Unlike Cinderella...
37 Capítulo 36 - Storm...
Notas iniciais
POV Dez
O céu estava nublado. Uma forte chuva estava prestes a cair em Miami e, assim como o clima estava fechado do lado de fora do QG, o humor de todos não era o dos melhores.
Em breve, seria realizado o velório de Kira e ninguém conseguia esconder a tristeza e a melancolia que sentiam. Mesmo não conhecendo a morena muito bem, ela salvou a minha vida e eu não tinha palavras para agradecer ao que ela fez por mim.
Ally passou o dia trancada em seu escritório, permitindo ser interrompida, apenas, em casos de emergência, o que preocupou a todos, afinal, a garota era a que mais sofria e se culpava pela morte da dama de companhia.
Olho para o céu, mais uma vez, e percebo que o dia estava chegando ao fim. Sentado, em um banco improvisado próximo a caverna onde se encontra a entrada para o QG, as lembranças retornam com intensidade.
Em momentos difíceis como o que estamos passando, eu não consigo evitar de pensar em meu pai. Desde muito jovem, eu tive que aprender a lidar com o universo em que Austin vive. Diferente do que todos pensavam, eu sabia da origem da família Moon, antes mesmo da história ser revelada a Austin e aos outros.
Antes de falecer, meu pai me ensinou tudo o que sabia sobre luta e treinamento militar, como era de se esperar do comandante das tropas de segurança de Serafine.
Eu não entendia o motivo do meu pai me educar com tanto rigor, mas, conforme eu ia crescendo, eu comecei a entender a necessidade de proteger o herdeiro da coroa de Serafine.
Eu tive que manter segredo do meu melhor amigo. Perdi as contas de quantas vezes eu tive que mentir para Austin e esconder do mesmo tudo o que acontecia ao seu redor. A única alternativa que eu tinha era ser o palhaço, bobo, idiota da turma, para esconder quem eu realmente era. Ninguém poderia desconfiar do que acontecia.
Durante anos, eu fui alertado sobre os perigos que me cercava e qual era a minha missão. Minha mãe nunca aceitou a decisão de meu pai em me colocar na posição de protetor oficial do príncipe, mas a mesma não teve muitas opções.
O problema foi quando o homem que eu mais admirava morreu em uma batalha contra alguns inimigos que tentaram atacar a família de Austin durante as férias dos Moon’s.
Nunca guardei rancor de Austin e sua família, mas o mesmo não aconteceu com minha mãe. A mulher culpou a monarquia serafinense e não aceitou que eu continuasse a missão de meu pai, que era proteger os reis e seu herdeiro.
Consegui esconder de Donna Wade, minha mãe, sobre a minha desobediência a sua ordem até a chegada de Ally. Quando descobriu que a noiva do príncipe havia fugido de seu país, a mulher soube no mesmo momento que uma guerra estava para acontecer. Havia chegado a minha hora de lutar ao lado de Austin, Ally e seus aliados.
Como castigo por ter insistido em proteger aos futuros reis, Austin e Ally, Donna mandou Didi, minha irmã mais nova, para morar com alguns familiares desconhecidos, longe de mim. Sem saída, tive que aceitar a separação para o próprio bem da garotinha. Perto de mim, ela correria muitos riscos.
Vendo que eu, ainda, não havia desistido da ideia de cumprir com minha missão, a mulher passou a me ignorar. Desde então, tenho tentado reatar a já complicada relação que tínhamos, mas sei que isso não será possível. Donna jamais aceitará o meu destino e eu continuarei a lutar ao lado de Austin e Ally.
– Você deveria ir se arrumar. O enterro será daqui a duas hora. – fala Trish, aproximando-se de mim.
– Eu já estou indo. – digo, observando a garota se sentar ao meu lado.
Os cabelos encaracolados da morena estavam molhados, indicando que havia saído do banho a pouco tempo. Seu suave perfume parecia fazer caricias ao meu olfato, acalmando-me aos poucos.
