Up all night I won't quit
8 [FADREY] - Capítulo 3
Quando fiz Zah prometer e esquecer da ideia de que eu estava gostando de alguém – e isso levou mais tempo do que o esperado – me despedi dela para ir à biblioteca até que viesse o entardecer. Aproveitei a oportunidade para pesquisar sobre algo além do castelo: Audrey.
Não que ela fosse muito famosa para aparecer em fóruns de notícia, mas quem sabe ela tivesse sido mencionada em algum momento? Procurei além de seu nome, mesmo não sabendo muito sobre sua família ou seu sobrenome.
Minutos se passaram e a pesquisa foi sem sucesso. Não iria sair dali sem nada, e procurei por alguma Janna. E por incrível que pareça, eu encontrei. Eram apenas dois artigos escritos, não tinha como ter certeza por conta de seu sobrenome, mas ambos tinham como tema: fantasmas e o paranormal. Pela sua escrita, ela só parecia alguém muito interessada no assunto.
Talvez eu não devesse me preocupar tanto com ela.
Peguei meu caderno e caneta da bolsa que eu levava para passar o tempo. Deixei que minha mente fluísse pela imaginação, me fazendo usar algumas páginas no processo. Desenhei o castelo, as decorações de que me lembrava, minha antiga casa que morava com meu avô e os pôsteres que Sasha pendurava em sua parte do quarto.
Me dei conta que, ademais de todas as ilustrações, quem mais preenchia aquelas páginas era Audrey.
Isso era um problema.
***
Assim que o sol se pôs, fui em direção a sala do clube. Eu imaginava encontrar apenas minha colega de quarto, levando em conta o horário, porém quando cheguei vi que mais algumas pessoas conversavam com ela e eu sabia que eram do clube, apesar de não saber quais eram seus nomes.
— Ei — me disse assim que viu. — Se importa de ser entrevistada por alguns minutos? Estamos entrevistando algumas pessoas para fazer uma pesquisa sobre seus conhecimentos sobre o castelo.
Eu assenti, ela se sentou em uma das cadeiras próximas e pegou seu bloco de anotações que descansava na mesa a minha frente. As outras pessoas pareciam ocupadas com o quadro de estudo que ficava em uma das paredes da sala ou conversando entre si.
— Seu nome completo?
— Faith Halla-Kanerva.
Ela anotou. — Seu curso... Artes Visuais, certo?
Assenti. Até então parecia uma entrevista comum.
— Quantas vezes você já foi até o castelo?
Parei de respirar por um breve segundo. O que eu poderia responder?
— Uma vez. Faz dois dias. — Respondi sem culpa. Eu não precisava contar toda a verdade.
— Por quê?
— Eu queria descobrir se o que estavam falando era real.
— E o que descobriu?
— Não tem muita coisa lá, nas partes que consegui ir. Não parece ter nada demais, e se tiver fantasmas e coisas do tipo como dizem não pareceram se importar com minha presença.
Janna me olhou por um breve momento, procurando algo em meu olhar. Não disse nada, e anotou isso também em seu caderno.
— Foi com mais alguém? Alguém que você conhece já foi para lá e te contou do que viu?
— Não e... não também. Meus amigos que me contaram sobre os boatos recentes, mas que eu saiba nenhum dos dois foram.
— Entendi... — Ela anotou mais um pouco e suspirou. — Certo, era isso. — Se levantou e guardou o bloco de anotações em sua bolsa. — Sobre o que queria falar comigo?
Tudo em o que tinha pensado para falar com ela se passou na minha mente como um flash. De repente, boa parte do que parecia fazer sentido antes não fazia mais.
Eu sentia que poderia dizer mais sobre minha visita ao castelo, mas talvez isso não fosse uma boa ideia. Não por enquanto.
— Você é transferida né? De onde você vem?
— De uma universidade no sul. Eu acabei ouvindo sobre os boatos desse castelo e achei que seria mais interessante começar minha carreira como jornalista por aqui.
Murmurei assentindo.
— Você pensa em ir ao castelo também? — questionei.
— Óbvio. Eu tenho bastante matéria para pôr em dia devido a transferência, mas planejo em ir lá com os outros do clube no próximo fim de semana.
Um arrepio me percorreu. Isso não era bom. Por algum motivo, eu sentia que não seria bom.
Eu precisava contar a Audrey ainda hoje.
***
Não me senti confiante de sair. Eu precisava arrumar um jeito sem que Janna desconfiasse.
Minha melhor opção seria dizer que estaria com Zah em seu dormitório, para caso ela perguntasse.
Eu não sei bem por que sentia que devia proteger certas verdades sobre o castelo. Da mesma forma que Audrey dizia que confiava em mim, eu não sentia confiança na minha colega de quarto para compartilhá-las. Seria melhor assim, certo...?
Percorri todo o caminho até o castelo mais uma vez, e eu sentia uma brisa de chuva próxima. Torci para que não chovesse até que pudesse retornar para o dormitório.
Bati com as alças de metal na porta de madeira, e a porta logo se abriu. Audrey me olhava do outro lado.
— Oi! Bem-vinda de volta.
