Víctimas Del Pecado
8 Dulce - 3
Dulce
Quer dizer que as caças estão brincando de caçadores?
Caçador.
Olhei bem o bilhete e reli aquela frase curta que causou mais reações contraditórias do que qualquer outras. Me lembrei do outro bilhete e fui pegá-lo na minha bolsa.
Vocês dois juntos, quem diria, vocês sabem mesmo onde estão se metendo? E melhor confia tanto nele? Afinal, um homem que te trocar por um caso, merece sua total confiança?
Caçador.
Era muita ousadia. Quando tinha recebido o segundo bilhete naquela noite do jantar com Poncho, fiquei na dúvida, comecei a me questionar sobre Poncho, afinal ele era muito misterioso. Mas, ao receber o outro essa manhã me dei conta de tudo.
O caçador estava jogando comigo, queria me colocar contra Poncho e neguei com a cabeça isso não aconteceria. Nada atrapalharia nosso pacto, nada, não me separaria de Poncho tão cedo.
:- Oi, cheguei. – Por pensar nele, ele apareceu. – Por que tínhamos que ter marcado tão cedo? Eu quase não acordo.
Sabia que ele tinha dormido fora, provavelmente outra puta e pelas olheiras que ele tinha não deveria ter dormido a noite inteira estava com a aparência de cansaço.
:- Se quer se divertir, se lembre que temos nosso compromisso. – Eu poderia ter sido grossa com ele, como muitas vezes eu era, mas me contive. Levei minha mão até o cabelo desgrenhado dele e tentei arruma-lo.
:- Tudo bem, eu estou aqui. – vi que ele estranhou minha atitude. E desviou o olhar para minha mão. – O que é isso?
:- Bilhetes que eu recebi. – eu sem perceber amassei eles na mão.
:- Caçador? – ele me perguntou sério, pegando os bilhetes de mim. E eu me surpreendi como ele sabia? Ele leu em voz alta os bilhetes ficando cada vez mais sério.
:- Eu também recebi bilhetes dele. – Olhei a expressão dele mudar completamente, da seriedade achando graça. – Antes quando lia os bilhetes com ameaças indiretas me davam raiva, por que contém um sarcasmo, ele sabe mexer nas nossas feridas. Só que agora me dão raiva, parece que ele está com medo. – ele me olhou sorrindo.
:- Concordo. – comecei a andar ou tentar por que eu inventei de sair de salto. E logo senti sua mão segurar meu braço e fez com que o meu cruzasse com o dele, indicando que seria meu apoio, achando graça. – Mas, tem algo errado.
:- O que? – Começamos a caminhar pelo parque.
:- Por que não me contou sobre os bilhetes, você recebeu antes de mim.
:- Por que eu queria investigar, como eles chegaram e pior quem mandou.
:- Isso não pode acontecer, contar esses fatos, é importante para nós dois e para nossa união. Não que devamos contar exatamente tudo, mas algo assim, não deveria ser escondido.
:- Eu sei, eu sei. Pensei que poderia cuidar disso sozinho.
Ele continuava me guiando pelo parque, enquanto conversávamos e meus pés começaram a reclamar pelo tempo considerável andando e nada, eu resolvi reclamar.
:- Tem certeza que é esse parque, Alfonso? – olhava para os lados um grupo de corredores, todos homens sem camisa passavam correndo, suados. Interessante, muito interessante.
:- Tenho. – Poncho me chamou a atenção, se não tivesse de salto e procurando nosso alvo, eu teria seguido na direção oposta por onde os corredores corriam, sumindo da minha vista.
:- O parque é muito grande ou nós estamos dando voltas pelo mesmo lugar? – Olhei para frente.
:- Para de reclamar Dulce María. – ele brigou comigo, me fazendo olhar para ele indignada.
:- Não é você que está num parque com salto alto há alguns centímetros do chão. – Não evitei ser irônica.
:- Fica quieta, já encontramos o que, queríamos. – Ele sorriu olhando para um lugar e eu acompanhei com o olhar.
Perto de um lago ali estavam Alma, Angelique e Enzo, estavam fazendo uma espécie de piquenique essa coisa típica de família. Entediante. Então as informações de Olívia estavam certas, o casal brigou na noite passada e isso explicava, ou não a ausência de Eugênio na cena patética.
:- Cadê o líder da família? – Poncho perguntou rindo. – Parece que a briga foi feia, para ele não os acompanhar nesse passeio.
:- Isso é bom ou ruim? Eu tinha preparado minha lista de piadas e ironias para dizer quando encontrasse Eugênio hoje, só para vê-lo irritado. – Olhei Poncho a tempo de vê-lo revirar os olhos, era sempre assim quando o nome Eugênio saía da minha boca.
:- É algo curioso. A relação do casal não é tão forte e sólida como aparenta ser.
Apenas balancei a cabeça concordando e essa sim era uma informação importante, talvez até valiosa para mim. Poncho ainda não sabe, mas estava pensando em como quebrar esse elo que liga Angelique e Eugênio, ou seja, esse noivado.
Ficamos afastados apenas observando esperando o momento certo ou não para aparecer, e veio esse momento oportuno, Enzo se juntou com algumas crianças para jogar futebol, próximo da onde estava a mãe e a avó.
:- Vai jogar com o garoto, Poncho. – Eu o empurrei para que ele fosse.