– O que houve? Você está tão pensativo. – pergunta Trish, olhando para mim com intensidade.
Paro de olhar para os olhos curiosos de minha amada e volto a encarar o céu escuro. Os primeiros pingos da chuva começavam a cair. Por mais que devêssemos fugir da tempestade que estava prestes a chegar, Trish e eu continuamos sentados, em silêncio.
– Pergunto-me se um dia serei capaz de ser um guerreiro tão bom quanto meu pai foi. – comento, fechando os olhos, enquanto sinto os finos pingos de água caírem sobre meu rosto.
– Seu pai, onde quer que esteja, deve sentir muito orgulho de você, Dez. – afirma Trish, apertando minha mão com carinho. – Assim como eu, ele está admirando o homem que você se tornou.
Olho para a garota ao meu lado e suspiro cansado. Sorrio para Trish e me aproximo um pouco mais da morena. Coloco uma mão em seu rosto e contorno sua boca com meus dedos.
O brilho em seus olhos atrai-me de forma inexplicável. Acaricio seu rosto por mais um tempo e beijo seus lábios com carinho. Sinto as mãos da garota subir para meu pescoço, obrigando-me a aprofundar o beijo.
Sem pressa alguma, saboreio da sensação de tê-la em meus braços. Sentindo a chuva se intensificar, eu não me importava de fato com o que acontecia ao meu redor.
Afasto-me quando o ar se faz necessário. Com a testa colada a dela, continuo a selar nossos lábios mais algumas vezes. Ela olha em meus olhos e para minha felicidade, enxergo carinho, paixão e amor nos mesmos.
– É melhor entrarmos. – sugiro.
Ela sorri, concordando. Abraço-a com carinho e começamos a caminhar em direção a entrada da caverna. Por mais que eu já tivesse feito o curativo, o ferimento recente ainda dificultava os meus movimentos.
Minutos depois, nós já nos encontrávamos dentro da base, desviando de inúmeros agentes que trabalhavam sem parar no grandioso lugar. O barulho da chuva era inaudível naquele agitado QG, fazendo com que esquecêssemos que o mundo parecia cair do lado de fora.
– É quase inacreditável como eu já consegui me acostumar com essa agitação fora do normal. – comenta Trish, com tranquilidade.
Beijo o topo da sua cabeça e rio com o comentário. Por mais que estivéssemos vivendo nessa loucura a pouco tempo, tínhamos a sensação que pertencíamos a esse lugar.
– Tenho que concordar. – admito, sorrindo discretamente. – Pertencemos a esse mundo, muito mais do que imaginávamos.
– De qualquer forma, essa tranquilidade não vai durar por muito tempo, não é? – fala Trish, com o olhar triste.
A vontade de negar a sua afirmativa e tirar aquela expressão preocupada de sua face era imensa, mas nós sabíamos que mesmo evitando pensar no assunto, a guerra irá acontecer mais cedo ou mais tarde. A calmaria é só uma máscara que está sendo usada para esconder o que está por vir.
– Nós vamos conseguir. – afirmo, apertando Trish, ainda mais, contra mim.
Ela balança a cabeça, concordando e solta um suspiro preocupado. Continuamos calados, enquanto seguíamos pelo corredor que nos levaria aos quartos.
Antes que chegássemos ao nosso destino, visualizamos Lawrence andando no sentido oposto ao nosso, com Nina ao seu lado. A mulher anotava o que estava sendo dito pelo loiro e comentava vez ou outra.
– Olá casal. – cumprimenta Lawrence, sorrindo simpático.
– Oi Lawrence. – diz Trish, retribuindo o sorriso. Apenas balanço a minha cabeça e sorrio também.
– Eu já vou indo, Lawrence. Volto a falar com você mais tarde. – fala Nina, terminando de escrever algo em seu bloco de anotações. – Tchau Dez e Trish.
Nina sai apressada, sem nos dá chance de responder a sua despedida. Lawrence observa a mulher e revira os olhos, como se nunca fosse entender a mesma.
