Up all night I won't quit

14 [BEANDI] - Capítulo 4


Uns dias depois de eu recusar a falar sobre para Skye e meu humor de volta ao normal, lembrei de procurar sobre a tal Farah. Eu estava com o grupo em uma das mesas exteriores do campus tentando se refrescar de um dia atípico de calor quando tive essa ideia.

— Gente, vocês conhecem alguma Farah? — perguntei, os três pares de olhos em minha direção.

— A do clube de xadrez? — Jay perguntou.

— Não, eu acho que é outra...

— Tem a ver com aquela pessoa que você viu no castelo? — Skye abriu a boca, e fiz um sinal de “cala a boca” mesmo sabendo que era em vão.

— Por que quer saber? — Yas perguntou, mas logo reformulou. — Espera, o que? Tem mais alguém que foi lá?

— É mais ou menos isso — Skye continuou.

— Sujin! — repreendi. Elu ergueu as mãos em defesa.

— Foi mal, mas eles podem ajudar! Não é gente?

— Por que não contou para a gente antes? — Yas perguntou mais uma vez.

— Eu não... Ah sei lá não importa agora. Só caso achem algo sobre alguma Farah que não seja do clube de xadrez me mandem por favor — disparei, precisando respirar fundo por ter dito muito rápido.

Senti seus olhares me encararem por mais uns segundos depois que peguei meu celular para pesquisar sobre a garota. O nome me era familiar, eu só precisava saber de onde que eu tinha visto.

Procurei primeiro em minhas redes sociais, talvez eu a seguisse e não lembrasse. Depois que confirmei de que não seguia ninguém com esse nome, procurei nas redes sociais dos outros três, também sem sucesso. Então, pesquisei por Farah e a universidade em que eu estudava.

E lá estava:

“Estudante de universidade está desaparecida a mais de 10 anos. Quem é Farah Jenkins.”

Um calafrio percorreu meu corpo, o mesmo que costumava ter quando Andi estava por perto. Por instinto olhei ao redor, na esperança – medo? – de encontrá-la. Quando não a vi, cliquei na matéria e comecei a ler.

Farah estudava aqui a 12 anos atrás, cursava Turismo e estava no fim do curso quando desapareceu. A única testemunha que ela tinha era seu irmão gêmeo, Finn, que a viu indo para o sul.

Na direção do castelo.

Mas ele não imaginava que ela não voltaria.

Li com pesar, associando isso àquela assinatura na poltrona do castelo. Olhei atentamente a garota ruiva com sardas sorrindo de orelha a orelha para algo levemente acima da câmera, provavelmente para a pessoa que a tirava a foto.

Levantei-me de repente, sabendo exatamente aonde ir.

— Ei, aonde vai? — escutei Skye perguntar distante. Escutei seus passos atrás de mim, mas ignorei.

Fui em direção ao corredor onde ficavam todos os estudantes formados de anos e anos atrás. Vários quadros divididos por curso e ano preenchiam as paredes. Procurei pelo ano de 2011, e lá estava. É claro que a foto dela estaria ali. Enquanto não tivessem certeza de que ela morreu, a foto dela permaneceria ali.

Uma foto dela em preto e branco a destacando de todo o resto, já com a toga de formatura. Ela até já tinha feito o ensaio de fotos antes de desaparecer. Só lhe faltava a cerimônia.

— Ah, é essa aí? — Skye ficou ao meu lado. — Puxa... Ela...

— Ei, gente! — Yas chamou, mais distante de todos nós. — Venham ver.

Assim que nos aproximamos, ela apontou para um garoto do ano de 1986. O cabelo preto e olhos azuis com um semblante sério.

— Não é esse o garoto do jornal que você viu? Aquele que dizia da outra garota que também foi para o castelo? — ela perguntou para Skye, que assentiu.

— A gente podia perguntar para ele, só precisamos achar algum contato dele. Talvez ele saiba o que... — Yas começou e eu a interrompi.

