Unwell
13 Epílogos, God only knows e um violão que não se chama Irene
Notas iniciais
Três anos se passaram.
Kyle não se lembrava da voz de Kenny ser tão afinada assim. Se agora ele fazia isso profissionalmente, então devia tirar uma hora ou duas por dia para, de fato, ensaiar. Ou não. O violão era como uma extensão de seu braço, isso ainda parecia ser verdade, e a cantoria não passava de uma brincadeira vocal muito agradável aos ouvidos. Era linda, aquela voz. Era linda, também, a cena. Kenny parecia um pouco diferente, mas Kyle não sabia apontar exatamente por qual razão. Ele usava uma camisa branca – talvez fosse isso, Kyle podia contar nos dedos quantas vezes o vira de camisa abotoada em toda a sua vida – e uma calça jeans desbotada pelo uso, tênis xadrez absolutamente surrados, o cabelo mais curto do que da última vez que se encontraram, igualmente repicado e sem qualquer ordem. Ele parecia mais forte, mas o pescoço e as clavículas protuberantes ainda revelavam a magreza. Ele usava um anel prateado no dedo indicador, Kyle observou, enquanto corria a mão pela nuca gelada. Tinha o violão (não era Irene, Kyle mal podia acreditar) bem ajeitado no colo, metade da bunda apoiada em um banquinho, mas um dos pés firmes no chão, dando-lhe apoio.
A luz sobre o pequeno palco não era muito boa, mas era forte e quente o bastante para produzir algumas gotas de suor nascendo no couro cabeludo de Kenny; talvez ele só estivesse nervoso. Se fosse o caso, não demonstrava abertamente. Havia algo de muito rígido em sua expressão, os olhos vivos e assustados, presos nos de Kyle como se nada mais houvesse em torno deles. O restante do rosto, porém, mantinha-se firme como uma estátua. Durante cinco segundos, ele não se moveu. Antes que Kyle se sentisse desconfortável a ponto de se levantar e ir embora, Kenny desceu por completo do banquinho, alcançou uma garrafa de água que havia no chão, bem ao lado de uma caixa de som, destampou e bebeu dois goles longos. O violão estava preso ao seu corpo pela alça. Ele não parecia ter pressa ao fazê-lo e o movimento do bar seguia normalmente, pessoas entretidas em conversas banais, estúpidas, ou discussões profundas e intelectuais sobre política e filosofia. O que quer que fosse, Kyle não podia ouvir.
Pigarreando um pouco, Kenny voltou a se sentar e aproximou os lábios entreabertos do microfone, ajeitando-o antes de devolver as mãos ao violão (Kyle se perguntava se esse também tinha um nome) para produzir uma melodia familiar. Durante os primeiros segundos, seus olhos azuis estavam voltados para o solo sujo do bar, cheio de poças e manchas inexplicáveis. Kyle não estar em um ambiente assim em condições normais, por acaso. Ele sabia disso.
“Do you love me or are you just extending goodwill? Do you need me half as bad as you say or are you just feeling guilt?”
O aperto dentro do peito de Kyle foi imediato e tão intenso que ele quase perdeu o fôlego durante sólidos cinco segundos. A voz de Kenny era, simultaneamente, um descanso aos ouvidos e uma agressão tremenda, não por ser feia ou desafinada, mas por tocá-lo de forma tão sensível que Kyle sentia-se sem pele, desprotegido, exposto a todas as coisas do mundo. Seus lábios estremeceram. Sua mão continuava repousada sobre a mesa, imóvel, quase congelada.
“I've been burned before and I know the score so you won't hear me complain. Will I be able to count on you or is your love in vain?”
A maneira com que Kenny inspirou o ar entre um verso e outro revelava uma fragilidade estranha, íntima, a respiração desregulada de quem precisa chorar. Ele deitou a cabeça para o lado de forma apática, e assim se mantinha sua expressão cansada, com exceção dos olhos; seus olhos permaneciam mais vivos do que Kyle jamais vira, brilhantes e carregados de dor. Era difícil encará-lo diretamente, mas estavam os dois imersos no tipo de transe que não se quebra. As unhas de Kyle arranharam a superfície da mesa inutilmente, como se ele tentasse se agarrar ao que é liso.
Kyle sentia-se completamente exposto. Não parecia certo que esse diálogo de olhares ocorresse em um local público, com esse burburinho ao fundo e outras pessoas assistindo, invadindo o momento. Mas para Kenny, era como se não houvesse mais ninguém presente. Ele piscava devagar, mas seus olhos jamais deixavam o par de esmeraldas do outro lado do cômodo.
“Are you so fast that you cannot see that I must have solitude? When I am in the darkness, why do you intrude?”
Pouco a pouco, Kyle sentiu seu corpo relaxar na cadeira. A mão de Kenny tocou o microfone de forma tão suave que parecia a intenção do carinho que se faz a uma pessoa amada, deixando de tocar as cordas do violão em uma pausa estratégica em que somente a sua voz cantando o verso da música parecia ser suficiente. De onde estava sentado, Kyle pôde jurar que ele sorriu. Foi muito fugaz e, logo, o sorriso se desfez em seus lábios, dando lugar a um tremor doloroso, que pressionaram-se um ao outro assim que tiveram oportunidade. Seus olhos azuis reluziam algo que, Kyle não teve dúvida alguma, eram lágrimas. Elas não chegaram a escorrer, mas estavam ali, formadas e presentes. A tristeza que tomava conta do rosto de Kenny naquele momento era, talvez, a coisa mais delicada que Kyle já vira em toda a sua vida.
Ele também sentiu vontade de chorar, mas não conseguia. Esse era um sentimento muito comum para Kyle. Não conseguiria chorar em um lugar cheio de gente, mesmo que ninguém o estivesse olhando como olhavam Kenny agora; e era difícil não interromper qualquer conversa para observar um músico com os olhos tão carregados de emoção, a voz tão rasgada e doce e maravilhosa, sem técnica, mas tão cheia de verdade. Kyle invejava a capacidade que Kenny tinha de transbordar dessa forma, mesmo que sob um holofote de luz, tão exposto, ele ainda era capaz de viver algo tão real e reagir da única maneira que sabia como.
“Do you know my world, do you know my kind or must I explain? Will you let me be myself or is your love...”
Por um instante, Kyle teve certeza de que ele não chegaria ao final da canção. Kenny fechou os olhos, e só então, uma lágrima muito tímida escorreu até a metade da sua bochecha e já se desfez. Kyle sentia as mãos fracas, trêmulas, o estômago revirado, a garganta fechada. Não havia ar suficiente dentro daquele bar para os seus pulmões. Ele levou as duas mãos para envolver a nuca e, sem perceber, ofereceu todo o conforto que poderia com seus olhos. Mas Kenny não reagiu a isso.
“Well I've been to the mountain and I've been in the wind, I've been in and out of happiness. I have dined with kings, I've been offered wings and I've never been too impressed.”
—Kenny… — Kyle moveu os lábios para formar o nome do outro, mas nenhum som saiu. E mesmo que tivesse, sob todos os outros sons naquele ambiente fechado, e sob os acordes do violão e a voz de Kenny no microfone, não havia maneira de um sussurro como aquele sobreviver. Empurrou a cadeira um pouco para trás com seus pés, pronto para levantar, mas ainda não era hora.
“All right, I'll take a chance, I will fall in love with you. If I'm a fool, you can have the night, you can have the morning too.”
Recostando-se na cadeira, com os dois cotovelos apoiados na mesa, Kyle cobriu a boca e o nariz com as duas mãos, respirando fundo, entrelaçando os dedos uns nos outros logo em seguida. Seus olhos permaneciam visíveis, pulsantes, refletindo todas as coisas que ele nunca teve a chance de dizer em voz alta, pois esse direito lhe havia sido arrancado. Sentia-se à beira de um precipício, pronto para uma queda livre de cinco mil pés, e no entanto, alguma coisa dentro de Kyle sempre lhe dizia que ele precisava ser mais forte. Suas mãos voltaram a repousar na superfície da mesa, as pontas dos dedos alisando a madeira. Ele pigarreou, assentindo com a cabeça sem perceber. Seu coração martelava dentro do peito. Havia uma lágrima morna escorrendo pela sua bochecha, tão pequena e sutil que Kyle nem se deu ao trabalho de limpá-la, porque estava sob um encantamento tão estranho que não o permitia mais se mover.
“Can you cook and sew, make flowers grow, do you understand my pain? Are you willing to risk it all or is your love in vain?”
Contra todas as expectativas, Kenny McCormick chegou ao fim da música com a mesma força na voz e a mesma presença, porque não tentava esconder nada daquilo que transbordava para que todos vissem. Ele não tinha vergonha de sangrar em público, pelo menos não enquanto cantava, porque estava protegido por uma força maior. Ao finalizar, Kenny afastou o rosto do microfone – não mais do que três centímetros – e engoliu o acúmulo de saliva na boca, estremecendo. Não se moveu. Tinha os olhos cheios de lágrimas que não escorriam. Não escutava aplausos. Não enxergava mais ninguém. Ele fazia um movimento sutil com o corpo para frente e para trás como se ainda escutasse a música, mesmo que os dedos não produzissem som algum no violão.
Foi Kenny quem quebrou o contato visual. Fechando os olhos, reprimindo o choro salgado com as pálpebras, ele encarou o chão e cambaleou para sair do pequeno banco, retirando o violão do entorno de seu corpo com agilidade, encostando-o na parede de tijolos atrás do palco. Kyle se levantou por instinto, como se um impulso em seu interior o avisasse que Kenny escaparia se ele não fizesse nada a respeito. Não era um pensamento lógico, mas de qualquer forma, nada daquilo era.
Kenny saltou do palco e caminhou para os fundos, usando as costas da mão para secar o nariz que escorria, empurrando com força uma porta pesada de acesso restrito. E Kyle estava pouco se fodendo para o “acesso restrito”. Apertou o passo para que o loiro não se afastasse demais. Quando alcançou a porta, revelou um corredor bastante estreito – as paredes que o cercavam também eram de tijolos vermelhos – que só tinha um caminho a seguir para outra porta. Kenny já a abria, seu corpo desaparecendo atrás da porta de vai e vem. Kyle quase correu.
Lá fora, a brisa gelada de primavera consumia a pele de Kenny enquanto o homem adentrava o beco, o caminhar tão embriagado, as mãos cobrindo o próprio rosto. Havia uma sintonia de sons da cidade lá fora, desde o som do trânsito – as buzinas, os freios, os pneus girando no asfalto, os motores – até o som de gatos revirando os latões de lixo, som dos apartamentos, das televisões ligadas no jornal da noite, as conversas da rua. O beco ficava espremido entre o prédio do bar e um edifício residencial de catorze andares, muito grande para os padrões de South Park. Havia pichações nas paredes, uma câmera de segurança, uma bicicleta abandonada junto aos sacos de lixo. Eles eram iluminados por uma luz forte e laranja que provinha dos postes, tanto da rua de cima quanto da rua debaixo.
—Kenny. — Kyle chamou da porta, a voz sem fôlego, em um volume mais alto do que ele pretendia. Parecia agressiva, mas isso era apenas para mascarar desespero. Então, o ruivo parou para dar uma boa olhada no outro, seus pés arrastando os sapatos caros no chão sujo do beco.
As mãos grandes de Kenny continuavam a cobrir seu rosto, os dedos longos coçando os olhos. Ele deslizou as palmas para baixo e respirou fundo, revelando os olhos mais azuis do que qualquer coisa que Kyle já vira, carregados de defensiva, de alguma coisa que se parecia com raiva. Kenny sacudia a cabeça, os lábios agora transbordando um sorriso cínico. Deitou a cabeça para trás e encarou o céu limpo que aparecia entre um prédio e outro, com alguns pingos de estrela pincelados naquele azul marinho tão escuro. Suas mãos foram aos quadris, mas não durante muito tempo, inquietas demais para ficarem paradas. Ele levou uma palma ao topo da cabeça, alisando os cabelos loiros para trás.
—O que você quer? — Kenny perguntou finalmente, parecendo ansioso para se livrar de um problema.
Kyle estreitou as sobrancelhas, visivelmente pego de surpresa.
—O que eu…? Kenny. — Sua voz era quase esganiçada, naquele registro que ele sempre usava quando não acreditava em alguma coisa. Aquela voz horrorosa quase fez o loiro sorrir, porque fazia três anos que não se viam e Kyle já estava agindo de forma familiar. O loiro mordeu o lábio inferior e o encarou com olhos indefesos, as mãos caídas ao longo do corpo, uma imagem que fez Kyle se esquecer de tudo o que havia pensado em falar.
—Como é que você soube que eu estaria aqui? — Kenny perguntou diante do silêncio.
—Stan.
O loiro assentiu lentamente com a cabeça como se a resposta confirmasse o que ele já sabia. Cruzou os braços e deixou um riso escapar, riso esse que foi quase um bufo.
—Puta merda, Stan.
