Up all night I won't quit

6 [FADREY] - Capítulo 1


Desde criança, lendas e o místico me fascinaram. Revistas, pôsteres e fitas sobre o desconhecido eram as coisas que mais preenchiam meu quarto.

Eu sempre gostei de desenhar também. Usava essas ideias de inspiração e desenhava tudo que me viesse a cabeça. Meu avô me apoiava bastante, e foi assim que entrei para a faculdade de artes.

Desenhar me trazia paz. Uma serenidade que eu não alcançava com outro passatempo, no máximo, levar meu walkman para onde quer que eu fosse.

Quando me mudei para o campus da universidade, ele se tornou minha melhor companhia. Não que eu não tivesse amigos lá, Zahirah e Villem eram ótimos amigos e não nos separávamos nos intervalos das aulas e nem nos fins de semana.

Era um dia como qualquer outro. Eu estava indo para o nosso ponto de encontro depois do fim das aulas de sexta-feira, no auditório. Encontrei os dois do lado de fora e estavam cochichando algo quando me aproximei.

— Eu duvido que você vá até lá. — Vill brincou.

— Nunquinha. Prefiro fazer redações todo dia até o fim da graduação. — Zah o respondeu.

— O que estão cochichando? — Me aproximei com a cadeira, e o olhar dos dois se voltou para mim.

— Oi Fay! Estávamos falando sobre o castelo assombrado que todo mundo tem falado no limite da cidade. — Zah explicou.

— Tá rolando uns boatos que tem alguém vivendo lá. Disseram que viram vultos e luzes apagando. Até que tem um cachorro-fantasma lá. — Vill completou e me mostrou o jornal da universidade.

Eu não gostava muito de lê-lo. A maior parte das manchetes ali eram sensacionalistas, como qualquer jornal, e muitas vezes eram só especulações.

— Sua família mora lá perto Vill, por que não fica de olho no castelo esse fim de semana e segunda nos diz o que viu? — Zah propôs.

— Deve ser só mais uma besteira que inventaram para poderem ficar invadindo lá e usar a desculpa de que estão estudando ou investigando alguma coisa. — Eu disse, e os dois assentiram com a cabeça.

— É, tem razão. Bom, eu vou para casa para ver minha família e não dar uma de caçador de fantasmas. Nos vemos na segunda! — Villem se despediu, acenou e tomou o caminho para fora do prédio.

— Com fantasmas ou sem eles, aquele lugar deve estar cheio de história, né? — Zah comentou.

— Já não está tudo abandonado a séculos?

— Bem, sim, o castelo é de uns dois séculos atrás pelo menos, mas como ninguém nunca entrou lá que a gente saiba, tudo que tinha desde aquela época ainda deve estar lá.

Eu não tinha pensado nisso. Eu gostava de saber sobre curiosidades do passado e como tudo funcionava a tempos atrás. Minha segunda opção de graduação seria História, e eu estaria na mesma classe que a Zah.

— Dá para ver que você está curiosa. — Eu disse, e ela abriu um sorriso sem jeito.

— Não minto, mas preciso estudar para as finais. — Ela apontou com a cabeça para a dupla de livros que segurava. — Talvez quem sabe quando as provas acabarem.

— Vou tentar fazer você mudar de ideia até lá — brinquei e ela riu.

Nos despedimos e fomos cada uma para seu dormitório. No meio do caminho, desejei que Sasha ainda fosse minha colega de quarto. Ela adoraria explorar o castelo e fazer estudos sobre o que encontrasse.

Sentia falta das noites não dormidas que tínhamos discutindo sobre o universo, ela me mostrando sua coleção de HQ’s e contando sobre seu grupo de D&D. No começo não achei que poderíamos nos dar bem. Não de brigar nem nada, mas de falar poucas coisas uma com a outra. Acabou que tínhamos feito uma ótima amizade, todavia ela precisou se mudar, e desde então estava sozinha no quarto.

Eu gostava da minha própria companhia, mas estava me acostumando de novo só com ela.

Quando cheguei no quarto, estava interessada em saber mais sobre o castelo. Não era nada demais, eu pegaria alguns dos livros que Sash deixara sobre histórias e mitos antigos para ver se encontraria algo sobre.

E para minha ansiedade, não encontrei nada. Apenas mitos sobre espíritos, zumbis e vampiros, mas nada que realmente ligasse o castelo com algum desses eventos ou com algum fato histórico importante.

Agora minha noite de sono estava correndo risco, e eu precisava saber mais.

Faltava pouco para a biblioteca do campus fechar, então me apressei para chegar tempo suficiente de poder usar o computador por alguns minutos.

Cinco minutos depois, e eu estava de frente para um dos poucos computadores da biblioteca. Agradeci por ter chegado pouco antes de fechar e não ter quase ninguém por ali. Comecei pesquisando pelo castelo e pela cidade, mas não encontrei nada do qual já não soubesse. Então foquei apenas no castelo.

Era difícil achar algo que fosse de fontes realmente confiáveis, já que as histórias sobrenaturais sobre ele eram as que mais apareciam na pesquisa. Precisei de quase todo o tempo restante antes que a biblioteca fechasse para encontrar uma postagem de um blog.

