Untold

1 Capítulo 1. Lastochka


Moscow, Rússia – 1993

Catharina acaba de dar a luz a um bastardo. Quando se carrega o sobrenome de um nobre, errar não está entre as opções. Uma parteira foi levada sob a penumbra até a mansão e arrancou das entranhas aquele pedaço de carne, que logo foi embalado e colocado em um cesto rumo a Lastochka.

Inicialmente foi batizado de Alexandre, até que aos 5 anos recebeu o “nome definitivo” de Dimitri por ser parecido com um ator de mesmo nome. Sua pele era demasiadamente branca e seus olhos eram azuis inflamados como rio desaguando no mar. Quase sempre estava com os cabelos castanhos claros cortados à altura da nuca. Quando sorria, covinhas formavam-se em suas bochechas, entretanto, vê-lo sorrir era raro. Apesar de ter uma beleza incomparável, Dimitri jamais adaptou-se a nenhuma das famílias que o acolheram. Quase sempre agressivo, quase sempre desolado. Por culpa do passado de abandono, talvez? Nem ele próprio tinha a resposta para tal turbilhão de sentimentos.

E assim o tempo metamorfoseou como em um passe de mágica, tal como passa para aqueles que nada aguardam além da morte dia após dia. Aos 15 anos, pensou haver descoberto o amor nos braços de outra interna. Elizaveta havia sido mandada para o internato pelos pais devido ao comportamento rebelde e indomável. Assim que estes morreram, foi enviada ao orfanato pelos tios, uma vez que o internato era pago. Estava ali a poucos meses, e datava 2 anos mais nova do que o ele. Foi ela que o introduziu ao mundo da sexualidade, desvirginando-o certa noite. Após isso, faziam saliência em todos os cômodos, a qualquer hora, como gatos vadios em eterno cio. Fora ela também a causadora do vício do cigarro e bebida. Viveram um bom tempo as margem da lei, porém nesta época, mesmo que errôneo, o sorriso de Dimitri se fazia mais presente.

Faltavam poucos dias até a saída de Dimitri do orfanato, como o tempo passa rápido quando se ama. Ele já estava com 18. Era uma tarde outonal quando um casal de jovens apareceu em busca de adoção. Havia algo de estranho naqueles dois: Estavam em busca de um rapaz moço, e não de uma criança. Dimitri e Liz tinham um esconderijo secreto no sótão, que coincidentemente ficava encima da sala da governanta.

– Ele se sente muito sozinho após a morte de meus pais.

Dizia um tom fraco e feminino

– Fui promovido, e com a renda que ganho atualmente não poderia sustentar nós 3 em um país estrangeiro.

Agora era uma voz branda e grave a tomar partido, masculina.

– Entendo perfeitamente sr. e sra. Iyanovich. Bem, o nosso rapaz mais velho está para sair em breve e acho pouco provável que ele aceite ser adotado tão próximo de sua “liberdade”. Temos dois outros de 16 anos, não lhe interessam?

– Não acho que seria bom alguém da mesma idade para morar e cuidar do Nicolai. Ele pode parecer inofensivo, mas tem boa persuasão.

– Entendo. Bem, podemos tentar então...

A governanta então levantou-se e chamou uma das professoras, ordenando que fosse procurar Dimitri. Aquela altura, ele e Liz estavam apáticos, excitados e aflitos com o que acabaram de escutar.

– O que você acha?

Ele sussurrou

– Uma oportunidade incrível! Assim você não vai precisar trabalhar e já teremos uma casa para quando eu sair daqui e formos morar juntos.

Respondia ela tentando manter igual tom

– E se o moleque for uma peste?

– Mate-o. Agora vai, antes que não te achem e desistam.

Ela sorria de uma forma depravada, beijando-o de forma lasciva

Sem delongas ele concordou com a cabeça e limpou a poeira dos farrapos, descendo sorrateiro pelo esconderijo secreto, que findava em um dos dormitórios. Ainda não havia assimilado os fatos ou parado para pensar nas consequências, apenas o fez. Enquanto fingia estar andando descontraído pelos corredores, foi levado até a sala da governanta onde lhe foi explicado a situação. Ele aceitou. Naquela mesma noite despediu-se de Liz com um beijo doce e entrou em um carro preto, rumo ao desconhecido.

[ ... Continua ]

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.