Utopia

18 Capítulo 17


-Você está quieta hoje — Hiago falou, me olhando com o canto do olho — O que aconteceu?

Deixei a colher cair sobre a minha taça de sorvete intocada.

-Ah... É só aquela conversa estranha que tive com a dona Vera. Sabe... ela não parecia estar mentindo.

Hiago me fitou com ar pensativo.

-E se for verdade?

Eu cruzei os braços e olhei para cima.

-Se for, isso quer dizer que eu, ou melhor, todo mundo, tem mesmo asas — eu sorri achando aquela ideia maluca e ao mesmo tempo fascinante.

Voltando a fitar a mesa, ele terminou de tomar o sorvete e se levantou.

-Tenho que ir agora... você sabe, pro trabalho.

Meu sorriso desapareceu junto com aquelas palavras.

Fomos em silêncio até a porta da frente e antes de me despedir, perguntei a ele:

-Não tem como você sair disso não?

-Tem, mas preciso de dinheiro — ele me encarou pesaroso.

-E se eu encontrar um emprego!? Aí você não vai mais precisar vender essas coisas, certo?

Hiago abriu a boca mas a fechou antes de falar qualquer coisa. Eu percebi o que ele queria dizer e quase me irritei com aquele ato dele.

-Esquece que eu tenho câncer, Hiago! Não vou desistir de achar um trabalho só por causa da minha doença.

Ele pareceu estar procurando as palavras certas.

-Se você conseguir mesmo um emprego... acho que eu posso sim parar de vender isso.

Esbocei um sorriso e pude ver um lampejo de alegria chegar à face de Hiago.

-Boa sorte então — ele retrucou antes de se despedir.

A tarde seguinte estava quente. Muito quente. Coloquei novamente o boné preto e prendi meu cabelo num rabo de cavalo antes de sair para a rua.

Havia pouco movimento de pessoas e carros naquele horário. Peguei um jornal no correio e caminhei até a praça para esperar Heloísa chegar. Como ainda faltava meia-hora para as duas da tarde, sentei-me em um banco na sombra e abri o jornal na página de empregos.

Um que eu poderia escolher era a de assistente de Petshop, no entanto, assim que vi o endereço, me decepcionei. O lugar era próximo da casa dos meus pais. Senti uma onda de angústia me atingir assim que lembrei deles. Havia se passado poucos dias e eu ainda me perguntava se eles pensavam em mim.

Nesse momento, eu estava tão aturdida em lembranças antigas que nem vi quando alguém parou bem na minha frente.

-Boa tarde, Camila.

Levantei os olhos subitamente.

Ah... boa tarde também, dona Vera.

Ela sentou-se ao meu lado e olhou para o jornal em minhas mãos.

O que você está lendo aí?

Achei melhor não enrolar e dizer logo a verdade:

-Procurando um emprego.

Ela me encarou com espanto.

-É, eu sei que só tenho 15 anos, mas não vou desistir. Eu preciso encontrar logo um emprego — falei com uma convicção maior do que imaginei.

-Ora — dona Vera abriu um sorriso luminoso — eu sei onde você pode encontrar um.