Upside Down
1 Seasick Dream
Tinha pego o carro dos meus pais na garagem de casa sem que eles soubessem; em meio à hedionda paisagem da periferia de Manchester, o velho Chevy vinho se destacava como a mais nova lata velha do bairro. Eu dirigia com os vidros abertos talvez alguns quilômetros mais rápido do que o permitido. O vento balançava freneticamente meus cabelos longos e a música estourava meus ouvidos devido ao volume alto. Reduzi a velocidade ao chegar ao centro da cidade e logo virei à esquerda numa rua sem saída que dava em mais uma das pequenas entradas do Wythenshawe Park, onde costumava passar horas e horas antes de tudo acontecer.
Há alguns anos atrás (uns quatro ou cinco, talvez), eu era apenas o Carl, aquele cara que não era tao esquisito e nem tão legal a ponto de ser um Legal propriamente dito. Eu era um Normal qualquer, daqueles que não tinham muitos amigos, mas ao menos tinham alguém com quem se sentar no almoço e fazer os trabalhos de química. Se tinha uma coisa que eu odiava nisso tudo, era ser mais um dos Normais. Isso significava que não era legal, nem engraçado, nem inteligente, ou artístico, e nem ao menos atraente para se encaixar em qualquer grupo.
Mas conforme os anos se passaram, os Legais passaram a não ser assim tao legais, os inteligentes acabaram na faculdade aos dezesseis anos ou mudaram de escola porque não queriam mais ser perseguidos pelos supostos legais, os artistas, como esperado, continuaram os mesmos de sempre. E eu, claro, continuo mais um mero Normal, apenas num grupo diferenciado com alguns outros meros Normais; durante esse tempo apenas deixei os cabelos crescerem ate a altura dos ombros, aprendi a dedilhar uma guitarra e descobri que o que eu realmente gostava era de fazer música. Hoje em dia, enfim, tenho mais uma bandinha de garagem com mais três amigos Normais, nenhum futuro sucesso aparente, mas todos orgulhosos do barulho que fazemos.
Conforme andava por uma das trilhas que cortavam parque, ia me lembrando de tudo que passara naquele lugar. Costumava matar aula por aqui no meu ápice como um Normal, esse lugar era minha válvula de escape. Peguei meu “atalho secreto” por entre as árvores que dava numa parte do lago em que ninguém frequentava. Antigamente, o lago costumava ser limpo e cheio de peixes e, consequentemente, cheio de pescadores amadores e suas famílias, mas conforme os anos se passaram e o parque fora sendo abandonado, o lago já não parecia mais tao limpo e vasto; algo nele ou no completo vazio ao seu redor parecia errado, e eu me sentia exatamente assim.
Tirei o casaco e os sapatos e me sentei perto da margem, com a grama fazendo cócegas na sola dos meus pés. Tudo parecia muito errado.
Estava sentado nesse mesmo lugar, só que dois anos antes, foi assim que meu pai fora transferido para aquela parte da cidade e que descobri o Wythenshawe Park . As famílias que iam para o lago pescar estavam lá como de costume e o cheiro de comida empreguinava o lugar, assim como as risadas e gritos das crianças. E eu estava sozinho, como sempre. Costumava estar sozinho em todo e qualquer lugar. Nunca realmente gostasse de me isolar, mas a vida em Wythenshawe já parecia meio isolada por si só.
Todos costumavam dizer que minha vida era perfeita, mas eu me sentia meio preso a isso. Meus país sempre acreditavam que eu ia bem na escola, meus amigos achavam que tudo ia bem em casa e que tinha milhares de amigos em outro estado, o que não deixava de ser uma meia verdade, mas todos pareciam ter me esquecido até aquele momento. E foi aí que que comecei a frequentar o parque; era um lugar silencioso mas sempre com o barulho das risadas e conversas das famílias ao redor do lago, relativamente vazio, mas não solitário e o mais importante, longe o suficiente dos problemas de casa, do colégio e de qualquer outro colega. Era tudo o que eu precisava. Um lugar onde eu podia esquecer de tudo e ser eu mesmo, sem importar se era um Normal ou não, inteligente ou não, legal ou não. Apenas Carl, somente Carl.
Já era fim de tarde, o sol já começava a se pôr e consequentemente o lago ficava cada vez mais vazio. Estava começando a esfriar quando havia decidido, por um acaso, voltar para casa, afinal teria prova no dia seguinte e precisava estudar (ou apenas fingir que ia). Já estava de pé, apenas terminando de abotoar os botões da camisa quando pude ouvir um barulho vindo das árvores atrás de onde estava; ignrei de início, como qualquer mero mortal faria, mas a curiosidade acabou me vencendo. Ela sempre vencia.
—Tem alguém aí? -perguntei para o nada me sentindo um completo idiota. Nada respondeu, como esperado. Deveria ser apenas algum pássaro por aí, lembro-me de ter pensado. Um completo estúpido eu era, mal eu esperava o que aconteceu a seguir.
Uma sombra havia surgido cortando a luz alaranjada do sol que se punha no horizonte, conforme me aproximava, a sombra começava a ser tornar uma imagem nítida revelando os traços de quem quer que fosse. Era uma garota, inegavelmente. Seus olhos eram formidavelmente verdes, o que dava um perfeito contraste contra sua pele morena, que estava visivelmente arranhada pelos galhos das árvores.
