Unwell
11 Eletrodomésticos, azulejos e cheiro de limpeza
Token girou a chave dentro da fechadura, ouvindo o clique do mecanismo por dentro da porta quando ela foi destrancada. Ele segurava uma caixa grande em torno do braço direito, contendo um mixer com triturador elétrico que Kyle pediu emprestado porque queria fazer uma pasta de gengibre ou um creme de couve-flor ou qualquer outra receita nova que Kyle, ou encontrou na internet, ou viu em algum dos seus reality shows de culinária que ele gravava para ver de madrugada e achava que Token não sabia.
Antes de começarem a namorar, Token acreditava piamente que presentear alguém com um eletrodoméstico era um gesto profundamente ofensivo, mas isso havia mudado depois do seu segundo natal ao lado de Kyle, quando Token pediu ajuda a Stan para descobrir o que ele realmente queria ganhar. “Ele fica tarando uma máquina de sucos na internet há meses”, foi a resposta. Token franziu a testa e considerou apenas comprar aquele tipo de jeans que deixava a bunda de Kyle tão linda que era quase um pecado, mas no fim das contas, decidiu dar ouvidos ao melhor amigo e comprou a porcaria da máquina de sucos, muito a contragosto. E Kyle podia negar até a morte o quanto quisesse, mas quando abriu aquela caixa de presente, quase chorou de emoção. Token viu. Ele era muito passional com relação aos seus eletrodomésticos culinários.
Portanto, quando Token recebeu a mensagem de Kyle naquela manhã pedindo pelo mixer, sua resposta não foi explicar que teria um dia lotado de consultas, que já estava difícil arrumar uma brecha para ir ao banco em seu horário de almoço e que, além de tudo, tinha planejado levar o carro na oficina para verificar o barulho esquisito que o morto estava fazendo. Em vez disso, Token apenas enviou uma mensagem de volta: “Claro, amor, hoje à tarde eu deixo lá.”
Ele empurrou a porta com o ombro, trocando a caixa pesada de um braço para o outro, aliviando a dormência. Kyle estava na galeria durante aquele horário, Token sabia.
—Ei, Kenny. — Chamou, fechando a porta atrás de si com o pé, caminhando para a cozinha. As cortinas da sala estavam abertas, deixando que os fortes raios de sol invadissem o ambiente. Havia uma irritação muito sutil em sua voz, expressão facial e corpo.
Irritação esta que era justificável; Kyle havia lhe dito, durante a troca de mensagens, que Kenny estaria em casa o dia inteiro e poderia descer para pegar o trambolho. Assim, Token nem precisaria sair do carro. Mas ao estacionar em frente ao edifício, telefonou duas vezes para o apartamento e ninguém atendeu. O propósito era economizar tempo e isso não aconteceria se Token ficasse no carro telefonando quinze vezes, então, ele resolveu subir. Algum daqueles dois idiotas devia ter esquecido do combinado.
O que aconteceu, na verdade, é que Kyle já estava no trabalho quando enviou a mensagem ao Token pedindo pelo mixer; telefonou algumas vezes para seu próprio apartamento, com o objetivo de avisar Kenny, mas ele não atendeu. Kyle presumiu que ele ainda estivesse dormindo, tomou a nota mental de ligar mais tarde, mas ficou distraído demais fazendo negociações com o agente arrogante de um artista italiano ainda mais arrogante que cheirava a salame. Kyle não estava tendo um bom dia.
De qualquer forma, Token deixou a caixa no balcão da cozinha e arregaçou as mangas da camisa branca de botões e o suéter que usava por cima, sentindo calor dentro da casa. Fazia um frio desgraçado lá fora, mas ele não quis vestir o casaco grosso para andar do carro até o edifício por cinco segundos.
—Kenny? — Chamou novamente, estranhando aquele silêncio. Ele sempre havia imaginado que Kenny ligava o som em um volume desagradavelmente alto em horário comercial e fumava maconha no meio da sala, pelado, quando estava sozinho em casa. Talvez ele nem estivesse ali. — Kenny. — Sua voz agora saía mais firme enquanto verificava a sacada através do vidro, para encontrá-la vazia.
