Upside Down
14 XIV — Verdades Reveladas
Notas iniciais
“A verdade sempre vem a tona, é uma das regras mais fundamentais do tempo. E quando ela se revela ela pode te libertar, ou acabar com tudo pelo qual você lutou tanto.” — (Gossip Girl)
***
XIV — Verdades Reveladas
Senti uma luz sobre minha cabeça e uma gota de suor escorreu pela minha testa. Abri os olhos devagar piscando devido á claridade excessiva, murmurei alguma coisa incompreensível e tentei me espreguiçar sentindo minha coluna doer e um torcicolo fazer meu pescoço ficar imóvel.
Durante a noite, o travesseiro deve ter ido parar em marte, pois estou completamente torta e com a cabeça apoiada no tórax de alguém.
Abri os olhos completamente. Natsu ainda estava dormindo calmamente, observei seu peito mexendo suavemente e senti seu braço em minha cintura, me lembro de ter adormecido enquanto estávamos conversando. Tentei me mover, mas foi praticamente impossível. Seus braços me envolviam quase como uma prisão.
Arqueei as duas sobrancelhas tentando me mexer e notando que ele apertou ainda mais.
Que maravilha.
Eu estou derretendo dentro desse moletom também. Que horas são?
Olhei para a janela e a luz do sol já estava forte. Dei graças á Deus por ser final de semana, glória aos sábados.
Percebi que tentar me soltar era completamente inútil. Respirei fundo e relaxei os músculos, vai ser impossível sair do aperto dos seus braços.
Apoiei-me em meu próprio braço, vendo-o de cima e me concentrei nas feições de Natsu. Hum, nariz pequeno e proporcional ao rosto, testa de tamanho mediano, queixo quadrado, boca fina e bem delineada, cílios longos e escuros. Sorri minimamente enquanto notei que ele se mexeu levemente apertando os dedos em minha cintura resmungando alguma coisa que não consegui identificar pelo som.
Passei a mão levemente por sua bochecha sentindo sua pele macia e um tanto grossa. A fênix pinicou levemente que me fazendo ter uma sensação agradável.
Desci o olhar até seu pescoço notando a marca no lado. Não fui capaz de segurar um enorme sorriso de satisfação que insistia em escapar de meus lábios. Sua marca conseguia ser ainda mais bonita que a minha, podia ser menor, mas o brilho dourado parecia estar com glitter. Notei que bem ao lado da marca existia uma pequena fenda avermelhada, é uma cicatriz?
Arqueei minhas sobrancelhas. Não consegui conter os meus dedos, e eles encostaram lá. Natsu se remexeu levemente, mas não acordou. Nossa, que sono profundo.
Fiquei uns bons minutos olhando para aquela cicatriz tentando pensar em como ele havia adquirido-a. Milhões de coisas passaram por minha mente, mas resolvi não dar tanta importância aquilo, por mais que eu sinta em meu interior que é importante.
Quando voltei o olhar para seu rosto quase pulei de susto ao notar um mar verde esmeralda me encarando, sorri brevemente.
— Admirando a vista? — Inclinei minha cabeça para a direita.
— Não, estava apenas tentando me soltar. — Remexi-me incomodada. — Daqui á pouco vou derreter dentro desse moletom.
— É só tirar. — Arqueei minhas sobrancelhas diante daquele sorrisinho.
— Vou fingir que não vi duplo sentido nessa resposta. — Bufei e ele riu. — Não ria da minha cara, idiota. Agora me solte, devo estar parecendo um zumbi. — Ele apertou ainda mais minha cintura cheirando meu pescoço. Meu corpo contorceu inteiro num intenso calafrio misturado com arrepio que me fez corar quase que instantaneamente.
— Você está linda. — Conti um pequeno sorriso que cismou em aparecer em meu rosto.
— Okay, agora, pode... Pode me soltar? — Essa situação está embaraçadora demais.
— Posso. — E então ele afrouxou um pouco os braços em minha cintura. Me sentei e meu torcicolo fazer com que meu pescoço arda mais que o inferno.
— Por que essa porcaria caiu? — Resmunguei olhando para o travesseiro no chão. — Maya? — Olhei para onde estava sua cama e ela não se encontrava ali, notei a porta meio aberta. Arqueei uma de minhas sobrancelhas e me levantei. Maya entrou pela porta e se esfregou em minha perna. Sorri. — O que estava fazendo lá fora, moça? — Ela latiu. — Preciso de roupas, está tudo molhado.
— Por mim pode ficar assim. — Me virei para o ser que estava deitado com ambas as mãos atrás da nuca evidenciando seus músculos e com um sorriso matreiro no rosto. — É sério, eu não me importo.
— Ah, okay então. — Olhei para a minha própria roupa, o agasalho estava amassado e meu cabelo completamente para o alto e lotado de nós. — Por você eu ficaria assim?
— Sim, para mim está ótimo. Agora nenhum outro homem vai te olhar. — Lhe lancei um olhar mortal.
— Cala a boca. — Não consegui manter minha expressão brava e acabei soltando um sorriso. — Tenho que arrumar roupas. — Resmunguei para mim mesma. Não tinha mais roupas... Eu estava quase morrendo derretida no moletom, e tinha um garoto estranho me encarando. — O que foi?
— Nada, é que você está fazendo caretas estranhas. — Fiz uma carranca e notei que Maya havia deitado ao lado dele. — Sabe, nunca gostei de cachorros, mas essa é legal.
— Por que? — Arqueei minhas sobrancelhas, se ele não gostava de cachorros, não tinha como haver exceções.
— Ela protege você.
[...]
— Ai. Ai! Para! — Reclamei e arremessei um outro pedaço de pão na cara de Lisanna, que jogou um biscoito em mim, me defendi com o prato.
— Não antes de você me dizer o que houve lá no quarto, agora vocês estão namorando.
