Unlike Cinderella...
50 Capítulo 49 - War... - Parte 8
Notas iniciais
POV Manu
— Dallas, precisamos parar um pouco e descansar. – digo, preocupada com a situação em que estávamos. O garoto parecia cada vez mais desolado a medida em que avançávamos na direção em que tínhamos visto Taynara pela última vez.
— Descanse você. Eu vou até o inferno, se for preciso, para fazê-la pagar pelo que fez a Cassidy. – afirma, determinado, apertando as mãos em volta das rédeas de seu cavalo.
Desvio meu olhar do rapaz para o agitado mar a nossa frente. O dia estava amanhecendo. A chuva havia dado uma trégua, mas o céu nublado demonstrava que aquela tranquilidade não duraria por muito tempo.
Suspiro, cansada. Havíamos passado a noite inteira cavalgando, a procura de Taynara desde do ocorrido na floresta. A garota, de alguma forma, conseguiu escapar durante a nossa perseguição, frustrando-nos ainda mais.
O meu ódio pela a chamada Imperatriz do Submundo continuava a crescer com mais intensidade. Mais uma vez, Taynara havia conseguido acabar com a vida de um inocente e eu não pude evitar.
O som dos passos do cavalo de Dallas me levam de volta a realidade. Chuto levemente o lombo do cavalo em que eu estava e passo a acompanhar o moreno. Eu jamais o tinha visto tão cansado física e mentalmente.
— Você será mesmo capaz de matar sua irmã? – pergunto, observando o rapaz atentamente.
Dallas puxa as rédeas de seu animal e aperta as mesmas com força. Assusto-me com sua atitude e paro de cavalgar no mesmo instante. Ele abaixa a cabeça e suspira frustrado. Durante alguns minutos, Dallas apenas permanece em silêncio, parecendo analisar minha pergunta.
— Eu não me lembro de ter tido momentos fraternais com a minha irmã quando criança. – revela, levantando a cabeça. Ele encara o mar e suspira cansado. – Ela foi embora quando eu tinha cinco anos e só retornou em meu aniversário de treze anos. Taynara me ofereceu a chance de ir para a Noruega. – ele desvia seu olhar do mar para mim e passa a cavalgar devagar. Curiosa, eu o acompanho, prestando atenção no rapaz. – No primeiro momento, eu me animei com a ideia. Imaginei que Taynara, vovó, nossa mãe e eu poderíamos viver em um lugar melhor.
Ele ri amargurado e se cala por algum tempo. Dallas estava com o olhar distante, parecendo reviver as lembranças que invadiam sua mente. Permaneço em silêncio, apenas esperando que ele continuasse.
— Taynara não demorou muito a revelar o seu desejo. Ela não queria levar nossa mãe e muito menos a nossa avó. Taynara queria me tornar um de seus homens e planejava me treinar até que eu fosse capaz de assumir seu lugar no submundo. – Dallas volta a suspirar, frustrado. – Ela me contou sobre nosso pai ser um traficante insignificante e ter morrido durante uma de suas vendas de drogas pelo subúrbio da cidade. Nossa mãe era uma mulher que trabalhava em vários empregos para conseguir sustentar a mãe, o marido e os filhos, sozinha. Taynara nunca deu realmente valou ao esforço que ela fazia por nós.
— Sua mãe deve ter sido uma mulher incrível. – comento, imaginando as dificuldades que a mulher teve que passar para sustentar a família.
— Ela foi. – ele sorri, emocionado. – Mas, também não era uma pessoa muito presente em nossas vidas. Ela nunca parava em casa e quando estava, a única coisa que fazia era dormir até a hora de iniciar um novo turno em um de seus trabalhos. Talvez tenha sido por causa de sua negligência em nos criar que tenha feito Taynara se envolver com pessoas que não devia. Minha avó foi quem cuidou da nossa educação, mas o que uma senhora doente conseguiria fazer para controlar uma adolescente rebelde que sofreu inúmeras agressões por parte do padrasto, que chegava diversas vezes drogado em casa?
Surpreendo-me com a revelação de Dallas. O rapaz continuava com o olhar perdido e um sorriso triste moldando seus lábios. Ele suspira mais uma vez e se vira para mim. A dor brilhava com intensidade em seus olhos. Eu não sabia o que dizer para ele, mas aparentemente, Dallas não parecia incomodado com isso.
