Unwell
3 Olanzapina, café e um violão chamado Irene
–Você está exagerando.
–Kyle.
A discussão já tomava lugar na descida da escadaria que conduzia ao prédio. Antes, no elevador, ambos ficaram em silêncio, ainda que fosse um silêncio carregado de expectativa; Kyle olhando de relance para Token como se pedisse para que ele dissesse qualquer coisa. Ele não disse, é claro, como o ruivo já previra. Token funcionava na base do silêncio quando estava furioso. A ideia de iniciar uma discussão calorosa, vomitando tudo o que borbulhava dentro dele, dentro de um espaço tão claustrofóbico... Não. Token meticulosamente esperou que Kyle pusesse o pé para fora do elevador antes de dizer uma palavra sequer. Desde então, tornara-se difícil parar de falar.
Um pequeno apanhado de contextualização se faz necessário: Token Black se apaixonou por Kyle Broflovski há cerca de seis anos, quase sete. Ambos moraram na Califórnia no início da vida adulta para estudar em Stanford; Kyle fazia Belas Artes, Token fazia Medicina. Havia sobre aqueles dois rapazes – não mais garotos, à época – um olhar de grandeza, uma pesada expectativa que grava uma cruel cobrança interna, algo em comum que eles compartilhavam. Isso os conectou logo no começo. Nunca foram grandes amigos durante a infância ou adolescência, mas foi justamente o conflito da vida adulta que os aproximou: sua forma de lidar com mães intolerantes e pais que para sempre ressentiriam que seus filhos não seguiram seus passos na profissão (não por acaso, ambos eram advogados e tanto Token quanto Kyle repudiavam a ideia de fazer Direito). A família de Token priorizava em abosluto a aparência tranpasada e o julgamento feito pelos demais, defendendo a estúpida crença de que percepção equivale a realidade. Isso fez com que Token permanecesse no armário durante mais tempo do que ele teria orgulho em admitir. Kyle também escondia a sexualidade de sua família, muito mais por receio de que sua mãe se tornasse uma ativista do que por qualquer outra coisa. Sheila não o decepcionou nessa expectativa quando finalmente descobriu que tinha um filho homossexual: uniu-se a um grupo de “pais e amigos LGBT”, usou um bottom de arco-íris durante dois meses ao lado do seu antigo broche dourado e chorou escandalosamente quando Kyle se recusou a marchar ao seu lado na parada gay de Denver. A mãe de Token, contra todas as probabilidades, chorou pela angústia do seu filho ter escondido durante tanto tempo, quando Token finalmente decidiu contar. Isso só aconteceu quando ele e Kyle iniciaram um relacionamento sério.
No início, a atração física era quase incontrolável. Eles dividiram muitas cervejas no bar próximo ao campus, conversando por horas, trocando toques suaves com os pés e acariciando as pernas um do outro por baixo da besa. Beijaram-se muito antes de fazer qualquer outra coisa, porque Token estava sob a impressão de que Kyle gostava de cavalheirismo – o que não era necessariamente equivocado de sua parte. Talvez pela educação restrita que recebeu, o cavalheirismo era algo natural para Token, o que era excitante para Kyle; as palavras grandes e eloquentes que ele usava, sua inteligência, seu cheiro de colônia cara, tudo sobre ele era irresistível. Foi o ruivo quem deu o primeiro passo, no banco de trás do carro de Token, arrancando a própria camisa e sussurrando ao ouvido de Token: “eu te quero dentro de mim”.
Foi a coisa mais íntima que Token já ouviu em toda a sua vida até então.
Mas até aquele momento, e por mais um ou dois meses, ele ainda não estava apaixonado por Kyle. Estava apaixonado pelo corpo dele, mal aguentava passar um dia inteiro sem comê-lo, sem beijá-lo e cheirá-lo, mas era isso. Era o sexo exaustivo que quase o fazia desmaiar quando terminava. Não pensava em Kyle como a pessoa com quem dividiria o resto de sua vida, talvez porque fossem amigos demais. Kyle se apaixonou muito antes do que ele.
