Us
6 Inconveniente
Notas iniciais
As festividades depressa acabaram. As ruas que dantes estavam cheias de pessoas entusiasmadas agora encontravam-se vazias, vingativas. As decorações que o povo conseguiu fazer e inventar com o pouco que tinha, estavam já com a folhagem seca. As crianças que dantes brincavam alegremente na rua, estavam agora trancadas em casa com medo do que poderia acontecer. Em poucos meses Paris mudou, França mudou e ninguém consegue perceber como e porquê.
Ladybug continuava a os proteger mas a tensão que a nobreza colocava no povo aumentava cada vez mais. O povo percebia bem. O povo percebia que Ladybug não poderia fazer nada contra isso. Mas sentiam-se revoltados, traídos. E os heróis de Paris também tinham esses tipos de sentimentos – traídos e inútil contra a opressão da nobreza que era cada vez maior. O aumento de impostos, as regalias que o clero e a nobreza continham. A desvalorização do trabalhador… Todo o tipo de medidas económicas que o tão amado rei ajudava a estabelecer era para enriquecer os ainda mais ricos.
E isso tudo era motivo para enraivecer o terceiro estado, dar-lhe um motivo para iniciar uma revolta. Quem sabe, uma revolução!
—Hey, Chat Noir… Acha que França têm futuro? – Pergunta Ladybug preocupada enquanto observa os arredores que andava a vigiar no pequeno tempo livre que tinha. O vento fresco de maio balançava os seus cabelos morenos e curtos gentilmente. Naquela altura do ano, o ambiente era quente mas, por vezes, um pequeno vento fresco teimava em aparecer. De certa forma era agradável.
— Não sei, my lady. Não sei o que o futuro nos reserva. – Suspira e balança a cabeça num gesto preocupado.
— Sim, têm razão. – A rapariga não fez senão concordar com o garoto. Coisa que não acontece muito frequentemente.
— Só espero estarmos lá para ver. – Desabafa com a mínima intenção de desenvolver o assunto. Todavia, conhecia Ladybug e iria-lhe perguntar o motivo por detrás da sua afirmação.
— O que quer dizer com isso? – Pergunta bruscamente, virando a cabeça para o local onde ele se situava. Os seus olhos percorreram o rapaz de baixo a cima, acabando por manter contacto visual.
— Pode-se dizer que nós somos parte da nobreza. Como você sabe, e muito bem, o povo está descontente com os mais ricos. – Fez uma pausa e suspirou cansado. Olhou fixamente para a rapariga com ternura e com um certo tipo de empatia. – Temo que não sairemos ilesos caso algo aconteça. Os nobres apoiam-nos, logo, estamos no mesmo barco.
Chat Noir, que dantes estava sentado, levanta-se um tanto tenso. Não gostaria de prolongar aquela conversa tão incomodativa que nunca devia de ter começado. Com preocupação o rapaz olha de desdém para a rapariga. No entanto, esta não se encontra assustada com o que lhe poderia estar a acontecer. Muito pelo contrário, possuía um olhar feroz mas pensativo, como se estivesse a pensar em algo importante o suficiente para consumir tanta energia. Não a queria incomodar mas sair sem dizer nada seria um gesto que um cavalheiro não faria.
— Me despeço, My lady. Tenho recados noutros lados. – Com um salto percorre telhado a telhado até desaparecer. A morena seguiu o loiro com os olhos até lhe perder o rasto.
Rapidamente voltou o seu olhar para as ruas que agora se encontravam um pouco menos desérticas. Havia trabalho a fazer, quer ela queira ou não. Suspirou fundo, levantou-se do lugar onde se sentava e mergulhou em direção às ruas de Paris.
Um som fraco mas estridente acordou Chat Noir do seu pensamento. O mesmo olhou para onde vinha o tal barulho que começara a incomodar. Era o seu anel que apitava. O anel de Chat Noir começou a dar sinais que já tinha pouca força. Era necessário o rapaz se desfazer da máscara e alimentar o pobre kwami que já devia estar esfomeado.