— Eu não lembro do meu pai, porque ele morreu quando eu só tinha dois anos, mas minha avó sempre me contou das loucuras que ele fazia quando estava drogado. Taynara e nossa avó, no geral, eram as principais vítimas dele. Minha mãe raramente estava em casa e eu era sempre defendido pelas duas, o que causava em inúmeros ferimentos e traumas em minha irmã mais velha. – fala, levantando um dos galhos de uma grandiosa árvore que nos atrapalhava a prosseguir. Assim que conseguimos passar, ele ajeita a postura e continua a contar: — Quando meu pai morreu, a paz passou a reinar em nossa casa, mas é claro que aquilo não durou por muito tempo. Minha mãe, sentindo-se culpada pelo o que a filha e a mãe foram obrigadas a aturar por causa do marido no qual ela não conseguia se livrar, passou a trabalhar ainda mais. Minha avó tentava criar Taynara e eu da melhor maneira possível, mas a sua doença piorava a cada dia.
— O que ela tinha? – pergunto, cuidadosa. Sabia que para Dallas devia estar sendo difícil revelar tudo sobre a triste vida que sua família viveu.
— Lombalgia. – responde. Percebendo a minha confusa, ele ri e dá de ombros, dando uma rápida olhada para o céu nublado. Após um suspiro triste, Dallas abaixa o olhar e me explica com o tom de voz suave: – É uma doença que atinge a coluna e que pode levar a pessoa a perder os movimentos, caso ela não faça o tratamento o mais cedo possível.
O silêncio se instala entre nós. Minha mente trabalhava em alguma frase de apoio, mas eu nunca fui boa quando o assunto era consolar uma pessoa. Suspiro, tristemente. Eu queria que Prince estivesse conosco. Ele sim saberia exatamente o que dizer para animar Dallas.
— Dallas... – tento dizer algo, mas o rapaz apenas balança a cabeça, negando que eu continuasse.
— Quando Taynara foi embora, minha avó estava em uma fase um pouco melhor. No entanto, a partida da neta a abalou profundamente. Minha mãe entrou em desespero e procurou minha irmã por muito tempo, mas não obteve nenhum sinal dela. Além disso, Taynara já tinha dezessete anos na época. A polícia não deu tanta importância e o caso de desaparecimento foi arquivado um ano depois. – ele respira fundo e sorri confiante. – Minha mãe desenvolveu síndrome do pânico e as dificuldades em nossa casa pioravam a cada dia que se passava. Para a nossa sorte, minha avó recebia um salário mínimo e recebíamos muita ajuda de amigos e vizinhos. Assim que eu completei doze anos, passei a olhar carros e fazer alguns bicos para ajudar em casa. Minha avó e minha mãe eram contra a minha decisão, mas eu não me importava. Só queria poder ajudar as duas e consegui dinheiro suficiente para pagar o tratamento da minha avó.
Ele para de falar, novamente, e respira fundo, como se fosse difícil contar sobre aquela época. Sinto uma grande tristeza por ver o quanto ele sofreu ainda criança.
— Quando Taynara retornou, ela tinha conquistado muito dinheiro e se tornado uma pessoa fria e calculista. Minha mãe e minha avó não reconhecia mais a garota esforçada e determinada que ela era antes de ir embora. – fala, abaixando a cabeça, levemente. – Ao invés de nos ajudar, assim que entendeu a situação em que estávamos passando e que eu não iria com ela para a Noruega, Taynara foi embora. Nem mesmo uma ajuda financeira ela foi capaz de nos dar e pouco tempo depois a minha mãe se matou, após viver anos em depressão profunda. – diz, com a voz carregada de sofrimento. Vejo uma discreta lágrima descer de seu olho e meu coração se aperta ao observar o sofrimento do rapaz. — Quando eu completei dezesseis anos, minha avó perdeu os movimentos da perna e passou a usar cadeira de rodas. Foi um dos momentos mais difíceis em minha vida. Ela era uma mulher cheia de energia. Não deixava que os obstáculos que era obrigada a enfrentar a desanimasse e sempre acreditava que o dia seguinte seria melhor que o anterior. – ele sorri, tristemente. – Por mais que a vida estivesse difícil, algo de bom aconteceu para mim. Eu conheci Cassidy e me apaixonei perdidamente pela loira. Ela estava machucada pelo relacionamento anterior com Austin e diversas vezes me rejeitou.