Token guardava com muito carinho o momento em que abriu os olhos dez da manhã, com o sol já tão forte invadindo o pequeno dormitório, banhando o corpo pálido de Kyle enroscado em seus braços enquanto dormia, expondo pintas e marcas avermelhadas por toda aquela pele branca, o lençol enroscado em seus pés, um por cima do outro, as pernas contrastando nos dois tons de pele. Kyle abraçava seu tronco, encolhido, o cheiro dele intoxicando os sentidos de Token. Era tão quente e confortável. Token não conseguia tirar os olhos sonolentos daquele rosto e pensou consigo mesmo que eria maravilhoso acordar para aquela visão todos os dias de sua vida.
E ali estavam eles, seis anos e tantos meses depois, caminhando até o fusca azul de Kenny; Kyle tinha a chave em mãos.
–Olha só. — O ruivo disse, parando de caminhar. Estavam ao ar livre, havia uma brisa fraca soprando em seu rosto, gelando seu nariz. Ergueu a mão para repousá-la sobre o ombro do outro. — Eu entendo. Certo? Eu entendo que você tenha receio. Mas eu não posso deixar você fazer com que ele se sinta pior. Pare de falar como se eu estivesse colocando um estranho na minha casa, é o Kenny.
Token não respondeu de imediato. Gastou alguns segundos a observá-lo, aquele homem tão belo que conhecia desde a infância, e soube que Kyle não mudaria de ideia. Isso não o impediria de tentar, é claro. Tentaria racionalizar com ele, argumentar, trazê-lo de volta à realidade, mas Kyle já estava perdido, mergulhado profundamente na lembrança de outro Kenny McCormick, quando ele ainda era um garotinho de bochechas coradas e casaco laranja que sua mãe nunca lavava, um menino alegre, que se empolgava com pouco porque não tinha nada. O Kenny que conheceram antes de tudo, o que ainda tinha sua irmã mais nova. Kyle se culpava, em partes, pelo fato de aquele menino não existir mais. Faria qualquer coisa para provar a si mesmo que Kenny ainda era a mesma pessoa com quem dividiu sua infância.
E céus, como Token o amava.
–Você não pode consertá-lo. — Disse em uma voz calma, gentil, não mais tomado pelo destemperamento possessivo que o dominara poucos minutos antes. — Ele não é mais o seu amigo de infância, Kyle. É uma pessoa doente, que não se responsabiliza pelo que faz.
–Eu não estou tentando... Token. Isso não tem nada a ver comigo.
–Tem. Você só está fazendo isso porque se sente culpado.
Atravessaram o portão, Kyle andando a alguns passos na frente dele, bufando com impaciência. Quando chegaram ao carro, estacionado mais para o final da quadra, o ruivo teve dificuldade em encaixar a chave para abrir o veículo antigo. Teve medo de forçar demais e quebrar ou danificar de alguma forma a única coisa que Kenny tinha de precioso. Não interromperam a conversa por isso.
–É lógico que eu me sinto culpado. Olhe bem onde ele estava vivendo. — Respondeu, batendo com a mão no capô superior do carro. — Mas não importa como eu me sinto, a única coisa importante é que ele tenha um pingo de dignidade.
–Kyle, me escute.
Token tentou segurar o pulso magro dele, aproximando-se com a cautela que teria para chegar perto de um animal selvagem. Kyle encolheu o ombro e afastou o pulso, resmungando baixo, não querendo ser tocado. Continuou concentrado em abrir o maldito carro para apanhar as coisas de Kenny, que esperava de toalha no apartamento. Token não queria sequer tê-lo deixado sozinho com todas as coisas caras que Kyle possuía lá em cima, mas o ruivo o arrastou com ele para buscar as roupas e os poucos objetos que Kenny tinha consigo, deixando muito claro que a decisão já havia sido tomada. Não queria discutir nada daquilo na frente de Kenny. Não acreditava que Token fosse dizer nenhuma crueldade na presença dele, conhecia muito bem o homem que escolhera e a ética que ele preservava.
