Up all night I won't quit

3 [MIYEST] - Capítulo 3


Kimura me ofereceu um dos muitos quartos do castelo. Me perguntei do porquê ter tantos quartos se ela morava sozinha. Talvez ela escondesse segredos... e, honestamente, não sei se gostaria de ouvi-los.

O quarto era maior do que minha antiga casa. Um tipo de quarto que eu poderia ter se tivesse seguido com a ideia de me casar. Uma porta toda adornada e esculpida com flores na madeira dava acesso a uma pequena sala, com poltronas, um tapete redondo e uma lareira aconchegante. Logo a frente, tinha uma cortina de veludo vermelho escuro que dava acesso a varanda, o vento frio ricocheteando o tecido. No canto mais reservado, uma cama enorme e muitos travesseiros e almofadas. Duas mesas de cabeceira uma de cada lado da cama com castiçais antigos e alguns livros. Mais duas portas pareciam dar acesso a outros lugares.

— Espero que goste dos seus aposentos.

— Isso é impressionante! — elogiei. Um sorriso se abrindo sem eu perceber. — Se esse é o quarto de visitas, me pergunto como deve ser o seu.

O comentário pareceu pegar ela desprevenida, pois ela me olhou confusa por alguns segundos.

— Não é tão diferente. — Apontou para as duas portas misteriosas perto da cama. — A da esquerda leva para um banheiro privativo e a direita para um armário com roupas limpas. Sinta-se à vontade.

— Espera — pedi, quando notei que ela estava fechando a porta. — Obrigada. Muito obrigada mesmo. — Tive uma sensação estranha ao dizer isso. Como se eu fosse me arrepender de agradecer.

Ela me encarou por poucos segundos.

— De nada. — E fechou a porta.

***

Passar a viver com uma desconhecida que conheci ao acaso foi uma experiência peculiar. A cada dia, eu conhecia uma parte diferente do castelo seja explorando ou limpando. Às vezes, passava tardes lendo os livros da biblioteca enquanto ela escrevia algo naquele livro que a vi escrevendo na primeira vez. A esse ponto, já começava a achar que fosse algum tipo de diário.

Durante a noite, ela sumia sem explicação. Eu não reclamava, devia ter seus compromissos nesse horário. Usava as noites para ficar em meu quarto e observar a floresta e o céu da varanda de lá. O céu parecia tão mais limpo ali, e a floresta muito maior do que era. A vila era apenas um ponto levemente iluminado nela. Eu rezava mentalmente para que meu pai estivesse bem, e meu irmão também, onde quer que estivesse.

Em alguns dias, eu conseguia encontrar outras pessoas que também cuidavam do castelo. Criados, cozinheiros, outros faxineiros. Eu tentava falar com eles, mas não me respondiam, como se eu não estivesse lá.

Abordei Kimura um dia sobre isso.

— Quem são essas pessoas que trabalham no seu castelo? São pessoas que você ajudou também? — questionei. Eu a seguia por um dos corredores depois do compromisso noturno dela. Eu segurava uma caneca com chá, como se eu a tivesse encontrado por acaso do caminho da cozinha para meu quarto, mas na verdade, eu só estava esperando ela voltar.

— Não é importante. — Estava ansiosa, escondia suas mãos nas longas mangas do vestido que usava.

— É que agora que estou por aqui também eu achei que...

Ela me fitou com impaciência.

— Eles me ajudam quando preciso, e eu os ajudo quando eles precisam. Simples assim. — explicou, e continuou seu caminho pelo corredor. Não sei se era a iluminação ou coisa da minha mente, mas pude ver uns respingos de sangue em seu pescoço.

Foi a partir dali que comecei a acreditar que ela era algum tipo de mercenária, e que era por isso que nenhum mercante ou nômade passava por aqui. Pode ser que ela tivesse construído uma imagem temida de si mesma que deixaria quem quer que fosse longe dela.

E por que eu nunca tinha ouvido falar dela?

Usei meu tempo livre para ficar na biblioteca e estudar sobre o castelo e ela. Quando ela estava por perto, eu dizia que era apenas curiosidade sobre o local e a história dele, o que não era mentira, mas também não era só sobre o lugar que eu queria saber. Procurei em livros de figuras históricas, de deuses e guias de viagem, na busca de qualquer informação sobre ela, sem sucesso.

Em uma das noites de primavera, eu estava na biblioteca e ela me chamou da porta.

— Venha comigo.

Fui com ela até o jardim dos fundos do castelo. Existiam várias flores e árvores pequenas por ali, algumas frutíferas, e vários caminhos pavimentados de pedras serpenteavam pelo jardim. Existiam alguns bancos e, mais ao longe, no limite do morro onde o castelo ficava, uma pérgula circular dava vista a um lago e ao fim da floresta se abria um longo campo que se seguia até as geleiras do norte.