— Não precisa. — As duas pareciam prontas para me fazer mudar de ideia. — Sério, era só curiosidade. A garota que eu vi tá desaparecida a anos, eu achei que ela podia nos ajudar a descobrir mais sobre o castelo, mas... Não dá. Tá tudo bem. — Menti. A verdade era que eu queria saber sobre ela para entender mais ê Andi, não o castelo. Claro, eu ainda queria poder gravar lá dentro e mostrar para o mundo, porém tinha outras prioridades agora.

A real era que quanto mais eu quisesse esquecer ou deixar de pensar na Andi mais eu pensava nelu sem que percebesse.

Não é como se eu não estivesse consciente de que elu quase tinha me matado umas duas ou três vezes, mas eu ainda acreditava que tinha algo bom bem no fundo dela. E que o motivo ou um dos motivos para elu ter se tornado tão mal-humorade tinha a ver com essa garota.

Eu queria descobrir por que, e para isso eu precisaria falar com elu.

— O que tá tramando? — Jay perguntou me acordando do devaneio. Só então notei que olhava fixo para a foto de formatura de uma garota com cabelo curto e loiro, do outro lado do corredor. Se olhasse bem onde ela apoiava um dos braços, dava para ver que estava sentada em uma cadeira de rodas.

— O que? — olhei para ele. Ele me analisava com cuidado.

Jay sempre soube como analisar as pessoas e o que dizer.

— Eu quero voltar lá — admiti. Ele abriu um sorriso tímido satisfeito.

— Só se cuida tá bom? Leva o celular.

Assenti, sorrindo também.

— Pode deixar.

***

Assim que cheguei na porta da frente, me arrependi.

Eu não conhecia Andi o suficiente, mas sabia que era imprevisível. Se elu disse que me mataria se eu voltasse, então poderia mesmo fazer isso.

Não é como se eu não tivesse nada a perder. Eu tinha muita coisa na verdade. Entretanto, uma parte muito mínima de mim dizia para eu tentar mesmo assim, e eu como a boa ingênua e positiva que sou, confiaria nela até que me fosse provado o contrário.

Respirei fundo e bati com as alças de metal na porta maciça. O barulho despertou alguns pássaros que dormiam nas árvores próximas. Podia ter certeza de que estavam me xingando na linguagem deles. Eu também não gostava que me acordassem antes da hora.

— Andi — chamei. Sem resposta. — Andi! — gritei.

Olhei para o céu, tentando pensar no melhor a se falar no momento. Nada vinha, então improvisei.

— Eu sei que consegue abrir portas com a mente ou sei lá — esperei por algum sinal. — Por favor, eu pesquisei sobre a garota.

Escutei um estalo a minha frente, e a porta se abriu. Esperei alguns segundos antes de entrar.

Varri os olhos pelo ambiente quando entrei, e notei elu me olhando de volta, alguns metros longe.

A porta se fechou sozinha e então Andi tornou a caminhar pelo corredor. Eu corri para acompanhá-la. Eu lutava para manter o silêncio pesado instalado entre nós. Deixaria que elu falasse primeiro.

Nós chegamos na biblioteca e Andi se sentou em uma das poltronas, provavelmente aquela com a assinatura atrás. Ela apontou para a outra poltrona ao lado esperando que me sentasse, e assim o fiz. Eu prendia minha respiração sem perceber de forma que sentia como se o ar tivesse entalado na garganta.

Depois de uns longos segundos, que mais me pareceram horas, elu começou:

— Já deve ter ficado claro para você que eu moro aqui, e não é como se eu tivesse escolhido.

Eu abri a boca para falar, mas elu mostrou a palma em sinal de “espere”.

— Farah veio pela primeira vez aqui no primeiro dia de aula. Ela continuou vindo até seu último dia... Mas... — Andi deixou escapar um sorriso. Até me assustei por um momento. — Farah era engraçada, divertida, sempre vendo o copo meio cheio... Me levou três anos para perceber que eu queria ser algo além de amiga dela.