— Como você...? — Ela sorriu misteriosamente para mim enquanto Erza se sentava também na mesa me avaliando com aqueles olhos castanhos avermelhados.
— Desembucha! — Ela disse prendendo seus cabelos curtos num rabo de cavalo.
— Eu acordei com um pesadelo, ele estava lá. Conversamos. Ele pediu para namorar comigo. — Comi um biscoito que elas tinham jogado em mim. Minha voz falhou e eu fui forçada á tentar conter um sorriso enorme e meu rosto. — E depois dormimos.
— Vocês não só conversaram. — Erza disse como se fosse lógico. — Vamos Lucy, conta.
Sorri abertamente e mordi o lábio inferior. — Meio que... Nos beijamos. — Lisanna estava quicando na cadeira e Erza sorria. — E... Ele disse que não ia me “magoar”. — Fiz aspas com os dedos.
As ações a seguir foram emboladas, ambas começaram á gritar e se agitar na cadeira feito duas loucas, e meio que me deixei levar e senti a empolgação fazendo meu corpo pinicar.
— Eu sabia, sabia! — Lisanna gritava soltando pequenos gritinhos de animação. Erza levantou e serviu suco para nós. Wendy tinha ido conversar com sua mãe para ver o que iria fazer com Juvia e Levy tinha ido até a biblioteca. Olhei ansiosa para o relógio e notei que Natsu tinha saído daqui á meia hora.
— Lógico que você sabia Lisanna, eles são ligados. Mais cedo ao mais tarde ficariam juntos, não tinha escapatória.
— Não era nossa obrigação, a gente poderia ter ficado sem nos relacionarmos. — Dei nos ombros comendo uma das torradas de cima da mesa, estou com tanta fome.
“Ah é?” Cuspi toda a torrada no chão e dei um murro na mesa. Ele escutou, puta merda.
“Para de escutar meus pensamentos, inferno.” Comecei á tossir e as meninas me olhavam com curiosidade.
— Natsu. Pensamentos. Merda. — Disse ainda um pouco engasgada com a torrada. Lisanna sorriu quase que automaticamente.
— Essa porcaria! — Disse um pouco alto. Estou contrariada, ele não tinha que ter escutado! Eu posso ver e sentir seu sorriso irônico, que merda.
— Fica calma Lucy, foi só um comentário seu. Obviamente com seu jeito super doce e carinhoso, muito educado por sinal. — Revirei os olhos para Erza enquanto controlava minha mão que insistia em mandar um dedo do meio em sua direção.
— Cala a boca. — Murmurei enquanto tomava um gole do suco de laranja.
— Lucy e Natsu, Natsu e Lucy. Combina! — Lisanna ergueu os polegares e eu não pude evitar de cair na gargalhada.
— Vocês não existem. — Balancei a cabeça negativamente.
— Eu fico bem feliz por vocês dois. Sério. Conheço Natsu desde de que me entendo por gente e o melhor momento dele é agora, vocês fazem bem um para o outro. — Sorri com a voz de Lisanna e me levantei da cadeira
Peguei um dos biscoitos na mesa e comi seguindo para a varanda, chamei Maya e ela veio até meus pés.
— Onde você vai? — Lisanna me perguntou.
— Vou conversar com Mavis, estão me escondendo uma coisa muito feia. — Tentei sorrir, mas não foi o meu melhor sorriso que surgiu ali. Segui até a porta e minha marca pinicou.
Assim que abri a mesma, Natsu estava lá. Me olhando, seus olhos verdes me encaravam até com certa seriedade antes de sorrir. Retribui o sorriso e então segui por seu lado andando para fora da varanda.
— Onde você vai?
— Até a cabana de Mavis, quer vir? — Ele assentiu e se pôs ao meu lado. Suspirei.
— Não sabia que você preferia ficar como minha amiga. — Arqueei minhas sobrancelhas em direção ao caminho, suspirei tão pesado que meus pulmões protestaram.
— Em nenhum momento eu disse isso. — Minha expressão deve ter se contorcido numa careta. — Eu disse que era uma das opções.
— Eu não gosto dessa opção. — Gargalhei com isso.
— Sendo bem sincera? — Virei sussurrando em sua direção, fiquei séria antes de completar: — Nem eu.
Uma enxurrada de pensamentos tomou minha mente.
Senti uma onda de temores que eu nem sabia de onde estavam vindo, mas por um momento senti minha cabeça rodar. Cerrei os olhos e parei um pouco de andar.
Quando me virei, ele estava bem perto dos meus lábios. Eu ainda estava meio aturdida com os pensamentos, eu só queria paz. Cheguei mais perto ciente de que, toda vez que nos beijamos, minha mente se cala. E foi exatamente isso que aconteceu.
Nossas bocas se tocaram e algo explodiu em mim, era uma metáfora imbecil, mas sentia como se meu coração estivesse se preparando para correr uma maratona. Senti sua língua na minha e quase gemi em êxtase. Enquanto isso; meu subconsciente, meus pensamentos, minhas contestações... Tudo ficava num completo e perfeito silêncio mórbido.
Minhas mãos se moveram de maneira suave por suas costas. Eu estava tremendo levemente devido á um arrepio que corria por minha espinha enquanto sua mão se movia em minha nuca e sua outra apertava a carne em minha cintura.
Minha marca ardia deliciosamente bem. Ele se separou lentamente, me dando um pequeno e casto beijo e me encarou. Sorri leve, como se nada pudesse me perturbar, não agora.
— É tão bom poder beijar você sem ter que me preocupar se você vai me dar um soco por sermos amigos.
— Quem sabe se você me irritar muito, de repente, não ganhe um soco? — Ele riu e antes que eu dissesse outra coisa, meus lábios foram calados por um beijo ainda mais necessitado. Minhas bochechas deveriam estar extremamente coradas. E, observando seu sorriso quando nos separamos, quase fiquei da cor de um tomate.
— Isso é perfeito.
