosto de Maite e rasga-lo deixar marcas para que ela não brincasse comigo.

:- Isso já está acontecendo, eu já ajudo Poncho e só falta ajudar você diretamente, Dulce não estou te propondo para dividir Poncho ou algo do tipo, apenas que você deixei eu entrar para o time de vocês.

É claro que você está insinuando eu dividir Poncho com você, não teria essa audácia, sabia do perigo que eu poderia ser. Pensei. E voltei a respirar fundo eu tinha que ser racional mesmo que aquela mulher me desse nos nervos.

:- Eu não confio em você.

:- Mas, Poncho sim. E você confia nele. – ela era uma boa jogadora e tinha bons argumentos. – Eu tenho certeza que se unificarmos nossas forças, conseguiremos descobrir quem foi o assassino e esse tal caçador. Não estou pedindo para que sejamos amigas, Dulce, e sim parceiras.

Independente de tudo, da minha raiva por aquela mulher eu tinha que admitir que ela era inteligente e serviria de uma ajuda e tanto, Poncho não é burro ele sabe em quem confiar e se ele confiava em Maite, isso contava ao seu favor. Aceitar ela em nossa vingança seria apenas um adicional, serviria muito mais como uma ajudante.

Além do que ajudaria enganar caçador. Eu tinha que pensar racionalmente e meu lado racional me dizia que eu deveria confiar nela. Amante do meu aliado deveria ser minha parceira?

:- Eu aceito sua ajuda. – disse as palavras com receio. – Mas, ainda estou de olho em você e qualquer vacilo seu, será seu fim.

:- Fez uma ótima decisão. – ela sorriu convencida. – E nesse caso eu posso lhe tirar possíveis dúvidas, não todas afinal cada um tem os seus segredos e pecados consigo não é mesmo? Vamos lá o quer saber de mim?

Aquela era minha chance de avaliar Maite. A minha parceira e minha rival.

:- Quer dizer que você não é daqui da capital? Não veio de família rica?

:- Sim, eu sou de Puebla e definitivamente não venho de berço de ouro como você, por exemplo. Talvez seja isso que eu tenha me simpatizado com Poncho, nós dois somos de famílias pobres. Apesar de que eu sou caipira. – ela riu.

:- Porque você acha tudo engraçado?

:- Porque eu aprendi a sorrir e a rir de tudo. Eu não tenho mais humanidade Dulce. – falou de um modo sério e reconheci algo nela. Uma malícia, não no sentido sexual, mas no sentindo de maldade mesmo. Ela era do tipo de pessoa que matava os outros rindo.

:- Quando você perdeu sua humanidade?

:- No passado. – permaneceu séria. – Por um homem. Não pergunte mais, por que vou entrar em questões particulares o que não é o foco agora. – me avisou. – Mas, é engraçado por que não é a primeira vez que venho a capital.

Ela disse desviando do assunto.

:- Já veio aqui antes?

:- Sim. Seria irônico dizer que Felipe ainda estava vivo? – ela mencionou o nome do morto e me fez ficar mais interessada na conversa, me lembro de Poncho querer contar sobre Maite, mas eu não quis lhe dar ouvidos. – Pois é, eu conversei até com ele, uma semana depois de encontrá-lo na faculdade mesmo, ele foi assassinado. – ela fez beiço forçando uma expressão triste.

O que aquilo queria dizer? Será que ela estava falando a verdade? Por que mentiria? Seria Maite a assassina de Felipe, ela mesma disse que no passado um homem lhe arrancou sua humanidade e esse homem poderia ser muito bem Felipe.

:- E não. Eu não sou a assassina de Felipe e tenho como provar isso. Na noite do assassinato, eu estava em Monterrey! Presa! – revelou e me surpreendi, aquele era um álibi que não teria como contestar. – É ridículo como alguns homens nos fazem cometer bobagens, não é verdade? Foi o meu caso, por culpa de um imbecil eu fui presa aquela noite, mas acho que devo agradecê-lo no final das contas.

:- Poncho não confiaria tanto em você, se fosse à assassina ele já teria te enforcado. – comentei e por fim me lembrei de algo. – E você já conhece Eugênio?

:- Sim. Foi na época que estive a primeira vez na capital, foi numa festa ele que me ajudou a encontrar Felipe. Posso te confessar algo sobre minha vingança particular? Felipe era um dos homens dos quais eu me vingaria, eu o mataria se já não estivesse morto. – e como uma psicopata ela sorriu para mim. Confesso que tive vontade de rir, mas eu fiquei por um momento com medo.

:- Não foi então apenas um homem que te machucou no passado?

:- Não. Felipe foi um deles.

:- Você quer se vingar de um homem? Ele está vivo?

:- Hmm. – ela ponderou antes de me responder. – Sim.