— Espera, espera aí. Você mencionou que mora aqui, mas você nunca saiu? Como que...

Andi sorriu de novo. Ou melhor, mostrou os dentes. Se manteve assim até que eu notasse seus caninos mais afiados que o normal.

Emiti um suspiro de surpresa.

— Não consigo acreditar que você realmente achava que um humano poderia viver aqui normalmente — Andi julgou.

— Não é isso... Tá... É... mas quando eu imaginava não era tão absurdo...

Ela riu. Uma risada genuína. Não imaginei que ela conseguisse rir, e não é nem brincadeira.

— Tá bem, pensar isso foi ridículo — eu disse, não conseguindo me conter e rindo também. Não tinha problema em se divertir um pouco. Né? Se ela quisesse me matar já teria o feito...

— Você me lembra ela — escutei elu dizer baixinho. Quando notou a mudança da minha expressão, continuou. — E ainda sim tem seu próprio jeito.

Eu a olhava tentando decifrar o que ela queria dizer com isso.

— Faltando poucos dias para a formatura ela vem e me diz que não quer mais a vida que tinha. Que queria ficar comigo e envelhecer juntas, mesmo sabendo que não seria possível. Farah lutava contra o impossível para ter o que queria, e esse era um deles. Ela esperava que se eu a mordesse ela se tornaria como eu, mas não é bem assim.

A cada palavra que dizia meu nervosismo aumentava. Elu não precisou dizer nada para me confirmar o que eu já temia: ela realmente tinha morrido e Andi era o motivo.

Elu estava realmente me contando o que aconteceu. O que teria feito mudá-la de ideia de ontem para hoje?

O silêncio se fez presente de novo, elu processando o que tinha acabado de dizer e eu me preparando para desabafar também.

— Quando eu era pequena, eu amava meu pai. Ele pintava comigo e me ensinava a fazer penteados no cabelo... Ele nunca me contou da minha mãe e em determinado momento eu só... aceitei que nunca tive uma. Uma outra pessoa me concebeu e era isso. Teve até uma época que ele me fazia marmitas para eu levar para a escola todos os dias, e se nos finais de semana ele saísse de casa, ele me deixava mais delas também.

Eu conseguia sentir o olhar de Andi sobre mim, mas não seria capaz de sustentar seu olhar no momento, então continuei olhando para o chão.

— Um dia, contei a ele que estava namorando. Eu tinha quinze anos. Ele surtou. Nunca imaginei que meu pai pudesse agir daquele jeito. E não foi por causa da minha sexualidade, ele me apoiou desde o começo quando contei que era pansexual e não foi por causa do meu ex-parceiro também porque ele era um doce — suspirei. — Meu pai era superprotetor. Até demais. E foi assim que passei os últimos dois anos do colégio trancada em casa. Eu não podia ter qualquer contato com o mundo de fora. Por dois anos, meus amigos achavam que eu tinha sumido, morrido até.

Olhei para minha companhia por um breve segundo. Ela não olhava para mim, e sim para suas mãos, parecendo dissociar.

— Nosso relacionamento nunca mais foi o mesmo. Assim como em relacionamentos amorosos e no relacionamento que tenho comigo mesma. Eu jamais fui como era antes, e até hoje ainda não aceitei isso.

Elu ficou em silêncio por mais um tempo. Por um momento até achei que não tivesse me escutado e eu tivesse desabafado em vão.

— Por que me contou isso? — ouvi baixinho, seu olhar ainda no chão.

— Você me contou algo importante para você, achei nada mais justo que contar algo meu também. Sabe? Um voto de confiança de cada uma para ficarmos quites, quem sabe virarmos amigas? — estendi minha mão em high-five para ela, mas apesar de minha ação ter chamado atenção de seu olhar, elu não correspondeu.

— Beatriz...