— O quê? — Olhei confusa sentindo minhas bochechas ficarem nas cores normais lentamente.
— Ver você vermelha, é uma cor muito bonita. — Cocei a garganta sentindo uma enorme vontade de me esconder num buraco. Eu teria que me acostumar com isso.
— Certo. Agora, vamos indo se não vamos ficar aqui o resto da manhã e o início da tarde. — Seus lábios se abriram num sorriso que nunca tinha visto ali, apenas uma vez, quando minhas lágrimas foram secas de uma forma nada peculiar de sua parte. E eu senti como se meu corpo ascendesse. — Que sorriso é esse? — Seus lábios que antes eram convidativos se tornaram carnais, sedutores. — É sério, pare com isso.
— Você quer que eu pare? — Agora sim meu corpo entrou em combustão. Meus olhos pareceram ascender e pular de órbita.
— Hum... — Nenhuma palavra saia da minha boca. Não conseguia articular nenhuma palavra, estava diante de um Natsu que nunca tinha visto. — Hã... Temos que ir. — Puxei sua mão e ele pareceu sair de um espécie de transe, eu quase suspirei aliviada, até por que... Meio que eu gostei desse sorriso.
O que eu não gosto nele, afinal?
[...]
— Tem mais de uma pessoa aqui. — Natsu disse assim que pomos os pés na varanda da cabana de minha mentora. Eram muitas energias fortes juntas, me senti incomodada antes mesmo de entrar no ambiente.
— Eu senti. — Respirei fundo a bati na porta, Mavis abriu a mesma e me dirigiu um sorriso nervoso. Arqueei minhas sobrancelhas enquanto ela abria espaço para eu entrar, puxei Natsu pela mão, não quero ficar sozinha, sinto que o que ela irá falar será ruim.
— Bom dia Lucy, bom dia Natsu. — O sorriso dirigido á mim era tenso.
— Bom dia... — Respondi meio incerta quando olhei para sala, Mira estava sentada em uma poltrona, Sting estava de pé ao lado da janela, Laxus em pé atrás da poltrona de Mira e o pai de Sting estava sentado de maneira descansada no sofá. Analisei sua face, ele não é estranho para mim, de onde o conheço? — Mira, acho que terei que comprar algumas roupas, sabe... As minhas não estão num estado muito bom.
Fiz uma careta. Estava vestida com algumas roupas que Lisanna conseguira com as várias meninas que ela conversava. Isso não era legal.
— Claro. Podemos resolver isso depois, agora sente-se Lucy. — Ela disse calma, me sentei no sofá oposto á poltrona e segurei a mão de Natsu.
“Tem alguma coisa estranha.” Escutei em minha mente, confirmei com a cabeça e encarei Mavis que estava andando de um lado para o outro.
— O que está acontecendo aqui, afinal? — Finalmente perguntei, esse mistério todo está me deixando nervosa.
— Finalmente. — Me ignorando, Mavis abriu a porta e meu pai entrou. Todos nos viramos em sua direção. Mavis parecia estar o esperando e Mira também, assim como o homem da sala que parou de me observar.
— Papai? Okay, o que está acontecendo aqui? — Minha voz estava meio fina, estou nervosa e confusa, extremamente confusa.
— Ontem eu te falei que existiam coisas que Layla não te falou? — Assenti desconfiada. — Esse é Vincent Eucliffe. Pai do Sting e do Laxus. — Me virei e sorri para o homem que agora tinha identidade, Vincent, anui em cumprimento. — Conheço-o desde o colegial, somos amigos ou éramos amigos desde então.
— Hum, e...? — Meus olhos estavam vidrados no meu pai, ele estava nervoso, estava tenso.
— Sempre fui apaixonado pela sua mãe. E bom, ela não gostava de mim, e sim dele.
O que diabos essa conversa todo tem a ver comigo?
“Fique quieta e escute.” Retirei meus olhos de meu pai e foquei em Natsu por poucos instantes, ele estava certo. Dei nos ombros e me voltei para frente.
— Eu namorava a prima de sua mãe, Michelle. — O homem tomou a palavra, essa voz é conhecida, mas de onde? — Éramos apaixonados, até que descobrimos que sempre fomos sobrenaturais, isso mudou nossas vidas. Michelle viajou por diversos locais, nos separamos, e nesse meio tempo sua mãe se mostrou uma excelente amiga, junto com seu pai. E quando Michelle finalmente voltou, eu já tinha dois filhos, Laxus e Sting, que ainda estava na barriga da mãe dele. Mas... Esse tempo todo fora... Descobri que ainda amava aquela mulher, reatamos nosso relacionamento e tive que abandonar meus filhos. — Eles dois pareciam calmos, até agora não estou entendendo nada. — Michelle é uma caça-recompensas, uma nômade. Ela não fica em um local apenas, viaja para diversos lugares e tem um lote de inimigos, não demorou muito para ficar grávida. Quando descobri isso não consegui conter uma felicidade imensa, achava que finalmente ficaríamos juntos, mas ela não pensava assim. — Ele fez uma pausa.
Olhei para a expressão de cada um, Mavis estava calma assim como Mira, meu pai estava muito nervoso e me encarava como se pedisse desculpas, Natsu apertava minha mão, mas sei que ele não sabe de nada e está confuso assim como eu, Sting e Laxus que apesar de calmos, suas sobrancelhas franzidas denunciavam o seu não entendimento no assunto.
—... Michelle achou melhor ter a criança e sumir, para a própria segurança do nosso bebê, eu não podia cuidar de uma criança sozinho e Layla me ajudou por dois anos, minha menininha cresceu, eu a amava e ainda amo muito. — Agora sim eu estava desconfiada, os olhos dele marejaram um pouco. Ele pigarreou e depois continuou. — Mas, quando percebi que fazia mal á ela... Eu tive que sumir igual á Michelle, eu tenho inimigos também, e faria mal á minha garotinha, por isso deixei-a sob os cuidados do meus dois amigos, além do mais, não era saudável, Layla sempre me amou, eu via isso em seus olhos, ela era carinhosa com minha filha, mas eu via rancor em seu olhar, ela queria que aquela menina fosse sua filha comigo.