– Vão ao enterro da dama de companhia da princesa? – pergunta Lawrence, mudando de assunto.
– Sim. Podemos ter conhecido Kira recentemente, mas ela fez muito por nós, principalmente, por Ally. – respondo.
Trish se solta do abraço, mas continua ao meu lado. Lawrence olha para nós e faz um gesto com a cabeça, concordando com minha fala. Ele parece aéreo por um tempo, mas logo volta a prestar atenção em nós.
– Aquela garota era corajosa. – comenta Lawrence, enquanto cruza os braços abaixo no peitoral. – Diversas vezes ela se provou leal a princesa e não devemos esquecer o valor de sua lealdade.
– Ally continua se culpando pela morte de Kira. – fala Trish, pesarosamente. – Queria tanto fazer alguma coisa para aliviar a dor de minha melhor amiga, mas tudo que penso em fazer parece ser inútil.
– Existem coisas que somente a princesa pode resolver, Trish. – responde Lawrence. – Por mais que queria tomar suas dores, ela precisa superar esse obstáculo para seguir em frente.
De alguma maneira, eu entendia bem as palavras de Lawrence. São desafios como esse que nos fazem crescer. Não é fácil esquecer o passado, erguer a cabeça e continuar lutando.
Agora, mais do que nunca, Ally precisa se mostrar forte o bastante para nos liderar. Uma guerra a caminho significa ter tudo ou nada em suas mãos. Como líder, a morena precisará fazer escolhas que podem comprometer o nosso futuro e ser a chave para a vitória ou derrota. Ou seja, a responsabilidade dos resultados da guerra será toda da princesa.
– Dez. – chama Cassidy, aproximando-se de nós. Ela abraça Trish e volta a me encarar. – Ally precisa falar com você agora.
– Algum problema? – pergunto, preocupado.
– Não tenho certeza. Ela não disse muita coisa, apenas pediu para que eu dissesse que fosse a sala de operações particular dela. – explica a loira.
– Tudo bem. – falo. Dou um selinho em Trish e logo me afasto. – Vejo você mais tarde.
– Vai logo, Romeu. Sua Julieta vai ficar bem. Não vou sair de perto dela em nenhum momento. Serei seu fiel escudeiro versão feminina. – brinca Cassidy.
Rio, enquanto balanço a cabeça negativamente. Lawrence dá um leve tapa em minhas costas e Trish sorri com carinho. Caminho sem demora até a sala de Ally.
Ao chegar ao local, bato na porta e em segundos a mesma é aberta. Entro na sala e me deparo com Ally escrevendo algo em seu computador e anotando algumas coisas em sua mesa digital, que é idêntica com a da sala de reuniões principal do SOSK.
– Sente-se, Dez. – fala Ally, sem tirar os olhos da tela do computador. – Já estou terminando aqui.
Faço o que a garota tinha pedido e começo a observá-la, enquanto trabalha em algo que eu não soube identificar. Após alguns minutos, ela parece, finalmente, finalizar o que fazia. Com um suspiro cansado, ela encosta em sua cadeira e desliga o computador.
– Parece sobrecarregada. – comento, preocupado. – Não deveria se ocupar tanto. Pode acabar ficando doente.
– Não se preocupe. – diz Ally, sorrindo. – Eu já estou acostumada com todos esses esquemas. Tenho que admitir que nunca imaginei que as aulas de estratégia do Sr. Rodriguez seriam tão úteis.
Sorrio e observo a garota voltar a se ajeitar na cadeira. Ela olha para o relógio em seu pulso e apenas fecha os olhos, como se desejasse sumir por um longo tempo.
– Mandou me chamar? – pergunto, tentando fazer os pensamentos ruins de Ally desaparecerem. Ela volta a abrir os olhos e balança a cabeça, concordando.
