Until the very great end

23 Do you understand that we will never be the same again?


Crescer dói. Dói pra caralho. Seus ossos esticam e a sensação é como se alguém estivesse te empurrando para algo que você não tem certeza se pode enfrentar. Isso, falando tanto quanto física e emocionalmente. Quando você está na idade de perder os dentes de leite e sua mãe mente pra você sobre a fada do dente e no dia seguinte você acorda com 3 dólares debaixo do travesseiro porque tem o sono pesado demais de uma criança para acordar durante a noite. Dói na hora do dente cair. E quando você tem a desculpa da fada dos dentes, a dor fica suportável. E é assim durante sua infância inteira. Fadas do dente. Homem do saco. Papai Noel. Coelhinho da Páscoa. Todos eles são feitos para amenizar a dor ou criar uma imaginação fértil. O problema é que quando você para de acreditar em todos eles você percebe o quanto esta perdendo com aquela dor. Talvez agora essa analogia não faz muito sentido, mas para Henrique e Izabelly faziam e era por isso que os dois não diziam que essas histórias citadas acima eram reais. Eles contavam como histórias. Apenas como elas eram. E era exatamente isso o que tornava cada uma delas mágica. Ainda mais se com um instrumento acompanhando. Afinal, música era algo que era impossível de se respirar sem. E Augusto também amava música. Especialmente quando ela vinha acompanhada do seu livro favorito que seu pai havia lhe apresentado. Por isso, não se conteve quando na escola, eles perguntaram se alguém tinha uma sugestão para a peça de teatro que sempre tinha no final do ano.

Henrique suspirou ao olhar para o céu, durante a apresentação que era no pátio aberto da escola. As estrelas eram sortudas demais. Não sofriam, apenas observavam a dor alheia de longe, e era por isso que ele preferia se contentar com a história que havia contado para Izabelly com tanta certeza, quando, na noite anterior, ela havia acordado por causa de um pesadelo que insistia em persegui-lá há alguns dias.

— Pense nas estrelas, —Henrique pediu na noite anterior a peça, quando Belly acordou assustada de um pesadelo, que ela não queria contar de jeito nenhum. — sabe aquela história de que as pessoas viram estrelas depois que morrem? — Izabelly sentiu um frio na barriga, sabendo de quem exatamente seu marido mencionava. Ele não esperou uma confirmação dela, e continuou a contar: — É verdade. E quando a gente vê uma estrela cadente significa que elas não esqueceram da gente e que estão olhando por nós.

— Então porque não vimos uma estrela ainda? — Os olhos dela estavam quase se fechando novamente. Quase como se estivesse cansada demais para se quer pensar em mantê-los abertos. O sonho tinha sido perturbador demais. Ela havia visto dois meninos, representantes de Augusto e Leo, que brincavam juntos, um ao lado do outro, como se conhecessem desde que nasceram. O coração é um treco engraçado e faz um belo conjunto de contradições quando briga com o seu cérebro. E o de Izabelly parecia estar brincando de pula-pula dentro de seu peito, de tão rápido que batia. Mas, se acalmava razoavelmente, quanto mais seu marido a abraçava e dizia que estava tudo bem. Mais ainda, quando ela chegava perto de um instrumento e fazia a magia acontecer. Por isso, que ela não havia também conseguido parar de pensar sobre o festival. Tinha sido o melhor dia de sua vida e ver que ela fez parte de algo bom quando estava se sentindo mal, fez com que ela tivesse um pouquinho mais de fé nas coisas e nas pessoas.

Enquanto Izabelly assistia a peça com a mão agarrada do marido, ela não conseguia não pensar em Leo. Sentia-se mal por isso enquanto se lembrava da noite anterior, mas não tinha escolha. Seu mente lhe mandava para apresentação, cujo menino estava vestido de Panda. Era inevitável lembrar. Logo no final da peça, os três foram comer churros que estava sendo vendido na própria escola e Augusto não se desgrudou de Louise nem por um minuto. Lou era uma nova amiga que ele havia feito.

— A gente tinha uma casinha em San Francisco e deixamos para alugar quando nos mudamos para Nova Iorque ano passado, só que ainda ninguém alugou. — O pai de Louise contou enquanto via a menina correr com Augusto no outro lado do pátio que estava cheio de crianças. — A gente veio para NYC achando que era provisório, mas como resolvemos ficar por aqui por causa do trabalho do outro pai da Lou — era claro o quão orgulhoso ele ficava quando falava do atual marido e pai de sua filha. Henrique tinha achado os dois um máximo, e ele não conseguia parar de pensar em San Fracisco. E não foram só os olhos dele que dobraram de tamanho quando o homem na frente deles falou o nome da cidade, os de Izabelly também. — Não conseguimos achar ninguém para alugar a casa ou comprar — o homem resmungou um pouco, dando uma mordida no churros, sem saber que estava falando com dois possíveis compradores.