Havia um certo grau de decepção nos olhos verdes de Kyle, talvez uma pontinha de mágoa, mesmo que ele resistisse ao ímpeto de demonstrar isso na expressão. Kenny deu uma boa olhada nele, agora mais de perto, sem lágrimas nos olhos, percebendo algumas mudanças nos detalhes. O seu cabelo parecia diferente, mais curto nas laterais do que em cima, menos arrumado do que costumava ser. Ao mesmo tempo, havia alguma coisa nele que era mais elegante e menos forçada, uma transição natural dos vinte e muitos aos trinta anos. A pele não parecia ter envelhecido um dia sequer, mas a postura era outra. Kyle também parecia um pouco mais forte. Havia ganhado peso, certamente. Olhá-lo durante tanto tempo fez o peito de Kenny voltar a doer.
—Eu te machuquei tanto assim? — Kyle perguntou. Só então Kenny se deu conta de que o ruivo o encarava com certa amargura, uma careta que tentava a todo custo disfarçar a fragilidade que aparecia em seu rosto. — Eu não… Porra, Kenny, eu não mereço isso. Eu sei que você acha que a culpa foi minha, mas eu não mereço que a única coisa que você tenha pra me dizer depois de três anos seja o quanto você não queria me ver. Eu preciso de mais do que isso.
O rosto do loiro não se alterou, seus olhos não tentaram fugir. Kenny pôs as mãos nos bolsos e balançou a cabeça negativamente, mordendo a parte interna da bochecha, mastigando o que dizer em resposta. A verdade era que ele não fazia ideia. Não importa quantas vezes Kenny McCormick tenha sonhado com esse encontro, com os mais diversos cenários em que ele poderia acontecer, quantas vezes imaginou o que diria a Kyle se o visse novamente, nada poderia tê-lo realmente preparado para a realidade de encarar aqueles olhos verdes tão cheios de mágoa e de julgamento, de coisas acumuladas, sujas e nunca ditas. Kenny teve vontade de dizer que ele entendeu tudo errado, mas não conseguiu mover os próprios lábios. E sabia que Kyle tinha um vômito de palavras prestes a acontecer. O silêncio do loiro pareceu feri-lo mais do que qualquer coisa que Kenny dissesse.
—Você acha que eu queria ter te internado?! Você acha que alguma dessas merdas teria mesmo acontecido se eu tivesse escolha? — Kyle se aproximava dele sem perceber, as mãos magras gesticulando. — Talvez eu só… Talvez eu só não seja mais importante, talvez você só não queira lidar com essa pequena inconveniência, mas… Não importa, foda-se, eu não vim pedir nada de você. Tudo que eu queria era que você me desse uma porra de uma chance de te olhar nos olhos e pedir desculpas.
—Pelo quê?! — Kenny perguntou quase gritando, soltando uma gargalhada deprimente, abrindo os braços. — Pelo quê, Kyle?
Kenny McCormick foi internado no Instituto de Acompanhamento Psiquiátrico de South Park após o incidente que separou seus caminhos, a decisão estúpida de cortar os pulsos no banheiro de Kyle. Pensar sobre isso era quase engraçado, parecia uma memória distante de uma vida passada, pelo menos para o loiro. Todas as suas mortes ou quase-mortes pareciam. E ao mesmo tempo, todas as feridas daquela época continuavam hoje tão expostas quanto sempre foram. Desde seu primeiro dia como paciente do Instituto, Kenny colocou o nome de Kyle Broflovski na lista de pessoas que ele jamais aceitaria ver. Não era apenas uma questão de vontade própria, Kenny teve o auxílio do seu médico que avaliou a presença como “tóxica” para a sua saúde mental. A motivação de Kenny para se negar a recebê-lo não tinha nada a ver com isso. O loiro, inclusive, perguntava-se frequentemente de onde o seu psiquiatra de sessenta e dois anos teria tirado essa conclusão. Tinha mais a ver com as coisas que Kenny não dizia sobre Kyle do que as coisas que ele dizia.
Mas fato é que Kyle tentou. Foi uma, duas, três vezes, esperou algumas semanas, retomou as tentativas ao ponto de exaustão, ao ponto de as enfermeiras nem mesmo comunicarem Kenny sobre a sua presença porque sabiam que ele não daria resposta alguma. Kyle puxou todos os recursos possíveis, alcançou todas as pessoas que podia imaginar, de Stan a Craig a Token a Kevin, qualquer pessoa que tivesse alguma possibilidade de contato com Kenny apenas para tentar entender. Kyle se sentia a razão pela qual Kenny estava trancafiado naquele lugar. Porque não soube perceber mais cedo as necessidades dele, as sutilezas. Sentia-se culpado pelo que Kenny fez naquele banheiro e carregaria isso consigo até o dia que morresse, de tal forma que, durante algum tempo, Kyle acreditou merecer o punimento ao qual Kenny o sentenciara fechando-se por completo, cortando todo e qualquer vínculo com ele, aceitando sua condição de “incapaz”. Kenny sentia-se perfeitamente são lá dentro, essa era a pior parte. Kyle jamais poderia sequer projetar o que era viver na mão de outras pessoas, dependendo de decisões externas sobre a sua própria vida, e Kenny jamais tentaria explicar isso a ele.
Houve um buraco entre os dois que ficou cada vez mais fundo conforme os meses se passaram. Kyle nunca chegou a desistir realmente. Escrevia cartas que não eram lidas, mandava recados e que não eram dados, pensava nele quase todos os dias. E enquanto isso, Kenny preocupava-se apenas em sair vivo dali, com alguma parte do seu cérebro intacta. Kyle tentava apenas encontrar uma maneira de viver com o arrependimento de não ter lutado mais por ele, para que Kenny pudesse viver da maneira que escolhesse. Mas o loiro sabia que isso era uma grande bobagem. Que Kyle não o colocou lá dentro, que ele não teve controle sobre porra nenhuma, que ele foi muito mais vítima das circunstâncias do que qualquer outra coisa.
—Por deixar que te levassem. — O ruivo respondeu hesitante, porque honestamente, para ele nem sequer importava pelo que ele pedia desculpas. Pediria por qualquer que fosse o motivo de Kenny para arrancá-lo bruscamente de sua vida da forma que fez. — Por não te ouvir, por não te dar o que você precisava, por não cuidar melhor de você, por não enxergar que você precisava de muito mais do que eu estava dando, eu não sei, por qualquer merda que te fez me odiar tanto assim.
—Você acha mesmo que é por isso? — Kenny perguntou com uma pequena ruga entre as sobrancelhas, soando levemente ferido. — Você acha que eu não queria te ver porque eu te odeio? Cara, eu não queria te ver porque eu não sabia onde enfiar a merda da minha cara de tanta vergonha do que eu fiz com a tua vida. Eu te arrastei pro meio da minha merda, eu só suguei de você, não tinha porra nenhuma pra dar em troca, só te fiz sentir responsável por mim. Eu não mandei barrarem a tua visita porque eu tava puto, eu mandei porque eu queria que você entendesse que você não tinha mais obrigação nenhuma comigo, eu só queria te deixar em paz!
—Me…? — Kyle deixou escapar um riso baixo, balançando a cabeça negativamente antes de esfregar o rosto com as mãos. Parecia cansado. — Você é um imbecil.
—Eu sou um imbecil. — O loiro repetiu amargamente, assentindo, passando a língua pelo lábio inferior enquanto encarava o outro. — Como eu sou um imbecil, Kyle?
—Você é. Você… Você me arrancou da sua vida como se eu não significasse porra nenhuma. Não era direito seu escolher o que eu posso ou não aguentar.
O loiro deu alguns passos embriagados para trás, apesar de não haver uma gota de álcool sequer em seu sistema, entrelaçando os dedos das duas mãos atrás da própria nuca, encarando o céu. Kyle não teve mais vontade de falar ao perceber a expressão suave que aparecia no rosto dele, como os lábios estremeciam e os olhos estavam úmidos, a respiração irregular fazendo com que o peito subisse e descesse em um ritmo descompassado.
—Você não fez nada, Kenny, nada de errado. Você não fez “merda” nenhuma na minha vida, e se você acha que você só sugou de mim, se você acha de verdade que não me deu nada, então eu fui um idiota por te deixar pensar uma porra dessas.
As íris de Kenny eram a coisa mais azul que Kyle já vira em toda a sua vida. Estavam finas pelas pupilas dilatadas no escuro, mas ainda eram perfeitamente visíveis, mesmo com a pouca iluminação do beco. Um caminhão passou pela rua de cima, provocando um estrondo desnecessário, o chão quase estremecendo. Kenny encheu os pulmões de ar lentamente, as pálpebras pesando enquanto seus globos oculares rolavam do céu ao chão, buscando distância do olhar exigente de Kyle o tempo inteiro. O ruivo implorava uma resposta com cada nuance do seu rosto, ainda que não soubesse exatamente qual era a pergunta. Kyle deu um passo à frente, pisando em uma poça rasa sem se dar conta.
—Você não faz ideia do que você me deu. E do que você me arrancou quando não me deixou estar lá por você. Você nunca foi um fardo pra mim, uma obrigação, você… Porra, Kenny, parece que eu tava anestesiado antes de você aparecer.
As palavras serviram para suavizar um pouco o olhar rígido do loiro. Kenny rolou os lábios para dentro da boca por um segundo, engolindo o acúmulo de saliva enquanto encarava os próprios pés, afastando-os um pouco. Ele queria muito um cigarro. Ao erguer novamente a cabeça, encontrou Kyle mais próximo do que antes.
—Olha só. — Tentou encontrar firmeza na própria voz, mas a garganta vacilava, não oferecendo mais do que um tom trêmulo, rouco. Pigarreou. — Eu não espero que você entenda. E tudo bem, porque isso não tem nada a ver com o que você fez. Isso é coisa minha. — Ele levou a mão direita ao próprio peito, encarando Kyle com uma expressão quase assustada, por algum motivo que o ruivo era incapaz de entender. — Eu nunca seria capaz de te olhar na cara de novo se eu continuasse me apoiando em você pra sair do buraco em que eu me enfiei sozinho. Era uma coisa que eu precisava fazer e dar conta sem a ajuda de ninguém. Eu não tô querendo ser ingrato, e eu nunca quis… — Kenny gaguejou, mastigando o lábio inferior. — Eu nunca quis te machucar. Eu não fiz nada disso pra te machucar. Aliás, muito pelo contrário, Kyle. Eu tentei muito te proteger de tudo isso, não importa se você não queria ser protegido, eu nunca conseguiria o teu respeito de outra forma.
Kyle manteve os lábios entreabertos durante boa parte do tempo, pronto para uma réplica perspicaz, mas não tentou interrompê-lo. E quando Kenny terminou de falar, o ruivo gastou um bom tempo apenas observando o outro. Ele voltava a se fechar em uma concha, enfiando as mãos nos bolsos, encarando o solo para fugir do olhar de Kyle, pois não conseguia entender exatamente o que ele comunicava. Virou um pouco de lado, o olhar subindo pela parede de tijolos.
—Você tem o meu respeito. Você sempre teve o meu respeito. — O ruivo finalmente disse, soando doce como poucas vezes em sua vida.
Kenny encolheu os ombros.
—É, mas é diferente. — Ele fez uma pausa demorada, pensativo. — Eu sei que eu tava bem perdido. Eu precisava de um tempo pra… Sei lá, pra botar a cabeça no lugar. — Espiou Kyle pelo canto do olho, mas sem encará-lo de frente, a atenção ainda voltava à parede. — As coisas tão melhores, sabe? Eu até tenho uma cama. E eu pago por onde eu durmo.
Kyle não pôde evitar o sorriso, assentindo com a cabeça em aprovação.
—Stan me disse. Eu fiquei muito feliz em saber.
Um silêncio se estabeleceu. Não chegou a ser desconfortável, pois Kenny parecia distraído demais pensando no que dizer, imerso em um turbilhão de vontades reprimidas durante anos. Balançava no mesmo lugar, estralando o pescoço algumas vezes, enfim decidindo se virar de frente para o ruivo.
—Desculpa se eu… Se pareceu que eu não queria te ver, não era isso. Eu não achei que fosse fugir de você pra sempre, eu só não fazia ideia do que dizer quando te encontrasse de novo.
Mesmo antes de ele terminar a frase, Kyle já dizia com o rosto que isso não era algo com o qual ele deveria se preocupar. Acenou com a mão em um gesto para que ele apenas esquecesse.
—Eu não quis te encurralar. Mas ficou muita coisa em aberto pra mim, é por isso que…
—Eu sei. — Kenny interrompeu no mesmo tom complacente.
Um sorriso tímido se formou nos lábios, primeiro de Kyle, depois de Kenny, uma distância de um metro entre os dois. Kenny tirou uma mão do bolso para coçar o maxilar, respirando fundo, quebrando o contato visual quando se tornou constrangedor mantê-lo.
—Se você quiser… — O loiro foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Eu não moro longe, a gente pode… Sei lá, conversar. Se você quiser.
Kenny podia perceber o nervosismo na própria voz, na repetição das palavras, na dureza dos seus ombros, mas a expressão compreensiva de Kyle dava a entender que eles estavam compartilhando o mesmo estado. O ruivo balançou a cabeça.
—Eu adoraria. — E por um instante, nenhum dos dois se moveu. Kyle gesticulou com uma mão antes de qualquer som deixar a sua boca. — Então… Como a gente faz, eu sigo o seu carro ou…?
—Eu não tenho mais carro. Eu vendi o fusca.
Kyle ergueu um pouco o queixo, assentindo em compreensão.
—Vamos no meu, então.
