Capítulo 2

“Então, o que te trás aqui novamente depois de tantos anos?”.

Ela encarava o teto sem saber por onde começar... A escola? A cirurgia? Não. A cirurgia já havia sido o tópico principal de todas as vezes que ela havia ido ao consultório do Dr. Schuester anteriormente e ela achava que já tinha superado isso.

“Eu encontrei um antigo amigo aqui em Nova York”. Seus dedos batiam em sua barriga e sua perna esquerda balançava levemente enquanto estava deitada no comprido divã de couro.

“Ele era só um amigo, ou era mais do que isso?”.

“Só um amigo”, suspirou. “Ele... Eu não era o tipo de garota que os meninos corriam atrás, ninguém gostava de se aproximar de mim na verdade, eu comia o almoço no banheiro e usava roupas estranhas”.

“Hmm, então como esse seu amigo virou seu amigo?”, Dr. Schuester anotava todas as informações, tentando entrar cada vez mais na mente de Rachel Berry.

“Um cara do time de futebol, o Jesse, começou a mostrar interesse por mim. Ele era gentil, e foi o primeiro cara que pareceu me enxergar, dizer que eu era bonita e fazer coisas fofas pra mim... Eu fui tão idiota!”, e sua respiração fraquejava e o psicólogo apenas permanecia em silêncio esperando que ela continuasse a falar. “Eu me apaixonei e me entreguei pra ele, tudo isso para no dia seguinte eu descobrir que era apenas uma aposta e ser humilhada na frente de todos os jogadores de futebol e das líderes de torcida”.

“Presumo que esse seu amigo tenha te ajudado...”.

“Sim”, ela respirou fundo. “Eles jogaram ovos em mim, todos menos ele... O Finn era vegetariano na época, acho que na hora ele se preocupou mais com os pintinhos do que comigo, mas ele acabou virando um anjo, me defendeu e os outros até fizeram que ele fosse expulso do time por causa disso e nós viramos os dois maiores perdedores da escola e também grandes amigos”, e de repente um sorriso tomou conta do rosto que antes estava tomado por lágrimas. “Infelizmente nós perdemos contato depois que eu me mudei para cá”.

“Mas vocês tentaram manter contato, pelo menos?”

“Sim, sim, nos falamos por telefone algumas vezes, até que uma vez eu liguei pra casa dele e uma garota pediu pra eu nunca mais ligar”, ela ficou em silêncio por alguns segundos. “Eu resolvi não dar atenção para o que ela disse, mas eu estava cheia de ensaios e quase sem tempo pra nada aí... Bem, o senhor já sabe”.

“E o Finn sabe?”

“Não”

“Ele deveria saber, talvez se soubesse quando você estava passando por aquilo, tudo teria sido mais fácil, ele é uma espécie de porto seguro pra você... Talvez agora que ele voltou, as coisas comecem a caminhar e você possa finalmente superar e seguir em frente”.

Seguir em frente.

Era tudo o que ela mais queria desde que virara prisioneira da sua própria limitação.

A primeira coisa que veio em sua cabeça assim que saiu do prédio em que ficava o consultório foi ligar para Finn, e assim ela fez.

“Rachel?”

“Finn! Eu... Eu preciso te ver agora”

“Eu tô em casa, você quer ir a algum lugar?”

“Não precisa, onde você mora?”

O apartamento em que Finn morava não ficava tão longe de onde ela estava. Decidiu ir andando e quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair, também não se importou de deixar ser lavada por elas.

Ela estava indo para o apartamento dele. Ótimo. Ou não.

Rapidamente, Finn começou a catar todos os papéis amaçados e latas de refrigerante que estavam espalhados na sala. Até cueca suja tinha. Ele não tinha paciência para arrumar a casa e só chamava a faxineira nas raras vezes que Josh ia até lá. Josh! Rachel nem sabia que ele tinha um filho. Sem saber o que fazer, ele apenas trancou o quarto de seu filho e guardou todos os porta retratos com fotos dele em uma gaveta, tudo aconteceu em tempo suficiente para que ela chegasse e a campainha tocasse.

“Tá chovendo”, foi a única coisa que ela conseguiu dizer depois que ele abriu a porta e continuava com o olhar fixo sobre ela, a analisando. Rachel usava um vestido de tecido leve, que com a chuva havia grudado no corpo dela e ficado praticamente transparente e Finn estava se segurando para não agarrá-la ali mesmo. “Posso entrar? Tô com frio”.

“Claro, claro que pode. Fica à vontade”, disse abrindo caminho para ela passar. “Você quer colocar uma roupa minha? Aí eu posso colocar a sua pra secar”.