— Por favor, pode me chamar de Bea. Ah! Antes de qualquer coisa, já que você é uma vampira e portanto provavelmente imortal, você chegou a conhecer as outras pessoas que vieram aqui antes da...

Elu esperou que eu terminasse, mas não o fiz.

— Não vou falar o nome dela, você disse que ia me matar se fizesse isso.

Andi revirou os olhos e suspirou.

— Não, eu não conheci as pessoas que vieram antes dela. Não era eu quem... Bem. Eu não os conheci. Farah era... especial, eu conseguia sentir. Por isso falei com ela.

Assenti.

— Ainda fico surpresa de saber que com poucos dias você já me contou algo importante sobre você.

Andi me repreendeu com o olhar. Notei de relance sua mão se fechar em punho e segundos depois aliviar a tensão.

— Da mesma forma que eu sentia que podia confiar nela, eu sinto que posso confiar em você. Todavia a porta está sempre aberta para você ir embora, fique à vontade — disse e se levantou.

— Ah, pode deixar! — fui a frente delu, andando de trás para frente para olhá-la nos olhos. — Estou muito à vontade aqui agora. Qual quarto pode ser o meu? — brinquei. Eu me sentia confortável com ela de repente.

Eu tinha pelo menos um pouquinho de certeza de que elu não iria me matar. Pelo menos não tão cedo.

— Nenhum — Ela começou a ir em direção a escada. Senti a empolgação tomando conta.

— Escuta, só antes de mais nada, aquela coisa que você tem com me sufocar é algum tipo de fetiche?

Uma parte da pergunta era brincadeira, a outra era totalmente séria.

Eu vi suas bochechas mexerem, quase como se fosse sorrir.

— Eu vi esse sorriso! — alertei.

— Não é fetiche.

Assenti.

— Ok! Só para confirmar mesmo.

***

O que era para ser só um fim de semestre se tornou os melhores meses do meu ano. Depois que eu e Andi compartilhamos nosso passado nossa relação tinha mudado para melhor. Acho que nunca tinha me aproximado e me apegado tão rápido a alguém.

É claro, tinha um preço a se pagar, e esse preço era guardar segredo de meus amigos. O único que sabia era Jay, e esse podia ter certeza de que não abriria a boca para nada que não fosse realmente preocupante. Eu temia que contando a Yasmin e Skye elas fariam de tudo para me impedir de continuar frequentando o castelo porque... bem... minhe nove amigue quase me matou algumas vezes. E eu as entendia, de verdade.

Quando percebi, estava indo ao castelo todas as madrugadas. O cansaço de acordar cedo depois de madrugadas em claro tinha se tornado um amigo frequente, mas eu não me importava.

Valia a pena.

Andi era uma boa pessoa, ou melhor, uma boa vampira, se é que isso existia.

Elu não tinha me pedido nenhuma vez para drenar todo meu sangue, então já era um ponto positivo. Não que isso fosse bom para ela também eu acho, mas... tinha algo de diferente nelu, como se os conceitos comuns de um ser vampiresco não se aplicassem a ela.

Já tinha perguntado sobre isso algumas vezes a ela, mas sempre acabava mudando de assunto. Quase que um tópico proibido.

Era assim que mantínhamos a amizade. Eu aceitava que teria muitas perguntas sem respostas sobre ela e Andi teria minha humilde companhia em troca.

O castelo tinha mudado com o tempo. As ervas daninhas já não escondiam as pedras das paredes e as janelas quebradas estavam restauradas. O castelo pouco a pouco tomava sua forma original. Graças a Andi e seu agora bom-humor. Eu me ofereci para ajudar, mas ela negou. Prometi que não quebraria mais nada além daquele candelabro e mesmo assim não foi suficiente.

Devo admitir, eu fui bem irritante no começo para elu me deixar vir todos os dias sem pestanejar. Foi necessário muitas vezes a seguindo, perguntando sobre tudo que via no castelo ou falando sobre algo aleatório da minha vida para que ela se conformasse com minha presença dos próximos dias que se seguiriam.