Em circunstâncias normais, Token teria encolhido os ombros, presumido que ele não estava em casa e teria ido embora para retomar o seu dia ocupado, porque nada costuma ser mais importante do que as preocupações cotidianas. O que Kenny McCormick fazia não era da sua conta. Ele não era seu filho, não era nem mesmo seu amigo, era um homem adulto que poderia muito bem estar comprando cigarros na loja de conveniência mais próxima e já voltava. Não havia porque se preocupar. Àquela altura, ele já não via mais Kenny como uma bomba-relógio prestes a estourar a qualquer segundo.
Mas por algum motivo, Token não conseguiu deixar o apartamento. Porque havia uma atmosfera estranha, algo parecia fora de lugar. Ele não sabia dizer o quê, exatamente. Poderia ser apenas falta de sono. De qualquer forma, dados os acontecimentos mais recentes, ele achou que não machucaria ninguém se certificar antes de ir embora. Então, em vez de seguir para a porta, Token caminhou até o corredor. As portas dos quartos estavam abertas e os cômodos vazios, mas a do banheiro estava fechada. Ele estreitou os olhos, passando pelo seu próprio reflexo no espelho sem moldura pendurado na parede do corredor ao se aproximar da porta, considerando que talvez o homem não quisesse ser incomodado. Os pés de Token estavam inquietos, divididos entre ir embora e ficar, porque Token vinha de uma família onde não se chamava uma pessoa trancada em um banheiro; era considerado, no mínimo, “indelicado”. Foi segundo essa lógica que o pai de Token infartou na privada e sua mãe levou mais de quarenta minutos para perguntar se ele estava bem lá dentro e quase uma hora para pedir ao jardineiro que arrombasse a porta. Felizmente, ele deve ter passado uma boa parte daqueles quarenta minutos de fato fazendo o que tinha que fazer na privada, porque conseguiram levá-lo ao hospital em tempo. Ele se recuperou totalmente, tendo como consequência do ocorrido apenas largar o cigarro e criar o hábito de cagar sem trancar a porta.
Token não pensava que Kenny estaria infartando com a calça arriada no chão do banheiro, mas não custava nada ter certeza. Kyle sempre deixava fechada a porta do banheiro do corredor, então talvez Kenny nem estivesse lá dentro.
—Kenny. — Chamou uma última vez, batendo na porta. — Tudo bem? — Esperou. Não houve resposta. Token começou a se sentir idiota diante da certeza de que estava falando sozinho, mas mesmo assim anunciou. — Cara, eu vou entrar.
Segurou a maçaneta com hesitação e girou. Para sua surpresa, ela abriu com facilidade. Enquanto empurrava a porta de madeira escura, Token teve certeza absoluta de que encontraria o banheiro impecavelmente limpo e organizado, sem ninguém dentro. Conhecia muito bem aquele espaço, os azulejos num tom verde-água tão claro que quase parecia branco com a luz do sol invadindo pela janelinha estreita em cima do vaso de porcelana; um pequeno vasinho de vidro sobre o mármore do balcão da pia, contendo duas rosas amarelas, porque Kyle tinha esses pequenos detalhes por toda casa para deixar qualquer ambiente mais aconchegante.
Mas Token não viu as flores. Não viu o quadro de moldura rica em torno de uma pintura de um elefante de circo sorrindo, equilibrando uma bola colorida na ponta da tromba. O quadro estava ali pendurado, sempre esteve, mas Token não o enxergou ao pisar no banheiro. Porque abaixo do quadro, se os olhos seguissem descendo pela parede até o chão, só existia vermelho.
Token era um cirurgião cardiovascular. Ele não tenha problema algum com sangue, nunca teve, nem mesmo quando era menino. Agia muito bem sob pressão, como era exigido de todos os médicos em algum nível, tinha um preparo psicológico e emocional para todo tipo de situação aterrorizante. Era sempre o tipo de pessoa que sabia o que fazer nas condições mais inimagináveis, aquele que mantinha a calma mesmo quando estava apavorado, porque seus anos de experiência desde que se tornou interno em seu primeiro hospital lhe ensinaram que muitas vidas se perderem por conta do desespero. Quando se segura a vida de alguém nas mãos, você não pode se dar ao luxo de sentir medo.