“Não preciso, eu não posso demorar, ainda tenho que ir pro restaurante. Eu só preciso falar com você”.

“Pode falar”, disse se sentando num dos bancos da cozinha e ainda assim ficava mais alto que Rachel.

Ela balançava de um lado pro outro sem saber por onde começar, decidiu abusar do pleonasmo e começar pelo começo.

“Desde meu primeiro dia aqui em Nova York, eu ensaiava todos os dias para o musical... Às vezes eu chegava lá de manhã e só saia de madrugada. Eu nunca reclamei porque finalmente estava fazendo o que eu queria, até que eu comecei a ter dores de garganta muito fortes e ela ficava inflamada com muita frequência e só resolvia com antibióticos, mas logo depois o problema voltava... Uma amiga – ela fez sinal de aspas com a mão – me aconselhou a cortar o mal pela raiz, fui ao médico e ele disse que era melhor eu tirar as amígdalas”.

“Rach”, ela se aproximou dele, que a aninhou em seus braços. “Mas você ainda consegue cantar, né?”.

“Depois da cirurgia, as dores nunca mais voltaram, mas eu não consigo mais alcançar as notas de dó à lá, eu não sou mais soprano, o musical precisava de uma soprano, eu não tenho mais a minha voz, eu não sou mais eu, Finn”.

Para muitos aquilo poderia ser nada, mas para ela era como se um construtor perdesse as mãos, ou se um esportista ficasse paraplégico. E ele sabia o quão dramática ela poderia ser e imaginava o que aquilo tudo significava pra ela.

“E porque você não me avisou? Eu poderia ter te ajudado, ter feito... sei lá”, ele suspirou. Na verdade ele provavelmente não poderia ter feito nada com uma namorada grávida em casa.

“Nem eu sei... Eu não conseguia fazer mais nada, fiquei indo para a terapia por dois anos e até hoje não sei como eu ainda estou viva”.

“Rachel Berry”, Finn segurou o rosto dela entre suas mãos. “Você é uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci na minha vida, você é capaz de tantas coisas, eu tenho até inveja de você. Eu entendo que isso pode ter significado o fim do mundo pra você, mas nada é por acaso... Esse era o seu sonho, mas você tem a vida inteira pela frente para descobrir novos e você pode contar comigo pra realizar cada um deles, eu tô aqui agora e eu não vou mais sair de perto de você”.

Ela não disse nada, apenas aproveitou a proximidade de seus rostos e fez o que queria fazer desde que o viu pela primeira vez, colou seus lábios nos deles timidamente e Finn rapidamente tomou a boca dela e a encaixou no meio de suas pernas. Rachel sentia os lábios se derretendo a pressão suave. Ele a provocava com a língua gentilmente, pedindo passagem. Ela correspondeu ao beijo sensual e às carícias com a língua em total abandono. Finn gemeu e abraçou Rachel com mais força. Ela o enlaçou ao pescoço, e aprofundaram o beijo.

De repente o celular de Finn começou a tocar e ele tentou ignorar, mas o toque com a abertura d’Os Simpsons foi colocado especialmente para quando seu filho ligasse e ele teve que se soltar de Rachel para atender.

“Oi, aconteceu alguma coisa?”

“Pai, você não vai acreditar! Adivinha quem vai se apresentar no festival de talentos da escola?”.

“Hmmm, não sei...”, fingiu não saber de quem ele estava falando enquanto morria de orgulho por dentro.

“Eu! E vai ser bem no fim de semana que você vai vir pra cá, eu vi no calendário!”.

“Isso é ótimo, mal posso esperar pra ver!”.

“Tá, agora vou desligar porque minha avó tá mandando eu tomar banho, te amo pai!”.

“Eu também, tchau”.

Ao desligar Finn encontrou Rachel o encarando. “Era um amigo meu do jornal”, disse.

“Tudo bem, acho melhor eu ir agora, ainda tenho que trabalhar”.

“Eu queria que você ficasse”, fez a melhor cara de cachorro abandonado que conseguiu. “Mas eu ainda tenho que escrever minha coluna dessa semana, quem sabe eu não apareça no restaurante amanhã?”.

“Contando que você pague a conta”, disse e Finn a segurou pela nuca e a beijou com tal intensidade que ela perdeu o fôlego. Rachel sentia o calor aumentar e a pulsação acelerar, impossibilitando qualquer raciocínio… Só era capaz de sentir, de saborear… de desejar. Mas seu lado são fez o que ela deveria fazer e foi trabalhar.

Agora tudo o que ele precisava era um bom banho frio.

Notas finais
Talvez tenha ficado meio chato, mas essas são coisas que precisavam ser contadas... No próximo as coisas começam a ficar mais... hm.. divertidas? haha... (;