Rancor. Rancor... Meu rosto ascendeu em compreenção e virei a cabeça na direção do meu pai, ele estava com a cabeça baixa e encarava os pés, meus olhos lacrimejavam e minha cabeça explodia em pensamentos.
— Mas, ela tratava-a bem, e deixei minha menina com meu melhor amigo que era apaixonado por Layla, mas sempre estive por perto. — Olhei no fundo dos olhos acinzentados daquele homem, e então eu reconheci.
— Você... Você... — Meu peito tremeu, e Natsu continuava segurando minha mão, que no momento tremia. —... Os sonhos, você... — Minha cabeça estava um nó completo.
— Sim, era eu, Lucy. — “Esse é um amigo, querida.” Minha visão turvou um pouco quando a visão tomou minha mente.
— Então... Eu... Não...? — Balancei a cabeça em negativa. — Mas... Pai? — Virei para Jude, ele me olhava atento.
— Eu te amo, querida. Você é minha filha, eu te criei. Sua avó te ama e sua tia também, mas... Não sou seu pai de verdade. — Essa resposta me atingiu como um caminhão. Agora meus ombros tremiam e eu não enxergava mais nada.
— Quem sabia? — Consegui perguntar sem gaguejar, mas minha voz estava embargada. — Mavis? Mira? — Ambas assentiram, elas não me contaram... Elas... Esconderam.
— Pai, isso... É? — Sting perguntou, ele estava igualmente confuso e me olhava, me analisando. Eu estava sem reação, Mavis e Mira sabiam isso, isso foi uma traição.
— Eu não queria ficar longe, mas foi necessário. Jude me contou como Layla te tratava e te trata, sinto muito Lucy. — Neguei efusivamente.
— Eu... Eu... Preciso... — Me levantei rapidamente. — Com licença. — E então sai correndo. Uma das coisas das quais eu mais faço, fujo dos problemas.
Enquanto espantava as folhas das árvores do meu rosto, corri como se não houvesse o amanhã, como se eu não sobrevivesse sem isso. As lágrimas caiam em cascata por meus olhos. Minha vida inteira foi uma mentira, tudo.
Tropecei num tronco de árvore e protegi meu rosto com o braço que recebeu todo o impacto. A pele de meu joelho ardeu e eu me encolhi perto da árvore. Vi a ferida se curando aos poucos enquanto as lágrimas molhavam meu joelho.
Meu peito se contraiu e meus músculos tremeram em espasmos violentos, eu estou me sentindo tão vazia, tão... Nada. A única coisa na qual consigo pensar é que minha vida toda foi uma mentira.
Meu corpo foi envolvido num abraço forte, segurei o seu tronco e me encolhi em seu peito aspirando o cheiro de lavanda, me senti protegida.
— Você não está bem. — Ele disse, bufei levemente e puxei minhas pernas para que eu ficasse mais acolhida em seu abraço. Natsu afagou meu cabelo. — Isso tudo chega á ser sujo. — Concordei com a cabeça.
— Muito. — Soprei ainda encharcando sua camiseta.
— Como está se sentindo? Não consigo escutar seus pensamentos.
— Estão muito... Embolados. — Sussurrei. — Estou me sentindo enganada. Eu... Meus pais não são quem pensava que fossem, agora entendo o porquê da minha mãe, ou melhor, Layla falava comigo daquela maneira, me olhava estranho. Tudo faz sentido agora. — Tremi e me abracei mais á ele. — Mavis sabia, Mira sabia... Mas elas não me falaram nada.
— Elas estavam impossibilitadas de contar, quem tinha que fazer isso era seu pai de verdade e o de criação, Lucy. — Assenti. — O que eu posso fazer por você?
— Só... Fica aqui comigo. — Estou me sentindo desgastada. Pus minha cabeça em seus ombros tentando organizar meus pensamentos, mas era impossível, eu posso sentir a preocupação de Natsu. Sei porque ele não está os escutando, os estou bloqueando, Mavis me ensinou antes de ontem. Consigo fazer isso com magia, por isso estou cansada também.
Mas não quero atormentar a cabeça de Natsu com minhas complicações, com os meus paradigmas que nem eu mesma consigo decifrar. Não sei quanto tempo ficamos assim, mas foi o suficiente para que eu me acalmasse o suficiente.
— Bom. — Suspirei. — Obrigada. — Me afastei levemente e encarei seus olhos, ele realmente estava se esforçando para tentar escutar meus pensamentos, podia ver em seus olhos. — Agora, ahn, eu não sei mais o que fazer.
— Como assim?
— Eu... Só... Não sei. Como irei ficar aqui, sabendo que meu pai está aqui também, sendo que ele é apenas meu pai de criação e que tenho irmãos, dos quais nunca soube? Como vou ficar? Não... Dá. — Esfreguei meus olhos com as mãos tentando espantar as lágrimas que ainda caiam.
— O que? — Seu cérebro pareceu demorar para decifrar o que falei. — Você não vai sair daqui, não Lucy. Não vai, vai ficar aonde? — Assim que ele disse, minha mente ascendeu, é verdade.
— Eu... Não sei. — Sussurrei e então chorei mais um pouco. — Quer dizer, não estou conseguindo pensar em nada! — Exclamei.
— Fique calma, Lucy. Estou aqui, calma. — Natsu me abraçou novamente enquanto eu falava suavemente e sussurrava coisas inaudíveis. Suas mãos acariciavam meus cabelos passando tranqüilidade e calma. Suspirei levemente e senti as lágrimas secarem.
— Eu não sei para onde ir.