Mas isso era diferente. Porque Token já havia operado corações de bebês, menores do que corações de galinhas, já havia colocado as mãos dentro da cavidade torácica de inúmeros seres humanos, muitos destes que haviam passado por acidentes horríveis, corpos que não se pareciam mais com corpos, órgãos que não se pareciam mais com órgãos, mas nenhuma dessas experiências poderiam tê-lo preparado para encontrar Kenny McCormick no chão daquele banheiro, completamente ensanguentado, a pele quase cinza, o vermelho tomando conta. Porque Kenny era alguém em sua vida. Ele não era alguém que Token amava, mas era alguém com quem havia jogado basquete por toda a sua infância e pré-adolescência, alguém para quem ele passou inúmeras respostas de provas de matemática. Alguém que nunca nega um cigarro; quando Token era um adolescente rebelde tentando tirar do sério seus pais exigentes, ele procurava pro Kenny no terreno dos fundos da escola, onde geralmente ele podia ser encontrado fumando com Craig, ou Clyde, ou Stan, ou Bebe, ou todos ao mesmo tempo. As companhias variavam, porque Kenny era alguém amado. Era alguém que fazia parte da história de Token. Mais do que tudo, Kenny era alguém que Kyle amava. E Kyle era alguém que Token amava.
—Não, não, não não. — Ele murmurava em um mantra, as mãos trêmulas esticadas em frente ao corpo, procurando por algo que ele não sabia o quê, tropeçando nas pernas estiradas de Kenny; seu corpo jogado no chão tomava quase o banheiro todo.
Naquele momento, Token teve certeza de que ele estava morto. Seu cérebro trabalhava a mil para entender o que havia acontecido ali; o sangue vivo ainda escorria dos braços brancos dele, tão brancos, pareciam a coisa mais branca do mundo. Como se já não houvesse mais sangue dentro daquelas veias. O contraste com o vermelho era abominante. Vermelho era tudo que existia, tomando conta dos azulejos acinzentados, manchando a camiseta azul de Kenny, seus cabelos dourados, seu rosto magro sem cor. Ele tinha a cabeça e a parte superior das costas apoiada na parede, mas tombando para o lado como se já não houvesse vida para sustentar o peso, sem tônus muscular, largado naquele chão frio. Exatamente como todos os cadáveres que Token já vira, um número maior do que ele gostaria que fosse. Ele não estava pronto para ver o cadáver de Kenny McCormick.
Token se ajoelhou depressa ao lado daquele corpo, um impacto que deixaria os ossos doloridos por alguns dias, mas ele não sentia nada no momento. Nada além de medo. Alcançou a lateral do pescoço de Kenny com os dedos, coisa que deveria ter feito com segundos de antecedência se conseguisse pensar. Mas, antes mesmo que seus dedos tocassem a pele gélida, ele percebeu as pálpebras do loiro estremecendo, reagindo à sua presença. Deus, ele estava vivo. Isso não fez seu coração desacelerar, mas aliviou a ardência em seus olhos produzindo lágrimas que Token sequer havia percebido. Token sugou o ar pelo nariz e pela boca, sentindo seu próprio coração martelar nas orelhas. Era diferente agora. Ele tinha uma responsabilidade.
—O que você fez?! — Perguntou em uma voz igualmente comprimida e descontrolada, erguendo-se para puxar violentamente uma toalha branca do gancho, envolvendo-a em torno do antebraço direito que sangrava mais profundamente, elevando-o, tentando duas vezes antes de conseguir amarrá-lo para estancar o sangue porque suas mãos tremiam demais, monitorando a respiração fraca dele ao mesmo tempo. Ele fazia uma pressão forte da carne contra o osso. Aquela pele estava tão gelada que ele não conseguia afastar a sensação de que tocava um homem morto.