E esses dias logo se tornaram semanas.

Em uma noite de verão, tinha decidido levar uma cópia do jornal antigo que contava sobre o castelo para que Andi lesse, já que tinha conseguido convencido o clube de jornalismo me dar um depois de muito insistir. Elu não tinha contato com o mundo de fora, o que me dava flashbacks não muito agradáveis. De forma a mudar isso, eu levava tudo que podia para que ela conhecesse o mundo moderno.

Ainda dava risadas quando lembrava dela tentando usar um celular depois que a ensinei. Era hilário como se estressava pelo simples fato de seu dedo deslizar para o lado errado e tirar tudo da tela que estava fazendo. Precisei levar meu celular na assistência algumas vezes por causa disso.

Jay ajudava a me encobrir nesses dias. Yas e Skye ainda não desconfiavam de nada. Éramos uma ótima dupla.

A porta do castelo sempre ficava aberta agora. Claro, até então só eu conseguia entrar. Ainda tinha algumas pessoas curiosas que tentavam entrar, mas aparentemente eu tinha sido a escolhida para entrar e sair quando bem entendesse.

Já cheguei a perguntar a Andi o porquê, mas não consegui nenhuma resposta, de novo.

Eu tinha fé de que descobriria sobre as coisas que elu não me contava uma noite ou outra.

Eu estava me aproximando do jardim quando algo foi arremessado poucos metros a minha frente. Guardei o jornal no bolso e olhei o objeto mais de perto. Era um livro.

“Louw, Thandiwe, 2023”, era o que estava escrito na capa.

Eu o peguei e estava para abri-lo quando me foi tirado das mãos bruscamente.

— Chegou tarde hoje, achei que não viria — ela disse. Senti um pouco de nervosismo em sua voz.

— Oi para você também... — A analisei enquanto seu olhar estava focado no livro. — O que o livro te fez?

Andi me ignorou e foi em direção ao jardim. Eu, como sempre, a segui.

— Quem é Thandiwe? — perguntei.

— Tá falando sério? — ela rebateu. Eu assenti sem entender.

Ela me estendeu o livro e apontou para o nome, mas especificamente para o apelido que compunha o nome.

Eu suspirei de surpresa.

— Não brinca... É o seu diário! — Confirmei, meu sorriso aumentando. — Eu posso ler?

— Negativo.

— Qual é, nos conhecemos a tanto tempo...

— Dois meses — simplificou. Eu fiz uma cara de emburrada.

— Tá bem... Se eu tivesse um diário eu deixaria você ler — comentei, tentando fazê-la mudar de ideia.

Enquanto conversávamos chegamos no limite do jardim que dava para uma vista da floresta de pinheiros e um pequeno lago abaixo do relevo da construção.

— Tive uma ideia! — exclamei e elu tornou a olhar para mim. — Posso te mostrar minhas pinturas! É quase como se fossem minha versão do seu diário. Eu tenho fotos, espera aí.

Peguei meu celular do bolso da jardineira que usava e comecei a procurar em minha galeria, na pasta de artes. Encontrei uma de paisagem que eu sempre gostava de mostrar. Estendi meu celular e elu semicerrou os olhos para enxergar melhor. Contive minha risada.

— Você pinta bem. — Foi tudo o que disse, mas foi o suficiente para me dar pulinhos de alegria. Era difícil ouvir algo positivo delu também.

— Obrigada. Ah, tem esse também — deslizei para o lado e mostrei. Era uma tentativa de aquarela usando como referência uma foto que eu tinha tirado com meus amigos. Não era ótima nem terrível, estava mais para um meio termo. Eu tinha muito a aprender com aquarela ainda.

— São seus amigos? — Questionou e eu confirmei com a cabeça. — Por que só a de cabelo azul veio com você aquele dia?

A pergunta me pegou de surpresa. Ou melhor, o fato dela saber que era a Skye quem tinha vindo mesmo sem tê-la visto. Eu sabia muito bem que não tinha câmeras aqui. Então como elu sabia?