O loiro suspirou profundamente devido ao mau timing. “O que pode acontecer mais?” . O rapaz rapidamente arrependeu-se de ter perguntado tal coisa – uma pequena explosão ocorreu perto de onde estava. Assustou-se com o barulho repentino mas não se deixou levar pela cobardia. Teria que ver como estava a situação, se havia algum civil ferido ou também mesmo mortes e, para isso, necessitava de ser o mais rápido possível. Com o suor a escorrer na sua face, chega o mais rápido ao local seguido depois de Ladybug.
— Eu vou tratar das pessoas que ainda estão presas! My lady, trate de os manter a salvo. – Ordenou, pela primeira vez durante toda a relação deles. A rapariga ficou estupefacta mas só seguiu as suas ordens, não se deu ao trabalho inútil de reclamar de tal.
As chamas eram intensas e consumiam rapidamente a casa de madeira. Chat Noir encontrava-se com dificuldades em respirar mas o sucesso na sua missão era cada vez maior. Morador a morador, o garoto conseguia retirar todos do fogo tremendo, deixando-os ao cuidado de Ladybug.
“Já estão todos… O melhor é ir.” Com este pensamento, o gato preto tenta sair da casa que estava quase a cair em pedaços. Faltava muito pouco para o local desabar e ele sabia disso. Com a vida nas suas mãos ele tenta correr o máximo que conseguia para sair dali. No entanto, quando este sai das chamas e chega à rua são e salvo, encontra à sua frente um grande grupo de guardas. No meio deles está o seu próprio pai.
— Chat Noir, parece-me que o seu tempo é escasso. – Comenta Dubois ao reparar no sinal fraco que dava o anel do rapaz. O mesmo escondeu o acessório mal ouviu o comentário, deixando-o furioso e intrigado.
— O que estão aqui a fazer? – Pergunta preocupado. Observa os seus redores e vê que não havia rasto de ninguém, nem mesmo de Ladybug. – Onde estão todos?
O burguês sorriu para aquele herói de uma forma malévola, perversa. Oliver nunca tinha visto tal sorriso. – Eles estão bem. No entanto, você…. – No momento que essas palavras saem da boca do grisalho, Chat Noir é atingido fortemente na nuca, deixando-o consciente por uns momentos. – Entrem! Rápido antes que alguém nos descobra.
Ladybug observa a rua onde foi expulsa de forma rude. O que estaria aquele homem a tramar? A rapariga afundava-se cada vez mais naquela pergunta que parecia não ter resposta. Estava preocupada com o seu amigo que, a última vez que o viu, fora a entrar numa casa em chamas. “Cheira-me a esturro…”
Ela não ia ficar com os braços cruzados sobre a situação que acabara de experienciar. Todavia tinha membros do povo feridos que necessitavam de atenção médica, mesmo que sejam os mínimos cuidados. Primeiro o seu povo, depois, Chat Noir.
O loiro tentou recuperar a consciência aos poucos. A sua visão estava turva e encontrava-se quase sem equilíbrio. À medida que os seus olhos se iam acostumando à luz e à imagem, ele começou a reparar nos detalhes mais nítidos do local onde se encontrava. Este garoto estava atado numa cadeira no meio de uma enorme sala com pouca iluminação. De longe, viam-se vários soldados que encontravam-se de vigia – outros acordados, outros a dormir e outros no meio-termo. Do meio deles surgiu uma figura alta, imponente e rígida. Era o seu próprio pai, Eric Dubois.
— Pobre Chat Noir. – O tom que imitia no seu discurso não mostrava qualquer tipo de compaixão. – Em poucos segundos saberei o seu segredo…
— Você? Então e os restantes? – Pergunta intrigado pelo fato daquela divisão estar cheia de testemunhas.
O adulto revirou os olhos com desprezo, como se estivesse farto dos comentários infantis que ele proferia. Com um estalar de dedos outra figura emerge da escuridão – com uma estatura enorme, gigante e musculada. Este aproximou-se do homem que o chamou, recebe as suas ordens e executa-as rapidamente e de uma forma terrível.
O rapaz não conseguia descrever aquela visão – do sítio onde os guardas descansavam e outros vigiavam, num sítio escuro, não se viam as ações em pormenor. Mas os gritos e o reflexo do sangue a espirrar era o suficiente para imaginar o tipo de tortura que aqueles pobres homens estavam a passar.
— É um monstro…! – Chat Noir insulta-o pela capacidade de cometer tal atrocidade. Nem ele mesmo sabia o que o seu próprio pai conseguiria fazer.
