Until the very great end

4 I wanna take you somewhere so you know I care


Notas iniciais
Música: Tom Odell - Another Love

Izabelly tentou seguir os próximos dias como se nada tivesse acontecido. E o que facilitou foi Henrique prolongando sua mentira. Leo não voltaria para casa porque Leo estava no acampamento. Como ele conseguiu essa desculpa esfarrapada?

Henrique quando estava saindo da firma naquele dia, viu um folheto jogado no chão do estacionamento. Acampamento de Música para Crianças. Seria muita imbecilidade da parte dele continuar com isso, mesmo sabendo que para qualquer um que visse de fora, pegaria a mentira na hora. Mas o acampamento começava naquela sexta-feira e Henrique podia facilmente mentir dizendo que Leo estava fora essa semana.

Na mesma hora em que achou o folheto, Henrique voltou para seu carro, ignorando que provavelmente se atrasaria e olhou para a mala de roupas que sempre estivera ali para emergências. Com o coração pulando mais do que o normal dentro do peito, ele esticou a mão para pegar a mala cheia de pandas como gravuras e entrou na empresa, dando de cara com a enorme placa que havia ali para doação de roupas.

Sentindo as lágrimas começarem a se formar em seus olhos – mas, como sempre, — sem nunca as derrubar, Henrique andou a passos lentos até a caixa de papelão onde depositou a mochila da criança. E isso foi realizado sob os olhares atentos dos funcionários que passavam. O tatuado tinha a cabeça abaixada. A mão segurava no papelão da caixa com força quando colocou a mochila dentro.

Estava segurando com tanta força que viu os dedos ficarem vermelhos e um pedaço de papelão rasgar em sua mão.

Sentiu um toque suave em seu ombro e logo soube quem era. Aaron sempre sabia o que falar em momentos como aqueles, por mais idiota que sua fala fosse. Ele ainda conseguia dizer algo, e isso era que importava para Henrique. Não palavras de terceiros, mas de seu melhor amigo.

— Você consegue.

Ele não tinha a mínima ideia de porquê Aaron dizia aquilo. Se ele sabia o que Henrique estava mesmo fazendo ou se ele apenas estava deixando as coisas de Leo ali para doação porque não havia achado outro lugar para fazê-lo. Ele sabia que quando Izabelly se desse por conta, ficaria furiosa.

Henrique conhecia a esposa como nunca havia conhecido a si mesmo.

— Preciso que faça um favor para mim – Aaron ergueu a sobrancelha quando ouviu o que o amigo disse. Os dois estavam no elevador prontos para irem aos seus devidos andares da empresa.

— O que?

— Você ainda tem contato com aquela sua prima a Freya?

Frey era uma prima que participa dos mesmos concertos que Izabelly, com a diferença que Frey tocava violino. Não era por nada, mas o quanto Izabelly era boa no piano era um desastre no violino. Ela conseguia administrar o instrumento, mas não saia tão natural quando deveria.

— Tenho, porque?

Frey sempre dava em cima de Henrique. O tempo todo. Era uma ideia idiota, mas ele não podia fazer muita coisa. Sabia que a sua mentira logo seria descoberta e Izabelly voltaria a definhar. Ele não podia permitir que isso acontecesse.

— Quero que peça um favor a ela para mim.

Aaron não podia dizer não, mesmo que fosse um absurdo. Ele até concordaria, porque fazia sentido. Mas resolveu, pela primeira vez, manter sua boca fechada.

Izabelly ao retornar para casa naquele dia não falou nada. Não queria que o marido soubesse que ela morria de raiva dele. Tudo o que queria era tomar um banho e ir direto para a cama, mas ao chegar em casa estranhou todas as luzes apagadas.

Primeiro bufou porque achou que era falta de energia, depois seguiu reto para o jardim ao estranhar uma luz que vinha dali. Seu queixo caiu quando ela viu o quintal devidamente arrumado. A toalha de piquenique estendida na grama, perto da piscina. Em cima, era possível encontrar uma pizza e copos com gelos cheios de refrigerante.

— Goodnight, dear. Leo is camping.— o sotaque carregado fez Izabelly estremecer mesmo ainda estando com raiva. Para fortalecer o que dizia, Henrique mostrou o folheto que havia pegado no estacionamento do escritório. Izabelly, apesar de se sentir puta com a situação, não podia negar que amava aquele sotaque do brasileiro. Era forte e seu inglês mesmo depois de anos de prática, às vezes, cometia uns deslizes ou outros, mas nada que ela não conseguisse achar menos do que adorável. – Let's dance before we dinner?

Izabelly sorriu ao ouvir a melodia soando pelo rádio. Henrique provavelmente estava o controlando através do controle remoto que haviam instalados a pedidos de Leo que adorava escutar música enquanto nadava na piscina.

Henrique estendeu a mão para Izabelly que a pegou sem receio. Segurou firme na mão do marido que a guiou para o meio da varanda e em passos leves e suaves, começaram a dançar a própria melodia.

Tinha sido o único momento em que havia conseguido esquecer de tudo. Ali com as luzes apagadas e o jardim cercado de luzes de velas, ela conseguia relaxar, mas ainda se forçasse a mente ao se lembrar, conseguia se sentir irritada com o marido.

Os passos eram cronometrados e os dois sentiam presos no próprio ritmo. A melodia do pianista que saia através do sistema de som do jardim era a única coisa que Henrique conseguia ouvir além de seu coração batendo forte. Seu plano estava dando certo? Aquilo era uma pergunta, quase que uma afirmação. Nem ele mesmo conseguiria diferenciar ambos.