— Vamos voltar para cabana da Mavis? — Minha careta o fez repensar. — Vem, vamos até a minha cabana. — Assenti suavemente enquanto ele me erguia do chão e segurava minha mão, senti firmeza.
Andamos suavemente e em silêncio até a cabana de Natsu, evitei olhar para qualquer lugar, me sentia suja, minha roupa estava cheia de lama, meu cabelo bagunçado, mas isso não refletia em nada o que eu estava sentindo por dentro.
Nem eu mesma sabia o que estava sentindo.
Assim que chegamos, ele abriu a porta pra mim e seguimos diretamente até o quarto dele, me sentei em uma das poltronas. As meninas não estavam por aqui, eu quase agradeci mentalmente. Não queria conversar. Não queria falar essas coisas em voz alta.
— Posso tomar um banho? — As roupas estavam um pouco sujas por conta do chão da floresta e algumas partes estavam rasgadas. — Eu... Não tenho roupa. — Eu tinha que fazer alguma coisa com relação á isso.
— Pode, mas se importa de vestir alguma roupa minha? — Assenti negativamente e depois o olhei agradecida quando jogou uma calça de moletom e uma blusa que ficaria larga demais em mim. — O banheiro é na porta em frente. — Assenti e segui até onde ficava as instruções. Assim que entrei no banheiro, retirei as roupas sujas empilhando-as no chão e segui até o chuveiro.
Estou me sentindo tão... Tão... Enganada.
[...]
— Durma um pouco Lucy. — Ele disse assim que entrei no quarto.
— Mas... Não estou com sono. — Disse passando os dedos pelo cabelo. Natsu estava com a mesma roupa, mas sem a camisa. E eu quase pedi para que ele colocasse a camisa. Eu disse quase.
— Está cansada, deita aqui. — Deu batidinhas ao seu lado para que eu me deitasse, hesitei porque vi a mesma expressão de mais cedo em seu rosto. — Vamos, Lucy. Eu não mordo.
Arqueei minhas sobrancelhas e arrastei os pés até o lado da cama. Sentei e então um cansaço me abateu, eu realmente estou esgotada. Assim que pus as costas no colchão, encontrei minha voz:
— O que eles fizeram quando saí correndo? — Fiquei de lado para pode observar o rosto de Natsu.
— Bom, Sting e Laxus começaram á gritar com o pai, e eu saí correndo, não prestei muita atenção. — Vi os olhos verdes dele me avaliando. — Porque está me bloqueando? — Pisquei sutilmente.
— Como você sabe? — Minha voz não passou de um sussurro breve.
— Eu sinto Lucy, sei quando está me bloqueando, quando aprendeu á fazer isso? — Ele estava realmente curioso, seus pensamentos estavam quase todos voltados para mim, e isso era bom, de qualquer forma.
— Ahn, Mavis me ensinou tem uns dias. — Suspirei. — Apesar de que, gasta muita da minha energia, não quero sobrecarregar você, nem eu os aguento.
A repreensão presente em seus olhos quase me fez encolher. Fechei os olhos e liberei todo o muro mental que coloquei em frente aos meus pensamentos, quando abri os olhos novamente, Natsu piscava perdido. De certo não conseguia localizar nada coerente no meio daqueles pensamentos confusos, nem eu conseguia e olha que era eu quem vivia eles, imagina alguém de fora tentando entender? Era quase como um verdadeiro caos.
— Nossa. — Ele murmurou depois de um pequeno espaço de tempo e pôs a mão que não estava sustentando a cabeça em minha bochecha. — É muita coisa. — Assenti, em poucas palavras era nisso que tudo se resumia: Muita coisa.
— Porque você tem uma cama de casal em seu quarto? — Arqueei minhas sobrancelhas só notando esse detalhe agora, eu tinha uma cama de solteiro que mal me sustentava e Natsu tinha uma cama de casal que caberiam três pessoas tranquilamente sem se encostarem.
— Digamos que ser filho de um dos mentores de grupos daqui me dá uma certa vantagem. — Ele sorriu presunçosamente me fazendo rir. Eu estava achando admirável meu sono, já que eu havia acabado de acordar, me sinto tão cansada mentalmente.
— Se aproveitando disso, hein? Que coisa feia. — Disse divertida, meus olhos pesaram e pisquei mais devagar mantendo as pálpebras um pouco á mais presas fechadas, quando abri de novo, Natsu beijou minha testa e então sorriu.
— Durma um pouco, anjo. — Levantei as sobrancelhas e então com os olhos ainda fechados consegui murmurar sonolenta:
— Você vai estar aqui quando eu acordar? — Consigo escutar seu sorriso, sua mão passou por cima de meus olhos fechados e então delineou meus lábios, escutei seu suspiro.
— Sempre. — Não passou de um sopro antes de eu entrar na inconsciência.
[...]
— Não é o momento certo! — Escutei vozes abri os olhos assustada notando que não havia ninguém ao meu lado. Sentei na cama prestando mais atenção nas vozes.
— Eu preciso conversar com ela. — Eu não reconheci essa voz de imediato. "Natsu, o que está acontecendo?"
— Acordou ela, idiota. — Pelo visto ele me escutou. Olhei pela janela notando o sol forte brilhando. Levantei da cama e abri a porta, Sting me olhou. Então era a voz dele afinal.
— Olá, Sting. — Prendi meu cabelo em um coque, ele deve estar um verdadeiro ninho.
— Preciso falar com você, Lucy. — Seus olhos estavam perdidos, eu imaginava que ficaria assim, não é todo dia que se sabe que tem uma irmã mais nova.
— Pode falar. — Levantei uma das sobrancelhas.
— Eu queria... Eu queria... Mas que droga! — Ele esbravejou. — Eu procurei pela minha irmã em toda parte, por anos, mas ela quem veio até mim e eu estou sem palavras. — Ele sentou no sofá. — Quer dizer, isso tudo é muito confuso.
— Eu sei. — Encostei na parede.
