Vício M(eu)
12 Capítulo 11 - Girl Magia.
Notas iniciais
Capítulo 11 – Girl Magia.
Metade de minhas roupas já está organizada dentro do closet, que com toda certeza é muito maior do que o necessário levando em consideração o número de minhas peças do vestuário. Zack me largou rapidamente depois do abraço e voltou para o seu quarto, está trancado lá há horas e não sei bem o que devo fazer quiçá se devo fazer alguma coisa.
Estou cansada e o nervosismo está menor. O futuro que me espera de baixo desse teto me dá calafrios e estou evitando pensar nele. Meu plano A é simplesmente respirar, comer e dormir, negando qualquer tipo de interação com qualquer ser vivo daquela casa, com exceção é claro, de John.
É por volta das 21hr e Sheron acaba de me mandar um torpedo avisando que ela e Dilan ficarão além do expediente. Isso não me surpreende, esse tipo de mensagem já é algo de meu cotidiano, o que me surpreende é o modo como minha mãe está lidando com tudo isso, tratando com naturalidade o fato de estarmos nos mudando para a casa de seu patrão, que na verdade é namorado ou alguma coisa mais séria que isso.
Resolvo deixar para organizar todo o resto para algum outro momento de minha vida e vou tomar um banho rápido. Saio do banho sem me preocupar em secar meu cabelo, meu cachos ficam alegremente pingando resquícios de água enquanto coloco um short preto e uma regata longa branca, ficando descalça.
Penso se posso me dar a liberdade de descer e fazer algo para comer quando a campainha toca uma, duas, três, oito vezes seguidas. Engulo meu constrangimento e me encaminho à porta da casa. Estou na metade da escada quando vejo Emi cruzando a sala de estar apenas com uma lingerie preta e um pote de sorvete de chocolate na mão. Rio da cena e fico feliz por pelo menos uma de nós duas estar se sentindo a vontade no novo lar.
Só agora reparo melhor na casa, Emi está despojadamente jogada num longo sofá de coro preto com almofadas brancas. Algumas obras de arte contemporâneas enfeitam as paredes da sala de estar, tornando o ambiente em algo moderninho e meio artificial, o lugar em si não me agrada de jeito nenhum.
Levo minha mão à maçaneta meia lua da porta cinza e não olho no olho mágico para ver quem me aguarda do outro lado. O que faz com que eu me arrependa profundamente, pois assim que abro dou de cara com o time titular de futebol inteiro do colégio.
O garoto alto, loiro, de olhos azuis, forte, com aquela beleza estereotipada que não por acaso é o capitão do time, namorado de Sofie e faz com que todas as garotas da escola pensem nele tomando banho depois do treino, se chama Jake e está me olhando com um riso sacana, ao invés de um olhar confuso, porque esse está em mim.
–– É... Emily, esse é o meu time. Meu time, essa é Emily. –– ouço a voz de Zack atrás de mim, viro apenas o rosto e encontro o leitor de poesias molhado e apenas com uma toalha envolvendo a sua cintura, exibindo o seu tanquinho, seus músculos e o seu peitoral.
Com minha visão periférica vejo Emi estática, segurando uma colher no meio do ar, que me dava à impressão que iria para a sua boca, visto que há uma bola de sorvete caída em seu colo, e seus lábios estão abertos.
Volto minha visão para encarar o time novamente, enquanto reflito se dou “oi” ou não quando percebo os olhares dos garotos indo de meu cabelo molhado para o corpo molhado de Zack. Call, que está logo atrás de Jake e ao lado de Luke, que tem cabelo preto e olhos azuis, começa uma risadinha sacana que é acompanhada pelos amigos.
–– Acho melhor nós irmos para minha casa hoje, já que o nosso amigo tá meio ocupado, galera. –– o capitão fala e as risadas continuam.
Se Zack fosse outro e eu fosse uma dessas líderzinhas, é provável que sua fala seria: “Que nada rapazeada, o trabalho aqui já acabou e a princesinha tá de saída!” seguido de um tapa na minha bunda, que supostamente seria o triplo do que é a minha de fato. No entanto, Zack é um leitor de poesia, eu sou eu e ele está visivelmente sem saber como agir. Bem, meu caro novo irmãozinho, nesse exato momento temos isso em comum.
–– Cala essa boca Jake! Não tem nada entre mim e Emily. –– o garoto enrolado na toalha fala.
Eu, voluntariamente dou espaço e o time todo entra.
–– Sendo assim, nossas sinceras desculpas, loirinha, é claro que uma garota igual a você nunca daria chances para o Zack. –– Call fala e os amigos emitem sons que me parecem ser de concordância com fala do menino.
Dou um sorriso amarelo e saio à francesa subindo rapidamente para o meu quarto. Emi vem logo atrás de mim.
–– Tem toda aquela homarada lá em baixo com o teu boy magia só de toalha e vamos ficar aqui trancadas? –– ela fala com incredulidade e enfia uma colherada de sorvete na boca. Seu batom vermelho está levemente com um tom de marrom, por causa do sabor da bomba calórica.
–– Eu não faço parte do círculo da homara e também não tenho nenhum boy magia. –– digo meio depressiva, porque apesar do vocabulário não remeter a nenhuma profundidade emocional, fico chateada ao ouvir aqueles sons de felicidade e bagunça que os adolescentes fazem e saber que não me encaixo ali. Nem ali, nem em lugar algum.