Quando finalmente conseguiu destravar e abrir a porta, Kyle respirou fundo e se virou de frente para o outro, que permanecia próximo e com seus olhos negros fixos no rosto dele, despidos de qualquer julgamento. Token conseguia se mostrar imensamente gentil e irresistível quando se propunha a tal tarefa. Arriscou-se a levar uma mão à bochecha do ruivo, alisando sua pele macia com o polegar, observando o belíssimo contraste entre a pele alva dele e sua mão de pele escura. Tentou oferecer um sorriso triste para acalmá-lo, mas a expressão de Kyle permaneceu impenetrável. Havia dor em seus olhos verdes, muita dor.
–Eu não estou dizendo que você deva jogá-lo na rua, pelo amor de Deus. Só não... Não o acolha dentro de casa dessa forma. Eu não posso estar aqui o tempo todo.
–Ninguém está pedindo isso de você. — Ele respondeu de imediato, virando o rosto para quebrar o contato visual, afastando um pouco a mão do outro.
–Eu sei. Mas eu preciso te lembrar do que ele fez?
–Não, Token. — A voz de Kyle saiu mais rude, puxando a chave da porta e amassando-a entre os dedos, tenso, o punho pressionado contra o peito. — Ele espancou um homem em uma lavanderia até deixá-lo sequelado. As testemunhas dizem que o homem não estava fazendo absolutamente nada quando foi atacado por trás e que Kenny avançou nele como um animal, que não batia como um homem. Eu sei, tá bom? Ninguém precisa me lembrar disso, a merda da cidade inteira sabe.
–Ótimo. E você perguntou a ele sobre isso?
–Não. É claro que não.
–Por que não?!
–Porque eu tenho certeza que é isso que todo mundo faz com ele. Ou passam longe demais, olhando como se fosse um cachorro, como se não o conhecessem, ou fazem questionamentos como se ele fosse um criminoso. É assim que ele acabou nessa condição desumana em que ele vive hoje, Token.
Token pôs a mão gentilmente no peito dele antes mesmo que Kyle terminasse de falar, empurrando-o de leve para trás, tendo assim espaço para se inclinar e entrar no carro, ajoelhando-se no banco do passageiro que estava com a porta aberta. Tinha seus olhos focados em algo específico; esticou o tronco e ignorou os questionamentos enfáticos de Kyle sobre o que ele pensava que estava fazendo. Alcançou um pequeno frasco de remédio largado no painel do carro, no lado do motorista, e logo voltou a se endireitar de pé, apoiado na porta, estudando a bula.
–O que é isso? — Kyle perguntou, estreitando os olhos. Por um segundo, esqueceu-se do que estava dizendo antes.
–Olanzapina. — Token respondeu distraído, sem tirar os olhos da bula.
–O que isso quer dizer?
Enfim, Token ergueu o rosto para fitá-lo, pensativo. Kyle parecia ansioso, deixando de lado qualquer incomodação prévia, aproximando-se do outro para esperar por uma resposta clara e objetiva.
–Bem, depende. É um antipsicótico. Desconheço o diagnóstico e o caso dele, mas pode ter sido prescrito para tratar esquizofrenia, ou associar no tratamento de um transtorno bipolar... Talvez ele seja maníaco depressivo. Me avise se encontrar outro frasco, vamos pegar as coisas dele.
Havia uma sobriedade preocupante na voz de Token agora, o que paralisou Kyle de fazer quaisquer perguntas durante algum tempo. O ruivo apenas entrou no carro e abaixou o banco da frente para poder acessar o de trás; estava imundo, havia migalhas por todo o chão, rótulos amassados de alimentos, um cheiro forte de cigarro impregnado em tudo, manchas pelo banco. Havia uma foto de Karen ao lado de Kenny, quando ele ainda era um adolescente e ela não deveria ter mais do que nove anos, ainda agarrada a uma boneca de pano terrivelmente feia, ela de pé na varanda da casa precária em que cresceram; ele, ajoelhado em um dos degraus, com o braço em torno da cintura dela. Foi a primeira coisa que o ruivo pegou para levar para cima.