– Preciso confessar que fiz uma pesquisa sobre a sua família, Dez. – diz Ally, com a expressão séria. Não fiquei tão surpreso assim com essa constatação. – Soube que seu pai foi um valioso comandante das tropas de segurança de Serafine. Isso é verdade? Não precisa se preocupar com Austin. Ele nunca vai saber dessa conversa. Isso ficará apenas entre nós.
Olho para Ally e volto a me encostar na cadeira em que estava sentado. Eu não precisava esconder nada de Ally e isso me dava um certo alivio. Eu nunca contei a Austin que eu sabia do segredo de sua família e isso me preocupava.
– Sim, Ally. Meu pai, assim como seu pai, avô e outras gerações passadas, serviu a monarquia serafinense. Essa tradição foi passada a mim, mesmo contra as vontade de minha mãe. – explico, sentindo um certo alivio por poder compartilhar isso com Ally. – Assim como você possui servos espalhados por todo o mundo, Austin também tem. A diferença é que os de Serafine trabalham de maneira silenciosa. Somos considerados espiões. Com o fim do reino, ninguém poderia saber da existência dos leais protetores da realeza de Serafine.
– Certo. – fala Ally, não demonstrando surpresa.
Ela levanta de sua cadeira, se vira para o imenso monitor da sala e caminha de um lado para o outro, pensando em algo. Soltando um suspiro, ela volta a caminhar em direção a mesa em que eu estava.
– Devido o perigo de se lutar por algo proibido, a Guarda Real Secreta de Serafine não mantém contato entre si, a não ser em casos de emergências. – complemento, observando Ally se sentar novamente.
– Além de Trish e sua família, alguém mais sabe das suas origens? – pergunta Ally, analisando-me.
– Apenas os pais de Austin, acredito eu. – respondo com sinceridade, tentando não me surpreender por Ally saber que Trish também sabia de onde eu era. – Por quê?
– Você foi treinado para ser um espião, Dez, e eu vou precisar de suas habilidades. – começa Ally.
– O que você quer que eu faça? – pergunto, animando-me com a possibilidade de ser útil a Ally.
[...]
A chuva ainda caia com intensidade quando seguimos o caixão de Kira pela densa floresta próxima a entrada do QG. Além dos amigos mais próximos, alguns agentes nos acompanhavam com tristeza estampada em seus olhos.
A dor de perder um companheiro de batalha é grande. O pior de tudo é saber que Kira não é a primeira e nem será a última a morrer lutando pela liberdade de Krósvia.
Trish, ao meu lado, chorava em silêncio, como se tivesse medo que alguém percebesse a tristeza que a preenchia no momento. Os inúmeros guarda-chuvas enfeitavam a paisagem sombria do lugar.
A escuridão e a chuva complicavam a visão, por isso, éramos guiados por alguns agentes que seguiam com lanternas para iluminar o caminho.
Ally ia na frente, com a cabeça erguida, demonstrando controle total de suas emoções. Por mais que estivesse sofrendo, ela precisava permanecer forte perante seus servos.
Ao chegarmos no local onde o corpo seria enterrado, Ally não disse nada, apenas colocou uma flor branca sobre o caixão e se afastou. O processo foi repetido por todos que se encontravam no local. As palavras pareciam ter sumido e ninguém conseguia dizer nada. A única coisa que fazíamos era observar o belo caixão de cor escura se abaixado, enquanto a chuva caia torrencialmente.
– Acho melhor levarmos as garotas de volta para a base. – sugere Dallas, com Cassidy em seus braços, debaixo de um grande guarda-chuva. A loira estava com a cabeça abaixada, mas seu corpo tremia, demonstrando fragilidade.
– Sim. A chuva está engrossando cada vez mais. A cada minuto que passa, aqui fica mais perigoso. – digo, concordando com sua sugestão, enquanto olho para Trish, que apertava minha blusa com força. – Austin disse alguma coisa?
– Ally vai continuar aqui. Presumo que ele não vai sair de perto dela tão cedo. – fala, enquanto começa a caminhar. Acompanho o casal, colocando-me ao seu lado junto com Trish.
