Unrelated
1 Reencontro
Notas iniciais
Eu pretendo postar os capítulos de 15 em 15 dias, alternando com a minha outra história, Opposite. Uma semana posto Opposite, na outra, Unrelated, isso a partir de Fevereiro.
Por favor, mande reviews! Eles realmente me incentivam a escrever! Um beijo e boa leitura.

Cecille
Tudo o que eu preciso ter nesse exato momento é nada mais nada menos que paciência. Suportar os próximos trinta dias que estão por vir sem me queixar ou gerar qualquer tipo de confusão, coisa que, eu já adianto à mim mesma, não vai ser fácil.
Observo, pela janelinha do avião, o céu azul da Califórnia e sinto uma súbita raiva por sua beleza. Acontece que nada por aqui tem que ser belo! Eu vou passar pelo mês mais irritante da minha vida e tudo tem que sair perfeitamente ruim.
Tiro meus fones de ouvido e os guardo dentro da minha mochila, quando o piloto anuncia que vamos descer. Fico bem chateada com isso, já que não quero descer de jeito nenhum. Eu ficaria mais umas dez horas nesse avião só para evitar o que estou prestes à encarar, ou pelo menos, para adiar a minha iminente desgraça.
Só eu sei o quanto insisti para não estar aqui, mas a insistência do meu pai foi bem maior. Sem falar que a minha tia também o ajudou com a tal da chantagem sentimental.
“É o seu pai.” – Foi o que ela disse, antes de eu dar o veredicto. – “Você precisa estar presente no casamento dele. É uma questão de princípios.” A verdade é que eu renunciaria todos os meus princípios se fosse para evitar ver novamente a minha futura madrasta, Margaret, e sua filha metida à patricinha, Alicia. Sem falar no resto dos parentes, que mal sabem meu nome, mas fingem me suportar.
O que meu pai não consegue entender é que eu nunca vou poder fazer parte da sua nova família. Não por eles serem todos bronzeados, bem vestidos e milionários, e eu excessivamente branquela, sempre usando os clássicos calça jeans e tênis, porque simplesmente são as coisas mais confortáveis do mundo. Tá, também por isso. Mas o negócio é que eu não quero ter uma nova família. Eu tenho a minha tia, com quem divido o apartamento em New York, e para mim já está prá lá de bom. E além de tudo isso, eu não preciso de alguém que tente substituir minha mãe, porque isso nunca, em hipótese alguma, vai dar certo. Margaret não tem nada da minha mãe, se você quer saber. Tanto físicamente, quanto pela personalidade.
Minha mãe era muito parecida comigo, como todos costumam dizer. Pele clara, olhos cor de caramelo e cabelo castanho. Sem falar no tamanho... Minha mãe era tão baixinha quanto eu, mas é claro que eu, infelizmente, ainda conseguia superá-la. Também tinha o seu inegável bom senso de humor. Era simplesmente impossível não rir de suas piadas aleatórias. E além disso ela tinha um jeito protetor único, sabe? Acho que nunca vou encontrar outra pessoa que me faça sentir protegida, como minha mãe costumava me fazer sentir. Ainda não consigo entender porque aquele maldito acidente a tirou de nós tão cedo...
Outra coisa que também não dá para entender é como é que meu pai pôde vir à se apaixonar, quatro anos depois da morte de minha mãe, por outra mulher completamente diferente. Margaret é alta, de cabelos loiros, olhos azuis e para completar, a pele bronzeada. Não tem o bom senso de humor da minha mãe e na verdade, é mais recatada e tímida. É muito bonita e meiga, não vou negar, mas não é viva, alegre, enérgica, como minha mãe costumava ser. Por isso e entre muitos outros motivos é que Margaret Roth nunca vai substituir minha mãe.
O problema é que meu pai ainda não compreendeu. Não quero criar falsas expectativas para ele, porque depois desse casamento, minha intenção é de nunca mais voltar para a Califórnia. Talvez eu volte, mas não para visitá-lo. Também não quero que ele fique me esperando... Meu pai é o máximo, eu amo ele e tudo mais, estou muito feliz por ele ter dado a volta por cima depois da morte de minha mãe e se apaixonado de novo, mas vê-lo com outra família não é algo que eu tenho vontade ver. É basicamente isso.