—É, deixa eu só pegar o violão lá dentro e receber o dinheiro. — Kenny apontou com um polegar para a rua. — Mas você pode me esperar ali na frente.
Antes que o loiro pudesse dar mais de dois passos, Kyle o seguiu com o rosto e deixou escapar uma observação possivelmente indevida, sem pensar muito sobre:
—Aquele violão não é a Irene. — Disse com curiosidade refletida nos olhos.
Kenny o olhou por cima do ombro, desacelerando o passo até parar completamente, rindo pelo nome que não escutava há tanto tempo.
—É, eu vendi ela também.
A resposta, por algum motivo, surpreendeu Kyle a ponto de não conseguir disfarçar a expressão, os olhos estreitos e o maxilar levemente caído, despreparado para dar uma resposta àquela afirmação casual. Um aperto em volta do coração tornou difícil respirar por um ou dois segundos. Uma reação idiota foi a única coisa que conseguiu oferecer.
—Kenny, você amava aquele violão.
—É, bom. — O loiro respondeu com o mesmo encolher de ombros, o sorriso leve ainda estampado na face. — Eu amava mais ter comida na mesa. — E, sem esperar por um aprofundamento do assunto. — Olha só, eu já volto, é rapidinho.
Kyle deu a volta por fora do prédio para esperá-lo na calçada em frente ao estabelecimento. Acendeu um cigarro com os dedos trêmulos e se perguntou o que diabos estava fazendo ali, cutucando um animal adormecido. O cigarro servia muito mais para regular a sua própria ansiedade, mas não estava fazendo um trabalho muito bom; Kyle continuava batendo o pé no chão freneticamente, dando tragadas curtas e rápidas, sacudindo a cabeça para si mesmo.
Tirou o celular do bolso, apertando duas vezes na tela para que ela se iluminasse, revelando o horário em números grandes: cinco para as dez da noite. Colocou o celular de volta no bolso traseiro da calça e respirou fundo. Kenny não levou muito tempo para aparecer na porta, agora vestindo uma jaqueta jeans escura que ficava ridiculamente bonita nele. Carregava o violão nas costas, envolto em uma capa preta, a alça presa em torno do tórax dele. O loiro ofereceu um pequeno sorriso quando Kyle jogou o cigarro no chão e o apagou com a sola do sapato, como se tivesse sido pego fazendo alguma coisa errada.
Guardaram o violão na parte de trás do carro, de pé no espaço entre o banco traseiro e o do motorista. Kenny se acomodou no banco passageiro, empurrando-o um pouco mais para trás para fazer espaço para suas pernas compridas, separando bem os joelhos. Kyle ligou a ignição e ajeitou o espelho retrovisor rapidamente antes de tirar o carro da vaga em que estava estacionado, enquanto Kenny lhe dava um ponto de referência para chegar até o seu prédio, que ficava logo em frente a um mercado. Nenhum dos dois disse nada durante algum tempo. Kenny abaixou o vidro, sentindo a brisa fresca bater no rosto, descansando o braço na janela. No primeiro semáforo vermelho em que pararam, Kyle ligou o rádio em um volume tão baixinho que mal preenchia o espaço do carro.
—Como vai o Token? — Kenny perguntou. Não escapou aos seus olhos o fato de que Kyle apertou as mãos em torno do volante com um pouco mais de força, tentando relaxar os ombros.
—Bem, eu acho. — A resposta veio em uma voz pequena, mas quando abriu a boca novamente, soava mais seguro. — Faz tempo que eu não falo com ele.
Kenny franziu o cenho, apoiando a cabeça na própria mão, mantendo o cotovelo apoiado na janela.
—Vocês…?
—É.
Um silêncio tenso seguiu entre os dois, apesar dos sons do trânsito, do motor, da música de rock dos anos 90 que tocava no rádio. Kenny passou alguns segundos encarando o outro, que mantinha o foco nos carros à frente. O loiro coçou a cabeça e soltou um riso baixo, desviando a atenção para a janela, assentindo em compreensão.
—Que merda. Eu sinto muito.
—Não precisa, já faz bastante tempo. — Kyle começou, fazendo uma pausa breve para pressionar os lábios, umedecendo-os, incerto do que dizer. Encolheu os ombros. — E além do mais, acho que eu sempre soube que nós tínhamos uma data de validade, sabe? Nunca foi… Com o Token, nunca foi aquele tipo de amor insano, nós sempre fomos muito mais amigos do que outra coisa. Por isso foi tão difícil terminar, eu acho. Foi quando… Logo depois que você foi internado. — O ruivo parou de falar por um instante, talvez esperando algum tipo de resposta, olhando de relance para o homem ao seu lado. Mas Kenny apenas o encarava com seus olhos azuis, tão azuis, como se alguém tivesse colocado neles um pedaço do céu. E ele parecia triste. Kyle conhecia aquela expressão, era como Kenny ficava quando transbordava empatia. A vida inteira, quando Kyle não se dava conta do quão deprimido parecia, ele podia ver sua própria dor no rosto de Kenny. Voltou a encarar a rua. — Eu não tava bem. E ele queria estar lá por mim, pra ser um porto seguro ou sei lá. Eu acho que nem preciso explicar porque isso deu errado.
Kenny deitou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos, esfregando o rosto com as duas palmas, suspirando fundo. Ao descer as mãos, virou o rosto apenas o suficiente para manter o ruivo em seu campo de visão.
—Eu não achei que você fosse… — O loiro tentou responder, mas as palavras ficaram presas na garganta. Tentou reformulá-las. — Eu nunca pensei que isso fosse te machucar desse jeito, Kyle.
—Eu não tô contando nada disso pra você se sentir mal, Kenny. Mas o que te afetava me afetava também, e… E a minha relação com o Token não acabou por causa de uma fase em que eu tava mal. Não foi só isso, eu não… Eu contei pra ele sobre o beijo.
O loiro desencostou a cabeça do banco, aliviado que Kyle não estava olhando para ele quando se deu conta da sua própria expressão surpresa. Não era tanto por saber que Kyle havia contado ao seu namorado da época, mas por aquele beijo ser mencionado para começo de conversa. Ele ainda não havia se preparado para pisar nesse território.
—Por quê?
—Como assim, “por quê”? — Kyle soava irritado agora. — Eu terminei com um cara que provavelmente era muito melhor pra mim do que eu merecia, o mínimo que eu devia a ele era a verdade. E não é como se ele estivesse surpreso, já que o seu amante apareceu no hospital gritando que a gente tava trepando pelas costas dele.
—Ele não é meu… — Antes de terminar a frase, Kenny interrompeu as próprias palavras e apertou a ponte do nariz com o indicador e o polegar, apertando os olhos. — Kyle. — Gesticulou com a mão em frente ao rosto, erguendo a cabeça. — Eu sinto muito. De verdade, eu nunca quis que ele falasse as merdas que ele falou. Mas eu não controlo o que o Craig faz. E eu acho que ele tava só magoado, com ciúme e tentando proteger o amigo dele.
Kyle bufou baixo, soltando um riso cínico, mantendo as duas mãos no volante. Não respondeu de imediato.
—Eu viro aqui? — Perguntou, apontando para uma entrada à direita.
—Não, é na próxima.
O ruivo fingia prestar atenção demais na direção, dando sinal para entrar onde Kenny havia indicado, mordendo por dentro da bochecha enquanto o fazia, ignorando o coração que martelava forte dentro do seu peito. Tirou uma das mãos do volante para afastar os cachos que caíam sobre a testa.
Ficou em silêncio por tempo o suficiente para o loiro pensar que o assunto havia morrido, que ele não queria mais conversar.
—Sabe, eu realmente achei que… — Kyle disse de repente. Olhava para frente quase sem piscar. Os olhos estavam avermelhados, mais brilhantes do que de costume, mas não chorava. — Eu sabia que nós dois tínhamos muita coisa pra resolver sozinhos. Mas eu achei, de verdade, que quando tudo isso passasse… — Os olhos verdes de Kyle desviaram para o retrovisor durante alguns segundos. Ele enxergava o loiro na visão periférica. Kenny o ouvia, completamente imóvel, esquecendo-se de respirar. — Eu e você teríamos uma chance. — Escolheu as palavras com cuidado.
Kenny não disse nada. Piscou devagar algumas vezes, dobrou os dedos da mão e pressionou as costas deles contra os próprios lábios, virando o rosto em direção à janela. Ficou observando as luzes noturnas que passavam rapidamente pela paisagem enquanto dirigiam pelo centro da cidade, os estabelecimentos se fechando pouco a pouco. Passaram cinco minutos mergulhados em um clima desconfortável, tempo suficiente para que aquilo se tornasse normal.
Logo, Kyle estacionou o carro em frente ao mercado, no lado oposto à rua. Mesmo sem saber, parou quase em frente ao prédio de tijolos à vista em que Kenny morava. Tirou a chave da ignição e respirou fundo de olhos fechados, sem se mover, não fazendo qualquer menção de sair do carro. Ficaram mais alguns segundos ali no carro escuro, apenas as luzes alaranjadas dos postes permitindo que enxergassem um pouco melhor. Kenny mexia um pouco as pernas, inquieto.
Ainda segurando a chave na mão, Kyle esfregou a testa com o indicador e o dedo médio, sacudindo um pouco a cabeça. O loiro apenas esperava, o maxilar tenso, enxergando que ele ainda pensava no que dizer.
—Eu acho que isso foi um erro. — Enfim, o ruivo disse. O timbre era trêmulo, incerto. — Eu não sei o que eu tô fazendo aqui.
Kenny se soltou do cinto de segurança e encheu os pulmões de ar, o rosto ainda virado para olhar através da janela aberta do carro, um silêncio que machucava mais o ruivo a cada segundo. Kyle riu baixo em defensiva, balançando negativamente a cabeça. Apoiou o cotovelo na janela do carro e cobriu os olhos com a palma da mão, subindo-a pela testa, pressionando a língua por dentro da bochecha enquanto encarava o painel, mas não enxergava nada do que estava à sua frente.
—Só sobe, Kenny. Pode ir, esquece que essa conversa aconteceu. — Kyle finalmente disse, limpando a garganta, recusando-se a transbordar qualquer sentimento de fragilidade. Pelo menos enquanto o loiro ainda estivesse no carro. Olhou para a chave na própria mão, preparando-se para colocá-la novamente na ignição, mas foi surpreendido pelo toque quente da mão do outro em sua nuca. Ao virar o rosto para encará-lo, Kenny já estava bastante próximo; não o suficiente para invadir seu espaço, mas quase. Os olhos tentaram esquivar, procurando qualquer outra coisa para se focarem, e na ausência disso, as pálpebras se fecharam. Ainda podia sentir as íris azuis de Kenny jamais se movendo, estudando-o, desculpando-se por coisas que ele não conseguia dizer, não sabia como. O polegar do loiro acariciava sua nuca em um ponto sensível, a palma quente subindo alguns milímetros para que os dedos tocassem os cachos ruivos.
Com a outra mão, Kenny envolveu a bochecha no toque mais delicado possível, forçando Kyle a encará-lo. O ruivo o fez de forma desafiadora, esperando alguma resposta, o olhar rígido e exigente, mas Kenny desmontou essa defesa com o sorriso mais sutil. E o beijou. Antes que Kyle se desse conta, estava fechando os olhos instintivamente para mergulhar na sensação daqueles lábios que já pareciam tão familiares, assim como o cheiro da pele dele e o hálito. Kenny o puxou para mais perto apenas com um movimento terno que mais indicava do que conduzia. Kyle deitou a cabeça para a direita e se aproximou até o limite do cinto de segurança que ainda prendia seu tronco, abrindo a boca contra a do loiro para receber sua língua com um gemido fraco de alívio, suspirando profundamente. As línguas se acariciaram de forma leve e quente, mais atentos ao movimento dos lábios que se encaixavam de todas as formas, tudo de forma lenta.
Quando olhos verdes se abriram, encontraram olhos azuis os encarando diretamente. Eles se observaram no escuro, os dedos ainda fazendo carícias constantes e preguiçosas, os lábios roçando um pelo outro, já não mais beijando.
—Sobe comigo, Kyle. — Ele sussurrou sem se afastar.
O ruivo apenas assentiu com a cabeça.
Kyle não sabia exatamente o que esperar quando Kenny empurrou a porta do apartamento para abri-la. O prédio era antigo e não tinha elevador; eram só quatro andares, o loiro morava no terceiro. Subiram os lances de escada sem luz automática, guiados pela luz que entrava pelos janelões que havia em cada andar. O apartamento em si, Kyle notou, definitivamente não se parecia com o de uma pessoa que havia morado em seu carro durante alguns anos. Revelou-se uma sala pequena, com poucos móveis. Kenny esperou que ele entrasse primeiro para, então, acender a luz. A primeira coisa que Kyle reparou foram os dois quadros sem moldura, exatamente do mesmo tamanho, um ao lado do outro, ambos retratando desenhos feitos à mão de samurais, templos, cerejeiras. Kyle se perguntou se eles foram feitos por Kenny, porque ele sempre teve mão para todas as coisas relativas às artes e os desenhos em seu caderno durante toda a vida escolar deles se pareciam muito com aqueles traços. Mas não perguntou nada em voz alta.