Pegamos duas lanternas com um dos agentes que cuidavam da iluminação e seguimos de volta para a base. A culpa de não ter ficado ao lado de Austin e Ally era grande, mas o cansaço físico e psicológico que Trish, Dallas, Cassidy e eu carregávamos era ainda maior. Não aguentaríamos ficar debaixo daquela chuva por tanto tempo assim.
Em pouco tempo, estávamos dentro do QG, cercados pela intensa atividade do local, que não cessava por nenhum minuto. Trish e Cassidy haviam parado de chorar, mas seus olhos estavam extremamente vermelhos e os ombros levemente caídos.
Quando as duas foram se deitar, Dallas e eu seguimos para o refeitório da base. Não tínhamos ânimo para fazer nada e nem sono para dormir no momento.
– Você está bem? – pergunto, observando o moreno ao meu lado.
Havíamos chegado ao refeitório e procuramos uma mesa para nos sentarmos. O lugar estava praticamente vazio, o que deixava tudo ainda mais silencioso.
– Não vou negar, eu estou assustado. – confessa, olhando em meus olhos, após se sentar na cadeira a minha frente.
– Está pensando em desistir? – pergunto, enquanto observo a movimentação do corredor do lado de fora do refeitório.
– Não. Eu dei minha palavra de que iria até o fim e vou fazer isso. Mas, eu não consigo evitar em pensar no que pode acontecer. Eu não quero morrer e não poderia viver sem Cassidy. – fala, suspirando, pesadamente, em seguida.
– Entendo o que quer dizer. – digo com sinceridade. – No entanto, não podemos perder tempo pensando no que vai acontecer.
– Às vezes eu tenho a impressão de que sou o mais fraco daqui. – ri Dallas, sem humor. – Serei capaz de lutar de igual para igual com os inimigos que iremos enfrentar?
Observo meu amigo por um tempo. Eu queria saber o que dizer a ele, mas eu mesmo não tinha certeza do que pensar. Não faço a menor ideia de como serão nossos inimigos e se nossas habilidades são o suficiente para lutar ao lado de Austin e Ally.
– Estão duvidado de suas habilidades, jovens guerreiros? – fala Lawrence, sentando-se ao nosso lado.
– Lawrence. – digo e o mesmo balança, levemente, a cabeça, como se me cumprimentasse.
Olho para Dallas e ele parecia tão confuso quanto eu. Volto meu olhar para Lawrence e o mesmo estava sério. De alguma forma, isso me preocupou um pouco.
– Não responderam minha pergunta. – fala o loiro.
– Estou duvidando de tudo que está acontecendo, Lawrence. – diz Dallas, desanimado. – A estratégia de Ally é incrível, mas sei que possui fraquezas, assim como o plano de nossos inimigos. Não quero ser o pessimista, no entanto, não sei se serei capaz de lutar de maneira habilidosa como Austin ou Dez.
Lawrence observa Dallas com intensidade, sem demonstrar qualquer emoção. Após alguns minutos em silêncio, tudo o que o loiro faz é ri, parecendo se divertir com a fala de meu amigo.
– Por que está rindo? – pergunto, estranhando o comportamento do outro.
Lawrence continuava a ri, como se não conseguisse controlar sua crise, causando irritação em Dallas, que levanta de uma vez e bate as duas mãos na mesa, chamando atenção não só de nós, mas como das cinco pessoas que também estavam no refeitório.
– Achou engraçado, Lawrence? – pergunta Dallas, irritado. Coloco-me em alerta para evitar qualquer bobagem que o moreno pudesse fazer. – É tão inacreditável assim que as pessoas não sejam corajosas como você?
– Não me entenda mal, garoto. – fala Lawrence, recuperando-se de sua crise de riso, enquanto passa a mão pelos olhos, limpando algumas lágrimas que estavam descendo. – Não estou rindo de você, apenas estou surpreso por ter coragem de confessar sua insegurança. Geralmente, garotos da sua idade tendem a agir como se fossem os heróis do mundo. Eu imaginei que fosse me dizer uma bobagem qualquer, acreditando que eu iria cair nessa. Estou surpreso, de fato, com a sua determinação, mesmo com seus medos falando mais alto.