— Posso ser, meu pequeno herói. – O seu tom continuava ainda mais apático a cada momento que passava. O loiro agora começava a ter calafrios com receio do que lhe poderia acontecer. – Mas é você que está à mercê deste… “Monstro."
— O que você quer de mim? – Já o tom deste rapaz mostrava uma tremenda raiva por aquele homem que se encontrava mesmo à sua frente. Já nem o considerava pai.
— Trabalhe comigo. Deixe essa vida de herói que você tenta ao máximo viver e viva a realidade. Que eu… Nós seremos ainda maiores que o nosso el-rei. – o seu discurso parecia tentador devido à forma como o realizava. Todavia não contentava o rapaz.
— Só por cima do meu cadáver… — No momento que o rapaz diz isso, os sons vindo do anel intensificam-se. Estava no seu limite.
Chat Noir passou a ser Oliver nem míseros segundos.
No mísero de tempo que passou, tudo tinha mudado. Oliver encontrava-se derrotado, com a cabeça cabisbaixa sem qualquer tipo de vontade de olhar para o homem. Eric encontrava-se espantado. Não traído, espantado pelo seu palpite estar certo. Uma pequena ira espalhou-se pelo seu corpo mas após um leve suspiro a mesma tinha desaparecido.
— Saíste à tua mãe, Oliver… Ela sempre fora muito energética. Sempre a pensar nos outros. – Andava a circular o espaço à medida que falava. – E essa fora a sua ruína. Morreu a cuidar dos outros enquanto essas mesmas pessoas lhe esfaqueavam nas costas. – Parou por momentos e observou o seu próprio filho. – Fora de falar, claro.
Finalmente o rapaz conseguiu arranjar forma para levantar a cabeça, apesar de ter sido mínima.- O que quer de mim? – Voltou a perguntar, mas desta vez, como se estivesse a sussurrar. As suas palavras fizeram o seu pai aproximar-se dele e segurar no seu queixo firmemente.
— Quero o teu poder, Chat Noir… Apesar de seres meu filho ainda tens grande influência sobre Paris. – Aproxima-se suspeitamente e de forma ameaçadora. – Acho que seres meu filho até ajuda. Não tens outra forma senão aceitar…. Oliver.
A raiva percorreu o corpo e o rosto do pobre garoto. Na sua face conseguia-se ver o quão revoltado ele se sentia naquele momento. Não tinha qualquer poder na situação onde se encontrava, e muito menos, forma de convencer o seu pai a mudar de ideias. Não tinha planos, não tinha saídas.
— Vá para o inferno.
— Mas eu já lá estou. Só tu não sabes. – O burguês ri histericamente à medida que se afastava do herói. E à medida que ele ria, mais Oliver sentia raiva por aquele homem que encontrava à sua frente. O homem musculado aproximou-se do adulto pronto para ouvir as suas próximas ordens.
— Porquê? Você tem um grande prazer em torturar as pessoas, não é? Espero que arda no inferno! Mas temo que nem mesmo nesse sítio o aceitarão. A sua própria presença é equivalente ao do diabo. – O rapaz cuspia palavras na frente do parente que tanto ódio nutriu durante todos esses anos. Depois de tanto tempo passado, era muita mágoa guardada dentro de si. – Ainda bem que mãe morreu. Pelo menos não veria o monstro que você se tornou. Tenho a certeza que nunca a amou…! Você usa as pessoas como bem quer e lhe convêm!
Todas as palavras que ele dizia eram em vão. Eric observava atentamente o seu filho a proferir tais palavras como se não lhe chegasse aos ouvidos. Não disse uma palavra e muito menos se dirigiu a ele para lhe bater. Ficou imóvel, com uma postura perfeita e uma cara fechada e, de certo modo, descontente. Quando Oliver acaba de desabafar tudo o que tinha a dizer, o guarda-costas do burguês aproxima-se e sussurra-lhe ao ouvido.
— Chefe… Quer executá-lo? — Sugeriu sem qualquer preocupação de que fosse o filho do seu patrão. Os olhos que antes observavam o “Gorilla” voltaram-se para visualizar a figura acorrentada à cadeira. Suspirou fundo e fez-se silêncio da divisão.
—Tentador…. – Respondeu finalmente.
Fale com o autor