Unlike Cinderella...
44 Capítulo 43 - War... - Parte 2
Notas iniciais
POV Ally
Cuidadosamente, soltei a corrente dourada no pescoço, deixando o peso do relicário de ouro galês cair na palma da minha mão. Encaro a delicada joia, relembrando que aquele havia sido o último presente de minha mãe.
A guerra havia se iniciado e a tragédia havia se espalhado por toda a Europa. Martine e Krósvia foram os líderes desse conflito. Em meio ao caos, um pouco antes de me trancafiarem, minha mãe me entregou o relicário e, pela primeira vez na vida, abraçou-me com afeto e garantiu que tudo acabaria bem. Voltei a vê-la seis meses depois, no entanto, a sua frieza havia retornado junto a de meu pai.
Caminho até a grandiosa janela de meu quarto e observo o jardim. Estamos no início de agosto, mas estava frio dentro das grossas paredes de pedra do castelo. Mesmo no verão, uma brisa gélida atravessava os quartos como um fantasma solitário.
Abro o relicário e olho para o retrato em miniatura de meus pais, me segurando no colo ainda bebê. Fecho aquela pequena joia, sentindo meus olhos ficarem embaçados. Viro-me para o espelho, observando minha imagem.
A couraçada¹ prata brilhava em meu tronco, junto com a espada em minha cintura e o escudo em meu braço esquerdo. Coloco a pesada peça, que eu segurava, sobre a poltrona de meu quarto e volto a me encarar. A imagem de minha mãe amedrontada não saia de minha mente. Sua conturbada sanidade estava se esvaindo cada vez mais. E mesmo a isolando de qualquer caos que tivesse para acontecer, eu não sabia dizer o que ela faria assim que ouvisse os primeiros sons da guerra.
Suspiro frustrada. Não era o momento para ficar pensando em assuntos tão sentimentais. Inúmeros inimigos cercavam a cidade e nossos aliados estavam esperando ordens para atacá-los.
Enquanto eu segurava o capacete e encarava-me, algumas batidas em minha porta ecoam pelo grandioso quarto.
– Entre. – digo, escondendo o relicário por dentro da armadura.
Jade abre a porta e sorri triste ao me ver. A mulher já estava vestida com sua roupa de luta. Ela entra no quarto e fecha a porta, encaminhando-se até mim. Com carinho, ela se coloca atrás de mim e passa a nos encarar no espelho.
– Como você está? – pergunta preocupada.
– Pronta para a guerra. – digo, assumindo minha postura mais rígida.
Jade me lança um olhar desolado, como se odiasse me ver naquela situação. Ela me abraça com carinho e suspira cansada, parecendo pressentir o que aconteceria em poucas horas.
– Não esconda seus medos de mim, minha princesa. – sussurra a mulher, abraçada a mim, ainda encarando a imagem no espelho. – Seus olhos não podem enganar alguém que conhece todos os lados da guerra.
– Por que não me conta o que aconteceu com você? – pergunto, virando-me para Jade.
Desanimada, a mulher de cabelos cobre balança a cabeça concordando. Com um suspiro repleto de angustia, ela fecha os olhos, como se relembrasse cada instante de sua vida passada e, após alguns segundos, os abre, pronta para relatar seu passado.
– Eu nasci na província de Glokta, em Bayaz. Já ouviu falar nesse país? – pergunta, pegando em meu braço, guiando-me até minha cama, onde sentamos. Concordo com a mulher e ela continua: — Minha família trabalhava nas terras férteis do rei Jezal e da rainha Mary e éramos felizes por isso. No entanto, tudo mudou um dia antes da Guerra dos Vinte Dias.
– Guerra dos Vinte Dias? – a surpresa foi inevitável. Ela concorda com os olhos brilhando em tristeza.
A famosa guerra, assim como o próprio nome diz, durou vinte dias e foi considerada uma das mais macabras e aterrorizantes de todos os tempos. A Europa entrou em um colapso durante esse tempo, pois, além das consequências da batalha, inúmeros fenômenos como terremoto e tsunami atingiram alguns lugares do continente.
Esse acontecimento foi a vinte e cinco anos atrás, mas as lembranças dos fatídicos dias continuam a queimar como ferro quente nos corações das vítimas do colapso europeu.
– Como um sonho vívido e belo, o dia começou. Era um daqueles raros dias em que o sol brilhava suave e morno, com um tom de amarelo vivo. Por ser aniversário de minha irmã, os reis concederam uma folga a minha família para comemorarmos com a pequena. Minha mãe exibia a barriga de sete meses, o que já dificultava um pouco os seus movimentos, devido ao peso. Eu ganharia mais um irmão e com isso seriamos cinco. A alegria que estava estampada em nossas faces era evidente para qualquer um que olhasse para nós. – ela sorri nostálgica e meio emocionada. Com um suspiro pesado, Jade continua: — O pedido de Valentina foi que fizéssemos um piquenique em seu aniversário e é claro que foi impossível recursar sobre o olhar pidão da garotinha. E enquanto estávamos na bela floresta de Glokta, nos divertindo como nunca, um homem muito bonito aparece, trazendo consigo uma grande cesta com belíssimas frutas. O homem sorri ao saber, pela própria aniversariante, o motivo da comemoração. Com um sorriso gentil, ele ofereceu as frutas e Adam, meu outro irmão, aceitou prontamente. Meus pais não estavam tão confiantes assim, mas a insistência de Valentina, Adam e Beatrice não deu escolhas ao casal. Eu, ao contrário, sentia uma maldade emanar daquele desconhecido. Assim que o estranho nos deixou sozinhos, as crianças passaram a buscar qual fruta comeriam primeiro.