– Não estou te entendendo, Lawrence. – confesso, enquanto observo Dallas voltar a se sentar, surpreso pela fala de Lawrence.
– Tenho uma oferta a fazer a você... Dallas? Acho que esse é o seu nome. – fala Lawrence, colocando a mão no queixo, como se tentasse se lembrar do nome do moreno. Vendo o mesmo concordar, o loiro continuar: — Bem, isso não importa. De qualquer forma, o que me diz de ser treinado por mim?
Dallas o olha surpreso, sem acreditar em sua proposta. Analiso Lawrence, procurando qualquer sinal de que estivesse brincando. No fim, desisto, afinal, não conheço o homem a minha frente e pelo que sei sobre Lawrence, o mesmo é o melhor mentiroso e canalha de todos os tempos.
– Está brincando comigo? – pergunta Dallas, ainda em estado de choque.
– Eu não brinco com esse tipo de coisa, garoto. – fala Lawrence, colocando os braços atrás da cabeça, enquanto se estica, de maneira desleixada, na cadeira. – É pegar ou largar.
Eu não sabia se deveria ou não interferir na proposta tentadora de Lawrence. Por mais que Ally confiasse plenamente no loiro, o mesmo sentimento não era compartilhado por Prince, Manu e Tyler. Caso algo de ruim viesse acontecer, as consequências poderiam ser irreversíveis.
– Dallas... – chamo, na esperança de ter a atenção de meu amigo. O garoto estava sério, pensativo, como se analisasse a oferta de Lawrence. Preocupo-me com sua resposta.
– Como posso ter certeza de suas habilidades com luta? – fala Dallas, desafiadoramente para Lawrence.
Nesse momento, a tensão se apossa sobre mim. Olho para Lawrence, esperando qualquer reação negativa por parte do homem, mas antes que eu pudesse interpretar sua expressão, o loiro já havia sacado sua arma e atirado na direção de Dallas, passando de raspão pelo rosto do moreno e acertando o copo de suco de um dos agentes, que estava a mais de vinte metros de distância de nós e caminhava em direção a uma mesa.
– Está bom para você ou eu preciso de mais habilidades de luta? – pergunta Lawrence, debochadamente.
A bala havia passado a milímetros de acerta Dallas. Eu nunca tinha visto alguém que fosse mais rápido que meu pai na questão do tiro. Lawrence conseguia ser ainda mais incrível que qualquer atirador de elite que eu já vi em ação.
Olho para Dallas e o moreno estava mais branco que o normal. Após alguns segundos, recuperando do susto, ele começa a sorri e olha para mim, como se deixasse claro sua decisão.
– Eu aceito ser seu discípulo. – fala o moreno, arrancando um sorriso irônico de Lawrence. – Quero que me treine e me faça forte o bastante para ser útil.
No mesmo instante, Prince entra na sala acompanhado de Manu, Tyler, Nina, Mimi, Mike, Austin e Ally. O loiro se coloca de pé e passa a observar as expressões dos oito. A tensão volta a habitar o refeitório.
Os agentes que estavam no lugar, percebendo que algo de muito ruim estava para acontecer, saem apressadamente do refeitório, deixando à sós naquele amplo salão.
A única pessoa que não demonstrava qualquer expressão era Ally. A raiva destacava nas faces de Prince, Tyler e Manu. Já Austin e seus pais estavam surpresos com o que estava acontecendo.
Prince pega sua arma e mira na cabeça de Lawrence, assustando ainda mais a mim. Lawrence parecia não se importar com a reação do irmão mais velho de Ally, pois estava bastante tranquilo e relaxado.
– Me dê apenas um motivo para não puxar esse gatilho, Lawrence Khan, e acabar de vez com a sua vida miserável. – fala o homem, demonstrando toda a sua fúria em seu tom de voz.
✻
Continua...
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