Dallas gargalha, divertindo-se ao lembrar da namorada. Sorrio feliz, mas logo me entristeço ao ver que o rapaz chorava, abalado. A morte da garota havia o destroçado por dentro. O brilho divertido nos olhos tão característico do rapaz já não existia mais.
— Cassidy era marrenta, mas eu sabia que aquilo era apenas uma máscara para esconder a garota doce e gentil que ela era. – conta, sorrindo nostálgico. – E após muita insistência de minha parte, ela aceitou sair comigo e até hoje não...nos separamos. – as lágrimas desciam silenciosamente pelo rosto de Dallas. Ele estava tentando se manter forte, mas a lembrança da namorada havia o acertado em cheio. – Ela...ela esteve ao meu lado quando eu perdi minha avó e tive que passar a morar com uma tia por parte de pai que jamais havia conhecido antes. – complementa, fechando os olhos, enquanto as lágrimas continuavam a descer.
— Dallas...
— Eu a amava, Manu. – confessa Dallas, chorando desesperado. Controle-me ao máximo para não chorar junto com o rapaz. – Cassidy...foi a mulher que mais amei em minha vida e minha própria irmã fez questão de tirá-la de mim. – diz, apertando os punhos, deixando claro o seu ódio. – Eu prometi a ela que a protegeria, mas não... fui capaz de evitar sua morte. – a voz de Dallas estava carregada de culpa. – Ela morreu por minha causa.
— Dallas, a culpa não...
— Não, Manu! Nós dois sabemos que se eu não tivesse sido tão idiota a ponto de acreditar que seria capaz de impedir minha irmã, Cassidy ainda estaria viva! – grita, angustiado. Ele respira fundo, tentando se acalmar.
— Cassidy te amava, Dallas. Você sabe disso. – digo, sorrindo tristemente para o rapaz. – Eu tenho certeza de que ela não ficaria feliz em te ver assim.
— Sim, eu serei. – diz, de repente, levantando a cabeça e limpando o rosto molhado.
— O que? – questiono, confusa.
— Respondendo a sua pergunta, – ele me olha com uma determinação que eu jamais havia visto em seus olhos. – sim, eu serei capaz de matar a minha própria irmã. Nem que eu preciso morrer, cumprirei, ao menos, a promessa que fiz a Ally. Eu a protegerei com a minha própria vida e não hesitarei em matar Taynara se for preciso.
Antes que eu dissesse algo a Dallas, ouço o barulho de passos próximos de nós. O rapaz ao meu lado parecia ausente ao que se ocorria ao nosso redor. Pego em minha arma e preparo-me para o momento em que eu a usaria.
Observando com cautela o lugar em que estávamos, passo a ver os inimigos escondidos entre arbustos e árvores. Por sorte, não eram mais do que dez homens, mas ainda assim, estávamos em perigo.
— Dallas. – sussurro, chamando a atenção do moreno.
— O que foi? – questiona, confuso.
— Estamos cercados. – informo, puxando a mina arma, discretamente. Dallas arregala os olhos e coloca a mão sobre o revólver em sua cintura. – Quando eu mandar, puxe seu gatilho e atire em todos os homens que estiverem em nossa frente. Eu cuidarei da retaguarda.
— Tudo bem. – concorda, puxando a arma e olhando-me com seriedade.
— Tome cuidado. – peço, analisando a floresta fechada em que estávamos. – Acredito que Taynara está por perto. Não podemos abaixar a nossa guarda e não sabemos o que ela está armando para nós.
Dallas balança a cabeça, concordando. Encaro o rapaz, com determinação e, silenciosamente, começo uma contagem regressiva.
— Agora! – digo, puxando a minha arma e chamando a atenção dos homens que nos cercavam.
De repente, os homens começam a se revelar, carregando espadas e armas de fogo. Dallas, obedecendo aos meus comandos, puxa sua arma e chuta seu cavalo, saindo em disparada e atirando em todos os inimigos que ousavam entrar na frente do grandioso animal.