Quis perguntar a Token se havia alguma substância viciante naquele remédio, se ele acreditava na possibilidade de Kenny ter roubado para satisfazer algum vício, mas sabia que era uma chance muito remota e o próprio Token havia mudado de semblante, com todas as suas desconfianças, ao descobrir o frasco. Ambos conheciam a situação de Kenny, pelo que era dito pela cidade: que sua pena foi aliviada porque foi reconhecido que ele não era são para responder sobre seus atos; algo que Sheila lamentou amargamente na época, Kyle podia se lembrar, pois para ela era totalmente incabível que um criminoso como Kenny não fosse atirado na cadeia. Encontrou maconha enrolada no porta-luvas, mas não a tocou. Token abriu o porta-malas, onde estava a maioria das roupas de Kenny, amassadas em um bolinho, quase todas sujas e usadas. Havia também uma mochila velha, que Kyle não abriu para averiguar o conteúdo.
–Eu nunca disse que ele era uma pessoa ruim. Ele é apenas doente. — Token disse.
Kyle levantou a cabeça, encarando-o através do vidro que o separava do outro homem, visto que o porta-malas do carro era no capô da frente e Token se colocava de pé do lado de fora, as linhas tensas no rosto revelando algum arrependimento. O ruivo abraçou o cobertor que aquecia Kenny nas noites frias, perturbado com o quanto era fino, a mochila e a foto, saindo de mal jeito do carro.
–Ele não vai me machucar, Token.
–Você não sabe disso. Viu só? É isso que me assusta. Você tenta distorcer como se eu não desse a mínima pro fato de que ele passa fome. Eu quero ajudá-lo tanto quanto você, só não acho que você precise se expôr para isso.
O ruivo desviou o olhar por um momento. Seus olhos estavam úmidos contra o vento gelado que soprava, balançando os seus cachos suavemente. Criou tensão no maxilar e ergueu o queixo em alguns centímetros, respirando fundo. Fitava a calçada, não se focando em nada específico.
–Não minta, Token. Você não quer ajudá-lo tanto quanto eu. — Murmurou a última frase baixo demais para que o outro pudesse ouvir.
–O quê?
Kyle virou-se para ele, parecendo mais são agora.
–Se você quisesse ajudá-lo tanto quanto eu, você entenderia como é importante que ele confie em mim. Você... Precisava ouvir as coisas que ele disse ontem. — Ele passou a língua pelo lábio superior lentamente, a respiração trêmula, mergulhado na própria memória que tocava fresca em seu cérebro. — Como se eu fosse um completo estranho. É isso que eu sou agora, eu sei, mas... Ele não precisava estar assim.
Token limpou a garganta e decidiu que aquele não era o momento para discutir tais questões. Kenny ainda estava, afinal de contas, molhado e pingando no assoalho de madeira, provavelmente mexendo em coisas que não deveria.
O relacionamento que Token tinha com Kyle funcionava tão bem porque, na maioria das vezes, ele aprendeu a ser paciente e dar um passo para trás quando se dava conta de que o ruivo, tão decidido, tão teimoso, tinha uma certeza incontestável do que dizia e não mudaria de ideia. Em vez de debater inutilmente, Token o ajudou a carregar as coisas que ocupavam os braços de Kyle, deixando-o livre para retornar ao banco de trás para pegar o violão e investigar se havia algum objeto pessoal esquecido. Procurava por coisas simples: itens de higiene – e havia, de fato, duas latas vazias de desodorante em spray -, sapatos ou meias, outros objetos de valor sentimental como a foto. Encontraria, mais tarde, dentro da mochila, uma escova de dentes acabada e alguns rolos de meia em meio às roupas.
Quando voltaram ao apartamento, Kenny ainda estava de toalha, comendo uma tigela de cereal com leite que escorria pelo seu queixo, sentado no sofá. Kyle costumava ser intolerante com migalhas no estofado, mas nem mesmo o som terrível de Kenny McCormick bebendo o leite direto da tigela como uma criança pareceu incomodar o ruivo. No máximo, torceu o nariz para o fato de que Kenny se sentara ainda molhado. Token estremecia com a estranheza daquela cena, com a ideia de que Kenny mexeu sozinho nos armários da cozinha e na geladeira de Kyle.