O sofá era, na verdade, dois colchões empilhados com uma manta por cima e diversas almofadas apoiadas na parede como encosto, logo abaixo da janela sem cortinas. Kyle sorriu. A manta era azul, mas ainda havia outra de lã em diversas cores, amassada como se alguém tivesse dormido nela. O sorriso cresceu. Percebeu que a estante de livros era, na verdade, uma escada velha. Não havia tantos livros assim. Ele tinha outro violão pendurado na parede branca, um notebook aberto na mesinha de centro e havia um cheiro gostoso de vela lá dentro. Um cinzeiro cheio ficava no chão, ao lado do sofá, próximo a um globo terrestre e uma lata de coca-cola que Kyle presumiu estar vazia. Havia um tipo de bagunça que tornava aquele lugar estranhamente confortável, mesmo que o ruivo jamais tenha se sentido bem em meio a qualquer tipo de zona. Parecia habitado, o tipo de lugar que abriga vida humana e calor. Havia, também, uma pequena varanda cuja vista dava diretamente para o prédio do outro lado da rua.
Logo, o ruivo entendeu que toda aquela vontade de sorrir se atribuía ao fato de que estar ali, de pé no apartamento de Kenny McCormick, simbolizava todas as coisas que haviam mudado. Talvez fosse o reflexo mais concreto da saúde mental de Kenny. E por mais que isso fizesse Kyle sentir todo tipo de coisas boas – orgulho, alívio, pura e genuína felicidade pelo bem-estar do outro – também vinha acompanhado de uma dorzinha silenciosa por constatar que tudo o que Kenny fez para chegar a esse ponto, ele fez sozinho.
Talvez não houvesse outra maneira.
Não, não era um talvez. Não havia outra maneira, nunca houve.
O loiro encheu os pulmões de ar, de costas para o loiro, voltado à porta de vidro da varanda. As luzes do outro prédio refletiam em seus olhos, mas ele não prestava atenção no que estava à sua frente. Não conseguia entender porque se sentia tão assustado, mas cada vez mais o pensamento se cravava em seu cérebro: esse Kenny já não o queria mais, já não pensava nele há um bom tempo.
—Você quer… — Kenny o arrancou da própria mente com uma voz insegura. Quando Kyle se virou para enxergá-lo, encontrou o loiro ainda próximo à porta, coçando a nuca. — Quer beber alguma coisa? Eu acho que eu tenho chá aí, ou… Se você quiser cerveja…
—Eu não quero nada. — Respondeu em uma voz suave. — Obrigado.
E com isso, o ruivo voltou a dar as costas, fingindo interesse na paisagem de concreto. Kenny deixou as pálpebras se fecharem por um momento, sacudindo a cabeça de forma tão sutil que mal se moveu, sentindo um nódulo se formar na garganta. Roçava a ponta do polegar no indicador e no dedo médio, um gesto tão inconsciente que nem mesmo percebeu que o fazia. Ao abrir os olhos, suas pernas deram alguns passos para frente até o meio da sala, ainda mantendo uma distância considerável de Kyle.
—Kyle, eu preciso que você entenda uma coisa. — Deixou que as palavras saíssem de uma vez, sem pensar com cuidado no que viria em seguida, porque se o fizesse, continuaria calado. Perderia a coragem. O ruivo não se virou imediatamente, o que arrancou de Kenny um suspiro frustrado. — Porque a gente não vai chegar a lugar nenhum se você não entender isso. — Enfim, de braços cruzados e olhos impenetráveis, Kyle se virou para ele. Não totalmente, o corpo continuou de lado, mas já era o bastante. — Eu pensei em te procurar. Eu pensei nisso todo dia desde que eu saí daquela merda de hospital, mas eu nunca… Nunca parecia a hora certa, porque eu enfiei na cabeça que eu só te veria de novo quando eu tivesse alguma coisa a oferecer. Eu tô bem agora, sabe? Eu virei uma pessoa funcional, eu consigo trabalhar, até tenho uma cama. — Ele apontou em direção à porta aberta do quarto, mesmo que nada fosse visível de onde estavam. — Eu até uso calças, eu não fumo maconha todo dia, eu tô melhor. — O loiro encarou as próprias mãos, ouvindo sua própria voz se perdendo cada vez mais, apertando os olhos para tentar chegar ao ponto que os lábios não conseguiam articular direito. Tudo era tão claro em sua cabeça, mas ele jamais foi bom com palavras.
Apesar de não saber disso, as defesas de Kyle já estavam todas no chão. Sua expressão mal havia mudado, mas seu peito já estava completamente aberto. Não tentou responder nada enquanto o loiro pensava no que dizer, não se justificou, não tentou assoprar as feridas dele como lhe era de costume. Porque o que Kenny realmente precisava era ser ouvido.
—E isso é o máximo que eu tenho pra dar. — O loiro prosseguiu com um riso fraco, sacudindo a cabeça negativamente, erguendo o olhar. — É isso. Essa é a minha maior conquista. — Ele encolheu os ombros, um sorriso amargo ainda estampado em seus lábios. — Desde que eu me lembro, eu olho pra você e sinto essa vontade de… De ficar perto, de sentir teu cheiro, só que essa vontade sempre, sempre veio junto com uma vozinha na minha cabeça dizendo: “você é um caipira de merda, McCormick, tira o olho dele que você só vai passar vergonha”. E não é você, Kyle, não é culpa sua, não foi nada que você fez, é só… É como eu sempre me senti, porque é verdade, eu nunca vou ser… Eu não quero ser nada de diferente, eu tô bem assim.
A expressão de Kyle, agora, era calma e macia. Ele não estava sorrindo, mas seus olhos brilhavam como Kenny nunca vira antes. O ruivo deu alguns passos lentos para diminuir a distância entre os dois enquanto ele falava, parando a apenas alguns centímetros, mas Kenny parecia imerso demais no próprio transe para deixar a proximidade afetá-lo.
—E até agora há pouco, eu achei que você ainda tava com um médico… Uma porra de um cirurgião cardíaco que te leva pros Alpes suíços, que provavelmente tem um jatinho particular e parece modelo de cueca da Calvin Klein e é um dos caras mais gente fina que eu já conheci, como é que eu ia…? Entende? Como é que eu ia atrás de você sem essa voz na minha cabeça me dizendo: “seu pedaço de bosta patético, você é doente da cabeça e não consegue pagar nem um piquenique, vai querer o quê com ele?”
Os olhos de Kyle alternavam por diferentes partes daquele rosto que havia se tornado uma das coisas mais bonitas do mundo para ele. Suas mãos subiram pelas laterais do pescoço de Kenny, o toque firme e macio ao mesmo tempo, as pontas dos dedos carregadas de ansiedade pela pele do outro. Não havia nada em seu rosto que não fosse afeto, afeto puro e genuíno transbordando por cada poro, pelos olhos iluminados, pelos lábios trêmulos. E ele esperava pacientemente, até que Kenny pareceu se esgotar, finalmente distraído demais pelo rosto de Kyle a poucos centímetros do seu. Mas ainda o encarava com hesitação, engolindo o acúmulo de saliva, como se quisesse desviar o olhar por vergonha ou coisa do gênero. No entanto, não desviou.
O toque de Kyle respondia no lugar das palavras. Um toque desejoso, de aceitação incondicionável, que garantia que nada do que era realmente importante estava faltando entre eles. O ruivo não o julgava, não descartava os temores que estiveram enraizados nele desde que nasceu, porque Kenny já nasceu carregando o estigma de miserável, de caipira, de perdedor, de alguém que nunca faria nada de útil. Isso tudo era muito maior do que Kyle, muito maior do que eles. E Kyle o enxergava por inteiro, exatamente por quem ele era, sem todas aquelas camadas de rotulação e julgamento. Talvez o amasse ainda mais ao vê-lo tão vulnerável.
—Eu vou te beijar agora. — Kyle sussurrou, o que fez o loiro sorrir de imediato. Exatamente as mesmas palavras mágicas que Kenny havia sussurrado na noite embriagada em que cometeram o erro de não resistir mais um ao outro.
O sorriso desapareceu de repente, mas os lábios continuaram entreabertos enquanto Kenny se esquecia de respirar, olhos azuis curiosos e atentos, estudando o rosto de Kyle que estava próximo demais para que enxergar direito fosse possível. A textura lisa, macia e quente dos lábios do ruivo roçou de leve sobre os seus antes que Kenny encontrasse uma forma de reagir, trazendo uma das mãos à parte inferior das costas de Kyle por instinto, como se já conhecesse aquele caminho. Apesar de o ruivo ter iniciado, foi Kenny quem cedeu os últimos dois milímetros para que suas bocas se encontrassem com sede, mas sem pressa. As pontas dos dedos do loiro produziram uma pressão leve nas costas de Kyle enquanto seu braço o envolvia com mais afinco, puxando seu corpo para que ficassem o mais próximos quanto fosse humanamente possível. As línguas se encontraram e se acariciaram com familiaridade, cedendo a um desejo tão antigo que nem sequer parecia real.
Kyle segurava o rosto de Kenny com as duas mãos, absorvendo todos os estímulos oferecidos: a sensação leve do nariz de Kenny roçando sem querer pela sua bochecha quando ele inclinava a cabeça, o hálito quente que não era particularmente fresco, mas ainda assim delicioso, mesclado ao cheiro daquela pele que Kyle jamais encontraria em qualquer outro lugar.
Nenhum dos dois saberia dizer quanto tempo passaram de pé naquela sala, enroscados um ao outro pela primeira vez, porque a lembrança embriagada no escuro da sala de Kyle há anos se parecia apenas com um sonho, breve demais para contar. Não, eles mereciam mais do que isso, precisavam de mais. Independente de que horas o relógio marcasse, de quantos riscos o ponteiro dos segundos tivesse andado, eles se esqueciam do mundo com aquele beijo molhado e constante, com pausas breves apenas para respirar o mínimo de ar necessário, retomando logo em seguida o beijo como se isso fosse mais importante para a sua sobrevivência. Em determinado ponto, Kenny empurrou o outro de maneira cega e eles esbarraram na mesinha de centro, o loiro soltando uma gargalhada e segurando Kyle com um pouco mais de firmeza para que ele não se desequilibrasse. Foi nesse momento que trocaram um olhar silencioso e demorado, os lábios inchados pela fricção deliciosa que os fazia sentir como adolescentes.
O ruivo piscou algumas vezes, sentindo-se quase intoxicado pelos contornos daquele rosto; o coração palpitava ao observar a familiaridade da face, como Kenny praticamente não havia mudado desde que se viram pela última vez no hospital, e ao mesmo tempo, como seu olhar era mais tranquilo a ponto das íris parecerem mais azuis, se tal coisa fosse possível. Kenny ainda se parecia com um garoto, tinha aquele frescor jovial de quem jamais levaria a vida a sério demais e, ao mesmo tempo, Kyle podia ver todas as marcas em sua pele que traduziam uma vida de cão, de quem havia passado por coisas inimagináveis. Suas mãos já haviam passeado por boa parte daquele corpo enquanto se roçavam e se sentiam, mas Kyle trouxe as mãos novamente àquele rosto tão bonito, o tipo de beleza de filho da puta caipira que partiria o seu coração em milhares de pedaços, mas com aqueles olhos que transbordavam bondade como apenas os cachorros e as crianças tinham. Ao retomar um beijo lento, carregado de afeto, Kyle se perguntou como nunca enlouqueceu naqueles lábios quando era adolescente, como o mundano pensamento e beijar Kenny McCormick jamais cruzou o seu cérebro. Já não importava mais. Era ali que eles estavam agora.
Até que o loiro interrompeu o toque preguiçoso dos lábios antes que as línguas pudessem se reencontrar.
—Sabe, eu não… — Kenny sussurrou, Kyle ainda podendo sentir seus lábios se movendo contra a sua boca entreaberta, pois nenhum deles teve coragem de se afastar. Kenny esboçou um sorriso tímido, soltando uma risada constrangida, balançando um pouco a cabeça. — Não foi pra isso que eu te chamei aqui.
Kyle continuava embriagado demais por todas as descobertas daquele corpo – a textura da barba malfeita do loiro contra a sua pele quando se beijavam, a temperatura das mãos de Kenny e como elas se moviam para explorar os seus contornos, o gosto saboroso da língua que o invadia com tanta propriedade – para entender completamente a afirmação. Abriu um pouco mais as pálpebras, agora sim afastando-se não mais do que dois centímetros.
—Você não quer? — Perguntou. Não pretendia soar tão magoado quanto soou.
Kenny deixou escapar um riso incrédulo, subindo a mão pelas costas do ruivo instintivamente, o toque dubiamente obsceno e afetuoso.
—Que merda de pergunta é essa? — E, por ser uma retórica, não deu ao outro tempo para responder. — Eu só tô dizendo… Pra você não pensar que eu tinha segundas intenções.
—Kenny, onde é o quarto?
O loiro piscou algumas vezes, um sorriso malicioso crescendo nos lábios. Observou o rosto impaciente do outro, trazendo uma das mãos aos cabelos ruivos, passando os dedos por dentro dos cachos para pressionar as pontas em seu couro cabeludo carinhosamente, diminuindo a distância que Kyle havia criado.
—Kyle Broflovski, eu nunca achei que você fosse desse tipo. O que a sua mãe diria? — O loiro disse em um tom de brincadeira, escorregando a mão pela nuca do ruivo, fazendo com que ele se arrepiasse pelo toque despretensioso direto com a pele. Havia um ar de provocação nas palavras, ao mesmo tempo em que Kenny deslizava os lábios pelo canto da boca de Kyle para deixar um beijo úmido.