— Oi. — Ela tinha dado espaço para eu passar na porta, mas minha ideia não era entrar. — Vai ser rápido hoje. Eu conversei com a Janna e ela disse que virá no final de semana. Algo nela tá me incomodando... Queria que você soubesse o quanto antes para se preparar ou sei lá.
Ela me analisava calmamente.
— Isso me parece uma desculpa para me ver. — brincou, uma expressão risonha em seu rosto.
— Não é! — eu disse com mais entonação do que queria. — Só queria...
Senti umas gotas geladas em meu rosto. Em questão de segundos, as gotas se tornaram uma tempestade, com direito a trovoadas e raios.
Só podia ser brincadeira.
Eu aproveitei que ela ainda não tinha se movido para entrar.
— Acho que seu plano para voltar cedo foi por água abaixo. — Ela apontou com o polegar para a chuva antes de fechar a porta.
— Não foi... Vai parar de chover logo. — Olhei para a janela na esperança que tivesse certeza de repente do que estava falando, mas não aconteceu.
Ela acompanhou meu olhar.
— Hmmm... Vai morrer esperando — continuou, e eu a olhei com repreensão, o que não funcionou.
Ela abriu um sorriso largo, e consegui ver melhor os caninos que me chamaram a atenção em antes.
— Escuta, é melhor passar a noite aqui hoje. A não ser que queira chegar encharcada no seu dormitório.
Pensei uma, duas, dez vezes. Repreendi eu mesma pela péssima ideia de ter vindo, coisa da qual já tinha me arrependido.
— Eu não vou ir lá para cima. — disse simplesmente.
— Tudo bem, tem quartos aqui embaixo! — ela foi na frente, me guiando. — Como foi o seu dia?
A pergunta repentina e incomum me pegou de surpresa. O que Zah havia me dito passou rapidamente pela minha mente.
— Nada de interessante além disso. Por que quer saber?
Ela deu de ombros. — O meu foi repleto de nadas.
— Nenhuma outra pessoa veio aqui além de mim nesses últimos dias?
— Vieram mais pessoas sim, mas nada demais. Eram só uns estudiosos de construções antigas ou algo assim, nem precisei falar com eles.
Guardei isso em minha mente para anotar depois.
— Aqui. — disse quando ficamos de frente para uma porta como todas as outras, tirando o fato que parecia menos empoeirada. — Eu costumo dormir aqui se não se importar, mas aí eu durmo lá em um dos quartos de cima sem problemas.
— Por que está me oferecendo logo o seu quarto? — perguntei, desconfiada.
— Bom... é a melhor cama que eu considero que tem aqui. Você pode testar as outras se quiser, mas levaríamos a madrugada inteira para isso.
Eu não sabia o que dizer ou como reagir. Honestamente, eu preferiria sim fazer isso, mas algo em sua expressão de convencida me fez desistir.
— Tudo bem. Se eu amanhecer com piolhos já sabe.
Ela fez uma expressão divertida de quem parecia ofendida.
— O quê? — Ela riu logo depois. — Estou gostando de conhecer esse seu lado piadista.
— Ah é. Vai se acostumando. — Eu adentrei o quarto dando uma analisada rápida. Estava limpo e tinha uma decoração semelhante ao quarto que fomos ontem, tirando o fato de não ter a varanda, apenas uma grande janela por trás das cortinas púrpura.
— Vou deixar você descansar. Qualquer coisa estarei lá em cima e... Ah! Espera um segundo. — Ela saiu correndo e voltou minutos depois com algo na mão. — Aqui, pode usar ele para me chamar, assim não precisa se levantar.
Era um sino, daqueles bem adornados de prata com desenhos de roseiras por fora.
— Duvido que consiga me ouvir daqui lá em cima. — Peguei com cuidado, parecia frágil.
— Quer pagar para ver? — desafiou, confiante.
A olhei nos olhos, mas não consegui sustentar seu olhar por muito tempo.
— Não. — disse simplesmente e ela riu, se afastando. — Boa noite!
Quando a porta se fechou, suspirei todo o ar que eu estava prendendo sem perceber. Olhei para a porta por mais alguns segundos, para ter certeza de que ela tinha ido embora. Depois disso, explorei um pouco do quarto. A vista da janela não era tão bonita quanto do andar de cima, e as cortinas pareciam menos gastas. Não tinha outros cômodos ligado a esse, e a única coisa que me chamou a atenção era um livro na mesa de cabeceira. Em sua capa, estava escrito:
Damgaard, Audrey. 1986.
Era um diário, e por um breve momento quis abri-lo. Eu poderia saber mais sobre ela... ter todas as respostas para minhas perguntas..., mas não. Não era certo.
Ignorei e coloquei a cadeira de rodas paralela a cama para que pudesse me transferir de uma para outra. Assim que arrumei minha posição no colchão e me deitei, senti o cheiro da Audrey. Era amadeirado ao mesmo tempo que floral, de rosas, especificamente.
Senti também minha respiração e coração dar um descompasso irritante. Não era nada demais, era só um perfume.
E ainda assim, esse perfume se faria presente até nos meus sonhos.
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