Token estaria em plantão durante aquele dia, madrugada adentro. A ideia de deixar Kyle completamente sozinho com um homem como Kenny, que passara as próximas horas em silêncio pelos cantos parecendo deslocado, mas não exatamente envergonhado disso, toda a visão fazia o estômago de Token revirar. Parecia que, a qualquer momento, Kenny começaria a berrar descontroladamente e quebrar objetos, ou arrancar as roupas e usar as próprias fezes para escrever nas paredes. Todos esses cenários se construíram na cabeça de Token para justificar o que ele faria assim que deixasse o apartamento de Kyle para trabalhar; Telefonou para a única pessoa que sabia lidar com Kyle melhor do que ele, com a vantagem de uma vida inteira que compartilharam. Stanley Marsh. Ele saberia o que fazer.
Sabia que Kyle ficaria puto, mas essa prioridade estava no final da lista no momento.
Para o ruivo, por outro lado, foi um alívio que Token precisasse trabalhar e não gastasse aquele dia inteiro como um cão de guarda observando cada movimento de Kenny, farejando, procurando qualquer coisa suspeita. Tudo o que Kyle podia pensar no momento era em tornar aquele ambiente confortável, seguro para um amigo tão distante que provavelmente não tinha um lar há anos. Não acreditava que isso fosse possível sob o olhar acusatório de Token.
Foi estranho, de início, como já era esperado. Kyle se sentia estúpido por tentar preencher o silêncio que naturalmente se instalava, oferecendo atividades, comida, buscando uma maneira de sugerir que eles comprassem roupas novas. Muitas vezes, Kenny não respondia; continuava parado estudando com interesse algum quadro que estivesse pendurado na parede, alguma fotografia de viagem, muitas vezes sentado no chão. O que quebrou o silêncio e despertou o verdadeiro interesse de Kenny foi perceber que tinham trazido seu violão: ele nem chegou a mexer nas suas próprias coisas que Kyle e Token trouxeram do carro. Kyle esperava que ele mexesse, que houvesse uma desconfiança, uma proteção com os poucos objetos que possuía. Mas percebeu logo que era uma bobagem. Kenny não tinha nada a perder, não realmente.
Bem, tinha o violão. O semblante irreconhecível que dominava o rosto de Kenny se iluminou ao ver o objeto. Pegou-o com uma familiaridade encantadora, sentou-se na sacada e começou a dedilhar coisas desconhecidas para Kyle. O loiro vestia um moletom azul marinho com listras brancas espaçadas, que pertencia a Token. Havia algumas roupas dele no apartamento de Kyle, e todas que eram de Kenny foram imediatamente para a máquina de lavar (Kyle tinha receio de que elas não sobreviveriam a uma lavada, mas valia a pena tentar). Token não protestou. O ruivo passou a tarde trabalhando pelo computador e ouvindo o dedilhar distante de músicas que, muitas vezes, paravam pela metade. Quando Kyle reconhecia uma canção, assobiava baixinho e sorria.
Ao fim da tarde, aproximou-se de Kenny na sacada com uma xícara de café preto fumegante. Não podia se lembrar de como Kenny gostava de café, se é que gostava, se devia colocar leite ou não. Gostaria de saber pelo menos esse tipo de coisa sobre ele, para que não se sentissem tão desconhecidos um para o outro.
Para sua surpresa, o loiro chegou a oferecer um sorriso breve ao se virar para encará-lo. Não sabia se ainda era pelo clima da música folk que tocava, pelo cheiro do café ou pelo rosto familiar do ruivo. Kyle sentou-se ao lado dele e ofereceu a xícara, que Kenny aceitou de imediato, retirando o violão do colo e o apoiando na cadeira estofada. Cheirou o líquido primeiro, mas não perguntou do que se tratava antes de dar um gole longo.
–Cuidado, está quente.