—É, é, isso que você não me viu na faculdade. — Ele respondeu ao mesmo tempo em que desviava o rosto, rindo, desenroscando os braços dos ombros largos de Kenny para empurrá-lo sem força, um gesto curto para comunicar: “anda logo”.
—Vem cá. — Sem se dar conta, Kenny deu dois passos para trás e esticou a mão para entrelaçar seus dedos nos de Kyle a fim de puxá-lo em direção à porta do quarto.
Mas é importante saber que Kenny McCormick não segurou muitas mãos durante a sua vida. O gesto tão simples ganhava uma proporção maior quando ele se deu conta do que estava fazendo, conduzindo Kyle ao seu quarto com a palma quente colada na sua. Era tão íntimo, tão natural. Contra a sua própria vontade, a realização deixou a mão do loiro um pouco mais suada.
Ao acender a luz do quarto, revelou um cômodo com ainda menos móveis do que a sala. Havia uma cama de casal com um lençol branco, travesseiros azuis e um edredom embolado na beirada da cama que parecia terrivelmente confortável. Talvez fosse a mera noção de a quem aquele ninho pertencia, a ideia de que o cheiro de Kenny estaria naqueles lençóis, o aroma de shampoo barato dele provavelmente impregnava os travesseiros junto com a fragrância natural do seu corpo que ainda intoxicava os sentidos de Kyle. Podia imaginá-lo dormindo de bruços naquele espaço, sem roupa, a luz do sol penetrando a janela e banhando as suas costas – por Deus, como adorava aquelas costas – enquanto ele abraçava o travesseiro, os cabelos dourados cobrindo seu rosto, a coberta embolada em suas pernas porque Kenny simplesmente parecia o tipo de pessoa que não conseguia passar a noite inteira coberto.
Essa imagem penetrou a mente de Kyle em apenas um segundo em que se colocava de pé no quarto, sentindo os dedos de Kenny se soltarem dos seus. Deu uma olhada em volta, respirando fundo. Não havia cortinas, nem mesa de cabeceira, mas sua atenção se voltou a uma pequena arara de roupas com literalmente tudo o que Kenny tinha para vestir. Não deviam ser mais de quinze peças ao todo, todas com aparência extremamente confortável. Ao lado, havia uma mala de madeira onde – Kyle presumiu – eram guardadas as roupas de baixo ou qualquer outra coisa que não se pudesse pendurar. Embaixo da janela, havia uma poltrona que parecia muito velha.
Também havia desenhos nas paredes, mas não teve tempo para analisá-los antes de seus olhos cruzarem com o par de órbitas azuis o observando com certo desconforto. Havia um sorriso fraco nos lábios de Kenny, mas era visível que ele estava tenso. Kyle podia entender isso. Podia entender melhor do que gostaria, também sentindo dificuldade de respirar. Era uma sensação estrangeira; sexo nunca foi uma questão complicada antes, mas isso era diferente. Claro, ele já havia experimentado constrangimento ou insegurança ao se encontrar no quarto de um homem, esperando pelo próximo passo que poderia ser infinitamente esquisito, mas Kyle não sabia o que era isso há anos. E, mesmo assim, nenhuma trepada casual poderia se comparar ao passo que estava prestes a tomar junto com um dos seus melhores amigos de infância, uma pessoa com quem Kyle teve certeza de que nunca mais falaria de novo, que o deixava tão vulnerável mesmo sem querer.
Nenhum dos dois tinha qualquer tipo de dúvida sobre o que queriam que acontecesse em seguida. Mas dançavam à beirada de algo que não teria volta, que parecia tão distante do reino de possibilidades antes de cruzarem olhares no bar há poucas horas, ou mesmo depois disso. E no entanto, ali eles estavam. Kenny soltou um riso fraco, sem receio de demonstrar que não sabia ao certo como prosseguir. Isso encorajou Kyle a se aproximar mais dele.
—Você só queria conhecer? — O loiro perguntou, reagindo exatamente como Kyle esperava que reagisse; com qualquer brincadeira que aliviasse a tensão dos seus ombros.
O ruivo correspondeu com um sorriso, mas não riu da piada, levando suas mãos a segurar as laterais do pescoço de Kenny, as pontas dos dedos perpassando sobre o maxilar tenso do loiro que apenas o encarava com olhos austeros, a boca em uma linha reta. Por um momento, Kenny mergulhou tão fundo nas íris verdes de Kyle que apenas isso, apenas congelar nesse segundo em que todas as defesas estavam rebaixadas e a dor parecia nunca ter existido… Apenas isso parecia suficiente.
Mas não era. A maneira ávida com que as mãos do loiro seguraram os pulsos de Kyle foram indicativo do quanto não era nada suficiente, que ele precisava de muito mais do que apenas trocar olhares como fizeram nos últimos dez, quinze anos em que Kenny McCormick pensava sobre os lábios de Kyle Broflovski mais do que deveria. A forma com que o beijou transparecia tudo isso, todos os anos de repreensão e autodepreciação que o impediram de tentar, pelo menos tentar fazer Kyle entender o quanto o queria. Agora, cada poro de sua pele e cada célula de seu corpo viviam pelo propósito de comunicar o quanto, e Kyle entendia muito bem. Enroscou os braços em torno do pescoço de Kenny assim que os lábios voltaram a se encontrar, colocando-se nas pontas dos pés por um instante, retomando a estabilidade quando o loiro o envolveu nos braços, inclinando-se contra a forma menor de Kyle, ambas mãos subindo pelas suas costas com anseio.
—Porra… — O palavrão escapou dos lábios de Kenny enquanto sugava o ar pela boca para retomar o fôlego, interrompendo o beijo de forma barulhenta para pressionar a testa contra a do outro, mantendo os olhos fechados, apenas sentindo-o tão próximo, sua respiração se mesclando à dele. Kenny mantinha os olhos fechados, trazendo as mãos agora para segurar o rosto de Kyle com afinco nos dedos, voltando a beijá-lo de forma lenta e calorosa, deixando que a língua fizesse a maior parte do trabalho enquanto os lábios abertos apenas acariciavam os do ruivo.
O caminho até a cama foi uma consequência natural. Não souberam dizer ao certo quem começou a mover os pés naquela direção, mas fato era que estavam deitados em questão de segundos, Kyle por baixo com as costas pressionadas no colchão, sentindo o peso do outro sobre seu corpo. Deitaram-se atravessados no meio da cama, as pernas ainda para fora da beirada, mas Kenny tinha os joelhos dobrados sobre o colchão como apoio, distraído demais com o encaixe dos lábios para prestar atenção em qualquer outra coisa. Kyle riu baixo em meio ao beijo, arrastando-se mais para cima no colchão para que não estivessem tão na beirada, o que permitiu ao loiro se deitar por completo sobre ele, as pernas agora esticadas, enroscando-se nas de Kyle. Soltou um gemido confortável, cruzando olhares com o ruivo que tinha as bochechas coradas pelo calor e a excitação do momento, o que trouxe um sorriso capcioso ao rosto de Kenny.
—Você é tão lindo. — O loiro sussurrou como se fosse um segredo, voltando a abaixar o rosto os poucos centímetros que os separavam para retomar o beijo que tinha seu próprio ritmo lento, deixando que a ponta do nariz deslizasse pela bochecha de Kyle antes que sua boca voltasse a encontrar a dele, passando a língua brevemente pelo lábio inferior do ruivo como se quisesse saboreá-lo.
O beijo foi se tornando mais ardente conforme os minutos se passavam, as mãos de Kyle encontrando o caminho por baixo da barra da camisa do loiro, levantando o tecido conforme deslizavam em contato com a pele quente das costas dele, apenas alisando a carne com as palmas abertas em um ritmo combinado à fricção de suas línguas, gradativamente mais forte, dificultando a respiração de ambos. O toque direto na pele era um estímulo tão suave e tão intenso ao mesmo tempo, de tal forma que Kenny se percebeu movendo o quadril para melhor encaixar a coxa entre as pernas de Kyle, usando do próprio peso para friccionar o volume da calça contra a virilha de Kyle, arrancando um gemido fraco do outro. Desencaixou seus lábios apenas o suficiente para uma tomada brusca de fôlego, apertando os olhos pelo prazer tênue de pressionar o membro rígido contra o de Kyle, tirando toda satisfação possível do movimento curto, mas ainda não passava de uma mera provocação.
Quando os lábios se separaram, Kenny trouxe a mão ao topo da cabeça de Kyle para acariciar os fios ruivos, enroscando-os em seus dedos enquanto escorregava a boca úmida pela mistura das salivas, deslizando pelo queixo do ruivo e descendo mais um pouco. Kyle arqueou as costas e separou um pouco mais as pernas, ganhando apoio para impulsionar o quadril contra a pressão que Kenny fazia, tombando a cabeça para trás no colchão, expondo mais a área do pescoço e estremecendo com a respiração quente do loiro tocando sua pele. Kenny chupava a carne sensível, mantendo os olhos entreabertos, a outra mão também escorregando por baixo da roupa para explorar a lateral do tronco de Kyle, acariciando a curva da cintura, fazendo pressão com os dedos para segurá-lo com firmeza e tesão, gemendo fraco. Queria mais. Os tecidos que os separavam pareciam um empecilho gigantesco diante da ardência de sentir o corpo do outro.
Mas Kenny não estava com pressa. Ergueu a cabeça de repente, deu uma boa olhada no homem que o encarava com a boca entreaberta e os olhos cheios de expectativa, de excitação, o peito subindo e descendo em um ritmo descontrolado. Kenny sorriu. Quis perguntar se ele tinha certeza, mas a resposta já estava dada pela maneira com que Kyle se contorcia levemente e trazia as mãos pelo seu corpo, os cantos dos lábios levemente erguidos com tanta malícia que deveria ser crime, era tudo o que Kenny podia pensar. Com esse pequeno encorajamento, deslizou o corpo para baixo, apoiando-se nos cotovelos para erguer um pouco o tronco ao se colocar na altura do abdômen de Kyle, usando as mãos para tirar o cabelo do rosto antes de trazê-las à barra da camiseta dele, enrolando o tecido macio para cima até revelar a maior parte da barriga que havia por baixo. Mordeu o lábio sem perceber, acariciando a carne firme do abdômen de Kyle antes de abaixar o rosto e passar a língua logo abaixo do umbigo, sorrindo fraco pela reação instintiva que causou no corpo do outro.
Kyle sugou o ar pela boca com um gemido fino e apertou os olhos, erguendo um pouco o pescoço para manter os olhos em Kenny o tempo inteiro, deitando a cabeça um pouco de lado, os olhos vulneráveis e carregados de desejo. Passou a língua pelo lábio superior e respirou fundo, levando a mão pelos cabelos loiros de Kenny, soltando um gemido muito mais alto quando aquela boca quente começou a chupar e beijar sua barriga sem qualquer pressa. Havia um êxtase na expressão de Kenny que o enlouquecia, a forma com que o loiro roçava seu rosto contra a pele de sua barriga e maneira tão leve, mas tão excitada. Kyle respirou fundo e dobrou um pouco os joelhos, apoiando os pés na cama. A pressão do tronco de Kenny sobre seu pau não era tão satisfatória quanto a do seu quadril, e a perda do movimento o deixou frustrado, mas também aumentou a expectativa. Kyle deitou uma das mãos sobre o próprio peito e levou a outra ao ombro de Kenny, acariciando-o sem perceber enquanto observava as mãos talentosas do loiro envolvendo suas coxas e apertando-as sobre o tecido grosso da calça, querendo senti-lo, jamais interrompendo os beijos barulhentos e úmidos pela barriga. Cada toque parecia tornar Kyle mais sensível.
Uma das mãos continuou apertando a coxa direita de Kyle com força enquanto a outra, distraidamente, esforçava-se para desabotoar a calça e descer o zíper. Nem para isso ele parecia ter pressa, o que quase levou o ruivo a ajudá-lo, mas logo o fecho estava desfeito e a boca quente de Kenny deixava sua pele. O loiro ergueu o tronco um pouco e limpou a saliva dos lábios com as costas da mão antes de puxar a calça para baixo pelas coxas de Kyle, que ergueu um pouco mais as pernas para facilitar o processo de removê-las, rindo sem saber porquê. Talvez só estivesse feliz, aliviado pelo pau não estar mais enclausurado pelo jeans, mas ainda coberto pelo tecido fino da cueca. Kenny arrancou seus sapatos e os atirou em qualquer lugar do chão, retribuindo a gargalhada breve, terminando de puxar a calça dos tornozelos de Kyle enquanto o encarava naquela posição indecente, pensando que nunca o tinha visto mais bonito do que naquele momento.
Inclinou-se sobre Kyle para beijá-lo mais um pouco, enquanto o ruivo separava as pernas de forma mais confortável agora, podendo abri-las mais do que antes. O beijo não durou muito tempo. Logo, os lábios deliciosos de Kenny foram arrancados dos de Kyle de maneira brusca e o ruivo correspondeu com um gemido angustiado, resmungando baixo, mas relaxou ao sentir os polegares de Kenny passando por dentro do elástico da sua cueca e puxando-a para baixo enquanto voltava para a mesma posição anterior, um pouco mais para baixo dessa vez, tirando um longo momento para encarar o corpo inteiro de Kyle.