Eu fazia o possível para consegui atirar e cavalgar ao mesmo tempo, mas era difícil quando se estava em meio a uma floresta, repleta de árvores com galhos baixos e corpos jogados ao chão, atrapalhando o percurso.
— Malditos! – grita Dallas, atirando em dois homens que estavam a sua esquerda.
— Dallas, cuidado! – grito, atirando em um homem que estava prestes a atingir a cabeça de Dallas. – Existem muito mais homens do que eu imaginava. – complemento, atirando nas cabeças de mais três homens que corriam atrás de nós.
Em meio à confusão, não percebo a árvore que estava a minha frente e acabo batendo a minha cabeça. Sentindo o ferimento latejar, abaixo minha guarda e é nesse momento que sou atingida por um tiro em meu braço direito.
Por impulso, deixo minha arma cair e coloco minha mão esquerda sobre o ferimento. Olho desesperada para o rapaz a minha frente e ele parece não notar que eu havia acabado de ser baleada. Desarmada, eu sigo logo atrás de Dallas, tentando desviar da troca de tiros que ocorria.
— Droga! – grita Dallas, irritado. – Manu, a minha munição acabou!
Frustrada e sem saber o que fazer, incentivo o cavalo a ir mais rápido, na tentativa de ficar lado a lado com Dallas em uma área mais aberta, mas os tiros que recebo em minhas costas me desorienta por um tempo. Para minha sorte, eu estava vestida com o colete a prova de balas.
— Eu estou sem arma e munição! – grito, controlando o impulso de gritar de dor.
— O que vamos fazer? – pergunta, enquanto pegava sua espada.
— Eu não sei. – digo, olhando em volta e me abaixando ao máximo para não ser atingida pelos tiros que os soldados inimigos davam. – Mas não podemos continuar aqui por muito tempo.
Pego minha espada e a uso para derrubar um dos homens que estava ao meu lado. Dallas continuava a usar sua espada para atrasar os inimigos, o que nos dava algum tempo de vantagem, mas aquilo não seria o bastante para nos salvar.
Tento encontrar alguma solução, mas a dor impossibilitava que eu pensasse com clareza. Meu braço formigava e ardia de maneira absurda, além de minhas costas doerem, devido ao choque das balas no colete, e minha cabeça continuava a sangrar, deixando-me ainda mais fraca.
— Manu! – grita Dallas, de repente, enquanto parava o seu cavalo.
— O que? – questiono, preocupada. Eu continuava abaixada e a crina do cavalo atrapalhava a minha visão frontal.
— Estamos sem saída. – fala, tentando controlar o cavalo. Levanto meu corpo e fecho os olhos, frustrada pela interferência de diversas árvores onde estávamos.
Conseguiríamos ultrapassar a barreira natural a pé, mas ainda assim teríamos dificuldade. O som dos homens de Edgar e Gavin se torna mais alto a cada instante em que eles se aproximavam. Sem arma e cercado por diversos homens, nós não conseguiríamos lutar contra todos. Eu não conseguia acreditar que aquele era o fim.
— Droga. – murmuro, tentando encontrar uma saída, além da qual havíamos entrado.
Dallas desce de seu cavalo e se prepara para lutar. Olho assustada e surpresa para o rapaz, impressionada com a sua coragem. Ele sorri para mim e ergue sua espada. Os inimigos não demoram a chegar. Desço de meu cavalo e me posiciono ao lado de Dallas.
Com suas espadas, eles avançam sobre nós. Desvio do primeiro a nos atacar e golpeio o segundo em seu pescoço, matando-o, instantaneamente. Um terceiro homem me ataca, atingindo meu braço ferido. Urro de dor e me afasto o máximo que posso.
O homem sorri, satisfeito. Controlo-me para não me deixar levar pela fúria que começava a me consumir. Respiro fundo e tento pensar em uma forma de matá-lo, sem que ele tivesse alguma chance de me atingir.
Sorrio ao ouvir que um homem se aproximava pelas minhas costas. O inimigo que estava a minha frente, se aproxima, imaginando que eu continuava sem saber que seu aliado estava prestes a me atingir.