—Desculpa pelo susto.-disse com a voz falha enquanto se aproximava.- Não era minha intenção.
—Tudo bem.- falei dando de ombros com indiferença e ajeitando camisa; não sabia se puxava assunto ou se simplesmente ia embora como havia planejado, mas no fim decidi ser um idiota, como sempre.- Então, o que uma garota como você faz por aqui uma hora dessas?
—O que você quer dizer com uma garota como eu?- disse arqueando a sobrancelha, onde logo acima saia sangue de um dos pequenos cortes em seu rosto. Falei merda, como esperado.
—Não, é que... sei lá, eu vivo por aqui e você não parece do tipo de pessoa que passa as tardes de domingo num parque.
—E não sou mesmo!- ela deu um sorriso e se sentou num tronco de uma árvore que havia caído a pouco tempo durante uma tempestade.- Não sou bem vinda no seu hábitat?
—Não é isso...-sorri sem graça. Deveria apenas ter ido embora. Merda.
—Enfim, esse é o Wythenshawe Park, nada legal acontece por aqui!- falou com cara de indignação- E aliás, você também não me parece do tipo de pessoa que passa as tardes de domingo num parque. Principalmente neste parque.
—O que tem este parque em particular?
—Ah fala sério! Esse lugar aqui só tem velho. Velhos são chatos!
—Eu gosto daqui!- disse com convicção. Eu realmente gostava deste lugar.— E os velhinhos são legais!- ela me olhou com uma cara de deboche- O que foi?! Eu gosto dos velhos! Outro dia um deles estava vestido que nem a Cher e fazendo umas danças esquisitas, foi hilário!
—Deve ter sido imperdível!- falou com ironia.- Você é uma cara estranho.
—Você também não me parece uma garota muito normal. Não que isso seja ruim eu só… -franzi o cenho. Não havia porque me explicar, mas eu sempre o fazia com medo de estar errado. Problema típico de um Normal.
—Você não sabe o que falar, não é?- disse arqueando as sobrancelhas- Enfim, qual seu nome?
—Carl e o...
—Samantha, mas pode me chamar de Sam ou qualquer outra coisa, isso é o que menos importa! Agora me fala sobre você.- falou apoiando os cotovelos nos joelhos e o queixo em suas mãos. Eu a olhei pensativo. Não faço nada da vida, então o que iria falar?
—Ah, eu toco violão...
—Não, não quero saber o que você faz, quero saber quem é o Carl. — Sam me interrompeu e levantou se pondo a minha frente. — Vai, quem é o Carl.
—Hm, eu não sei falar sobre mim! -sorri amarelo e ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
—Ninguém nunca sabe!- ela deu de ombros e olhou ao redor- Eu te pergunto e você responde, pode ser assim?- dei de ombros e ela continuou, ela falava demais.- O que você pretende estar fazendo daqui a, sei lá, 10 anos?
—Ah, eu queria ter uma banda.- falei observando a terra presa nas solas dos meus sapatos- Não para ser famoso nem nada, isso é o de menos. Eu só quero ser feliz, sabe? Música me faz feliz. E quanto a você? -olhei-a pelo canto do olho enquanto ela estava absorta em seus pensamentos.
—Eu não sei. Sinceramente.-ela disse logo perdendo toda animação que estava antes e se sentando ao meu lado na beira do lago.- Eu quero estar longe daqui, bem longe. Provavelmente em algum outro parque por aí, eu já vou ser velha então não importa que seja um parque como esse cheio de velhos. Só que não fugindo de nada, sem ter que preocupar com nada. Talvez com alguém legal pra conversar...Seria legal!
Conversamos por mais algum tempo, algumas horas talvez, apenas me lembro de que já estava escuro quando cheguei em casa naquele dia. Minha mãe de dera um belo sermão por ter ficado fora até tarde e ainda ter pego o carro sem ter dito nada. Não me lembro realmente do que ela havia dito, muito menos da minha reação quando ela ela confiscou minha carteira de motorista; tudo o que conseguia pensar era em como esse dia havia sido inusitado e no quanto eu queria mais dias como esse.
***
No dia seguinte acordei com o sol batendo por entre as persianas. Minha cabeça doía e meu corpo implorava por mais algumas horas de sono. Minha mãe berrava algo que eu não entendia por detrás da porta fechada, mas eu apenas a ignorei e me levantei indo ao banheiro.
Assim que me olhei no espelho, percebi o quanto meu cabelo estava desgrenhado e meus olhos inchados. Ainda usava as mesmas roupas do dia anterior no parque, mas logo tirei-as com o intuito de tomar uma bela ducha antes de matar as aulas de educação física que tinham nas manhãs de segundas-feiras. Um belo dia, e uma bela aula para não ser feita. Bela combinação!
Arranquei a camisa de qualquer jeito a largando em um canto qualquer do banheiro e uma coisa me chamara a atenção. Havia um papelzinho roxo, todo amassado naquele meio emaranhado; aquilo com certeza não era coisa minha. Me abaixei e olhei o papel, nada de um lado, mas do outro uma sequência de números com uma nota em baixo:
“Acho que precisamos descobrir quem é o Carl de verdade. Me liga uma hora dessas.
S.”
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