— Você se parece com sua mãe. — Pisquei aturdida, até que meus lábios franziram.
— Como você sabe? — Minha voz saiu ríspida.
— Eu a conheci. — Desencostei da parede e me sentei no sofá de frente á ele e Natsu se sentou ao meu lado numa pose bem mais relaxada, quase que colocando os pés em meu colo. — Em um dia, quando meu pai saiu de casa, ela conversou comigo.
— O que ela disse? — Minha expressão estava retorcida.
— Que não queria que meu pai abandonasse minha mãe, mas de toda forma, eles agora tinham uma responsabilidade. — Seus olhos azuis voltaram para mim. — Na época, não fazia ideia que ela estava grávida.
Passei minha mão pela testa.
— Como você está se sentindo? — Abri os olhos quando Sting me fez a pergunta, arqueei a sobrancelha.
— Como você espera que eu me sinta depois de descobrir que a maioria das coisas em quais vivi, são mentiras? — Respirei bem fundo encostando no sofá. — Mas... Na medida do possível, estou bem. Então, o que veio falar comigo? — Olhei para Natsu, ele não falava nada, apenas ficava quieto, fazendo massagem em uma de minhas mãos. E eu agradeci isso, ele respeitava esse momento, e isso só me fez amá-lo mais.
— Meu pai, ou... Nosso pai no caso, quer que eu a leve até ele, porque disse que tem um assunto importante para falar com você.
— Seu pai. — Esfreguei minha testa. — E não, não tenho nada de importante para falar com ele.
— Mas Lucy... Ele disse que é algo muito importante mesmo. — Encarei os olhos azuis de Sting e suspirei.
— Natsu pode ir também? — O loiro assentiu e eu olhei para meu atual namorado esperando que ele confirmasse, e assim ele fez.
O que será de tão importante que ele tem para dizer-me?
[...]
A porta de Mavis estava aberta.
Entrei por ela olhando para as mesmas pessoas que haviam lá quando saí mais cedo. Cumprimentei Laxus com a cabeça e Mira, Mavis me encarava com extremo desconforto.
— Então, o que tem para falar comigo? — Fui a primeira a falar me dirigindo aquele homem.
— É algo de extrema importância, sente-se, Lucy. — Me sentei meio hesitante num dos sofás e Natsu sentou ao meu lado, ele anda bastante calado. "Tudo bem?"
"Sim, estou bem." Olhando em meus olhos vi um pequeno sorriso em seus lábios e conti um mesmo que quase se formava em meu rosto.
— ... Você já sabe os princípio básicos dos seus poderes. — Assenti suavemente.
— Eu não pude te explicar muita coisa porque não sou necessariamente sua mentora. — Olhei confusa na direção de Mavis. — Soube disso hoje também, querida. — Os olhos verdes dela me avaliaram. — Seu mentor, tende ser uma pessoa com uma ligação com você e... É o seu... — Apertei os olhos. — É... Vincent.
— Sim. — Voltei toda minha atenção para o homem que conheci recentemente. — Como tenho os mesmos poderes que você, poderia treiná-la para controlar-se.
Decidi fazer uma pergunta.
— Mas você não é descendente de demônios? — Arqueei as sobrancelhas. Ele levantou ambas as mãos e vi duas luzes se misturando, uma dourada e uma negra. A dourada veio em minha direção e rodeou meu corpo antes de eu sentir minha pele pinicando enquanto essa mesma luz era absorvida pela minha pele.
— Tenho as duas magias. — Arregalei meus olhos. — Porém a minha magia angelical é secundária. Provavelmente você só é descendente de anjos por causa de Michelle. — Assenti em consentimento. — Sua magia é uma das mais poderosas e uma das que são mais descontroláveis. Isso é perigoso, lembra-se do episódio com Maya? — Fechei os olhos e olhei mortalmente para Sting.
— Lembro. — Senti um aperto em minha mão e olhei para Natsu, minha raiva se dissipou no ar.
— Temos que começar a treinar em breve. — Ele tomou a palavra. Minha cabeça doeu um pouco, escutei uma voz ao fundo. — Lucy?
— Minha... Cabeça. — Segurei minhas testa e aos poucos minha visão foi ficando negra e eu não consegui mais falar, escutei em minha própria voz: — "Vincent, quanto tempo!" — Eu ainda era dona de minha consciência, mas não conseguia controlar as palavras, não era eu quem estava falando. — "O poder de sua pequena cria é incrível. Ela é a única que suporta meu controle sem morrer, meus parabéns jovem criança." — Não consigo. Estou ereta, sem me mexer. — "Seu pior erro foi ter me levado diretamente à ela." — Soltei uma risada. — "A mãe dela foi uma grande distração, mas apenas descobri o paradeiro de seu bem mais precioso quando estava perto de você, seu idiota." — Apertei a fechei minhas mãos, não conseguia abrir os olhos. — "Layla foi uma distração e tanto, lembra-se de mim, Lucy?" — A voz sombria era do... Namorado da mamãe.
Tentei gritar. Era em vão, mesmo assim, ele não saia. Minha mente estava apagando.
— "Não adianta lutar, Lucy. Sua mamãe está bem, devo dizer." — Meus olhos molharam e mesmo fechados senti lágrimas caindo. — "Mas... Eu só queria alertar meu querido amigo. E que, agora estou me divertindo muito. E, em breve você me verá, luz."
E então pude abrir meus olhos. Cai para trás e senti alguém me segurando. Era Natsu. Olhei para sala e todos estavam abismados. Menos Vincent, eu vi seus olhos se tornando negros aos poucos e seus punhos estavam apertados. Pude ver as veias de seu braço. A energia estava esmagadora.
— Esse... Como não senti sua presença antes? — Um grito. De dor, um grito que fez meus olhos se arregalarem como dois pratos. Um grito com uma voz conhecida, levantei rapidamente do sofá.
