Used to the Darkness
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Danielle andava por seu apartamento já esperando pela ligação que poderia vir. Desde que tinha passado as informações para Elder, esperava ansiosamente pelo resultado. Ele tinha prometido que poderia entregar para ela, e somente para ela, com antecedência. Elder tinha explicado que, por questões de segurança, ele sempre pedia um prazo maior, mas como Danielle era uma cliente especial e amiga próxima dele, seria possível fazer uma exceção e adiantar o processo da produção do documento. Enquanto esperava pela resposta, Danielle recebeu a visita de Kai.
— E aí? Algum avanço em relação aos documentos do cara? – Kai perguntou
— Eu to esperando por ele. Infelizmente a conversa geralmente só rola do lado dele pra cá, principalmente a partir desse ponto do processo. – Danielle explicou
— Você conheceu esse Elder como?
— Digamos que eu não fosse a pessoa mais quietinha do mundo antes de ter que começar a minha vida acadêmica. Elder me ajudou bastante na época. Mas ele sempre estabeleceu o esquema: depois da encomenda feita, é ele que entraria em contato comigo.
Kai entendeu o que Danielle queria dizer. Essa sensação fazia parte do que Raphael tinha explicado semanas antes, quando apresentou todos os cinco. E, ao mesmo tempo que aquele primeiro encontro entre os cinco parecia ter acontecido poucas horas antes, parecia que tudo já tinha acontecido fazia anos.
Kai aproveitou o tempo de espera para dar uma olhada em volta no escritório na casa de Danielle. Observou as lombares dos livros, com os títulos girando em torno de vários temas da antropologia. Era como se fossem um mundo completamente diferente do seu. Parou em frente a um título que chamou a sua atenção.
— O que você acha de vir pra Austrália pesquisar isso daqui? – Kai perguntou, apontando para o livro – Com toda certeza você teria uma guia pelo país.
— Pode ser. Mas antes eu precisaria ter um projeto aprovado.
— Fácil. Mando o texto pronto pra você no máximo amanhã. Sempre tive projetos sobre os aborígenes na escola e na faculdade. E tenho um projeto que tive que engavetar sobre danças de alguns grupos. Não levei adiante porque acabei decidindo focar em dançar e lutar.
— Alguma coisa me diz que esse lutar não é metafórico.
— Não, não é. Sabe como é. O ringue não é muito diferente do palco. E o dinheiro consegue ser bem atrativo se você souber onde procurar.
—
Amadeus começou mais um expediente rezando para que Frank não aparecesse. Depois da briga entre os dois – testemunhada em peso pelo seu cluster e por todos que circulavam na rua movimentada – tudo o que ele menos queria era ver a cara de Frank de novo. Tentou focar nos projetos que tinha para o dia: umas três tatuagens pequenas agendadas e sabe-se lá quantas pessoas que entrariam ali querendo orçamento, pitaco ou uma tatuagem instantânea.
Ouviu a sinetinha da porta de entrada. Ainda era cedo para o primeiro agendamento, então imaginou que fosse alguém querendo fazer uma arte imediatamente. Amadeus seguiu para a entrada e encontrou quem menos queria ver.
— Bom dia. – cumprimentou secamente – Pensei que já tinha ido procurar emprego em outro estúdio.
— Fique tranquilo quanto a isso. – Frank respondeu com a mesma secura, mas parecia ter visto alguma coisa que o tinha assustado – Só vim entregar os papéis do divórcio. Acho que seu advogado vai gostar disso.
— Pode deixar. Ela vai adorar.
— Não sabia que você mudou de time.
— Como você mesmo disse, já não é da sua conta. Adeus, Frank.
Com a saída de Frank, Amadeus tentou entrar em contato com Maria. Ele sabia que Frank dificilmente se assustava, por isso achava que, o que quer que fosse que Maria tinha encomendado para fazer Frank assinar os papéis, tinha sido carga pesada.
Enquanto seguia para os fundos do estúdio, o tatuador se viu num escritório de advocacia, com o ambiente todo escuro, exceto por alguns computadores e raras luzes acesas. Maria era uma das poucas pessoas sentadas na frente de um monitor, digitando freneticamente sobre um processo.