No instante seguinte, sua atenção se focou diretamente no pau duro que latejava por atenção, a luz fria do teto permitindo que enxergasse cada detalhe, e Kenny agradeceu silenciosamente por isso. O membro permanecia deitado sobre a pélvis de Kyle, um pouco mais para a direita, a glande consideravelmente mais rosada que o resto da extensão, tão redondinho na ponta, as veias finas quase não apareciam. Kenny já estava ajoelhado entre as pernas dele, rindo fraco pela forma ansiosa com que Kyle as dobrava para que ele se livrasse logo da cueca e permanecia naquela posição, se oferecendo sem nem perceber.
—Que gracinha. — Sussurrou enquanto deixava as mãos passearem pelas coxas de pele tão clara e macia, umedecendo os lábios, a voz carregada de tesão.
—Vai se foder. — Kyle respondeu sem fôlego, deitando a cabeça para trás, mas soltou uma risada logo em seguida.
A resposta de Kenny foi segurar o membro duro pela base e abocanhar a glande com seus lábios já úmidos, saboreando de imediato o gosto do líquido viscoso e transparente que já escorria, delatando o quão excitado ele estava. Kyle se esqueceu de como usar palavras por um momento, apertando os olhos e franzindo o nariz com a sucção leve que aquela boca quente produzia, estremecendo por inteiro. Levou as mãos ao lençol branco e o apertou entre os dedos, relaxando com o movimento apertado dos lábios de Kenny que subiam e desciam lentamente até a metade, recuando, passando a língua só pela cabecinha sem pressa. Uma de suas mãos continuava firmemente envolta na base do pau enquanto a outra passeava pela parte interna da coxa trêmula do ruivo, puxando-o contra si, fazendo com que ele escorregasse um ou dois centímetros no colchão. Kyle respirava pesado, assentindo devagar com a cabeça pela sensação ardente de prazer que já não parecia se focar apenas na região do pau, mas por todo o seu interior. A barriga se contraía, a espinha se arrepiava, os pelos da nuca estavam de pé, as mãos se fechavam em punhos cada vez mais fortes conforme o estímulo se intensificava, aumentando cada vez mais a temperatura de seu corpo, formando uma camada fina de suor sobre a pele. A camiseta que ainda vestia (embora sua barriga continuasse exposta, úmida pelos traços de saliva de Kenny) o sufocava de tanto calor.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Com o apoio dos cotovelos, Kyle ergueu a parte superior do tronco para enxergar melhor, mantendo os lábios separados o tempo inteiro, abrindo-os espontaneamente um pouco mais quando a língua de Kenny, tão grossa, tão flexível, deslizava pelo ponto certo. O loiro nem percebeu que era observado, mantendo os olhos fechados boa parte do tempo, saboreando o gosto que preenchia sua boca enquanto deslizava os lábios em um movimento constante, sentindo a carne rígida descendo com cuidado pela sua garganta, pulsando em sua boca. Já não segurava mais o membro pela base, usando as duas mãos para cravar as unhas nas coxas de Kyle ou escorregando as palmas pelo seu quadril para senti-lo com anseio.
Ele recuou de repente até retirar o pau da boca com um barulho úmido, lambendo os próprios lábios, tirando o cabelo do rosto com um movimento rápido da cabeça, sorrindo ao encontrar os olhos verdes que o encaravam de forma lasciva.
—Faz um tempo que eu não faço isso. — Justificou antes de levar dois dedos à boca e chupá-los, o dedo médio e o anelar, um sorriso satisfeito estampado na cara.
—Não parece. — Kyle respondeu com um riso fraco, quase sem voz pela força da respiração, encarando as próprias coxas separadas e o pau molhado de saliva, agora sem o calor da boca de Kenny, mas a sensação do ar fresco do quarto contra a pele delicada e úmida era agradável. Quando sentiu os dedos úmidos de Kenny circulando sua entrada, contraiu o músculo e mordeu o lábio, dobrando mais as pernas para aproximar os joelhos do peito, se abrindo. — Vai com um só primeiro.
Kenny sorriu e encarou Kyle brevemente com uma expressão de desconfiança, erguendo uma sobrancelha.
—Você acha que eu não sei o que eu tô fazendo, Broflovski? — Perguntou, deixando um tapa barulhento na coxa do ruivo com a mão livre, mais de brincadeira do que qualquer outra coisa.
Kyle respondeu com uma risada que soou deliciosa aos ouvidos de Kenny, tão afobada e satisfeita, cheia de calor. O ruivo encolheu os ombros.
—Você disse que faz tempo.
—Eu disse que faz tempo que eu não chupo um pau, não que…
—Tá, eu não quero saber. — Kyle o interrompeu, embora não parecesse realmente irritado, apenas ansioso para que ele parasse de provocar com aquele toque sutil na região externa e enfiasse de uma vez. Tudo em seu corpo dizia isso.
—Desculpa. — Kenny sussurrou com um sorriso largo e uma voz mansa, roçando seu rosto na lateral da coxa de Kyle, deixando um beijo úmido com os lábios abertos na região, fazendo pressão delicada apenas para que o dedo médio penetrasse o anel muscular apertado, franzindo o nariz pela satisfação e o calor, soltando um riso fraco pela expressão de prazer que transbordava no rosto de Kyle com uma coisa tão simples. Passou algum tempo apenas observando as reações daquele rosto enquanto iniciava um movimento circular pelas paredes internas, esquecendo-se de respirar, extasiado pelo calor que encontrava dentro daquele corpo. — Porra, Kyle…
Ele levou alguns segundos para começar a emitir os sons mais lindos que já encheram os ouvidos de Kenny, gemidos fracos e contidos a princípio, mas que rolavam da sua língua com tanta facilidade, como se ele tivesse simplesmente nascido para gemer; era assim que o loiro escutava. Interrompeu o movimento do dedo da forma menos brusca que pôde, puxando-o para fora lentamente, erguendo o tronco. Toda a delicadeza não impediu Kyle de soltar um resmungo baixo.
—Pera, tá um calor do caralho. — Ele disse em um tom doce, abrindo os botões da camisa com pressa, logo retirando-a pelos braços que pareciam muito mais fortes do que Kyle se lembrava. Ele definitivamente havia ganhado algum peso, parecia maior, mais saudável. Kyle se distraiu da ansiedade enquanto estudava aquele tronco largo, toda extensão de pele e músculos que já tinha visto outras vezes, mas nunca com esses olhos. Não era como se jamais tivesse pensado em tocá-lo, ou pensado no quanto ele era atraente, mas agora… Agora, Kyle não podia entender como havia passado tanto tempo sem tocar aquele homem. Umedeceu os lábios, percebendo que Kenny o encarava de volta com a cabeça levemente tombada para o lado, olhos azuis curiosos e um sorriso malicioso, quase perverso. — Apreciando a vista?
O ruivo ergueu um pouco o queixo.
—Não é de se jogar fora, não.
—Como você é cruel… — Kenny disse, como se pronunciasse palavras imundas e desejosas. Escorregou uma das mãos pela parte detrás da coxa de Kyle para que ele erguesse mais o quadril, dobrando os joelhos sobre o peito, apertando a nádega esquerda com vontade. O pau ainda coberto, tão duro e latejando dentro do tecido grosso da calça, implorava para ser tocado. Mas Kenny estava disposto a esperar mais um pouco. Chupou os dedos mais uma vez antes de voltar sua atenção ao cuzinho que se contraía em expectativa, observando-o como se nunca antes tivesse visto uma coisa tão bonita, agradecendo silenciosamente a todos os deuses por tal coisa existir. Voltou a enterrar o dedo médio, dessa vez em um movimento mais firme, inteiro de uma vez, fazendo pressão o mais fundo possível.
Kyle deixou escapar um gemido alto, separando os joelhos porque ainda queria enxergá-lo, movendo o quadril sem se dar conta. A posição não permitia muita mobilidade, mas nesse meio tempo, levou a mão ao próprio membro e usou a própria saliva de Kenny para que a mão fechada deslizasse com facilidade, masturbando-se devagar, extasiado com a maneira com que o outro o olhava. Kenny penetrou o segundo dedo com cuidado, lançando um olhar breve ao ruivo para saber se estava tudo bem, sorrindo quando ele assentiu com a cabeça e apertou os olhos, o gemido saindo mais fino e sem fôlego.
Focou apenas em um movimento lento de vai e vem antes de separar um pouco os dedos e torcê-los dentro do corpo de Kyle para abrir um pouco a musculatura apertada, já imaginando todas as coisas que faria com ele em seguida, observando cada reação. Kyle arqueou as costas e agarrou o lençol com a mão livre, aumentando a velocidade da outra que deslizava pelo seu pau rígido, massageando a glande. Ele estava coberto de suor, o cabelo bagunçado, os lábios inchados, o peito arfando.
—É gostoso assim? — Kenny perguntou, o que deixou Kyle nervoso e mais excitado simultaneamente.
Assentiu com a cabeça, soltando um riso sem fôlego pela obviedade da coisa.
—Você sabe mesmo o que tá fazendo. — Foi tudo o que conseguiu colocar em palavras, especialmente porque, no instante seguinte, Kenny passou a roçar as digitais pelo ponto de estímulo da sua próstata. Estava procurando há quase um minuto, esperando o momento em que Kyle começaria a se contorcer. Um gemido alto escapou de seus lábios, o tronco virando-se um pouco de lado por um instante, limitado pela posição. Ele soltou o próprio pau e levou as duas mãos sobre a cabeça, apertando o lençol com força, o quadril se movendo com mais afã. Quando a pressão dos dedos foi muito forte, ele sugou o ar entredentes e sua expressão formou uma careta que Kenny não sabia dizer se era prazer ou dor.
—Tudo bem? — Perguntou em uma voz menos sóbria do que gostaria, recuando um pouco com os dedos.
Kyle assentiu fervorosamente com a cabeça.
—Não para. — Foi a coisa mais firme que Kenny o ouviu dizer, mas ainda havia uma vulnerabilidade que era incomum da sua voz, enquanto ele usava um dos braços para se agarrar à própria coxa e encarava Kenny com olhos pedintes, o lábio inferior quase trêmulo. — Por favor… — A voz agora saía fina e instável.
Prontamente, Kenny voltou a estimulá-lo naquele mesmo ponto, abaixando o rosto e usando a mão livre para trazer o membro de Kyle à sua boca novamente, chupando apenas a glande enquanto concentrava-se no movimento dos dedos, acelerando o ritmo aos poucos. Após abocanhá-lo novamente, deslizou a mão pela barriga de Kyle e subiu até um dos mamilos ainda cobertos, sem enxergar o que fazia, mas não era necessário. A mão passou por baixo do tecido da camiseta e usou apenas a ponta do dedo para circular delicadamente em torno do mamilo, erguendo os olhos para enxergá-lo por entre os fios loiros que caíam por cima dos olhos. Ele precisaria cortar a franja logo, mas esse pensamento estava distante de seu cérebro no momento.
Com a boca úmida chupando apertado em torno de sua glande, os dedos grossos que o invadiam com força, os outros dedos que beliscavam tão cuidadosamente o seu mamilo arrepiado, Kyle pensou por um momento que desmaiaria. Não conseguia fechar a boca, nem tirar os olhos daquele homem, mas suas pálpebras pesavam e seu corpo estremecia pela força de cada estímulo quente, úmido, intenso, delicado. Kyle sentia vontade de beijá-lo enquanto impulsionava o quadril poucos centímetros para cima, assistindo ao próprio pau duro adentrando aqueles lábios grossos. A mão que segurava sua própria coxa encontrou o braço de Kenny e o arranhou sem força, subindo até o pulso dele, puxando sua mão para trazer os dedos até sua boca e chupá-los com vontade, na ausência dos lábios que estavam ocupados em torno do seu membro. Kyle passou a língua pelos dedos antes de voltar a chupá-los, o que Kenny observou com os olhos cheios de tesão. A sensação daquela boca era indescritivelmente macia e molhada, um estímulo que Kenny correspondeu com a própria boca, chupando um pouco mais forte.
Kyle puxou a mão de Kenny pelo pulso, retirando seus dedos da boca de forma barulhenta, tomando fôlego antes de avisar:
—Eu vou gozar se você não parar agora.
Kenny ergueu as sobrancelhas, encarando-o de lado, usando os dedos próximos aos lábios de Kyle para acariciá-los distraidamente enquanto recuava a cabeça até retirar seu pau por completo da boca, arrastando-se por cima dele, mas mantendo a outra mão com os dedos enterrados o mais fundo possível, apenas diminuindo a velocidade do movimento. Segurou o rosto de Kyle com a outra e colidiu os lábios nos dele de maneira faminta, gemendo com força em meio ao beijo, agoniado com a própria ereção intocada. Retirou os dedos de dentro dele com lentidão e cuidado, alisando a bunda preguiçosamente em meio ao beijo. Kyle enroscou as pernas em torno de seu tronco e levou as mãos desejosas pelo seu tronco nu, tocando seus braços, costas e peito, cada centímetro de pele que pudesse alcançar.
—Me come. — Kyle murmurou com uma voz quase manhosa, um pedido e uma ordem misturados.