Castelo a beira da cidade sequer tem história?”

Conforme eu lia, eu percebia que a curiosidade com o castelo já vinha de tempos. E claro, o pessoal do blog afirmou que tinha conseguido entrar lá e encontrado... Nada. A postagem era um extenso texto contando sobre quando chegaram lá por uma janela quebrada que tinha nos fundos, e seu interior era totalmente vazio.

Era uma carcaça de pedra e vidro quebrado.

Eles procuraram por livros antigos qualquer material que pudesse ser usado como estudo amador, mas sem sucesso. Era estranho. Como um castelo de mais de 200 anos não tinha nenhum indício de seu passado?

Estava decidido: eu iria para lá no dia seguinte.

***

No meio da tarde, quando reuni todo o material que achei ser necessário e coloquei na minha mochila, parti em direção ao castelo.

Não era usual eu sair do campus sozinha, mas seria apenas uma tarde, uma noite, no máximo. E então eu voltaria para meu quarto e poderia dormir com a mente tranquila.

Uma parte de mim se perguntava por que da curiosidade repentina com o castelo, já que ele sempre esteve lá no limite da cidade com a floresta que a rodeava. Era estranho, era quase como se algo me chamasse para lá. Algo ou... alguém.

Nunca fui de acreditar no místico e desconhecido, mas nunca neguei também. Talvez com esse castelo eu poderia confirmar enfim se eu acreditava em tudo isso ou não.

Era a primeira vez que iria para a floresta sozinha, já que por causa do solo era difícil de me locomover com a cadeira de rodas. Por um breve momento, esperei encontrar algo muito absurdo e além do que eu imaginava para poder valer todo o esforço.

Conforme eu adentrava a mata, a construção de pedra ficava mais evidente. O castelo ficava em uma campina e era interessante ver como a mata fazia quase um círculo perfeito ao seu redor. Os picos do castelo e de suas torres eram de um vermelho escarlate, e ao contrário do que tinha ouvido falar, as paredes de pedra pareciam muito bem cuidadas, apenas algumas ervas-daninhas aqui e ali. As janelas, pelo menos as da frente, estavam muito bem cuidadas: vitrais coloridos de vermelho, marrom e roxo ilustravam cristais e paisagens nas janelas altas e estreitas. Uma porta de madeira maciça decorava o centro do castelo.

Me aproximei da porta e notei a campainha como sendo uma alça de metal pendurada na madeira. A segurei e bati, esperando por algum sinal. Parei para pensar como isso era estúpido, já que estava abandonado. Se eu quisesse entrar, teria que procurar outra entrada.

Foi quando a porta abriu. Eu esperei pela figura de alguém, mas ninguém apareceu. A porta parecia ter sido aberta sozinha.

Empurrei a porta com toda a força que reuni, quando adentrei o salão principal, deixei que meus olhos viajassem por ele.

O cheiro de poeira e mofo que eu imaginava sentir não chegou. Do contrário, tinha cheiro de... cera e cravos. Tinha cortinas vermelho-escuro nas janelas que estavam recolhidas e em nós decorados com fios dourados. Ao centro, uma pequena escadaria levava a um trono antigo, parecendo ter saído de uma pintura medieval, com um pedaço de tecido da mesma cor e adornos em prata. Acima, um lustre elaborado iluminava o lugar com velas compridas. Além disso, outros apoios de velas nas paredes também ajudam na iluminação.

A porta fechou atrás de mim com o vento, e eu me arrependi de não ter colocado algo para segurá-la. Eu estava como os protagonistas de filme de terror que criticava tanto. Me arrependi também de não ter levado nada como defesa, porque se as velas estavam acesas, então alguém não muito tempo antes as acendeu, certo...?

Eu escutei um barulho de algo metálico caindo em um dos corredores um de cada lado do trono que levavam para mais adentro do castelo. Mantive minha postura, e me peguei desejando que fosse um guaxinim ou algo parecido.

Uma figura surgiu na penumbra segurando um castiçal longo. Não parecia ter notado minha presença, até se virar e ficar abaixo da luz.

Era uma garota, tinha o cabelo ruivo curto, quase de um tom bronze, e vestia uma calça verde-escura folgada e um casaco esportivo com verde, amarelo e vermelho com uma blusa branca de gola alta por baixo e calçava coturnos marrons.

— Ah, oi! Você veio com o grupo? — Ela colocou o castiçal em um canto de forma desajeitada, quase o derrubando de novo umas duas vezes.

Eu fiz que não com a cabeça. Não sabia o que imaginar: ela já estava ali? E se estivesse vandalizando o lugar? Eu deveria chamar a polícia? Bem... Eu estava invadindo um lugar privado – em teoria – também.

— Então está aqui por que não resistiu a tentação de descobrir mais sobre esse castelo? Ou... está vendendo coisas ilícitas? Você não tem cara de que venderia drogas. — Ela foi se aproximando, e eu não conseguia me movimentar, estava atônita com a presença dela e com o que ela disse.

— Não! Não vendo nada. Vim de... — tentei resumir minha ansiedade repentina por esse lugar em uma palavra — curiosidade. Parece que você já está bem familiarizada com este lugar.