Levanto a minha espada e, no exato momento em que eu seria atingida pelo o soldado atrás de mim, eu me abaixo e o homem acaba acertando o seu companheiro. Aproveito-me da distração e enfio minha espada em sua garganta. Puxo minha espada e degolo o outro homem que estava ferido.
O número de homens passa a cresce incessantemente. Olho parar Dallas e ele lutava bravamente contra três homens. Apesar da desvantagem, o moreno estava se saindo muito bem, mas eu sabia que era apenas questão de tempo até que os soldados inimigos nos vencesse pelo cansaço.
Desvio meu olhar de Dallas para os dois soldados que se aproximavam de mim. Ataco o primeiro e defendo-me do segundo. Eles reversavam os ataques, tornando ainda mais difícil conseguir atingi-los.
De repente, o som de tiros chama a atenção de todos. Olho para trás e me surpreendo ao ver Ally a poucos metros de nós. Ela estava ferida, mas parecia furiosa. Com Jade ao seu lado, elas começaram a atirar em todos os soldados que estavam lutando contra Dallas e eu e, em poucos minutos, o cenário havia mudado por completo.
As duas só cessam os tiros quando notam que não havia sobrado nenhum homem do exército inimigo de pé. Sorrio e suspiro aliviada. Dallas se coloca ao meu lado e sorri, compreensivo. Em nossas cabeças, aquele seria o nosso fim.
— Vocês estão bem? – pergunta Jade, olhando-nos com preocupação, enquanto se aproximava de nós.
Observo Ally recarregar sua arma. Seu cansaço era visível, assim como os diversos machucados que estavam espalhados pelo corpo. Notando o meu olhar sobre si, ela sorri tristemente e corre para abraçar Dallas e eu.
— Estamos sim. – respondo, sorrindo, ouvindo o suspiro aliviado de Ally.
— Graças a Deus. – diz a garota, afastando-se de nós. – Eu fiquei tão preocupada quando nos separamos durante aquela confusão.
— Está tudo bem, Ally. Não se preocupe. – afirma Dallas, sorrindo carinhosamente para a amiga.
— Vocês encontraram Taynara? – pergunta Jade, guardando sua arma.
— Não. – respondo, frustrada. – E vocês?
— O mesmo. – responde Ally, inspirando profundamente.
— Algum problema, Ally? – pergunta Dallas, ao notar a expressão desolada da morena.
— Edgar está morto. – informa, dando um sorriso triste para nós.
— E por que não está comemorando a derrota de nosso maior inimigo? – questiono, sorrindo aliviada por saber que o monstro estava morto.
— Meu pai também está morto, Manu. – revela Ally, levando as duas mãos ao rosto.
Jade abraça a garota, a consolando. Dallas e eu a olhamos assustados. Passo a mão pelo rosto, limpando o sangue que descia de minha testa e me retraio ao sentir a bala rasgando ainda mais a minha carne com o meu movimento.
Ignoro a minha dor e olho com tristeza para Ally. A garota parecia fazer um imenso esforço para não chorar e eu a admirava por possuir tanto autocontrole para não entrar em desespero. Dallas soca uma árvore, frustrado.
— Depois que nos separamos, após aquela confusão com Taynara, eu encontrei Jade. – continua, encostando a cabeça no ombro da amiga e a encara, com tristeza. – Eu contei a ela o que tinha acontecido e então passamos a procurar por vocês. No meio do caminho, nós os encontramos próximos daqui. No momento em que Edgar ia atingindo meu pai, eu atirei nele. Mas, por mais que eu tivesse me livrado do maior inimigo de Krósvia, isso não foi o suficiente para salvar a vida de meu pai e ele acabou morrendo em meus braços.
— Ally, eu sinto...
— Não. Tudo bem, Manu. – responde a garota, me interrompendo. Ela se afasta de Jade e sorri tristemente para mim. Inspirando profundamente, ela limpa o rosto, que estava manchado de sangue e nos olha seriamente. – Nós não temos tempo para lamentar a morte de todos. – fala, assumindo uma postura mais rígida. – Taynara ainda está a solta e, enquanto não conseguirmos detê-la, ela ainda é um grande perigo para Krósvia, mesmo estando machucada.
— Machucada? – questiona Jade, confusa. – Eu pensei que ela tivesse conseguido escapar ilesa.