— Lisanna. — Sussurrei rapidamente olhando para Natsu, ele reconheceu. Sting correu numa velocidade assustadora para fora, foi tão rápido quanto um raio. Corri tentando alcançá-lo, mas ele estava distante de mim. Os vários galhos se chocavam contra mim quando tentei farejar o cheiro de Lisanna e senti um cheiro metálico de sangue.
Foi quando eu a vi. Conti uma tontura inevitável. E me segurei numa árvore. Os olhos azuis de Lisanna estavam opacos, sem vida.
Sting tinha a cabeça dela em seu próprio colo. Seu rosto estava tomado pelas lágrimas. Fechei os meus próprios
— Lis. — Corri em sua direção meio cambaleante e meus joelhos entraram com força no chão.
— Lu... cy. — Ela disse e tossiu. Sangue espirrou em meu rosto. Meu rosto começou á ser coberto por lágrimas e meu lábio tremia.
— Lisanna. Não. — Escutei alguém dizer e notei muitas pessoas á minha volta. Mira se ajoelhou ao meu lado e encostou na testa da irmã. Ela chorava compulsivamente. Cerrei os olhos com força.
— Isso... Não, culpa minha. — Eu não conseguia dizer nada coerente.
— Não é cul... pa sua... Lu... cy. — Lisanna conseguiu dizer. Vi seu corpo coberto de machucados e feridas. Seu vestido estava levantado e presumi o que aconteceu. — Na... da é cul... pa... sua. — Ela murmurou.
— É tarde. — Vi que Mira tentava curar ela com suas mãos. Mas a luz não fazia efeito.
— E se... — Olhei para uma das minhas mãos enquanto a outra estava apoiando a cabeça de Lisanna.
— Não, Lucy! — Vincent disse. Olhei em sua direção chorando. — Você não pode. Você vai morrer.
— A Lisanna... — Senti minhas mãos quentes e olhei nos olhos azuis de Lisanna.
— Lucy. Você não pode. — Disse sem respirar. E então o aperto diminuiu, seus olhos se fecharam.
Hesitei, eu não queria morrer, mas a sensação de inutilidade enquanto eu olhava para o corpo de Lisanna era insuportável.
A mão de Sting agarrou meu braço. Subi meus olhos até ele. Seu sofrimento era palpável. Minha magia protestava, meu corpo protestava. Eu queria ajudar. Eu via o quanto aquilo feria Sting e eu não podia deixar uma das minhas melhores amigas morrer.
— Por favor, Lucy. — O pedido embargado saiu quase como num sussurro. Cerrei os olhos com força, esse sentimento de dor tem algo á ver com o fato de sermos irmãos?
— Posso. — Ignorei Vincent gritando, alguém tentava me segurar e me tirar, mas meus pés pareciam cravados no chão. — De que adianta poder se não consigo ajudar quem é importante á mim. — A pessoa que tentava me puxar parou, era Mavis.
Cerrei os olhos e coloquei a cabeça de Lisanna no chão. Me concentrei. "Por favor, me ajude, seja lá quem possa me ajudar, creio que fará o que for justo. Ela não merecia isso, Lisanna é tão boa, ela MERECE uma segunda chance"
Palavras me vieram á cabeça e então pus ambas as mãos em cada lado da cabeça de Lisanna segurando seus cabelos e suas têmporas cobertas por sangue.
— Sou quem tem o poder, o julgamento caí em cima dos justos e os justos tem poder. Peço para que quem não merecia a morte, viva! Peço que quem não merecia a vida, morra! Clamo que meu poder seja necessário para salvar uma alma pura. — As palavras vieram em minhas mente e eu as recitei, como um cântico, eu conseguia reconhecer o latim, sei exatamente o que significam e sabia que eram poderosas, quase sentia minha alma se movimentando. Meu corpo inteiro pinicou, e ao contrário de quando curei Maya, minhas asas não saíram, mas senti todo o poder, era como uma leve brisa. Com os olhos ainda fechados encostei minha testa na de Lisanna, como se essa brisa passasse de mim para ela.
Mesmo de olhos fechados, eu conseguia sentir as pessoas do lugar. A alma de Sting estava tão atormentada que senti seu tormento em mim. E, minha magia foi na direção dele, como se para purificá-lo. E assim o fez, sua alma acalmou no mesmo instante.
Essa sensação é tão boa que quase consigo sorrir.
As árvores começaram e emitir barulhos com o forte vento que envolvia-nos.
Alguém chorava, na verdade eu escutava vários choros e vozes. Minha pele pinicou e quando abri os olhos vi que o corpo de Lisanna estava brilhando e aos poucos a pele estava se curando.
Fechei meus olhos novamente e intensifiquei a luz. No máximo que pude. E então eu vi, tudo que ela passou, como se tivesse sendo comigo, suas memórias me atingiram e eu senti repulsa daqui. Senti como se estivessem me ferindo, senti cada parte do meu corpo sendo machucado e dores. Quando abri os olhos vi o corpo de Lisanna se regenerando, mas eu estava começando a sangrar.
— Lucy! Para! — Alguém gritou, era Natsu.
— Não! Longe. — Só então eu lembrei. Ele estava sentindo dor também. Minha marca ardeu como fogo. Então eu passei uma grande parte da cura para ele. Meu corpo doeu, como se estivessem quebrando meus ossos. Gritei, mas pelo menos Natsu não estava se contorcendo mais. No chão, meu sangue se misturava ao de Lisanna que já estava ali, em meus braços vi as escoriações.
A voz novamente tomou minha boca e eu pronunciei novamente as palavras, agora a dor estava sendo anestesiada aos poucos, eu acho que isso era uma coisa boa, não era?
