Utopia

3 Capítulo 2


–Você acordou! — uma voz feminina exclamou.

–Heloísa... – eu disse, enquanto tentava recuperar a consciência e me levantar.

–Espere, Camila. É melhor não se mexer muito agora.

Olhei para ela cinicamente e suspirei.

–Tudo bem, tudo bem...

Ficamos em silêncio por um instante. Ela agora fitava o chão branco reluzente do hospital enquanto eu pegava um espelho sob uma mesinha ao meu lado. Me aconcheguei mais na cama e mirei o objeto no meu rosto. Minha pele estava mais pálida que de costume. Meu cabelo, longo e castanho, estava sem brilho e espalhado em cachos irregulares sobre meu rosto. Me espantei quando vi as olheiras em meus olhos. Minha mãe sempre dizia que eles tinham cor de mel, mas agora estavam escuros e sem vida alguma.

Fechei os olhos para engolir o choro. Eu já tinha lutado tanto. Não podia desistir assim, não agora.

–Me desculpe, Camila. Aquilo foi minha culpa.

Abri os olhos e olhei surpresa para ela.

–Por que tá dizendo isso? Não tem nada a ver com você. Eu... bom, eu sou o problema.

Nós duas nos encaramos.

–Camila? — alguém falou subitamente antes de entrar no quarto.

–Oi, pai. Eu já acordei.

Ele esboçou um sorriso de alívio e se aproximou.

–Então, acho que já podemos ir. Esse hospital está me dando calafrios.

Eu ri baixinho. Meu pai, Luís, adorava criar piadinhas sem graça, não importava em qual situação estivesse.

Ele chamou uma enfermeira e ela me deu alta em seguida. Deixamos Heloísa em sua casa e eu a avisei novamente para não se preocupar comigo.

Eu e meu pai seguimos sem dizer nada pelo resto do caminho. Sabia o que aquele silêncio significava.

Assim que chegamos em casa, minha mãe nos esperava na entrada. Ela estava com os braços cruzados e encostada na porta. Não me atrevi a encará-la.

–Vou pro meu quarto tentar dormir um pouco — falei aos dois.

Passei correndo pela sala e subi as escadas já com lágrimas nos olhos.

Eu não quero ouvi-los de novo. Não depois do incidente de hoje.


Mesmo que eu continue fugindo da escuridão, tenho medo do amanhã.