Alicia
Eu daria tudo para a paciência ser algo comprável, de verdade. Quando mais eu preciso dela, parece que mais ela me falta. E nas próximas semanas, essa tal de paciência será indispensável para manter a paz dentro da minha casa.
Folheio uma dessas estúpidas revistas de celebridades só por não ter o que fazer mesmo. Estou sentada em um dos bancos, próximas à ala de desembarque do Aeroporto Internacional de Los Angeles. Como eu já esperava, está completamente lotado, com milhares pessoas andando de um lado para o outro, se esbarrando e pisando umas nos pés das outras. Eu detesto lugares muito lotados e para ser sincera, nem queria estar aqui. Se não fosse pela a insistência da minha mãe, talvez ainda eu estivesse dormindo uma hora dessas. Mas como eu estava dizendo, tudo o que eu preciso é da paciência. Respirar fundo, contar até três e tentar manter a calma.
Eu até que entendo o lado da minha mãe. É a segunda vez que ela casa e quer que tudo seja detalhadamente perfeito. Não a culpo por isso, porque se fosse eu, no auge dos meus quarenta anos, me casando pela segunda vez porque meu primeiro casamento foi completamente uma droga, eu também agiria como ela.
Mas o que é totalmente desnecessário é o fato dela me tirar da cama às oito da manha, nas férias, só para vir buscar a sua nova enteada no aeroporto. Segundo minha mãe, seria mal educado da minha parte se não viesse. Como se eu me importasse em parecer educada para a filha do Mark. O que me fez sair da cama foi a possibilidade de o próprio Mark ficar chateado comigo por não ter vindo.
Mark é um cara bem legal e eu estou muito contente por minha mãe tê-lo conhecido. Dá pra ver que ele a faz feliz, pelo menos muito mais feliz do que meu pai fazia. Sou totalmente à favor do casamento dos dois, e da inclusão do meu novo padrasto na família, mas a única coisa que não me agrada no meio de toda essa história é o fato da filha dele, Cecille, Cecil ou Cecilia, (já que eu não sei ao menos pronunciar o seu nome direito) vir passar trinta dias dentro da minha casa.
A primeira e última vez em que nos vimos, há três anos atrás, já não foi muito agradável. Ela tinha vinte anos, na época, e eu quatorze. Não trocamos uma palavra, além do cumprimento e da despedida, mas dava para ver no olhar de Cecille que não aprovava nem um pouco minha mãe como madrasta.
Outra coisa que também me fez detestá-la, foi o fato de quase termos nos mudado para New York por causa que Cecille não podia vir morar conosco. Ela havia acabado de entrar na faculdade de Relações Internacionais da Columbia. Sim, Columbia! Uma das faculdades mais prestigiadas da América. Já dá para imaginar quantas milhões de vezes tive de ouvir Mark falar da sua brilhante filha e sua invejável inteligência. Acabou que, no fim das contas, Mark conseguiu um emprego em LA, veio morar conosco e se separou de Cecille, que se não me engano, mora com a tia em New York, enquanto estuda.
E agora, minha mãe quer que eu simplesmente a trate como parte da família, de uma hora para a outra. Mark já é parte da família e isso é fato, mas Cecille não. E não vai se tornar assim tão fácil, em tão pouco tempo. Vejamos, a garota vai passar um mês na minha casa. Na minha opinião, isso não é o bastante para que nos tornemos chegadas como se fôssemos uma família. Não que eu queira que ela fique na Califórnia por mais tempo. Não, não mesmo!
Cecille
Ando pela lotada ala de desembarque já arrastando minha mala e esbarrando com ela em todos pela frente.
Levanto a cabeça para procurar por meu pai, mas me assusto ao perceber que ele já está bem aqui, na minha frente, fitando-me com seus olhos esverdeados que infelizmente não herdei.