Como se soubesse que ele precisava desesperadamente disso, Kenny tentou abrir os olhos, mas era como se as pálpebras pesassem toneladas. Um murmuro inaudível escapou dos seus lábios pálidos. Aquilo fez Token se lembrar do que era primordial: “ele está consciente, ele está muito mais aterrorizado do que eu; o meu medo não importa.”
—Kenny. — Token disse sob a respiração pesada, apertando os olhos para se concentrar, o que não durou mais de um segundo, antes de repousar a mão na testa de Kenny numa espécie de afago paternal. O loiro tinha os olhos semi-abertos agora, fazendo contato visual direto com ele, e suas íris eram do azul mais vibrante. Seus olhos estavam tão vivos. — Eu tô aqui. Você não tá sozinho. Eu vou cuidar de você. — Ele dizia, porque nada o acalmava mais do que tentar acalmar outra pessoa. Sua voz era trêmula e revelava muito mais do seu medo do que ele gostaria. Token passou o polegar pela entrada dos cabelos loiros, sem se dar conta de que seu suéter e suas mãos também estavam ensanguentadas àquela altura. — Fica comigo, ok?
Kenny piscou devagar algumas vezes. Parecia querer dizer alguma coisa, pela forma como balançava a cabeça e abria os lábios. Mas Token não tinha tempo para ajudá-lo a desperdiçar energia, não enquanto se reerguia para arrancar bruscamente o próprio suéter, passando para o outro lado do corpo de Kenny, suas costas batendo na cabine da bancada. Era o que ele tinha para estancar o braço esquerdo; seria melhor ter algo mais fino, mais apropriado, mas ele não tinha tempo para pensar sobre isso. Seu cérebro era treinado para fazer uma estimativa de quanto tempo ele tinha, mas era difícil sem ter certeza há quanto tempo Kenny estava ali. Não podia ser mais do que alguns minutos.
Token agora estava de cócoras, posicionando o braço bem próximo ao seu tronco, manchando de vermelho toda a sua camisa branca. Ele teve que puxar com os dentes para dar um nó, as mãos aplicando toda a pressão necessária, ao mesmo tempo em que monitorava o outro braço com os olhos. Estava de cócoras agora. Moveu os pés para se reposicionar naquele espaço estreito, pisando em alguma coisa que fez um barulho metálico contra o azulejo. Estreitando as sobrancelhas, ele abaixou o rosto para enxergar no que havia pisado. Era uma faca enorme de cozinha, a lâmina imunda de sangue humano. O coração de Token quase se esqueceu de bater. Uma expressão amargurada tomou conta do seu rosto.
Quando achou que o sangramento tivesse diminuído enquanto tirava o celular do bolso, xingando por precisar de três tentativas para desbloquear a tela. Havia sangue em seus dedos. O líquido viscoso deixava traços na tela brilhante do celular, dificultando que ele digitasse, mas eram apenas três números. Ele apoiou o celular com o ombro, voltando a observar o rosto de Kenny enquanto aguardava. Ele parecia quase… Quase sereno.
—Você não vai a lugar nenhum. Não enquanto eu estiver aqui. — Token disse com muito mais segurança na voz, embora Kenny parecesse inconsciente agora.
Pareceu levar uma eternidade, mas foram apenas três segundos até que a voz de uma mulher de quase quarenta anos surgiu do outro lado da linha, soando indiferente, como se ela estivesse lixando as unhas ao mesmo tempo.
—911, qual é a sua emergência?
—Eu preciso de uma ambulância.
As portas de vidro eram automáticas e recebiam os visitantes com um som de ar escapando, abrindo-se lentamente até que as faixas foscas que formavam o nome “Hell’s Pass” desaparecessem. Mas Kyle não esperou que elas se abrissem completamente para entrar correndo pela pequena brecha, seus sapatos produzindo um “tac-tac-tac” contra o chão de mármore da entrada. O cheiro característico de anestésicos mesclado a algum produto de limpeza invadiu suas narinas. Ele não percebeu a senhora asiáticas de 50 anos que passava um esfregão no chão que já parecia limpo o suficiente para comer direto dele, e não é surpresa, pois seus olhos escaneavam a amplitude da entrada do hotel à procura de uma pessoa específica. Kyle odiava hospitais, não exatamente pelo fato de que ninguém ia parar lá por motivos alegres – com exceção da ala de maternidade ou de plásticas, mas esses eram casos isolados – mas sim pelo fato de que era sempre dificílimo se localizar lá dentro.
