Utopia

9 Capítulo 8


Aquelas palavras me perfuraram como brasas em chama. Eles não me queriam. Será que eu era um estorvo tão grande assim que nem sequer merecia estar ali?

As palavras deles repetiam-se, queimando meu cérebro.

Se eles não me amavam mais — isso se já tivessem me amado alguma vez — eu iria me apagar de suas memórias. Peguei minha mochila roxa que usava para viagens e a enchi de roupas, um cobertor, os remédios e algumas barras de cereal que achei pelo quarto. Juntei toda a minha mesada e a guardei em um dos bolsos. Antes que o abismo se espalhasse e acabasse com minha alma já em frangalhos, eu precisava sair dali.

Abri a janela. Uma brisa fria invadiu o cômodo. Reparei que a luz do quarto dos meus pais estava acesa, então, era impossível sair por ali sem que me escutassem.

Lentamente, tentando não fazer ruído nenhum, abri a porta e desci as escadas quase flutuando. Pensei com amargura nos nossos últimos dias juntos. Hospital — zoológico — hospital. Uma rotina que não gostaria de repetir. Assim que cheguei à porta, girei a maçaneta com todo o cuidado. Parei e olhei para a escada; ninguém à vista. Passei pela porta e juntando todas as minhas forças, saí em disparada pela rua.

Pelo menos uma alegria eles teriam. Nunca mais os dois precisariam me ver.

A rua, deserta naquela madrugada, estava iluminada principalmente pela luz da lua. Lembrei-me de um texto que dizia que, mesmo cheia de crateras e imperfeições, a lua continuava a brilhar e mostrar seu lado belo. Só isso me ajudou a lutar para vencer o cansaço e seguir em frente.

Ali, correndo pela calçada vazia e sem ninguém por perto para me ver, foi que deixei as lágrimas tomarem conta de mim. Eu não tinha um lugar para ir e estava sozinha. Sozinha e abandonada.

Passei por ruas, lojas a avenidas até que não consegui mais correr. Arfando, parei por um momento e vi que estava em frente a um parque de uma praça. Mesmo com o choro atrapalhando minha visão, não reconheci o lugar. Então, decidi descansar em algum daqueles brinquedos, em um que fosse impossível me verem pela rua.

Minhas pernas estavam cada vez mais bambas à medida que eu atravessava a praça. Estava tonta e fraca. Sem mais forças para continuar, não me restava mais nada e, derrotada, deixei que a escuridão me envolvesse.