Ela fez uma expressão de surpresa.

— Bem eu venho aqui as vezes... mas ainda tem muita coisa para explorar. Quer vir junto?

Eu a analisei cuidadosamente. E se ela tivesse segundas intenções?

— Ah, perdão. Eu me chamo Audrey, e você? — Ela estendeu a mão para mim. Tinha alguns anéis de prata em seus dedos. Não conseguia distinguir quais padrões tinham.

— Faith. — Não apertei a mão dela. Minhas mãos estavam no apoio das rodas, para qualquer emergência.

Ela guardou a mão no bolso do casaco, sem jeito.

— É sua primeira vez aqui? — perguntou casualmente, indo na frente.

— É. Quantas vezes você já veio? — rebati com outra pergunta. Ela pensou por um breve momento.

— Hm... Perdi as contas, mas sempre tem algo novo para explorar por aqui. Tem alguma parte que você queira conhecer mais? Posso te ajudar. — Ela se virou e começou a andar de trás para ficar de frente comigo. Ela parecia estranhamente confiante de estar em um lugar abandonado.

Talvez ela só tivesse visitado muitas vezes aqui, e possivelmente fosse a responsável por acender as velas e fazer barulhos... Certo?

— Não tem. Só queria conhecer mesmo. — Respondi, e ela assentiu com a cabeça, digerindo a informação. — Muitas pessoas vêm aqui?

— É... Nas últimas semanas sim. Desde os boatos da universidade muitos vem para cá e ficam inventando história. Assim, não que estejam errados também, já presenciei muita coisa estranha...

— Tipo o quê?

— Ah... Bem... As portas e janelas fecham sozinhas. Sei que as vezes é o vento, mas nunca se sabe. Dá para escutar vozes também dependendo da hora da noite que você vem.

Emiti um murmúrio de que estava prestando atenção, enquanto pegava meu caderno da mochila e uma caneta. Escrevi tudo que ela disse, além de seu nome e físico também. Ela poderia ser importante.

— Você é do jornal da universidade? Ou da cidade? — Ela se voltou para a frente, procurando uma porta em específico. Me surpreendia que as portas pareciam desgastadas, mas suas dobradiças estavam novas.

— Só queria conhecer aqui mesmo. E você? Estuda na universidade?

— Não... Sou um espírito livre. — Foi tudo que disse.

Assenti. Não iria perguntar mais, pode ser que ela estivesse desconfiada de mim também.

— Você já viu algum cachorro por aqui? — Lembrei do que Vill tinha me dito mais cedo.

— Cachorro? — repetiu. — Hmm, eu já vi alguns vira-latas por aqui. Por quê? Tão dizendo que tem um cachorro-fantasma aqui também?

— É, exatamente. — Confirmei, e ela nada disse.

Audrey parou de frente para duas portas. Diferentemente das outras, ela tinha adornos na madeira e sua maçaneta era dourada e redonda em vez de prata e curvada como as outras.

— Chegamos na biblioteca. — Ela abriu as duas portas ao mesmo tempo, e o que vi lá dentro me surpreendeu.

Eram estantes e mais estantes de livros, uma ampla janela de vitral dando vista para a floresta, e algumas poltronas espalhadas ao centro do ambiente, junto de algumas mesas e... abajures? Era estranho ver algo que não combinava com a estética medieval do lugar.

— Como as pessoas disseram que estava abandonado? Olha o tanto de coisa tem por aqui! — Fui até a estante mais próxima e peguei um dos livros. Era um de botânica, e senti que ia espirrar quando o abri com a poeira se espalhando.

— É... acho que eles só não exploram direito mesmo. — Ela disse, entretanto eu estava focada demais em tudo aquilo para prestar muita atenção.

Eu fui me locomovendo de estante em estante, sem certeza do que procurar. Era tanto conhecimento inexplorado ali... Eu poderia mudar a ideia de todo mundo sobre ali. Ou não... e ter todo o tempo que precisava para ler aqueles livros.

— Você pode vir aqui sempre que quiser. É a única que não veio aqui para vender, comprar ou querer lucrar com o castelo de alguma forma. — Ela explicou, sentada em uma das poltronas como se tivesse sido jogada ali.

— Você fala como se fosse dona do lugar. — Comentei, e ela logo se ajeitou em postura, com vergonha.

— Ah não... É que eu acho que sou a que mais vem por aqui. Não estou ligada com ele de qualquer forma. Só... prefiro ficar aqui a ficar em casa. — Contou, o semblante ficando chateado de repente.

— Entendi. — Olhei a hora no relógio que levava no pulso. Uma hora desde que saí do campus tinha se passado. — Eu posso ficar aqui mais um tempo?

Ela abriu um sorriso tímido.

— Claro. Só não vai dormir aqui. Vão dizer que fantasmas te sequestraram. — Brincou, mas eu não soube responder a isso.

Ela se ajeitou na cadeira, as pernas cruzadas e as mãos para trás da cabeça, fechando os olhos em seguida. Parecia que ela iria dormir.

Enquanto isso, eu estava só no começo da minha pesquisa.