Estava pronto para andar até o balcão da recepção onde Aurora, a enfermeira preferida de Token, latia ordens para uma garota que parecia jovem o bastante para ainda estar no colégio. Aurora avistou Kyle de longe e acenou com uma pasta azul que carregava em mãos, um olhar de compaixão em seus olhos. Kyle gostava muito dela, apesar de sua personalidade extravagante sempre lembrá-lo de sua mãe, pelos melhores e piores motivos. Era uma mulher negra, obesa e baixinha de cabelos curtos, sempre de batom vermelho e unhas pintadas de rosa, capaz de intimidar qualquer ser humano. Kyle não conseguiu sorrir de volta para ela. Quando fez menção de caminhar até o balcão para perguntar onde Token estava, ouviu a voz familiar chamando seu nome.
—Kyle! — Token quase gritou, mas de forma moderada, ciente de que não era o ambiente para se gritar. Ele caminhou na direção de Kyle, os tênis confortáveis pisando de forma macia no chão, os braços já abertos para recebê-lo.
Mas Kyle hesitou por um instante, cobrindo a boca com as duas mãos ao vê-lo naquele estado: Token havia lavado o rosto, as mãos e parte dos braços para não encontrá-lo coberto de sangue. Tinha até mesmo os cabelos um tanto úmidos, mas ainda vestia a camisa branca com as manchas imensas de vermelho escarlate, vibrante o suficiente para ficar muito claro de que aquilo era sangue fresco. Mesmo assim, Kyle não se afastou quando os braços quentes de Token o envolveram. Ele ainda tinha as mãos na boca, os braços presos em torno daquele abraço de conforto, o coração calmo de Token batendo contra o seu. Kyle levou as duas mãos ao peito dele, abaixando a cabeça para apoiar a testa no ombro largo dele, fechando os olhos por um instante, tudo desaparecendo ao redor dos dois.
Kyle não chegou a se envolver por esse momento, não enquanto ainda havia dúvida pesando em seu cérebro e seu coração. Ele estava inquieto, as mãos trêmulas, os olhos ardendo. Queria perguntar, minhas tinha medo da resposta. Apertou o tecido da camisa manchada de Token e sussurrou em uma voz espremida:
—Ele…?
—Ele está vivo. — Token assegurou, cobrindo a parte detrás da cabeça de Kyle com afeto, amassando seus cachos macios, fechando os próprios olhos em um suspiro de alívio.
Foi então que Kyle conseguiu chorar.
Não havia derramado uma lágrima desde que recebeu a ligação de Token. Ele odiava quando Token usava sua voz de médico com ele para dar notícias ruins. Foi assim quando seu gato morreu, quando seu irmão bateu o carro, quando sua cafeteira queimou. Kyle o conhecia bem o suficiente para saber o protocolo: a voz calma, controlada, mas honesta, que dizia nas entrelinhas “eu preciso que você fique calmo.” A conversa ao telefone havia sido algo em torno de:
—Kyle, algo aconteceu. Você pode vir ao hospital?
—O que foi? Você está bem?
—Estou. Só… Eu preciso que você venha.
—Token, o que aconteceu?
Ele fez uma pausa longa o suficiente para Kyle começar a ficar aflito, porque toda vez que Token pensava muito sobre o que dizer, a notícia era ruim. Ele tinha o terrível hábito de tentar proteger Kyle quando ele menos queria ser protegido.
—Algo aconteceu com o Kenny. Por favor, só chegue aqui o mais rápido possível. E dirija com cuidado.
—Eu não vou a lugar nenhum enquanto você me contar que merda tá acontecendo.