E estava. Kenny afastou a xícara dos lábios, franzindo o nariz, enrolando a língua dentro da boca.
–Caralho. — Resmungou, rindo da própria afobação. Havia satisfação no xingamento, como se o prazer tivesse sido maior do que a dor na língua. — Eu não bebia café há tanto tempo. Quer dizer, de vez em quando... Eu conseguia. Você ficaria surpreso com o quanto se acumula de moeda só sentando na rua sem fazer nada. Talvez eu tenha o rosto da pobreza, sabe, pode ser uma coisa impregnada. De família, sabe? As pessoas ficam com pena.
A sensação foi de que aquilo era o máximo que Kenny havia dito desde que chegou. Parcialmente, foi como se ele falasse sozinho. Kyle mal se moveu, mal respirou, com medo de que o loiro de repente percebesse sua presença e parasse de falar. Ofereceu um sorriso tímido quando ele parou, mesmo que Kenny não estivesse olhando diretamente pra ele. Quis perguntar se era assim que ele se alimentava, ganhando esmola na rua, mas não quis conduzir a conversa para esse aspecto.
–Talvez você só seja charmoso.
–É, claro. Porque todo mundo curte o visual de quem não toma banho há meses. — Kenny disse, tirando algumas mechas loiras do rosto. Ele precisava de um corte de cabelo. Havia algo tão leve em seu tom que Kyle conhecia muito bem, tão característico do amigo de infância que ele perdera.
Isso arrancou uma risada genuína de Kyle.
Kenny deu mais um gole no café, agora cuidadoso, assoprando primeiro. Deixou a xícara sobre a mesinha de madeira pintada de branco que havia entre sua cadeira e a de Kyle. A vista da sacada do apartamento era linda, especialmente naquele horário, com o sol se pondo nas montanhas, ainda verdes, pois a neve ainda não começara a cair com força. O céu parecia uma mescla deslumbrante de rosa e laranja. A própria sacada era muito bonita, com vasos de argila presos na parede e algumas plantas; samambaias, em sua maioria.
–Eu não me lembro de você saber tocar. — Kyle comentou, referindo-se ao violão.
–Ah. — O loiro alisou o braço do instrumento com afeto. — É a Irene. Eu encontrei no lixo, acredita? Mas eu não morava na rua ainda, foi depois que vocês foram pra faculdade. Eu reformei essa belezinha e aprendi a tocar na marra. Não sou lá muito bom.
–Pareceu bom, pra mim.
Kenny o espiou de relance, com o canto dos olhos, um sorriso tímido querendo brotar nos seus lábios. Beberricou do café, falando com a boca ainda colada na xícara:
–Você não entende nada de música.
–Bem, isso é verdade.
Os dois caíram em silêncio durante algum tempo, sem fazer contato visual. Houve uma estranheza de desconhecidos. Kenny contemplava a vista com os olhos úmidos pela brisa gelada que soprava em seu rosto. Kyle abraçou o próprio corpo, tentando se aquecer. Seu peito apertou ao pensar em como o loiro estaria congelando sabe-se lá onde naquele carro, com aqueles trapos, caso não tivessem se encontrado por acaso. Era confortável vê-lo assim, limpo e aquecido com uma bebida quente nas mãos. Perdia-se nesses pensamentos sem se dar conta de que estava encarando.
Mas Kenny não pareceu se incomodar. Talvez estivesse acostumado com esse tipo de coisa.
–Token não me quer aqui. — Disse, de repente, como se falasse mais para si mesmo do que para o outro.
–Ele vai se acostumar. Só está em choque. — Kyle deixou escapar um riso nervoso e sentiu-se idiota porque Kenny permaneceu sério, com os olhos estreitos. — Pra ser honesto, eu também estou. É difícil de acreditar que você está aqui. Eu pensei que... Não sei. Nós ouvimos tantos absurdos, Kenny. As pessoas dizem coisas... Eu pensei que você estivesse bem. Fora daqui.