Vi Poncho se aproximar com cuidado da onde os garotos jogavam, vez ou outra olhava para ver se Angelique estava olhando, por que se ela percebesse que Poncho estava próximo de seu filho, arruinaria tudo. Eu encontrei um banco para sentar e de lá eu tinha a visão tanto de Poncho e Enzo quanto de Angelique e Alma.
Como Angelique era tola, não pude deixar de rir, se Poncho ou eu quiséssemos fazer algo de ruim para seu filho, faríamos e seria tão fácil por que além de tudo ela facilitava. Estava tão entretida com a conversa com Alma que cada vez menos deixava de olhar para Enzo.
Nem Alma, nem Angelique percebeu que o jogo acabou e que fazia alguns minutos que Poncho conversava com Enzo. Arqueei a sobrancelha enquanto via Enzo voltar onde estava a mãe e Poncho começar a andar, talvez disfarçando.
Enzo conversava animado, era visível certas características de Angelique, são mãe e filho e isso era notável, mas eu não conseguia relacionar o menino com Eugênio.
:- Bu! – Poncho falou no meu ouvido e confesso que dei um pequeno pulo pelo susto, ele deu a volta para chegar onde estava sentada e revirei os olhos ao vê-lo sorrir. – O menino me surpreendeu.
:- Por quê?
:- Confesso que esperava que ele fosse irritante para uma criança da idade dele, ainda mais por conviver com Eugênio. Ao contrário do que eu imaginava é uma criança inteligente, desconfiada, demorou para ele ter confiança de conversar comigo, porém é inocente e eu consegui confirmar meu instinto. Ele não é filho de Eugênio.
Deixei de olhá-lo para voltar a ver a cena em família, Angelique agora fazia o que parecia ser cócegas em Enzo. Eu também pensava assim, e com essa conversa pretendíamos descobre na realidade quem era o pai de Enzo.
:- Quando eu namorava com ela, cheguei a sonhar em ter uma família assim. Passear, descansar, se divertir num parque, ficar com ela vendo nossos filhos brincarem. – ele começou a falar numa voz estranha, nostálgica e olhei para ele surpresa, era o primeiro rastro de sentimentalismo que presenciava Poncho expressar. – Enquanto conversava com Enzo e imaginei que se não fosse tantos acontecimentos, ele poderia ser meu filho.
Estava concentrado no que mãe e filho fazia, eu estava tão surpresa por ver um Poncho mais humano que só o encarava, era diferente do provocador, calculista, estrategista, mulherengo que eu conhecia.
:- Eu amei muito essa mulher. – ele suspirou brevemente e apesar de tudo ele não tinha pesar. – Se ela quisesse eu teria dado tudo para ela, teríamos uma vida juntos, só que depois da traição dela eu só consigo pensar e viver para destruí-la. – E um olhar sombrio voltou a tona, pisquei duas vezes para me certificar de que o Poncho que conheci antes tinha desaparecido.
Eu o entendia, esse momento de reflexão e imaginação, já tive os meus. Tantas coisas poderiam ter acontecido, eram tantos “se” que enlouqueciam o que me tornei hoje, ás vezes batia de frente com o que um dia já fui, porém a minha única razão hoje era a vingança. Nada me deteria.
:- O menino tinha algo familiar... – Poncho voltou a falar, vendo que eu fiquei calada depois de sua declaração, e o vi olhar para cima como se tentasse se lembrar de algo.
:- Poncho, daqui eu vi que o garoto tem o jeito de Angelique, até mesmo de Eugênio, é comum na educação, na convivência.
:- Eu sei, mas eu.. – ele fez uma careta por que não conseguia se lembrar, e eu dei os ombros, ele devia está confundindo. – Ok, deixa isso para lá, certo o garoto gosta de jogar futebol, é inteligente e divertido. E o mais curioso que consegui descobrir.
:- O que foi? – tentei colocar numa balança o que ele dizia sobre Enzo.
:- Tem sete anos. – Poncho sorriu ligeiramente.
Sete anos? Muito interessante, segundo o que nós sabemos por Olívia Angelique e Eugênio moravam juntos há três anos, há dois namoravam, estavam juntos há cinco anos oficialmente. Esse filho não poderia ser de Eugênio, por mais que ao que parece eles fossem um casal ioiô, o que tínhamos que descobrir era quais foram os caras que Angel se envolveu além de Eugênio.
E eu ri por que lembrando da faculdade como eu lembrava, não deveria ser poucos, antes dela namorar Poncho, eu até a defendia dizendo que ela era namoradeira e que estava no direito dela de conhecer quantos caras quisesse. Porém, com o tempo percebi que ela era uma puta mesmo.
:- Isso quer dizer que temos mais pesquisas para fazer. – Eu disse negando a Poncho meus pensamentos, ele ficava ainda incomodado, apesar de me divertir ao vê-lo irritado.
:- Acha que devemos ir até onde estão e dar nosso ar da graça? – Me perguntou.
Voltei a olhar os três.
:- Não. – Eu neguei com a cabeça. – Angelique ainda é a inimiga, não devemos mostrar todas nossas cartas, o jogo se torna previsível, honesto. Mas, eu gosto de ter surpresas e truques para surpreender inimigos. – Sorri olhando para Angelique sorrindo por ver o filho imitando a avó.
Sorria, enquanto pode amiga.
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