Utopia

27 Capítulo 26


Escutei o carro sendo ligado atrás de mim. Antes que eles tivessem tempo de dar partida no motor e acelerar o automóvel, cruzei um terreno baldio sem nem ver onde pisava e, quando cheguei ao outro lado, atravessei a rua correndo.

Já era noite, e usaria aquela escuridão como minha aliada. Escolhi ir seguindo a esquerda, onde as luzes dos postes elétricos estavam mais fracas. A dor já tinha aparecido, exatamente quando eu comecei a reconhecer o lugar em que estava. A praça, o supermercado e o correio. O barulho do carro ainda persistia em continuar e, horrorizada, vi que minhas forças estavam acabando. Atravessei a rua e continuei em frente. Foi um alívio ver a casa do Hiago diante de mim — e ainda bem que ele não morava tão longe da confeitaria.

Olhei rápido em volta e não vi nenhum carro por perto, por isso, tirei as chaves do bolso e lutei contra minhas mãos trêmulas para abrir logo o portão. Quando consegui, já estava me sentindo tonta e insuportavelmente sem ar. Nunca tinha percebido como era difícil trancar um portão diante daquele meu estado. Não sei se era por causa da noite, mas um mar de escuridão translúcida me impedia de ver direito. Forcei meus pés a seguirem em frente para eu entrar logo em casa, entretanto a dor também estava me consumindo cada vez mais. Estendi a mão ao vazio em busca da maçaneta e avancei mais um passo. A última coisa que tinha em mente antes daquele mar negro me vencer foi aquela porta que não alcancei.

Alguma coisa apertava minha mão e o toque fazia meus dedos doerem. Doía respirar, doía pensar, e foi pior ainda quando abri os olhos.

-Camila! — uma voz cansada exclamou e um rosto surgiu no meu campo de visão.

-Hi... — doía falar também.

-Não precisa dizer nada. Eu tô aqui.

Fechei os olhos e isso doeu.

Eu tinha conseguido fugir, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Era uma boa notícia, mesmo eu estando assim agora. Não sei como havia desmaiado onte, só que pelo jeito como me sentia, preferi nem imaginar. Fiquei imóvel por mais um tempo para tentar recuperar minhas energias. Não sei quanto tempo se passou, mas aquela mão que segurava a minha não se soltou nem por uma única vez.

Abri os olhos novamente e reconheci o lugar em que estava.

Meu quarto.

Me senti feliz por perceber que estava ali.

-Precisa de alguma coisa? — Hiago perguntou, me observando.

-Água... e meu remédio — minha voz saiu tão baixa que me perguntei se eu realmente tinha falado.

Hiago soltou minha mão e se levantou.

-Eu já volto.

Aproveitei aquele momento para testar se eu ainda estava inteira. Primeiro mexi os pés, depois, me apoiei com os braços na cama e me sentei. Pisquei algumas vezes para me acostumar com a claridade.

-Sabia que você iria tentar se levantar, como no primeiro dia que você veio aqui, lembra?

Eu sorri e afirmei com a cabeça. Como poderia esquecer...

Ele me entregou o comprimido e o copo com água. Engoli o remédio num gole d'água e olhei para Hiago.

-Seus olhos estão vermelhos — falei preocupada.

Ele esboçou um sorriso cansado e ficou sério.

-É que não consegui dormir depois que te encontrei ontem.

Tentei imaginá-lo me encontrando desmaiada e me senti péssima comigo mesma.

Ele se sentou na cadeira ao meu lado e cobriu os olhos com as mãos.

-Hiago, vai descansar um pouco. Você tá péssimo.

-Daqui a pouco, talvez — ele bocejou — Eu tenho toda a tarde livre mesmo.

-O quê? Já é de tarde?! — perguntei pasma.

-Aham. É quase uma da tarde.

-Mas e o trabalho?!

Como consegui dormir tanto tempo assim?!! Tirei o lençol que me cobria e coloquei os pés no chão. Como um raio, Hiago se pôs de pé num instante e me impediu.

-Calma, Camila. Hoje não temos que ir. É sábado.

-Sábado? Ah...

-É melhor a gente descansar agora, certo? — Hiago murmurou.

Suspirei.

-Tem razão.

Depois de tomar mais um pouco de água, me deitei outra vez. Eu tinha tanto o que conversar com ele e tantas perguntas repetiam-se na minha mente que, mesmo fechando os olhos, não consegui dormir.