–Para com isso. — Kenny disse, como se uma sombra tivesse caído sobre seu rosto, o que fez com que Kyle imediatamente se arrependesse de ter entrado naquele campo. Quem incitou o assunto, na prática, foi o loiro. Mas Kyle ainda esfregava as mãos suadas, mesmo com o frio, engolindo o acúmulo de saliva em resposta à ordem que recebera.
Não sabia exatamente com o que deveria parar, mas se calou. Kenny passou os dedos pelos fios loiros de forma quase perturbada, desviando o olhar para a parede ao lado, o extremo oposto, ao ponto de Kyle não poder mais ver sua expressão.
Ele não sabia que estava equivocado no gesto que fez em seguida, mas sua mão tocou o braço de Kenny de maneira quase instintiva, apertando seu pulso, alisando sobre o tecido macio do moletom, sentindo o quanto o braço dele era muito mais magro do que parecia. Pôde ouvir o ar lentamente deixar as narinas de Kenny, o peito subindo e depois descendo aos poucos, em uma tomada de fôlego dolorosa. Levou o dedão à boca e roeu a unha, voltando a virar de perfil, encarando os próprios joelhos.
–Desculpe. — Kyle disse, afastando a mão desconfortavelmente. — Eu só... Estou muito feliz que você esteja aqui. Mas ainda é difícil de acreditar.
–Ele acha que eu vou te estuprar, roubar tudo o que você tem e fugir, não acha? E pra ser honesto, como é que você sabe que isso não é verdade?
–Ele não pensa isso. — Respondeu, mesmo sem saber se acreditava de fato nisso. — E eu sei que isso não...
–Você não sabe. — Kenny interrompeu. Finalmente fazia contato visual com ele agora, cruzando os braços em frente ao peito. Sua perna balançava quase compulsivamente, deletando a ansiedade. — As coisas “absurdas” que te contaram, você não sabe o que é verdade ou não.
O ruivo passou a língua pelos lábios e endireitou o tronco, suspirando fundo.
–Eu espero que você me conte, quando e se você quiser. Mas você não precisa me dar explicações. Eu não tenho medo de você, Kenny, pelo amor de Deus.
Kenny abaixou os olhos por um segundo e levou ao rosto, cobrindo a boca, sincronizando com uma respiração profunda, aumentando a tensão nos ombros. A mão subiu para a testa em seguida, os dedos passando por dentro dos cabelos limpos – nem se lembrava dessa sensação – e a largou ali por alguns instantes, pensativo. Avistou o café sobre a mesa, agora não mais tão fumegante, e alcançou a xícara pelo corpo, não pela asa, dando um gole longo que diminuiu o líquido para menos da metade da xícara.
–Eu não sei porque você estava fazendo isso. — Finalmente disse, deixando o café de lado e passando as costas da mão para secar a boca antes de voltar a alcançar seu violão, ajeitando-o no colo. — Eu não sei o que você espera de mim, Kyle. E também tô pouco me fodendo pra isso. Se você acha que eu vou tremer agarrado nos seus pés e agradecer por salvar a minha vida, vai esperando.
–Eu não quero isso.
–Ótimo.
Dando a conversa por encerrada, Kenny voltou a passar os dedos pelas cordas do violão, emitindo um som calmo que não combinava com a ruga entre suas sobrancelhas, que revelavam alguma inquietação. Ele não parecia zangado, apenas pensativo.
Kyle se levantou e fez menção de voltar para dentro, mas gastou um momento longo parado na porta, entre a sacada e a sala, com o rosto de lado, ouvindo “Richland Woman Blues” se formar nos acordes de Kenny. Precisou sorrir quando ele começou a cantar. Não era exatamente profissional e era perceptível o acúmulo de muco na garganta que deixava a voz de Kenny rouca, mas combinava perfeitamente com o timbre de Mississipi John Hurt na versão que Kyle conhecia daquela música. Token era apaixonado por ela.
Deu um passo a dentro e pensou em fechar a porta de vidro para que Kenny tivesse mais privacidade consigo mesmo, mas decidiu que gostaria de deixar o som entrar em casa livremente. Kenny parecia contente, por debaixo de todas as suas defesas. Kyle suspirou aliviado.
Fale com o autor