— O que diabos você encomendou pro Frank? – Amadeus questionou
— Estou assumindo que ele assinou o divórcio, não assinou? – Maria rebateu sem tirar os olhos da tela a sua frente
— Assinou. Mas que diabos aconteceu com ele?
— Relaxa, foi só um susto. Um conhecido meu me devia um favor. Provavelmente ele cavou um pouco fundo demais na vida de Frank. Mas ele não vai fazer nada não. Desmond nunca fez nada demais. Ele é basicamente um advogado do diabo. Cava todos os podres de alguém. No máximo, ele leva alguém pra polícia. É possível que Frank tenha mais esqueletos no armário do que você imagine.
— Isso eu não duvido. Nos últimos meses de casamento, ele ficou muito escorregadio. – Amadeus olhou em volta antes de continuar a falar, mesmo sabendo que ninguém mais o via – Posso pedir um conselho?
— Se eu puder ajudar, claro.
— Desde que me assumi gay, minha família não quer nem olhar na minha cara. Agora com todo esse negócio de homo sensorium, eu fico com medo de acontecer alguma coisa comigo e nenhum deles ficar sabendo de nada. Você acha que eu devo ao menos tentar falar com algum deles? Pelo menos a minha mãe.
Maria suspirou. Aquilo era um assunto delicado. Ela mesma tentava arranjar uma forma de conversar com a sua própria família sobre tudo o que estava acontecendo com ela. Agora, adicionar o fator que a família ter rejeitado por orientação sexual, criava um nível a mais de dificuldade.
— Bem, sua mãe é importante pra você, não é? – ela perguntou, mas sem esperar uma resposta – Tente falar com ela. Talvez não sobre toda essa história do homo sensorium, pelo menos não de primeira. Amolece ela com a história do divórcio e que você tá tendo que dormir num quartinho nos fundos do estúdio porque o pilantra do Frank pegou o apartamento. Qualquer coisa, se precisar de um álibi, diga que você tem planos de vir pro Rio me visitar. E você e Mikko podem vir, ficam lá em casa e conhecem um pedacinho do Brasil.
— Não é uma má ideia.
— Maria, você tá bem? – Ricardo perguntou, assustando tanto Maria quanto Amadeus
— To sim. Só pensando alto. Precisa de alguma coisa?
— Que você vá pra casa. Você tá há tempo demais aqui. Aproveite e tire o dia de folga. Eu falo com Sérgio. Ele vai entender.
Maria agradeceu, recolheu seu material e saiu. Amadeus seguiu a advogada, entendendo que ela também iria querer companhia para a volta pra casa.
—
Mikko se sentia tenso. Sabia que a qualquer momento o tal conhecido de Danielle iria entregar os documentos falsos do tal do Carlos e que eles poderiam ficar a par de mais coisas da BPO, mas a sensação que tinha era de que seu nervosismo não vinha disso. Ainda tinha que entrar em contato com seus pais, já que o Ramadã estava se aproximando, assim como seu aniversário. E, apesar de não participar das comemorações do feriado muçulmano, sempre fazia questão de entrar em contato com a família e deixar o seu apoio.
Enquanto esperava o carro do jornal com o repórter, conferiu o celular. Cinco ligações perdidas de seu pai. Provavelmente querendo o convencer a fazer alguma coisa a mais além das coberturas que sempre fazia sobre o feriado tão amado por seu Jamal Hassan. Decidiu ligar de volta pra ele.
— Oi, pai. – disse, depois que percebeu o som do outro lado
— Oi, meu filho. Como é que você está? Está comendo direitinho?
— Estou sim, pai. Fique tranquilo.
— Você tá no trabalho?
— To sim, por quê?
— Sua mãe pediu que eu perguntasse se você vai cobrir o Ramadã. E se você vai fazer alguma coisa pro seu aniversário.
— Eu devo ser escalado pro Ramadã, mas ainda não tenho nada planejado pro meu aniversário. Talvez eu saia com uns amigos meus e só. Mas vou ligar pra vocês no dia, não se preocupe.