Era noite, e o céu estava limpo. A lua banhava todo o jardim com o luar, que deixava tudo mais... sereno.

— O que está achando de ficar aqui? Já se passaram dois meses — ela começou ao mesmo tempo que começamos a percorrer um dos caminhos de pedra.

— Está bom. Eu agradeço a estadia — eu brincava com meus dedos como forma de aliviar a ansiedade. Por algum motivo, eu ficava assim quando estava perto dela. Antes, era porque não a conhecia. Agora, é porque tinha medo de conhecê-la.

— E os estudos sobre o castelo? Tem algo que não conseguiu descobrir ainda? Posso te ajudar com isso — ela me olhou com compreensão. Ela não parecia estar com pressa, como acontece na maioria das noites. Pelo contrário, estava bem calma.

— Hmm... — murmurei. Essa podia ser minha chance! — Esse é seu castelo mesmo? Ou era de outra pessoa?

Antes ela poderia ficar ofendida com a pergunta, mas nesse dia, ela suspirou e respondeu:

— É da minha família. Algo do tipo.

— E onde está sua família?

Ela olhou para o céu. Seus olhos violetas no luar reluziam um brilho especial.

— Longe — disse apenas.

— Você nunca... se casou? — continuei com minhas perguntas. Ela ainda não tinha me interrompido, então pode ser que não se importasse de eu seguir com elas.

Chegamos a pérgula, e ela se apoiou no parapeito, olhando para baixo.

— Conheci um homem uma vez, mas não me casei. Não posso.

— Você tem alguma religião? — ela me olhou séria, e sabia que aquela era minha hora de parar. — Desculpe.

Ficamos um tempo em silêncio. Eu me apoiei no parapeito também.

— Eu ia me casar. No segundo dia que vim para cá, eu estava fugindo de quem eu ia me casar. Eu teria que me mudar e ficar longe do meu pai, e eu não teria como ajudá-lo ou vê-lo. Seria como meu irmão que tanto critiquei. Não queria que ele ficasse sozinho.

Ela me olhava com compreensão, empatia.

— Você já deve saber. Aquele dia você falou que eu não poderia ver meu pai que ele ficaria chateado de não ter seguido com o plano dele de me dar uma vida melhor. Como sabia?

— Não é a primeira que veio aqui para fugir disso. Você me perguntou das pessoas que vêm aqui, e uma boa parte veio por isso. Não acho justo precisar passar toda sua vida casada com alguém que não goste por quaisquer motivos que sejam.

Assenti com a cabeça, compreendendo. Todavia ainda tinha algo me incomodando.

— Por que não as vejo sempre se elas moram aqui?

Ela me olhou nos olhos de novo, um olhar diferente. Queria e não queria me contar.

O silêncio se instalou de novo, mas não fiquei intrigada dessa vez. Ela devia ter um bom motivo, não é?

— Como lidou com seu vitiligo? — ela quem perguntou de repente.

— O quê?

Ela apontou para as costas da mão e traçou com os dedos.

— Ah, é assim que chamam? — ela assentiu, e eu olhei para minhas mãos. Meus braços eram de um marrom claro, mas a partir das costas das mãos minha pele perdia a cor até a ponta dos dedos. Tinha isso em meus pés e rosto também. Uma mancha pegava uma parte do meu rosto, descolorindo parte da minha sobrancelha e cílios esquerdos. Tinham partes menores espelhadas pelo restante do rosto também.

— Meu pai dizia que éramos abençoados pelas estrelas. — Continuei. — Meu pai e meu irmão também têm. Ele contava que nossos ancestrais foram abençoados pelos deuses das estrelas. Os deuses os tocaram e ficaram com as manchas. Meu pai contava que queria dizer que teríamos um futuro brilhante e perto da família... que isso era ser um Sardjoe.

Ela observava atentamente.

— É muito bonito da parte dele. Ele sempre contou histórias para vocês assim?

— Aham. Meu pai contava de todos os tipos de histórias para a gente dormir. Quando o papa era vivo, ele dizia para ele ser escritor. Ele retrucava que não podíamos contar com a sorte, e preferiria manter disso só um passatempo.

Olhei ela de volta.

— Você pode ver seu pai amanhã.

— É sério? — perguntei, em choque. Ela assentiu.

E então eu a abracei. Ela tinha cheiro de ameixas e pimenta.

Não me importei se ela não gostasse. Sempre gostei de abraços e são um conforto para mim, e eu estava feliz de poder ver meu pai de novo.

Ela me empurrou para sair do abraço.

— Já deu.

— Obrigada mesmo! Mas... o que irei falar para ele?