Claro que, quando disse isso, Kyle já estava pegando o casaco e andando em direção à porta. Mas isso só aconteceu porque ele sabia que Token sabia que ele não estava brincando. Foi então que, de forma mais sucinta e menos gráfica que pôde, Token explicou o que havia acabado de vivenciar. Não disse mais do que “ele tentou cometer suicídio”, “ele está vivo” e “venha logo”. Não explicou como, não falou sobre a quantidade absurda de sangue envolvido, nem entrou em detalhes sobre o caminho até o hospital, em que continuou fazendo pressão sobre os pulsos dele mesmo depois de os paramédicos pedirem para soltá-lo, a ponto de precisarem levar Token sobre Kenny na maca enquanto adentravam o hospital. Os paramédicos o conheciam bem o suficiente para não tentar impedi-lo. Token não sabia disso, mas estava em choque, sendo tratado também como um paciente de certa forma.
O médico que atendeu Kenny, por exigência primária de Token, foi Kevin Stoley. Ele havia estudado com eles durante a infância, embora Kevin e Token nunca tenham sido particularmente próximos na infância e adolescência, mas se tornaram amigos íntimos depois que começaram a trabalhar juntos. Kevin conseguiu tirar Token de perto de Kenny apenas ao colocar a mão em seu ombro e oferecer um olhar de suporte emocional e compreensão. Com isso, Token o deixou trabalhar, reconhecendo que seria irresponsável de sua parte tentar agir como médico naquele estado.
—Você disse... — Kyle murmurou contra o peito dele em uma voz fina, suas mãos ainda agarrando o tecido da camisa de Token que já começava a endurecer devido ao sangue. Ele deveria ter trocado de roupa, sempre havia uma camisa extra no seu armário. Mas o pensamento nem sequer havia cruzado sua mente até aquele instante. — Você disse que ele precisava de ajuda. Puta merda, eu devia ter… Eu não achei que ele fosse…
—Ei, ei. — Token interrompeu com uma voz gentil, sua mão pressionada na parte inferior das costas de Kyle enquanto a outra subia ao seu rosto para acariciar sua bochecha com as costas da mão, secando a pele das lágrimas salgadas. — Isso não é culpa sua. Nada disso é. Você não podia saber, ninguém podia.
Kyle tentou dizer mais alguma coisa, mas tudo o que saiu foi um gemido fraco de dor. Ele apertava os olhos, sentindo o rosto queimar e as pernas vacilarem, agarrando-se ao calor do corpo firme de Token que parecia uma fortaleza naquele momento. Era sua culpa. Ele sentia que era, sabia que era. Sabia que havia algo muito maior do que ele podia controlar acontecendo o tempo inteiro, desde que encontrou Kenny dormindo naquele carro. E tudo o que quis desde então, tudo o que sempre quis, foi deixá-lo bem. Era difícil se livrar da sensação de que havia alguma coisa presente que ele ignorou, ou foi idiota demais para perceber. Havia coisas que ele não podia colocar em palavras, e quando isso acontecia, nos poucos momentos em que Kyle Broflovski não tinha palavras, ele chorava.
Não sabia dizer quanto tempo passou de pé no meio da recepção do hospital, aquele ambiente branco e iluminado, chorando com seu rosto escondido no peito de Token, que descansava o queixo no topo de sua cabeça e acariciava suas costas. Kyle ficava particularmente incomodado com expressões públicas de sentimentos, mesmo em um lugar onde isso era perfeitamente comum. Não levou muito tempo para erguer a cabeça, secando o rosto com as duas mãos, respirando fundo. Suas bochechas estavam avermelhadas, os olhos inchados, e Token sentia dor no estômago sempre que o via dessa forma.
—Eu posso vê-lo? — Foi a primeira coisa que perguntou ao recuperar a capacidade de falar.
—Ele ainda tá inconsciente. — Token umedeceu os lábios. — Kyle… Ele perdeu bastante sangue. A gente não sabe exatamente como vai ser quando ele acordar. Mas o Kevin tá cuidando dele. — Token segurou o braço de Kyle delicadamente ao perceber a sombra que tomou conta de seu rosto. — Eu só não quero que você se assuste.
—Mas ele vai ficar bem, não vai?
Token tentou sorrir, mas levantar os cantos dos lábios parecia a tarefa mais difícil do mundo naquele momento.
—Eu espero que sim.
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