Ela respondeu qual das minhas perguntas? Provavelmente a primeira, agora e se fosse à segunda? De qualquer forma seria um homem, eu fui clara na segunda pergunta. Mais esse homem poderia está morto e ela querer se vingar de parentes e no caso, esse homem poderia ser Felipe.

São muitas possibilidades para poucas respostas aquilo estava ficando interessante.

:- Vamos ao assunto que realmente me interessa. – ela disse pedindo um outro café para ela. – O seu disfarce é sublime, conseguiu encontrar pistas ótimas o difícil está resolver esse problema. Pelo que pude notar no Elite, ele é feito por dois sistemas de segurança, o primeiro que é antigo e outro de última geração. O segundo deve cobrir o primeiro. – ela pensava em voz alta e tinha um raciocínio claro.

:- Eu consegui algumas fichas de possíveis suspeitos, você e Poncho já viram, o problema é que deve ter bem mais arquivos dos quais eu não tive acesso ainda.

:- Entendo. Mas, deve ter algum outro caminho que podemos usá-lo, os seus ex- colegas de classe já foi usado. Talvez... algum parente, não sei, já tentaram familiares? Esqueci de perguntar isso a Poncho.

:- Para ser sincera, não consideramos a possibilidade, porém é muito mais difícil.

:- Vocês conseguiram acabar com o noivado de Angelique e Eugênio, o que pode ser mais difícil do que derrotar um sentimento supostamente verdadeiro?

Ela estava certa. Acontece que Poncho e eu ficamos focados em acabar com esse noivado que quando conseguimos, esquecemos de pensar nessa vingança com clareza. Nesse caso existem alguns parentes.

:- Gonzalo. – falei.

:- Quem é esse? – ela perguntou confusa tomando o seu café fumegante. E eu quase não tocava no meu capuccino.

:- Irmão de Poncho.

:- Poncho tem irmão? – ela perguntou. Apenas assenti com a cabeça. – Dessa eu não sabia.

:- Gostoso por sinal. – tive que comentar, por que eu não tive ninguém para dizer isso. – Eles são parecidos, mas o irmão dele é um imbecil dos grandes, fora que sequer sabia da minha existência ele acredita na culpa do irmão.

:- Será? Acho que ninguém pode ser descartado, está claro que alguém está mentindo e essa pessoa pode ser tanto o caçador como o assassino.

:- Nesse caso temos Gonzalo, Alma mãe de Eugênio, Ceci minha irmã, mas essa é carta fora do baralho era muito nova e por ela coloco mão no fogo... – forcei minha memória para lembrar de parentes que pudesse ter alguma ligação com o assassinato. – e Giovanni! – conclui arregalando os olhos. E ela soube que tinha lembrado de algo interessante.

:- O que houve lembrou de algo relevante?

:- Sim. Senhor Giovanni, pai de Angelique eu não vi mais ele desde que fui presa. Onde será que ele está?

:- Acha que ele pode ter alguma informação?

:- Talvez. Mas, agora temos mais suspeitos para investigar, Gonzalo, Alma e Giovanni. – falei e anotei mentalmente tinha que começar essa investigação o quanto antes. – Fora os que já temos, Rodrigo por exemplo.

:- O que tem ele? – ela perguntou mais concentrada.

:- Eu não acho nada sobre ele. Nada do que eu não saiba ou do óbvio. Ele é um mistério para mim. E sei que tem algo de muito esquisito nele.

:- Não descarte ninguém. Todos são suspeitos.

Eu tenho que conversar com você.

Eugênio.

Recebi uma mensagem de Eugênio, desde que ele terminou o noivado com Angelique fazia três dias que não me procurava. Não sabia como interpretar aquela mensagem, só sabia que deveria ir ao seu encontro.

Quando pensava no que dizer a Maite levantei minha cabeça e encontrei um olhar avaliativo.

:- Eu tenho que ir embora. – falei clara sem dar satisfação nenhuma a ela. Não merecia antes, menos ainda agora.

:- Eu tentei te explicar do modo mais difícil e você não entendeu ou insiste em não entender, mas posso falar e repetir do modo mais fácil. Não se envolva sentimentalmente na vingança, emoções geram falhas.

Ela não poderia prever minhas ações, ela não me conhecia.

:- Você pode enganar a Poncho, mas enganar uma mulher é bem mais complicado ainda mais uma mulher como eu, ou como você, — ela comentou sabia que comentava sobre sermos expert em mentir — sei que não vai largar Eugênio. Cuidado, Dulce.

:- Não é porque aceitei você como parceira, que vou permitir você dando palpite na minha vida. Eu sei o que estou fazendo. Até algum momento Maite.

Me levantei sem tomar meu capuccino peguei minha bolsa e andei até a porta do café, que estava num movimento tranquilo de clientes. Foi já da porta que a escutei falando em alto e bom som.

:- Será que sabe mesmo o que está fazendo? Erro a essa altura do jogo pode ser fatal.

‘●’