— E a casa fica onde exatamente? — Perguntou Henrique enquanto dava um gole em seu refrigerante. Eles estavam sentados em uma mesa redonda de plástico que estava posta no jardim da escola, assim como varias outras mesinhas onde outras famílias estavam conversando.

— É uma localização ótima. Perto da escola antiga de Lou e era perto do meu trabalho e do trabalho do meu marido. O trânsito não é tão monótono e horrível quanto o de New York e às vezes eu ainda choro por ter mudado, mas sei que estamos melhores aqui.

— Vocês colocaram a casa numa imobiliária? — Belly perguntou depois de limpar a boca que havia sido suja de chocolate. Ela parecia uma criança tão nova quanto Augusto, pensou Henrique enquanto observava a cena e sorria apaixonado.

— Porque tanto interesse? — o homem perguntou com a sobrancelha franzida, só agora percebendo que o casal a sua frente estava quase que parecendo ansioso.

— Estamos com planos de nos mudarmos para San Francisco — Belly contou com um sorriso — Não achávamos nenhuma casa legal pela internet, quem sabe você não pode nos mostrar uma casa do seu imóvel?

O homem abriu a boca, surpreso. Ele estava demorando um inferno para encontrar alguém que quisesse morar na casa. Sean não tinha a mínima ideia do motivo de não quererem comprar ou alugar. Às vezes, ele podia jurar que as pessoas fugiam ao descobrirem que a casa era propriedade de um casal homossexual. Sean não queria acreditar naquela homofobia em pleno 2016, sendo assim, ele preferia pensar que era apenas a economia passando por um tempo ruim.

— AMOR! — O moreno gritou, chamando atenção do outro, que não estava muito longe e tinha duas crianças sapecas em seu ombro. Belly abriu os lábios surpresa de quanto Augusto estava à vontade. Ela sabia que ele tinha arrumado uma amiguinha nova na escola, mas não sabia que tinha se apegado tanto. Por um momento, se preocupou em afastá-los, mas não podiam andar para trás agora que estavam chegando tão perto do final.

— O que foi? — O negro perguntou confuso enquanto descia as crianças de seus ombros, que começaram a implorar por mais churros e Henrique prontamente tratou de ir comprar os mesmos com os dois pedaços de gente em seu alcance.

— Tem fotos da casa de San Francisco aí?

— O quê? — Perguntou surpreso. — Por quê?

— Acho que acabamos de achar gente interessada — e virou, sorrindo para Izabelly. Que sorriu amplo. Os dois mal podiam acreditar que Belly e Henrique haviam gostado das fotos. Augusto viu algo acontecendo, mas não se importou com a movimentação e conversa de adultos. Tudo o que ele queria era sair correndo por aí e continuar brincando de pique-pega com Louise antes que ele não pudesse mais fazê-lo.

Depois de tanto correr, não só com Louise, mas com outros amigos de sua sala também, Augusto sentiu-se cansado o suficiente para apagar um pouco no colo da mãe. Henrique e Belly resolveram irem embora, mas com a promessa de entrarem em contato com Sean e o seu marido depois, para resolverem a questão da casa. Sean havia ficado de mandar mais fotos do imóvel para o e-mail de Izabelly.

Apesar do sono que tinha pegado Augusto há uns minutos, ele rapidamente acordou quando já no carro, começou a conversar com a Izabelly sobre verem O pequeno Príncipe antes de dormir. Izabelly não conseguia parar de pensar, apesar de falar o tempo todo. Ela nunca mais seria a mesma. As coisas tinham mudado tanto, que ela até mesmo duvidava que havia sido outra pessoa um dia. Tanto ela, quanto Henrique que ao conseguir visualizar, da janela do carro, uma estrela cadente rasgando o céu de Nova Iorque, desejou que Belly tivesse a visto também, mas ela estava ocupada demais falando com Augusto sem parar.

Henrique sorriu simples e virou o carro para a esquerda, já pensando em pegar o controle remoto para abrir a garagem de casa.

Leo tinha encontrado o caminho de volta para casa, e Augusto, Izabelly e Henrique também tinham mesmo que houvessem perdido algumas coisas no meio do caminho e quebrado alguns ossos. Eles conseguiram.