— Manu conseguiu atirar nela antes da imperatriz alcançar o cavalo e sumir de nosso campo de visão. – explica Ally, suspirando, frustrada. Ela respira fundo e sorri cansada. – Ao menos, Jade trouxe notícias boas.
— O que? – pergunto, esperançosa.
— Prince e Dez estão vivos e bem. Acredito que estão vindo em nossa direção. Agora que os principais líderes inimigos estão mortos ou se renderam, os soldados estão se entregando a nossas tropas. – conta, fazendo com que tanto Dallas quanto eu, suspirássemos aliviados. Pensar que meu namorado não corria mais perigo me traz paz e mais força de vontade para lutar. – Tyler está vivo, mesmo depois de ter ficado cego de um olho e ter quebrado algumas costelas. Em pouco tempo, ele ficará bem. Lawrence chegou a se ferir enquanto levava... – ela para de falar por um momento. O brilho de dor era intenso em seus olhos e logo percebi que Dallas e Ally compartilhavam do mesmo sentimento. – Enquanto levava Cassidy de volta para o Castelo Cristal.
— Mas, Graças a Deus, ele está bem. – conta Jade, demonstrando alívio e satisfação. Olho desconfiada para a mulher, que sorri sem graça por ter deixado tão evidente a sua exagerada animação.
Resolvo ignorar, temporariamente, a reação de Jade e me volto para Ally. Ela continuava a carregar o olhar de preocupação e o peso da culpa em seus ombros. Lembro-me, então, de que Austin não estava nada bem quando deixamos o palácio e que foi muito doloroso para a garota, deixá-lo naquela situação.
— E quanto a Austin? – pergunto, apreensiva.
Ally fecha os olhos e parece fazer uma prece em silêncio. Quando ela volta a abri-los, lágrimas ameaçavam descer pelo belo e marcado rosto da rainha. Olho preocupada para a garota. Engolindo em seco, o choro, ela inspira e solta o ar, diversas vezes, tentando se acalmar e leva a mão ao ombro machucado.
— Austin continua em coma. – conta Jade, sorrindo tristemente. – Não sabemos o que vai acontecer com ele. A partir de agora, as coisas só dependem da própria recuperação dele. Tudo o que Diane podia fazer, ela fez. A única coisa que nos resta é rezar para que ele fique bem.
Ally suspira e se vira, começando a caminhar, recolhendo todas as armas e munições que encontrava em meio aos corpos espalhados. Após garantir que já tinha revistado a todos, a garota nos entrega o que encontrou e se dirige ao cavalo que estava preso em uma árvore próxima de nós.
Nós a encaramos, preocupados, sem saber como reagir ao sofrimento pelo qual a menina estava passando. Ela monta no animal, ajeita sua espada e os dois revólveres que estavam escondidos por debaixo do colete e nos observa com seriedade.
— Vamos. – fala, tentando controlar seu cavalo. – Taynara não deve estar muito longe daqui.
Sem esperar por mais ordens, pegamos nossos cavalos e seguimos Ally em meio a floresta. A chuva volta a cair e o som das ondas batendo contra a costa de Krósvia deixava o cenário ainda mais aterrorizante.
Conforme avançávamos, mais sombria a floresta se tornava. Os animais estavam encolhidos, atentos a tudo o que ocorria a nossa volta, enquanto a chuva continuava a se intensificar. Era inevitável não recordar do dia em que Prince, Tyler e eu fugimos de Krósvia, após o banimento de meu namorado de seu próprio país.
— Qual o problema, Manu? – pergunta Jade, olhando-me com preocupação.
— Nada. Eu só...
De repente, um grande estrondo ecoa pela floresta, assustando-nos. Curiosos e preocupados por saber o que estava acontecendo, galopamos mais rápidos, indo em direção ao o que quer que tivesse sido aquele som.
O caminho era repleto de árvores e corpos de aliados e inimigos, o que dificultava e muito a nossa passagem. A destruição não demora muito a aparecer, assim como os restos de corpos. Paramos nossos cavalos e passamos a observar melhor a área.
— Mas, o que aconteceu aqui? – pergunta Dallas, assustado.
— Isso, com certeza, foi uma bomba caseira. – respondo, observando os restos de materiais que haviam próximos de nós. – Quem quer que tenha feito isso, sabia muito bem o que estava fazendo.