— É... Skye ainda não tinha desistido de gravar o castelo para postar no nosso perfil e queria te conhecer também...

— Hm — murmurou.

Eu a encarei por alguns segundos perplexa, achando que fosse dizer mais algo. Pelo contrário, só observou o horizonte, piscando calmamente.

— Eu tinha amigas também.

Resisti a tentação de expressar mais empolgação do que deveria. Era a primeira vez que elu falava sobre algo da sua vida desde Farah. Um momento histórico! Eu abri um sorriso e me apoiei no parapeito junto delu, chegando mais perto para ouvir melhor.

Andi me olhou quando me aproximei, parecendo conferir a distância entre nós. Depois, retornou o olhar para o longe.

Eu esperei pela continuação que não veio.

— Ué, só isso? — meu sorriso se esvaiu. — Conta mais, por favor! Essa pose de misteriose tá acabando comigo.

— Problema seu — respondeu friamente.

— Eu sou sua amiga não sou? Pode contar comigo... não é como se eu fosse espalhar sobre você e sua vida para o mundo todo. Já te prometi que não faria uma coisa dessas. Só quero saber mais sobre você. Você parece ser alguém que passou por muita coisa.

— Não somos amigas.

— Ah, qual é...

Consegui ver elu sorrir. Por pouco tempo, mas consegui.

— Por que sermos amigas significa tanto para você? — perguntou, seu olhar fixo em mim.

— Bom... — procurei pelas melhores palavras em minha mente. — Já desabafamos sobre coisas que aconteceram em nossas vidas, e estou passando bastante tempo com você, e é algo que eu quero, eu gosto de vir aqui. Acho que isso já é o suficiente para sermos amigas, não?

Elu assentiu, parecendo digerir o que eu havia dito. Seu olhar voltou a paisagem a nossa frente.

— Existia uma profecia nesse castelo de que três almas ficariam presas aqui em séculos distintos, e só poderiam sair com um sacrifício. Um sacrifício de alguém que amasse. Com minhas amigas foram assim, e eu fiquei.

Escutei atentamente, meus dedos ansiosamente tamborilando no parapeito.

— Elas eram como eu... — eu apontei para meus caninos e ela confirmou com a cabeça. —Miyake conheceu uma camponesa fugindo de um casamento arranjado, e ela relutou em morder a garota quando o dia chegou e ela aceitou seu destino. Mas... aconteceu. E ao contrário do que esperávamos, a garota viveu e se tornou uma de nós. Isso contou como um sacrifício. A garota estava desistindo de sua humanidade, sacrificando-a para viver ao lado da Miya. As duas fugiram juntas e até hoje não ouvi falar mais delas.

—Como você sabe disso? — perguntei. Elu deixou o diário entre a gente.

— Isso funciona como nosso meio de comunicação. Não conseguimos saber na hora o que está acontecendo com cada uma, só depois do nosso século passar é que descobrimos.

— Confuso... — pensei alto. Elu concordou.

— Depois, Audrey conheceu a Faith. Ela não contou muito sobre o que aconteceu, só que tinha achado um frasco que prometia torna-la humana, feita por Miya. Eu consegui ver a tal receita também, mas não tem como ter certeza de que funciona, Audrey não escreveu mais nada depois disso.

— Pode ter funcionado... — comecei, mas elu me interrompeu.

— Não. Miya escreveu que era tóxico e não dava para ter certeza de que cumpriria sua função. Provavelmente ela morreu com o veneno.

Eu peguei o jornal e estendi a ela. Elu leu rapidamente, os olhos correndo pelas matérias.

Todas relacionadas ao castelo. Era como uma edição especial. Nele, inclusive, mencionava o nome da tal Faith. Ela até estava na capa.

— É ela — Andi disse baixinho, quase como um sussurro. — Ela quem tirou Audrey de mim.