Kenny parou um instante para encará-lo com olhos sérios, a boca ainda colada à dele, retomando preguiçosamente o beijo ao mesmo tempo em que os cantos dos lábios formavam um sorriso, assentindo sutilmente com a cabeça.
—Sim, senhor,. Espera… — Kenny sussurrou em meio ao beijo, prendendo o lábio inferior de Kyle entre seus dentes e puxando sem muita força, sorrindo fraco. O ruivo o soltou de suas pernas para permitir que se levantasse da cama. — Eu já volto.
—Onde você…? — Kyle começou a perguntar, mas só recebeu um sinal com o dedo indicador para que não se movesse, enquanto o loiro praticamente corria para fora do quarto.
Kyle respirou fundo e deitou a cabeça para trás, passando alguns segundos encarando o teto branco, retomando o fôlego. Então, ergueu o tronco para se livrar da própria camiseta, escutando o som de uma portinha de armário batendo, ou uma gaveta fechando, algo do gênero. Quando Kenny voltou ao quarto, segurava o tubo de lubrificante na mesma mão em que segurava o pacote de camisinha com o polegar, um sorriso largo no rosto ao encontrar Kyle completamente despido. Não usava mais sapatos também.
—Onde é que você guarda essas coisas? — O ruivo perguntou com o cenho franzido, apoiando as mãos para trás, agora sentado na cama. Kenny se aproximava com uma cara de quem não estava escutando nada do que ele dizia, os olhos focados nos lábios do ruivo, sugando ar entre os dentes enquanto apoiava as duas mãos na cama e colocava os joelhos no colchão, engatinhando para cima dele, fazendo com que Kyle se inclinasse para trás, sustentando o tronco com o apoio das mãos, rindo.
—Por quê? — Kenny perguntou, deixando um beijo molhado no canto da boca dele, deixando a ponta da língua percorrer o lábio inferior. — Você quer ver se eu tenho um vibrador na minha gaveta de recursos?
—”Recursos”, é? — Kyle repetiu, ainda observando o outro de perto, não cedendo totalmente à vontade do loiro de beijar, mas mantendo um sorriso curioso. — Eu não preciso olhar pra ter certeza de que você tem.
—Hmmm. — Kenny murmurou distraído, avançando mais um pouco, obrigando Kyle a se deitar novamente, ajeitando-se de forma confortável sobre seu corpo, acariciando os cachos com a mão livre. Falava praticamente contra os lábios dele. — Quer que eu busque pra gente brincar?
—Deus me livre. Vai saber onde essa coisa andou.
Foi impossível manter o tom manso e baixo que estavam usando para falar assim tão perto do rosto um do outro. O loiro virou a cabeça e soltou uma gargalhada alta, que logo se transformou em um riso fraco, que por sua vez, se transformou em um sorriso largo e satisfeito enquanto Kenny relava sutilmente a ponta do nariz no do ruivo, retomando a carícia nos seus cabelos.
—Porra, que saudade de você. — O sussurro deixou seus lábios sem passar por qualquer filtro de pensamento, talvez a coisa mais espontânea e crua que já dissera em toda a sua vida. A resposta de Kyle foi um beijo lento, abraçando o tronco do outro, deixando que suas unhas curtas arranhassem a pele suada das costas.
Até que Kenny se ergueu, de joelhos na cama, as mãos descendo pelas laterais do corpo nu de Kyle até chegar nos quadris, erguendo-o quase que bruscamente, retomando a posição de onde haviam parada. A camisinha e o lubrificante estavam esperando sobre o colchão, momentaneamente esquecidos. Kenny deixou um beijo demorado na coxa de Kyle, com os lábios abertos, chupando de leve antes de voltar sua atenção ao espaço entre as nádegas, deslizando a língua flexível ao redor da entrada, sentindo como o cu se contraía ao toque delicado, sorrindo antes de envolver a região externa em seus lábios, sugando com certa intensidade, pressionando a língua sem força. Enquanto isso, Kyle deixava escapar uma sequência longa de gemidos baixinhos, tentando mover o quadril da forma mais sutil para se deliciar mais daquela língua e os lábios tão úmidos que acompanhavam, deixando-o ainda mais sensível na região. As mãos de Kenny o seguravam com firmeza, os braços dando suporte ao quadril enquanto os dedos afundavam na carne das nádegas.
—Você é tão gostoso. — Kyle murmurou, separando mais as coxas, levando as próprias mãos à bunda para abrir mais as nádegas, dobrando as pernas para tentar encontrar algum equilíbrio, mas sabia que a posição não duraria por muito tempo. Kenny sorriu fraco pelas palavras, concentrando em apenas provocá-lo com a pontinha da língua, uma linha muito tênue entre prazer e tortura a esse ponto.
Não durou muito tempo. Kenny já massageava a própria ereção por cima da calça, abrindo o botão e o zíper logo em seguida para passar a mão por dentro da cueca e puxar o pau rígido para fora com alguma dificuldade, concentrando a maior parte da atenção no movimento da língua, a outra mão firmemente espalmada na nádega de Kyle. Começou a se masturbar sem pressa, soltando um gemido abafado sob a respiração pesada, dando uma última cuspida na entrada antes de erguer a cabeça e abaixar completamente a calça junto com a cueca, usando as pernas para se livrar do tecido. Tentou alcançar o tubo de lubrificante, mas Kyle o pegou primeiro, abrindo-o com o polegar e espalhando uma boa quantidade do líquido viscoso em dois dedos. Kenny apenas assistiu enquanto ele se penetrava com os dedos sem pressa, espalhando por dentro, franzindo o nariz de tesão. Kyle tinha os olhos no rosto do loiro o tempo inteiro, e quando Kenny percebeu, soltou um riso baixo e esticou o braço para alcançar o pacote de camisinha, rasgando-o com a ponta dos dentes, ainda se masturbando. Usou a mesma mão para desenrolar o látex por toda a extensão do membro, segurando o joelho de Kyle com a outra, empurrando-o delicadamente para trás.
—Tá pronto? — Perguntou em uma voz rouca, acariciando a perna do ruivo.
—Acho que sim. — Kyle disse com dificuldade, retirando os dedos, erguendo um pouco a cabeça para enxergar melhor, percorrendo o olhar pelo peito largo, o abdômen que não era particularmente definido, mas duro o suficiente para que Kyle sentisse vontade de passar a língua por ele. E por fim, um sorriso cresceu em seus lábios ao enxergar o pau, provavelmente a única parte do corpo de Kenny que ele ainda não conhecia. Era longo, a glande grossa e de uma tonalidade rosada que descia pelo corpo, mas não podia ver todos os detalhes que gostaria por conta da camisinha. Mesmo assim, era lindo, Kyle pensou. Umedeceu os lábios enquanto Kenny aproximava o quadril e roçava a cabecinha em sua entrada, inclinando-se para beijá-lo de forma desajeitada, mas lenta e molhada, segurando a base do pão com uma mão e segurando a coxa de Kyle com a outra.
Kenny prendeu a respiração e empurrou o quadril devagarzinho, com força o suficiente apenas para que a glande penetrasse o anel muscular que se apertou imediatamente, fazendo com que Kenny apoiasse as duas mãos no colchão, erguendo o tronco sobre o corpo de Kyle, sorrindo para ele por um instante, mas o ruivo não conseguiu sorrir de volta. Apenas o encarou com olhos grandes, reluzindo de tesão e desconforto, os lábios abertos tentando sugar mais ar e liberando um gemido fino. Kenny manteve uma das mãos sustentando seu próprio peso no colchão e levou a outra pela lateral do rosto de Kyle, acariciando a bochecha com seu polegar enquanto a palma a envolvia, abaixando um pouco o rosto para que os narizes se tocassem de leve. Kenny o beijou devagar, sentindo os grunhidos baixos que soltava contra seus lábios.
As mãos do ruivo subiram pelas costas de Kenny, deslizando por toda a extensão da pele úmida por uma camada fina de suor, acariciando os sinais que moravam em sua pele, cravando as pontas dos dedos na carne e apertando os olhos, arfando por ar. Kenny não se movia dentro dele, esperando que se acostumasse à sensação, sentindo tesão e desconforto ao mesmo tempo pelo qual forte era a pressão dos músculos internos de Kyle em uma região tão sensível. O loiro respirou fundo, deitando o tronco sobre o dele para cobri-lo, passando um braço sobre a cabeça de Kyle para agarrar seus cabelos e descendo a outra mão pela coxa, distribuindo beijos curtos e lentos pelo seu maxilar. O quadril implorava para se mover, para entrar mais fundo, mas ele se continha.
Kyle enroscou uma das pernas na parte inferior das costas de Kenny, sem jeito, percorrendo uma das mãos pelo braço do outro para apertar os músculos com força em sua palma, virando o rosto para que os lábios roçassem contra os de Kenny, entreabertos, encarando-o de perto, sentindo sua respiração se mesclando a dele.
—Tudo bem aí? — Kenny perguntou baixinho, beijando-o mal encaixado sem usar a língua. Piscou devagar algumas vezes, alternando o olhar dos lábios rosados de Kyle aos seus olhos verdes. O ruivo assentiu com a cabeça, respondendo primeiro apenas com um gemido longo, respirando fundo.
—Vai mais um pouquinho. — Murmurou, voltando a virar o rosto para cima, dobrando a perna que não estava enroscada no tronco de Kenny para segurar a própria coxa com a mão, abrindo-se mais um pouco. A pressão que o peso do corpo de Kenny fazia sobre a sua ereção aliviava um pouco o desconforto.
Kenny engoliu um pouco de saliva e obedeceu prontamente, deslizando o pau com um pouco mais de facilidade, iniciando um movimento curto e lento de ir e voltar apenas alguns centímetros, sem penetrá-lo por completo.
—Relaxa um pouco. — Sussurrou, apoiando-se no cotovelo novamente para erguer a cabeça, mas manteve o peito colado no de Kyle, um prazer sutil tomando conta ao sentir a sua pele suada escorregando pela dele. Kyle respirou fundo e liberou a tensão dos músculos, esforçando-se para não contraí-los, deitando a cabeça para trás e abrindo a boca ao sentir aquele pau tão rígido deslizando em movimentos curtos por dentro de seu corpo, abrindo as paredes internas, acostumando-se à sensação. — Isso… Assim mesmo. — Kenny disse em uma voz rouca e excitada, o alívio tomando conta de toda a região em torno do membro enquanto o quadril pressionava um pouquinho mais fundo, mantendo o mesmo ritmo. Apertou a coxa de Kyle com vontade e beijou seus lábios de forma barulhenta, sussurrando contra eles. — Bom menino… É mais gostoso assim, não é?
—Caralho, é muito grande. — Kyle murmurou, revirando os olhos imediatamente pela expressão satisfeita no rosto do outro. — Não foi um elogio. — Disse sem fôlego, tentando esconder o sorriso, a expressão mista entre um certo desconforto (já não mais dor) e prazer.
—Meio que foi. — Kenny respondeu antes de encaixar os lábios para mais um beijo demorado, sentindo permissão no corpo de Kyle para penetrar mais fundo a cada investida, aumentando o ritmo o suficiente para encontrar um passo constante, soltando um gemido aliviado ao forçar o pau por inteiro dentro do corpo, extasiado pelo grito fraco e delicioso que deixou os lábios de Kyle. Kenny passou os braços por baixo do ruivo para envolvê-lo, pressionando-se por inteiro contra ele, enterrando o rosto na curva do pescoço de Kyle enquanto o quadril acelerava a velocidade, o calor crescendo de dentro para fora.
Kyle escorregava as mãos pela pele suada das costas de Kenny e subia devagar, usando uma delas para acariciar os cabelos loiros e apertar sua nuca, tentando respirar, deliciado pela sensação do peso daquele homem o cobrindo. Enroscou das duas pernas em torno do quadril de Kenny, apenas sentindo-o entrar e sair de forma mais constante, esperando algum tempo antes de começar a mexer o próprio quadril para intensificar a sensação. A boca do loiro percorria a pele sensível do seu pescoço e o devorava sem pressa, provocando um arrepio gostoso que parecia atingir cada milímetro do seu corpo, somando-se a todos os estímulos de estar tão colado ao outro que Kyle não sabia dizer onde começava um e terminava o outro. Já havia tido boas trepadas na vida, algumas até indescritivelmente boas, mas nunca havia sentido coisa parecida com o que preenchia seu corpo no momento.
Passaram um bom tempo assim, os rostos próximos, os olhos fixos um no outro, os braços entrelaçados no tronco do outro e as mãos acariciando tudo que pudessem alcançar enquanto o quadril de Kenny forçava-se por inteiro para frente, enterrado o mais fundo possível, recuando e repetindo o movimento de maneira lenta e ininterrupta, aquele ponto que os conectava mandando impulsos pelo corpo inteiro, queimando por dentro do abdômen, estremecendo as pernas, pesando o peito, tornando difícil respirar.
—Mais forte, Kenny. — Kyle disse em meio a um gemido, levantando a cabeça poucos centímetros do colchão e virando-a sutilmente de lado enquanto encarava a boca do outro, franzindo o nariz de satisfação pelo pedido sendo atendido de imediato, como se o loiro já estivesse aguardando a permissão para impulsionar o quadril em uma velocidade desmedida, guiado apenas pelo instinto, voltando a apoiar as mãos no colchão para erguer o tronco e ganhar mais apoio. Kyle soltou as pernas do tronco dele e as segurou com cada mão envolta em um dos tornozelos, gemendo alto pela fricção, balançando a cabeça e fechando os olhos, rindo fraco. Kenny estava concentrado demais para acompanhar, os olhos percorrendo o peito molhado de suor de Kyle, o abdômen que se contraía, o pau do ruivo pressionado entre os dois.
