Unreal
1 Unreal
Ela entrou na casa enquanto se sentia sufocada, não era um ataque de nervos, era o fim do mundo que ela conhecia.
Ela não se sentia real, se sentia uma caricatura, ela se sentia uma boneca de cera, perfeita e construída apenas para ser admirada. Feita apenas para ser exibida por aí, feita dos sonhos das outras pessoas, das idealizações do que seria uma garota perfeita.
Ela tentou beber um copo de água para tentar manter a calma mas falhou em sua tentativa, suas mãos tremiam demais para poder segurar um copo. Ela jogou o copo de volta para pia e correu em direção ao banheiro.
Primeiro passo? Se olhar no espelho. Enquanto ela olhava o reflexo tentava procurar alguma imperfeição, algo que acusasse que tudo que estava acontecendo era um mero pesadelo.
–POR QUE?
Gritava ela enquanto sentia uma imensa vontade de expressar seus sentimentos em pranto, as lágrimas não caiam de seus olhos, ela não fora programada para chorar.
Ela voltara para a cozinha e com uma faca tentou fazer um corte na mão. Nada aconteceu, a lamina não penetrou sua aparentemente tão delicada mão. O desespero crescia dentro dela enquanto ela voltava para o banheiro.
– POR QUE?
Ela perguntou novamente gritando várias vezes, andando de um lado para o outro no banheiro em que se encontrava. Não conseguia se explicar com palavras, não conseguia entender o que era ou o que poderia ter sido.
A porta da frente fez um grande barulho quando se abriu, alguém havia voltado para a casa mais cedo do que devia. Apressada, ela tirou rapidamente o vestido rosa pálido que estava usando e entrou no banho, enquanto sentia a água descendo por suas costas ela sentia sua certeza sobre a farsa que tudo havia sido, tudo que ao seu redor era uma criação, uma ilusão, uma terra de faz de conta.
Ela era uma farsa, era forjada, seus pais não eram de fato seus pais, ela mal os viu em toda a sua vida, alguns aniversários ou festas de fim de anos, nada mais que isso.
Enquanto se secava ela pode ouvir o barulho da porta se fechar novamente "Teria ido embora?". Enrolada em um roupão ela foi até a cozinha procurar alguma evidência de que alguém passara por alí, encontrou um bilhete na porta da geladeira "Se matenha calma, não é o que você está pensando".
Não. Ninguém a convenceria de que não era o que ela estava pensando. Não estava tudo bem, a verdade havia a atingido e através da verdade era viveria, uma meia-vida de verdade.
Ela correu para seu quarto e começou a fazer as malas, a vida toda dela podia ser inventada, tudo ao seu redor podia ser mentira, mas essas mentiras eram apenas uma ferida de cobra, nem todo o mundo era horroroso e cruel, uma vez tirado o veneno ela poderia ser real.
Antes de sua partida naquela noite, ela colocou os jeans de sua irmã mais velha, agora ela entendia porque ela havia sido levada para longe, colocou uma camiseta laranja e soltou os cabelos loiros tentando esconder um pouco de seu rosto.
E mesmo sem que ninguém que pudesse ir procura-lá merecesse ela escreveu em um pequeno papel uma desculpa e deixou-o em cima da sua cama dossel.
"Isso é um bilhete de suicidio. Não ousem procurar por mim depois do tanto que vocês me usaram. Não quero mais estar aqui, não quero mais ser um brinquedo."
Dizia o bilhete.Ela pegou muito dinheiro do cofre, socou dentro da mala e fugiu.Já na estação comprou passagem só de ida para um outro do país, entrando no ônibus ela notou que seu assento era ao lado de uma senhora muito idosa. Ao se sentar a senhora lhe abriu um grande sorrisso e perguntou:
– Para onde você vai minha jovem?
Ainda cheia da amargura recente a jovem respondera:
– Vou ser alguém alguém de verdade.
O sorrisso da senhora se desfez, uma grande tristeza pode-se notar em seus olhos. A jovem sentiu-se mal por ter sido tão rude com alguém que não tinha lhe causado nenhum mal.
– Me desculpe senhora, estou em um dia ruim, onde a senhora vai?
Com o mesmo tom ríspido usado pela jovem antes ela respondeu:
–Voltar para o meu mundo de faz de conta.
Os ohos da jovem se arregalaram com tal resposta, ela reconheceu tudo o que estava sentindo naquela desconhecida, seus olhos carregavam a mesma amargura que os dela um dia poderiam carregar, a senhora sorriu e lhe disse:
–Não se assuste, agora, confie em mim e abaixe a cabeça, quero lhe dar a minha benção para que siga bem em sua viagem.
A jovem assim obedeceu, era de costume que os mais velhos dessem a benção aos mais jovens daquela forma, ela abaixou a cabeça enquanto a senhora colocava a mão em sua nuca e com os olhos fechados repetia "Que seu caminho e espirito se mantenham longe das forças destrutivas",a garota sentiu um estalo forte na nuca que a fez levantar.A velha senhora lhe sorriu novamente segurando um minusculo componente azul, algo que poderia lembrar um chip.
– Agora querida, eles nunca vão poder te encontrar viva.
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