Ele sorri e eu, de repente, me dou conta de quanto eu sinto sua falta. Sem dizer qualquer coisa, meu pai me envolve em um abraço apertado. Tão apertado, que eu acabo ficando até meio sufocada.
– Senti sua falta, tampinha. – Ele diz, me soltando. Confesso que gosto do fato dele ainda me chamar de “tampinha”, me faz lembrar os bons momentos da minha infância, quando tudo era fácil e divertido. Quando minha mãe ainda estava viva.
– Também senti sua falta, pai. – Digo, com sinceridade em meu tom de voz.
Olho para o seu lado direito e noto que Margaret também está aqui, e mais bonita do que nunca, com uma camisa de seda cor de creme e uma calça marrom que deve ter custado muito caro. Para a minha surpresa, sorri.
Eu devia me sentir contente pela sua consideração, por vir me buscar no aeroporto junto de meu pai, mas a verdade é que não sinto. Estava esperando encontrá-la mais tarde e ainda não tinha planejado o que dizer, nem como agir. Ao que parece, terei de apelar para o improviso.
– Quanto tempo, Cecille. – Me cumprimenta, parecendo ser sincera enquanto me abraça rapidamente.
– É mesmo. – Tento ser simpática e forço um sorriso em meu rosto.
– Você está muito bonita! – Me elogia, soltando-me. É claro que está sendo gentil, porque bonita sei que é a última coisa que estou. Eu viajei o dia todo, estou suja, com o cabelo preso em um rabo de cavalo malfeito, usando um jeans surrado, uma camiseta básica e uma jaqueta jeans por cima.
– Obrigada. – Mesmo assim, não deixo de agradecer. – E como estão os preparativos para o casamento?
Não estou nem um pouco interessada nos preparativos para o casamento, mas tenho de ser educada, não é? Margaret parece surpresa pela pergunta, como se soubesse que eu não dou importância para o assunto.
– Está quase tudo pronto. – Responde, ainda sorridente.
– Ótimo.
Meu pai puxa minha mala de mim e passa a carregá-la. Caminhamos até o fim do corredor da ala de desembarque, conversando sobre a minha viagem. Meu pai faz as perguntas típicas (se fiz uma boa viagem, se estou bem, como andam os estudos) e eu as respondo com tranquilidade.
Continuamos caminhando, até que noto uma garota alta e bronzeada andando na direção contrária, vindo de encontro à nós. Ela é muito bonita, com seus cabelos loiros e ondulados caíndo por seus ombros. Usa óculos de sol e roupas de grife. Também percebo que seu humor não é do melhor, como se estivesse completamente entediada.
Quanto mais ela se aproxima de nós, mais percebo que seu rosto não me é estranho e então assusto em perceber que a garota é quem eu mais queria evitar encontrar.
Sim, estou me referindo à mais nova enteada do meu pai, Alicia Roth.
Alicia
Tiro meus óculos escuros para poder examinar melhor a nova enteada da minha mãe. Ela continua baixinha, igualzinho a três anos atrás... Mesmo sendo mais nova, sou mais alta e isso me dá uma certa sensação de poder. Apesar de mal cuidada, não posso negar a beleza de Cecille.
Ela, de repente, sorri e eu sou obrigada a fazer o mesmo. Tenho absoluta certeza que sua felicidade em me ver é totalmente falsa e fico impressionada com sua atuação. Ela estica uma das mãos em minha direção e eu faço o mesmo, cumprimentando-a.
– Olá, Cecille. Seja bem vinda a Los Angeles. – Faço a boa moça, mas só para agradar minha mãe.
***
Já estou com meus óculos escuros novamente quando encaro as palmeiras da minha cidade natal pela janela do carro. Cecille está no banco ao meu lado, tão quieta que fico até um pouco assustada. Onde está a encenação sobre estar gostando de tudo isso?
– Então, Cecille. – Minha mãe começa a falar com uma voz falsa que me irrita. Geralmente ela faz isso quando vai falar no telefone ou quando quer impressionar alguém. – Eu e seu pai estavamos planejando um jantar para comemorar a sua chegada.