— Duas almas puras não devem ser punidas, duas almas cristalinas, duas almas virtuosas e divinas. Ambas tem a proteção dos anjos com a benção divina. — E então a dor parou, apertei um pouco mais as têmporas de Lisanna e escutei seu coração. Abri os olhos vendo seu corpo ainda brilhando, o meu também brilhava fechando as feridas que estavam sendo feitas. O peito de Lisanna se moveu desesperadamente à procura de ar e eu encostei novamente minha testa na sua. Dessa vez não me veio a voz e sim a sensação de paz. — Obrigada. — Murmurei e desencostei nossas testas enquanto vi os olhos azuis com vida se abrindo rapidamente e piscando.
— Lucy. — Ela os arregalou e vi que todos prendiam a respiração. Soltei-me dela e então puxei o ar. Me sentia revigorada e cansada. O que era estranho.
Observei Sting apertando Lisanna contra si. Sorri com isso, eu quase me sentia feliz com o fato de ter trago uma pessoa á vida.
Deus, o que eu fiz? O que eu sou capaz de fazer?
Eu estava mortificada agora que conseguia pensar: “Você pode morrer;”
Eu expus Natsu e eu á um risco de morte. Eu tenho algum problema?
Cerrei os olhos novamente, foi quando me deparei com a cena.
— Graças, obrigada, Deus. — Mira murmurava enquanto chorava e abraçava Lisanna. Segurei minha cabeça e tampei meus olhos, alguém me abraçou. Acho que valeu á pena, sorri com isso brevemente.
Senti minha pele formigando. Natsu.
— Lucy, você podia morrer. — Suspirei apoiando meu rosto em seu ombro e aspirando seu cheiro.
— Eu sei. — Foi a única coisa que murmurei enquanto ele me levantava com o abraço. Seus lábios encostaram em minha testa e desceram pelo meu nariz até chegarem á minha boca. A marca pinicou e me senti bem, não estava mais ardendo como antes. Apertei-me novamente em seu abraço. — Eu ainda vou ficar bastante tempo para te proteger. — Senti seu peito tremendo numa risada.
— Lucy. — Me virei para Vincent e Mavis, eles pareciam aliviados mas ainda assim seus olhos passavam repreensão. — Isso foi imprudente, perigoso. — Respirei fundo. — Você poderia ter morrido. Você selou seus corpos por um tempo, isso passou tudo que ela tinha para você. — Vincent segurou a testa, a mesma coisa que faço quando estou nervosa. — Você se submeteu ao julgamento divino. Isso é perigoso, mas você passou. Por isso seu corpo se regenerou... Mas caso não passasse, você retiraria sua vida, e colocaria toda sua energia vital em Lisanna, era isso que você estava passando para ela, parte de sua energia vital. Essa se esgota, caso ela acabe, você morre. — Tremi e Natsu me apertou, parecia que todos estavam atentos ao que Vincent falava. — Caso a alma dela fosse desmerecedora, metade da sua energia seria sugada e você ficaria humana, e morreria, já que não teria magia para manter a marca em Natsu. — Arregalei os olhos.
Gemi em frustração. — De que adianta ter todo esse poder, se não posso salvar que eu amo?
— Lucy, você não pode ficar fazendo os outros voltarem à vida, querida. É o ciclo vital — Mavis disse. — Mas... Fico feliz que tenha conseguido e isso nos prova que você tem poder, agora sua vida está ligada com a de Lisanna.
— Mas não faça isso de novo, Lucy. — Os olhos azuis de Vincent se conectaram aos meus, como se esperasse que eu prometesse. Desviei-os me lembrando de quem ele realmente era. Cocei a garganta e assenti.
— Lucy. — Lisanna estava de pé. Seus olhos transbordavam lágrimas. Seus braços me rodearam e soltei-me de Natsu apertando-a. Agora eu me sentia ainda mais estranhamente bem perto dela, a mesma brisa passava de mim para ela. Mas não sentia o mesmo poder, mas era algo agradável.
— Você está bem? Se lembra do que aconteceu? Alguma coisa dói? — Seus olhos se voltaram para mim.
— Eu não lembro... — Sua voz saiu sussurrada. Conti as lágrimas. — Não sinto, nem lembro de nada por alguma razão. — Passei a mão em sua cabeça.
— Como imaginei. — Vicent interrompeu. — A benção permitiu que o acontecimento fosse completamente apagado.
— Lisanna! — Vi Erza correndo em nossa direção e abraçando Lisanna. Ambas caíram no chão. Apesar de toda a tensão eu ri. — Nunca mais ouse morrer! — Fechei os olhos aspirando o cheiro da floresta, tenho um mau pressentimento.
Imagens me vieram à cabeça, tudo aquilo que vi enquanto curava Lisanna, nossas testas pareciam uma transmissão de pensamentos, eu pude ver como ela foi violentada e violada, mas eu também tive acesso á boa parte de seus pensamentos.
Vincent me veio á cabeça e senti segurança, mas mesmo assim...
— Vincent. — Pensei no que Lisanna disse e me veio os pensamentos dela que consegui ler enquanto encostava nossas testas. Meus olhos alargaram-se e o pavor tomou conta de meus músculos.
O homem parecia me analisar. Nunca havia pronunciado seu nome, mas eu via uma decepção em seu olhar. Ele queria o que?
— O que foi, querida? — Mas mesmo assim, seu tom era calmo e gentil.
Mesmo com seu tom apaziguador, eu não conseguia me acalmar, meu interior estava em pânico. Olhei para Natsu, ele estava me encarando. E pela sua expressão, ele conseguia ver meus pensamentos, ele já sabia de tudo.
Seus braços fortes me rodearam em uma pose defensiva e com a voz falha devido as lágrimas que brotaram em meus olhos, consegui dizer aos sussurros:
— Eu sei o que ele pretende. — Os olhos de todos se viraram para mim, meu estômago revirava em pavor.
— E o que ele quer? — Mavis passou a mão suavemente por meu braço.
— Ele quer se vingar. — Olhei para Vincent, aquilo era como se ele já soubesse, e então completei: — E ele quer a mim.
Continua
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