— Tem alguém novo entre seus amigos que eu deva saber? – o pai de Mikko questionou curioso
— Por enquanto, não. Mas acho que, se acontecer alguma coisa, eu conto a você.
— Quanto tempo você acha que vai demorar pra você vir visitar seus pais?
— Não sei, pai. – Mikko suspirou. Sabia que essa pergunta sempre aparecia quando seus pais ligavam – Pra isso eu dependo de várias outras coisas. Se eu tiver uma folga maior, vejo se consigo ir ver vocês, ok?
— O problema é dinheiro? Se for dinheiro, eu ajudo.
— Pai, entenda. Para ir visitar vocês aí em Helsinque, o meu problema não é dinheiro. Eu tenho mais um mundo de coisa pra resolver aqui antes de ir visitar vocês. Mas já que você insiste tanto na minha presença, tanto você quanto a mamãe podem vir pra cá. Eu tenho espaço no apartamento pros dois. Londres é bem menos pecaminosa do que Helsinque.
Mikko desceu do carro. Ele sabia que seu pai não ia desistir. Assim que Mikko entra na redação do jornal junto com o colega, foi interrompido pelo porteiro, que apontou para Amadeus.
— Pai, vou ter que desligar. Cheguei no jornal e vou ter que resolver umas coisas aqui. Qualquer mudança no cenário aqui eu falo com você. – Mikko avisou
— Tá certo. Mas avise mesmo, porque você sabe como a sua mãe fica nervosa quando não sabe quando você vem ver a gente.
Mikko terminou a ligação e sinalizou pro jornalista que iria subir para a redação logo depois. Amadeus se aproximou do fotógrafo parecendo meio intimidado pelo ambiente.
— Tá esperando há muito tempo? – Mikko questionou
— Não muito. Eu tava por aqui por perto acertando os detalhes de um curso e achei que seria bom dar uma passada aqui pra falar com você.
— Tá tudo bem?
— Tá. Como tá a cicatrização no braço?
— Tranquilo. Se você quiser, a gente pode conversar mais daqui a pouco. Porque eu só preciso entregar esse material e eu to livre pelo dia. O que você acha?
— Uma boa. Porque tenho uma coisa pra conversar com você.
Mikko subiu para a redação. Amadeus voltou para o sofá da recepção e aproveitou para vasculhar o celular para ver se tinha salvo o telefone de Mikko de quando ele foi se tatuar em seu estúdio. Assim que encontrou o número, mandou uma mensagem contando da oferta que Maria tinha feito da viagem para o Rio.
—
Kai enviou o projeto para Danielle enquanto terminava de arrumar a mochila para a sua próxima luta. Sabia que não deveria estar arriscando tanto justo quando tinha conseguido o solo principal, mas o dinheiro que viria daquela luta, independente do resultado, seria o suficiente pra pagar o aluguel de pelo menos três meses sem se preocupar.
As lutas ajudavam a pagar o aluguel de forma antecipada, já que nem sempre conseguia um espetáculo pela temporada. E ter o aluguel já adiantado seria muito bom pra facilitar as questões financeiras mais pra frente.
Quando chegou na frente do porão da academia em que seria feita a luta, foi inundada por memórias de sua primeira disputa. Tinha sido dez anos antes e tinha ido por indicação de sua colega de quarto da época, Felicity. Para aquela primeira disputa, tinha treinado bastante, mas não tinha sido o suficiente para vencer. Ao menos conseguiu um empate e um convite para uma próxima luta, o que passou a lhe garantir dinheiro.
Inicialmente era coisa pouca. Cinquenta dólares australianos numa derrota. Duzentos numa vitória. Se desse sorte, conseguia 300 numa mesma luta quando ganhava. Mas dizer que as vitórias no seu primeiro ano eram escassas é um eufemismo. Kai perdeu muitas rodadas, o que fez parecer com que a sua primeira luta fosse sorte de principiante.
Tudo mudou quando começou a se dedicar oficialmente à dança. Ganhou ainda mais consciência corporal e aprendeu a antever certos comportamentos de outras pessoas. Treinou nos intervalos de ensaios de recitais. Quando conseguia uma luta, a musculatura de dançarina era a que estava mais evidente e não causava nenhuma intimidação.