A situação somada ao fato de estarmos presas em um congestionamento em meio à cidade me deixa enjoada. Respiro fundo e passo a mexer no celular, mas é claro que continuo prestando atenção na conversa.
– Vocês não precisam se incomodar, Margaret. – Cecille diz, um tanto sem graça. É óbvio que ela não quer um jantar para comemorar a sua chegada. Aposto que ela nem queria estar aqui, para começar... Isso me deixa um tanto irritada, porque na verdade, minha mãe só está tentando ser legal.
– Mas isso não é um incômodo. Aliás, já fizemos questão de contratar o melhor bufê da cidade! – Mamãe insiste. – O mesmo bufê que vai cuidar do casamento.
Olho de soslaio para Cecille e ela arregala os olhos quando minha mãe menciona que contratou um bufê só para um jantar caseiro. Confesso ter de segurar uma risada. Cecille não parece muito acostumada à viver em extravagância, embora seu pai, Mark seja tão rico quanto minha mãe.
Outro dia o ouvi comentar com mamãe que Cecille nunca aceitou ter suas contas pagas. A única coisa que ele banca é aluguel de um apartamento que nem é tão grande coisa assim. Mark falou da filha com tanto orgulho, que confesso que por um milésimo de segundo, eu invejei Cecille. Eu queria tanto saber me virar sozinha, ter meu próprio dinheiro e orgulhar meus pais... Tudo bem que ainda tenho dezessete anos e estou no terceiro ano do colegial, mas a verdade é que eu nem sei o que quero fazer da vida e não me vejo longe de casa.
– E além disso, nossos amigos estão super ansiosos para te conhecer. – Mamãe continua.
– Seus amigos? – Cecille parece surpresa.
– Sim, meus sócios e suas esposas. – Mark explica. – Sabe como é, né, tampinha?! Vivo falando de você.
Cecille sorri, de repente, mas eu acho que dessa vez ela sorri com sinceridade. É claro que está contente em ser o orgulho de seu pai... Só eu sei como gostaria de me sentir assim, pelo menos uma vez na vida.
– Marcamos o jantar para às oito. – Mamãe comenta. – E eu quero você em casa, viu Alicia?
Então meu coração quase sai pela boca. Minha mãe sabe muito bem que hoje tenho uma festa na casa de Travis, meu namorado há quase um ano. A gente anda brigando muito ultimamente e eu havia prometido que ia ajudá-lo com a festa. Não sabia que a minha mãe ia me obrigar a participar do jantarzinho estúpido em homenagem à sua enteada.
– O que?! – Pergunto, com indignação. Cecille já está olhando para mim, como se eu fosse uma criança fazendo birra e isso me deixa irada. – Mãe, você sabe que eu preciso estar na festa do Travis hoje, eu prometi...
– Não interessa. – Ela me corta, seca. – Família em primeiro lugar.
Suas palavras me tiram realmente do sério e tenho de contar até três para me recompor sem agir como uma idiota e chatear meu padrasto. A verdade é que não somos uma família e nunca seremos. E o fato da minha mãe agir como se fôssemos me irrita pra valer!
– Marge. – Mark chama minha mãe pelo seu apelido, carinhosamente. – Deixa ela ir pra festa. Ela é jovem, tem mais é que se divertir... E além do mais, tenho certeza que essa festa começa depois das dez. Ela pode ficar um pouco no jantar e depois Travis vem pegá-la em casa.
Eu já mencionei como adoro Mark? Ele vive me salvando das broncas da minha mãe e sempre me ajuda a conseguir o que quero dela. Cecille tem sorte em tê-lo como pai, de verdade.
– Tudo bem. – Mamãe diz, convencida. – Mas amanhã quero que fique em casa.
– Fechado! Obrigada Mark. – Agradeço, com um meio sorriso.
– De nada, raio-de-sol. – Ele me chama pelo apelido em que me deu no dia em que nos conhecemos. Segundo Mark, eu e minha mãe temos cabelos da cor da luz do sol. Olho para Cecille, procurando alguma reação pelo apelido, mas ela não faz absolutamente nada e continua a encarar a paisagem pela janela.
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