Bruscamente, Kenny endireitou o tronco e se ajeitou de joelhos no colchão sem sair de dentro de Kyle, passando a língua pelo lábio superior, agora ignorando os fios loiros que colavam-se à testa suada. Segurou as pernas de Kyle para que ele as esticasse, apoiando os pés nos ombros do loiro, os dois trocando um sorriso fraco. Kyle levou as mãos ao lençol novamente e levantou a cabeça para enxergar o movimento do corpo de Kenny com um olhar extasiado, sugando o ar subitamente quando o ritmo da penetração se tornou mais violento, arqueando as costas e tombando a cabeça para trás com um grito fraco, assentindo.
—Tá gostoso? — Kenny perguntou com uma voz enrouquecida, deslizando uma das mãos pela canela de Kyle, alisando a camada fina de pelos da região, erguendo um pouco o queixo. — Fala pra mim.
—Muito… — Kyle levou uma das mãos à própria nádega, separando-as um pouco mais, sentindo as pálpebras pesarem pela força das investidas, revirando os olhos. Esticou o outro braço sobre a cabeça e apenas permaneceu assim, entregue, os sons altos escapando completamente fora de seu controle.
Mas as estocadas fortes foram gradativamente diminuindo de novo; Kenny usava a nova posição para encontrar outros ângulos dentro dele, movimentando-se lentamente, apenas mudando a angulação em poucos centímetros antes de penetrá-lo com muito mais facilidade do que antes, apertando o tornozelo de Kyle e apertando os olhos pelo tesão das paredes internas que o acomodavam, tão apertadas, tão quentes. Quando encontrou o ponto certo – e descobriu isso pela forma com que Kyle se contorceu e virou a cabeça para pressionar a bochecha contra o colchão, as costas ainda bem arqueadas – gastou um bom tempo brincando com todas as possibilidades que encontrou de esfregar o ponto da próstata com sua glande, escorregando a mão pela coxa do ruivo com vontade, puxando-o um pouco mais perto.
—É assim que você gosta? — Perguntou com um sorriso malicioso, mas Kyle não parecia mais em condições de falar enquanto agarrava o próprio pau com uma mão trêmula e começava a se masturbar sem tanta força, focado na sensação dentro do seu corpo, na ardência do pau que pulsava dentro dele. Kenny virou o rosto e mordeu o pé de Kyle de brincadeira, passando a língua pelos dedos e chupando a lateral do pé de forma distraída, arrancando um riso fraco e um gemido de prazer do ruivo, porque mesmo um estímulo que jamais pareceria sexual antes para Kyle, naquele momento, era tão intenso que ele poderia gozar somente com aquela língua percorrendo as mais diversas partes do seu corpo.
Sentindo um limite se aproximar, Kenny retomou o ritmo acelerado, endireitando o rosto e inclinando-se um pouco para frente, forçando Kyle a dobrar as pernas novamente. Esse era todo o apoio necessário para gastar toda a força que havia no quadril já cansado, emitindo sons úmidos a cada investida, junto ao som do impacto do seu quadril batendo contra as nádegas de Kyle, o saco pressionado com firmeza entre elas, um sorriso de satisfação iluminando seu rosto. Kyle não olhava para ele; tinha os olhos fechados, voltados para o teto, a mão acelerando o movimento em torno do pau rígido que estava no limite. A pressão que Kenny fazia por dentro foi a gota d’água para que Kyle contraísse os músculos e se contorcesse embaixo dele, o líquido quente escorrendo pela sua mão que não interrompeu o movimento até extrair tudo que havia, um orgasmo muito mais longo do que estava acostumado. Demorou quase dois segundos para que Kyle soltasse algum som, primeiro um grunhido fraco, quase sem voz, seguido de gemidos longos e altos que morreram com um suspiro. Ele deixou os dois braços caírem sobre a superfície macia do colchão e sorriu, soltando as pernas dos ombros de Kenny, enroscando-as em seu tronco enquanto o loiro se inclinava para deitar sobre ele novamente.
Cada investida pressionava o corpo fraco de Kyle contra o colchão; eles se moviam juntos pela força com que Kenny o abraçava, com o rosto deitado no ombro do ruivo, os lábios entreabertos saboreando a pele enquanto ele gemia baixo e liberava o próprio gozo, o pau enterrado ao limite naquele corpo, mas o quadril continuava se movendo em um ritmo cada vez mais lento, até cessar completamente e todo o peso de Kenny cair sobre ele, a cabeça pesada, o peito subindo e descendo contra o de Kyle.
Nada aconteceu durante sabe-se lá quanto tempo. E no que dependesse de Kyle, ele pensou preguiçosamente, poderiam morrer naquela posição e não haveria uma reclamação sequer. O pau de Kenny ainda dentro dele, gozo e suor melando a pele de ambos, o calor se dissipando aos poucos.
Inesperadamente, quando Kyle pensou que Kenny tivesse adormecido, o loiro começou a mexer o rosto para roçar o nariz pela bochecha de Kyle e beijar sua face, beijos lentos e preguiçosos que paravam de vez em quando, mas os lábios entreabertos continuavam pressionados levemente contra sua pele. Kyle virou o rosto para enxergá-lo, o sorriso crescendo aos poucos.
—Oi. — Kenny murmurou com uma voz fraca, fazendo o outro rir.
—Oi. — Kyle respondeu, trazendo a mão aos cabelos loiros e suados dele, colocando alguns fios atrás da orelha enquanto observava aquele rosto.
Kenny passou mais algum tempo sem quebrar o contato visual, mas logo respirou fundo como se levantar fosse uma tortura, recuando delicadamente com o quadril para retirar o pau de dentro dele, erguendo o corpo pesado apenas para se livrar da camisinha e apagar a luz. Enquanto isso, Kyle se ajeitava com a cabeça voltava para os travesseiros, espreguiçando-se, sentindo a ardência entre as nádegas. Assim que Kenny voltou para a cama, engatinhou para cima de Kyle e se aninhou sobre o peito dele, puxando o cobertor sem muita vontade. Gastou algum tempo beijando aqueles lábios praticamente sem contato entre as línguas, apenas movimentos lentos dos lábios. E adormeceram.
Ainda não havia amanhecido quando Kyle começou a abrir os olhos. Era um daqueles momentos da noite em que não se sabe ao certo se está acordado ou dormindo, ele tinha muitos desses quando dormia em qualquer lugar que não fosse sua cama. Remexeu-se um pouco, sorrindo fraco por um som agradável que preenchia-lhe os ouvidos, mas achava que esse som fazia parte de um sonho gostoso. Tateou um pouco na cama para procurar um segundo corpo que deveria estar ali, mas não encontrou nada além dos travesseiros. Foi isso que fez Kyle abrir os olhos para começo de conversa. Primeiro ergueu apenas a cabeça, piscando os olhos inchados de sono algumas vezes. A cama era tão confortável quanto parecia, a textura do lençol contra sua pele nua era agradável.
O som se tornou um pouco mais forte quando os ouvidos de Kyle começaram a identificá-lo como real. O som de um violão. O ruivo rolou de barriga para cima e olhou em volta do quarto, encontrando o breu completo por quase toda parte, exceto pela poltrona que era iluminada diretamente pela luz que entrava pela janela. Era ali que Kenny estava, dedilhando o violão no colo, olhando para ele.
I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I'll make you so sure about it
God only knows what I'd be without you
A reação inicial de Kyle foi soltar um riso fraco e soltar a cabeça preguiçosamente sobre o travesseiro, deixando que os olhos cansados se fechassem mais um pouco, mas mantendo os ouvidos muito abertos. Pôde ouvir uma risada fraca vinda do outro lado do quarto, o violão desafinando por um instante, mas a voz rouca e gostosa de Kenny se mantinha estável, preenchendo o quarto com um som que parecia tão doce, talvez um pouco melancólico.
If you should ever leave me
Though life would still go on, believe me
The world could show nothing to me
So what good would livin' do me
God only knows what I'd be without you
Quando Kyle ergueu a cabeça novamente, apoiando-a na palma da mão com um cotovelo sustentando o peso sobre o colchão, virando-se um pouco de lado, não conseguiu evitar o sorriso que insistia em aparecer. Pelo que se lembrava, há muito tempo não sorria tanto assim em tão pouco tempo. Observava o outro com atenção, seus olhos se acostumando à escuridão e tornando todas as imagens mais nítidas. Kenny continuava nu, os cabelos jogados para trás, um pé batendo no chão no ritmo da música. Ele já não olhava mais diretamente para o ruivo, deixando que as íris azuis vagassem pela paisagem da janela, o céu fechado que derramava uma chuva fina.
If you should ever leave me
Though life would still go on, believe me
The world could show nothing to me
So what good would livin' do me
God only knows what I'd be without you
Ele repetia o refrão de olhos fechados, balançando um pouco a cabeça, os dedos talentosos fazendo sua mágica nas cordas do violão. Sua voz, como sempre, soava brutalmente honesta e crua, porque Kenny tinha esse hábito de cantar somente aquilo que era real para ele. E isso fez Kyle sorrir mais um pouco; podia sentir a admiração transbordando em sua própria face. Ergueu um pouco o queixo enquanto o assistia, bocejando pelo sono que ainda dominava a maior parte do seu corpo. Quando Kenny parou de cantar, gastou mais alguns segundos dedilhando as cordas, encerrando de uma maneira sutil. Só então, voltou a olhar para o ruivo em sua cama e ofereceu um sorriso fraco.
—Como se chama esse violão? — Perguntou com a voz rouca de sono.
Kenny pressionou a língua por dentro da bochecha, claramente pensando em algum.
—George Michael.
Kyle soltou uma gargalhada alta.
—Acho que eu nunca ganhei uma serenata antes. — Comentou, abraçando o travesseiro para deitar a cabeça novamente, rindo fraco. Fez um sinal com a mão. — Vem aqui.
O loiro não se moveu de imediato, ainda encarando a janela. Mas acabou por se levantar, descansando o violão na poltrona com cuidado, arrastando os pés de volta para a cama. Sentou-se na beirada e esticou a mão para acariciar a orelha do ruivo. Apesar da escuridão, Kyle enxergava uma seriedade incomum no rosto dele que causou um aperto imediato em seu peito.
—Desculpa por te acordar. — Kenny murmurou.
—Não conseguiu dormir?
Ele encolheu os ombros.
—Acho que eu tô agitado, só.
Kyle percorreu os olhos pelos ombros dele, não encontrando qualquer tensão nos músculos, mas mesmo assim, massageou um deles sem força.
—Deita aqui comigo. — Disse baixinho, dando espaço na cama para que Kenny se deitasse.
E ele o fez. Passaram alguns instantes de frente um pro outro, Kyle ainda com os olhos pesados, mas lutando para não adormecer novamente. Havia uma pequena angústia se formando em seu coração, receio por não saber o que viria em seguida, mas alguma coisa naqueles olhos azuis sempre o confortava. Aproximou um pouco mais o rosto. Kenny colocou alguns fios cacheados atrás da orelha de Kyle e acariciou seu lóbulo sem muita força, uma ruga preocupada ainda presente entre as sobrancelhas.
—O que foi? — O ruivo perguntou, hesitante.
Kenny umedeceu os lábios e apenas o encarou de volta durante sólidos dez segundos, como se nem sequer soubesse a resposta para isso.
—Eu não quero estragar isso aqui. — Ele finalmente disse, encolhendo os ombros mais uma vez, mas agora deixando que um sorriso fraco aparecesse.
Kyle aproximou o corpo o bastante para que suas pernas enroscassem pelas dele, ajeitando o rosto contra o peito de Kenny, abraçando-o para mantê-lo exatamente onde estava. A mão do loiro foi de sua orelha para as suas costas, subindo e descendo sem pressa como se acariciasse um felino.
—Você ainda vê o Craig? — Kyle perguntou finalmente aquilo que estava engasgado na garganta desde que se viram pela primeira vez naquela noite, incerto do quanto realmente queria saber a resposta. Kenny franziu o cenho, abaixando o rosto para enxergá-lo.
—O quê?
—O Craig. Você ainda…?
—Não. — Kenny respondeu rindo diante da realização de que, na cabeça de Kyle, seu silêncio teria alguma coisa a ver com isso. E voltou a descansar o queixo no topo da cabeça do ruivo, balançando a própria cabeça algumas vezes. — Nossa, não. Acho que ele e o Tweek nem tão mais juntos, ou… Sei lá, aquilo foi a coisa mais próxima de um relacionamento que eu tive, pra você ter ideia. — A mão delicada subiu pela parte de trás da cabeça de Kyle para acariciá-lo. — Eu só não quero te perder de vista nunca mais.
Com um suspiro aliviado, Kyle se permitiu fechar os olhos, apertando-o com um pouco mais de força entre os braços, inalando o cheiro daquela pele.
—Você nunca mais vai se livrar de mim. — Sussurrou sonolento em resposta.
Kenny riu. De alguma forma, sabia que era verdade.
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