— Taynara. – murmura Ally, seriamente.
— Acredita mesmo que foi ela que fez isso? – pergunta Jade, aproximando-se da garota.
— Não tenho dúvidas. – responde, cavalgando lentamente, analisando o perímetro. – Taynara foi treinada pelos noruegueses para ser uma espiã.
— Ally tem razão. – fala Dallas, suspirando, frustrado. – Taynara mesma me disse que recebeu um treinamento especial para conseguir se virar em qualquer situação.
— Então precisamos correr. – digo, começando a cavalgar. – Ela não deve estar muito longe.
Durante vinte minutos, percorremos pela floresta, temendo o que estava por vir, mas nos frustramos ainda mais por não encontramos nenhum sinal de Taynara.
Meu braço continuava a latejar, tento ignorar a dor, mas estava sendo impossível. Paro o meu cavalo e me curvo, respirando com dificuldade. Ao notarem que eu não os seguia mais, Ally, Dallas e Jade param seus cavalos e me olham com preocupação.
— Vão na frente. – digo, com dificuldade.
— O que houve? – pergunta Ally, aproximando-se de mim, preocupada.
— Eu levei um tiro. – conto, retraindo-me. – Acho que por causa dos movimentos do cavalo, a bala está perfurando cada vez mais a minha pele.
Jade, no mesmo instante, desce de seu cavalo e me estende a mão. Olho, confusa para a mulher e ela me encara com preocupação. Tento sorri e fingir que a dor era menor do que estava sendo, realmente, mas o máximo que consigo fazer é chorar.
— Vem, Manu. – fala Jade, carinhosamente. — Vamos cuidar desse ferimento.
Antes que eu tivesse a chance de descer do animal, os sons de tiro próximos de nós, assusta o meu cavalo. Por impulso, agarro-me ao pescoço do animal e, quando consigo o equilíbrio, tento acalmá-lo.
Ally começa a correr em direção aos gritos e tiros que vinham de trás das árvores a nossa frente. Respiro profundamente e, ignorando a dor, passo a seguir a garota, enquanto ouvia os relinchos assustados dos cavalos de Dallas e Jade.
Quando chegamos ao local de onde os tiros vieram, surpreendo-me ao notar a presença de Taynara. Mas, meu coração se aperta ao ver que a mulher estava a poucos centímetros de Prince e apontava uma arma em sua garganta. Próximo dos dois, Dez estava deitado no colo de Trish, que chorava descontroladamente e chamava pelo nome do amado.
Observo o lugar e percebo que estávamos no despenhadeiro mais perigoso de Krósvia. O lugar era alto e o mar batia com intensidade nas pedras que o cercavam. O violento som das ondas eram o bastante para que todos deduzissem a queda ali poderia ser mortal.
— Taynara! – grita Dallas, furioso. – Largue-o, agora!
— Irmãozinho. – fala a mulher, com ironia. – Vejo que você continua chateado pelo que fiz. Mas, não fique assim. A sua irmã mais velha só fez o que achava ser o melhor para você.
— Vá para o inferno! – grita o rapaz, descendo de seu cavalo.
Ally, Jade e eu fazemos o mesmo, mas o som do gatilho de armas faz com que ficássemos paradas. Cinco homens, segurando armas de potentes calibres nos olhavam com ironia e se divertiam com a cena que ocorria.
— Isso é jeito de falar com a sua irmã? – pergunta a garota, dando uma coronhada na cabeça de Prince, que cai inconsciente no chão.
— Não! – grita Ally, assustada.
— Prince! – grito, desesperada. Quando eu estava prestes a correr em direção a meu namorado, a garota balança a cabeça, negativamente, e aponta sua arma para Trish. – Eu, se fosse você, não cometeria um erro estúpido como esse.
— O que faremos? – sussurra Jade, indecisa, enquanto segurava sua arma com firmeza.
— Desista, Taynara. – fala Ally, friamente. – Todos os seus aliados estão mortos. Você perdeu. — Ally se aproxima de nós e faz um sinal discreto para que chegássemos mais perto. – O jogo acabou.
— O jogo só acaba quando eu disser que ele acabou. – responde Taynara, caminhando até Prince, sorrindo maleficamente.
✻
Continua...
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