–– Não faz, mas poderia perfeitamente fazer. E se você não tem um boy magia é porque você não é uma girl magia. –– Emi fala e eu compreendo o que ela quer dizer, o que me faz ficar muito mais chateada e olhar para o chão –– Mas pode perfeitamente se tornar uma. –– completa Emi, levantando meu queixo com sua mão.
Ouço duas batidas na porta de meu quarto. Meu coração dispara, apenas para variar, mas eu o ignoro e a abro a porta.
–– Eu vim me desculpar, pensei ter ouvido o seu chuveiro ligado e quando ouvi a campainha tava no meio do meio banho, então só peguei uma toalha, pensei que voe ainda estivesse no banho. Se eu soubesse que você não tava mais no ban... –– Zack, já vestido, começa a falar e estranhamente me parece realmente envergonhado.
–– Zack. –– o interrompo. –– Está tudo bem. –– ele ri. –– Mesmo.
–– Bom, sendo assim... –– ele dá um riso, o que ele e Dilan têm em comum. –– É... a gente vai pedir uma pizza, qual sabor você prefere?
–– Ah, eu não quero, não estou com fome. –– falo rapidamente e vejo Emi me fuzilar com os olhos.
–– Vai recusar uma pizza? –– Zack franze a sobrancelha, mostrando espanto. –– Você é de que planeta? –– e ri. Eu também rio, mas não falo nada.
–– Se mudar de ideia, vamos estar lá em baixo. –– ele completa.
–– Está bem. –– digo e ele volta para a sala, com os seus amigos.
Caminho pé por pé e me sento no último degrau da escada, onde dá para ouvir perfeitamente o que conversavam e com muito cuidado, conseguia até enxergar alguns deles.
–– Ah, a loirinha não vem? Tá vendo, vocês espantaram a menina! –– Call diz. –– Mas, conte-nos mais, meu caro Zack, de onde ela e a mamãe vieram? Ela vai estudar no nosso colégio?
–– Na verdade, ela já estuda no nosso colégio.
–– Já se matriculou? –– Luke pergunta com ar de pesar. –– Ah, mas ela ainda precisa de um guia não é? A escola é muito grande, com muitos corredores, aquilo lá parece um labirinto! Ela vai acabar se perdendo... –– o jogador usa uma ironia sacana e o time inteiro cai na risada.
–– Não caralho, ela estuda lá tipo desde sempre. –– repentinamente o tom de voz e a postura de Zack sofrem uma drástica mudança.
–– Não acredito. –– agora quem fala é um garoto de cabelo castanho e olhos de mel, que não sei o nome –– Uma boquinha daquelas não passaria despercebida pelo papai aqui. –– ele se joga para trás no sofá e repousa as duas mãos no pescoço, com um sorriso cafajeste no rosto.
Sinto nojo do seu jeito, entretanto levo minha unha do dedão de minha mão direita à boca e começo a roê-la entre um sorriso surpreso. Eles me acham... Bonita?
–– Não vai me dizer que ela faz parte do grupinho das esquisitonas das Isabela Arcker? –– o mesmo garoto continua.
Isabela Arcker é a líder da liga da matemática feminina do colégio. Há três anos, ela e mais seis ou sete meninas se revoltaram pelo fato de só garotos serem convocados para as maratonas de matemática intercolegiais, então elas se uniram, estudaram até virarem números e hoje, são sempre selecionadas, além de, é claro, sofrerem muito bullying, no entanto serão muito ricas.
–– Não, ela não é uma Arcker. É a bibliotecária. –– Zack diz meio sem saber como dizer. Meu coração se aperta.
–– Bibliotecária? –– Call enruga a testa. ––Temos uma biblioteca no nosso colégio? –– enruga a testa. –– Desde quando? –– enruga a testa.
–– Deixa de ser ignorante Call! –– o mesmo garoto de olhos cor de mel volta a falar. –– É óbvio que temos uma biblioteca, onde você acha que guardam todos aqueles armários fodidos? –– o time dá uma breve risada. –– O que me entristece é pensar naquele anjinho mofando lá.
Tenho plena consciência do desprezo que os alunos sentem pelo meu pequeno reino, mas isso não me impede de deixar de sentir constrangimento, nervosismo, receio, ou qualquer outra coisa que sentia para dar lugar à raiva. Queria descer aquela escada e soqueá-lo com todas as minhas forças.
–– Vamos ver pelo lado bom, galera. –– um brutamonte loiro de olhos verdes apagados fala. –– Se ela fica o tempo todo lá, isso quer dizer que supostamente, ela ainda é... –– ele deixa a frase no ar para os amigos completarem, no entanto todos ficam com um sorriso idiota na boca aberta, o olhando com expectativa de uma piada qualquer para uma nova onda de risos iniciar. Todos, menos Jake.
–– Lacrada, porra! –– ele grita e a equipe inteira faz barulhos em comemoração. Zack, ergue o braço pro alto e dá um risinho sem graça, não parece à vontade ao fazer aquilo, mas o faz.
Levanto do degrau e corro para o meu quarto. Entro no banheiro e jogo água fria em meu rosto. Estou vermelha de tanto ódio, possessa. Se eu pudesse iria lá em baixo e castrava-os. Todos eles, um por um.
Já chega desse sistema estereotipado, desse comportamento patético. Já chega de todo mundo achar que isso é normal, é legal. Já chega principalmente de pensarem que a biblioteca é lugar para guardar armários danificados. Já chega do anjinho aqui ser quem é.
–– Emi! –– grito e no segundo seguinte ela está ao meu lado.
–– Nós vamos fazer aquele teste. –– arqueio minha sobrancelha esquerda e falo com convicção.
Ela sorri sacanamente.
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