Kai aprendeu a usar isso em sua vantagem. Viu que era subestimada por ser dançarina profissional e, com o tempo, viu que mesmo os apostadores sabendo quem ela era, insistiam em apostar contra. Quando ganhava nessas lutas, seu ganho era bom. Pagava as contas. Foi o que bancou a mudança de Perth para Sydney, as mudanças de apartamento, os períodos em que não conseguia dançar com a companhia.
Olhando em volta daquele porão, sentindo o cheiro de suor e desodorante masculino barato, se sentia em casa de novo. Sentiu ao seu lado a presença de mais alguém do seu cluster.
— Tem certeza de que quer participar dessa luta? Consigo perceber que pelo menos uns cinco dessas pessoas estão em violação da condicional só por estar aqui. – questionou Maria, claramente preocupada
— Eu conseguindo isso aqui, a gente se encontra no Rio. E eu te levo um coala ou um canguru de presente.
—
Amadeus e Mikko seguiam pelas ruas procurando por um café ou lanchonete em que poderiam conversar sem chamar atenção. Sabiam que a conversa que tiveram com o cluster sobre o tal Carlos era importante, mas o que aconteceu depois também era.
Talvez não para o resto dos sensates do grupo deles, mas para Amadeus, o sentimento que teve durante o karaokê ainda não tinha saído de sua cabeça. E ainda tinha toda a história de ir para o Rio, de como iriam lidar com a família sabendo ou não do status de homo sensorium e de como iriam evitar que a BPO chegasse até seus familiares.
Entraram num café que parecia ser mantido há gerações pela mesma família e as pessoas que frequentavam não demonstravam ter o mínimo de interesse em fazer qualquer coisa que desviasse do seu dia.
— Queria saber sobre...? – Amadeus começou sem jeito. Desde que se casara com Frank, era como se tentar conversar com qualquer pessoa sobre qualquer coisa que envolvesse seus sentimentos era um esforço sem tamanho.
— O outro dia? Relaxa. – Mikko tentou o tranquilizar – Não aconteceu nada demais. Não gosto de pegar ninguém que esteja fora de si e que não tem a menor condição de dizer o que gosta.
— Mas você não é hétero?
Mikko riu da confusão de Amadeus.
— Sou tão hétero quanto Billie Joe Armstrong. – tentou esclarecer – E, sinceramente, não me importa muito a genitália ou como a pessoa se identifica. Se a pessoa me atrair e estiver desimpedida, to indo.
— Isso é difícil de acreditar.
Os dois fizeram os pedidos para o garçom e, antes do pedido chegar, perceberam a presença de Maria e Danielle. As duas estavam bastante nervosas, mas por motivos diferentes. Danielle começa a explicar sobre os documentos que tinham acabado de chegar. Mesmo que parecessem autênticos, teriam o problema de enviar para o Brasil. Teriam que ter algum portador que levasse aqueles papéis para lá.
— Isso não vai ser difícil. Devo ir pro aeroporto ainda hoje, no máximo amanhã. – Danielle contou – Kai apanhou feio numa luta. Aparentemente alguém descobriu que ela é uma de nós e preciso tirar ela da Austrália de uma forma que fique menos suspeita possível.
Os outros três se entreolharam um tanto quanto chocados.
— Ok. – Maria começou meio cautelosa – Mas vocês vão ter que ficar em algum lugar que não seja nem a sua casa nem a dela, o que exclui Nova Jersey e Sydney.
— Minha casa. – Mikko exclamou, sem querer chamando a atenção de outras pessoas presentes no café – Vocês podem ficar na minha casa. Não é grande coisa, mas é um começo. A gente se espreme aqui e ali, mas dá pro gasto.
— E quão feio ela apanhou? – Amadeus questionou – Posso deixar uns remédios prontos pra ela.
— Muito feio. – Danielle descreveu – Coisa de olho quase sem abrir direito e um dos dentes não me parece estar muito bem fixo.
Os quatro começaram a planejar como seria feito o pequeno resgate de Kai, assim como qual seria o refúgio dela após sair de seu país. Começaram a se agarrar às esperanças de que aquilo fosse dar certo e salvar a irmã de cluster.
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