Izabelly suspirou. Aquilo fez com que ela sentisse mais raiva de Henrique. Ela sentia o papel que agora estava no chão, como se ele estivesse lhe encarando e dizendo: "Ei seu filho não está aqui, ele está morto. Aceite. Supere."

Ela pensava, no fundo de sua mente que aquilo, de forma alguma estava lhe ajudando.

Achava que fazia justamente ao contrário.

Piorando gradativamente.

Até que já estaria tão ruim a ponto de que a escalada para fora do poço fosse grande demais para que eles conseguissem sair intactos.

***

Seu plano estava sendo efetuado com sucesso. Pelo menos, ele achava que estava. Mal sabia que Izabelly estava apenas jogando o mesmo jogo que ele. Fingindo que compreendia as ações do marido. O acampamento terminaria no final de semana que vem e o jogo não poderia ser mais jogado por muito tempo. O tempo na ampulheta estava se esgotando e os dois sabiam muito bem disso.

Mas se fosse ser bem sincera consigo mesma, aquele tinha se tornado o jogo favorito de Izabelly. Henrique tentava se distrair visitando sua avó mais do que o normal, e Belly tentava não achar que ir para o trabalho fosse uma péssima ideia.

Até que tudo explodiu quando Henrique chegou tarde do trabalho. Ele nem se quer havia acreditado onde tinha ido. Mas quando viu aquela oportunidade de sair para aquele lugar lhe esperando, , ele não pode dizer recusar. Tinha sido ótimo poder sair assim. Henrique só não contava que aquilo ajudaria mais ainda a prima de Aaron a realizar seu pedido, por isso se surpreendeu quando chegou em casa e encontrou com sua esposa completamente irritada.

— Você fica saindo! Saindo e tentando me levar a jantares românticos sendo que estamos nesse caos! — Izabelly acusou na primeira oportunidade que teve. — Nem parece que você sente alguma coisa!

Como ela ousava a dizer aquilo? Mais do que todos, Henrique sentia. E doía. Muito.

— Para onde caralhos eu vou precisar levar você para dizer que me importo?

— Talvez para o lugar onde você estava ontem e hoje? — Perguntou perturbada. — Rique, se está me traindo, apenas diga. — Ela fechou os olhos. Se sentindo péssima pela suposição.

— Depois dessa merda toda que estou tentando fazer para nos reerguer você diz que estou te traindo? — Henrique perguntou sem acreditar. Doía tanto nele quanto nela, mas ele jurava que se continuasse fingindo, as coisas poderiam melhorar.

— Dessa merda? — Belly perguntou perturbada. — Henrique fingir não adianta nada. No máximo vai amortecer a dor para a sentirmos mais forte depois.

— E o que você quer que eu diga? — Henrique perguntou quase que anestesiado. Ele não queria que a verdade saísse por entre seus lábios e por um momento quase se deu conta de que entendia o choque pelo qual a esposa estava passando. — Que Leo morreu? — Ele não choraria. Se chorasse faria Izabelly chorar. E ele não queria isso. — Que ele nunca mais vai voltar caralho? — Mas isso não o impediu de levantar a voz.

— Que você diga a verdade! — Izabelly explodiu. Aquele tinha sido um dia fodido no trabalho. Ela odiava o fato de ter recebido indiretas de uma colega e tentava o máximo tirar o que havia escutado da cabeça, mas não conseguia e aquelas frases estavam perturbando suas decisões naquele momento.

— A verdade?

— A verdade. Você mentiu para mim! E eu odeio mentiras. Eu sei que Leo morreu. Mas precisava ir me trair com a primeira vagabunda atirada que te aparecesse?

Henrique congelou.

— Eu.. — Gaguejou porque realmente estava sem palavras.

— Você? — Izabelly respirou fundo. Sentindo toda sua cabeça rodar. Ela não queria acreditar. Não conseguia. E agora, mais fazia sentindo a conversa que tivera com seus pais quando eles estavam em Nova Iorque. Eles tinham feito um lindo pedido para que ela fosse morar de novo com eles. Passar esse tempo lá. Ela jurava que passá-lo com Henrique fosse o certo a fazer, mas ela já não tinha certeza de nada.

O silêncio de Henrique era tudo o que ela precisava.

— Eu vou voltar para Miami.

— Você vai o quê? — Ele tinha que seguir o protocolo. Henrique sabia que afastar-se da esposa assim estava sendo a maior prova de amor que ele já poderia ter lhe dado. — Amor... Fique aqui, por favor. Nós podemos dar um jeito nisso. Eu prometi que iriamos. Estava vendo e podemos ter suporte de uma psicóloga.

E ele realmente queria fazer o que estava falando. Parecia ser uma boa ideia. Ele não perderia nada, uma vez que já tinha perdido tudo. Mas por algum motivo, ver que Izabelly estava mesmo resolvendo ir, era bem diferente do que só pensar que ela poderia. Porque no pensar, ainda haveria sempre a possibilidade de ficar.

Izabelly tomou ar para falar.

— Não. Eu estou indo para casa dos meus pais. Minha passagem para Miami já está comprada e eu me transferi para a filarmônica lá. Eles querem que eu comande o festival de outono de Miami. O de Nova Iorque ficará nas mãos de Mackenzie.

Henrique sorriu fraco vendo que seu plano tinha sido efetuado com sucesso: Izabelly tinha levantado da cama. E levando em conta que aquela pequena reação de Henrique fosse um "tanto faz" bem grande para o que havia acabado de dizer, Izabelly deu alguns passos para trás e foi em direção ao quarto fazer suas malas.

Ela se surpreendeu quando viu que Henrique não havia vindo atrás dela.

E ele também havia surpreendido a si mesmo em não fazê-lo.