“Ignorando a suspeita, minha família provou das frutas. Eu não me arrisquei. Disse que não as queria naquele momento. Mal sabia eu, que aquela decisão salvaria minha vida. Depois da terceira mordida de cada membro de minha família, seus rostos perderam a cor e em poucos instantes, eles caíram para trás, em cima do cobertor que estava abaixo de nós, as mãos agarrando a grama e as unhas cravando a terra. Em meio à brisa, pude ouvir os sons rascantes de cada um deles. Foram os últimos suspiros deles e a única coisa que pude fazer foi vê-los morrer.” – ao terminar sua narrativa, Jade possuía um olhar cheio de dor e as lágrimas ameaçavam cair.
– Antes de... Antes de ter ocorrido aquele ataque a seu filho, você estava indo se juntar a nós na batalha. Por quê? – pergunto, pegando na mão de Jade e tentando consolá-la o máximo que podia.
– Depois que presenciei a morte de minha família, o desconhecido, que havia entregue a cesta com as frutas, retornou e percebeu que ainda estava viva. Eu tentei fugir, mas ele era mais rápido que eu. Ele, junto com mais alguns homens, me levaram a força para Elpízoume² e fui feita de escrava. O início da guerra se teve a partir da morte de minha família. Fui forçada a fazer inúmeras coisas que eu não desejo a ninguém. Dia e noite fui torturada e obrigada a viver com as lembranças dos últimos instantes de minha família. Eu perdi aqueles que eu mais amava. Adam, Beatrice, Valentina e Noah, que ainda estava na barriga de minha mãe, e meus pais. Todos eles estavam mortos e eu nem ao menos pude me despedir decentemente. – conta, demonstrando sua raiva, enquanto apertava os punhos, abaixo de minhas mãos. – Naquele dia, o homem que envenenou minha família era um dos capangas de Edgar. Eu tive que servir aquele que destruiu a minha vida quando eu tinha apenas dez anos. Ele fez questão de me contar o que fez e me humilhar de todas as maneiras possíveis durante os sete anos que o servir. Mesmo após o fim da guerra e de sua derrota, eu continuei a ser sua escrava. Eu só consegui escapar dele quando ele invadiu Serafine. Um grupo de rebeldes que lutavam contra Edgar atacaram o carro onde os escravos daquele bandido estavam e nos libertou. Eu me casei com um desses rebeldes e tive Christopher. Meu marido, Dilan, lutou até a morte para ajudar a coroa krosviana. Ele se sacrificou para que nosso filho e eu ficássemos vivos... – as lágrimas desciam do rosto da bela mulher. – Eu me juntei ao grupo, naquele dia em que fui libertada, e, desde então, eu tenho fugido e treinado para me vingar daquele monstro. E agora, com a morte de meu filho... – ela morde os lábios, tentando controlar as emoções. – Eu juro, princesa, que lutarei com todas as minhas forças para acabar com Edgar e seus aliados. Darei minha vida, se for preciso.
[...]
Na semiescuridão das primeiras horas da manhã, os aliados de Krósvia começaram a chegar ao país. O exército inimigo não se moveu em nenhum momento, no entanto, foi inevitável a troca de insultos de ambas as partes.
A população krosviana tentavam controlar o pânico. Com a ajuda de meus guardas, as crianças e as mulheres se encaminhavam para um abrigo. Não era segredo que em algumas horas, a guerra se desencadearia e eu tentaria evitar o máximo de vítimas inocentes possíveis. Na sacada da sala do trono do Castelo Cristal, eu olhava para o horizonte, rezando aos deuses que abençoassem a nossa batalha. Meus amigos estavam no lado de fora do castelo, preparando-se para o confronto.
Aqueles que iriam lutar, homens ou mulheres, trajavam uma couraçada vermelha, escudo, espada e capacete e seus líderes vestiam as mesmas peças, a diferença é que a deles era prata como a minha. Por baixo de suas proteções, usavam colete a prova de bala com uma blusa preta de manga comprida e calça preta de material reforçado.
Sinto braços calorosos abraçarem-me por trás. O aroma masculino almiscarado faz com que eu relaxasse imediatamente. Austin aperta-me com carinho e coloca sua cabeça sobre a minha, passando a observar o grandioso grupo de guerreiros. Ele beija minha cabeça e suspira cansado.
– Você está pronta? – pergunta, pegando em meus ombros e me virando para si.
– Vamos ganhar essa guerra. – digo, lançando um olhar confiante a Austin. Observo o loiro e sinto um forte aperto no coração. Eu estava com medo. Medo de perdê-lo. De nunca mais vê-lo. Aproximo-me de Austin e o abraço com toda a minha força. Mesmo com a quantidade de roupas que trajávamos, eu ainda conseguia sentir aquele calor que somente meu namorado possui. Aquele calor único que é capaz de me aquecer mesmo no mais rigoroso inverno. – Prometa que vai sobreviver a essa guerra.
Austin me afasta com delicadeza. Ele olha nos meus olhos, acaricia meu rosto e me beija. O selar de lábios passou a ser um beijo intenso e quente, repleto de sentimentos.
O loiro beija cada canto do meu rosto e cola as nossas testas. Seus olhos brilhavam com intensidade, compartilhando amor e carinho. Seus lábios moldavam um sorriso doce.
– Ally, eu tenho algo a lhe pedir. – diz suavemente, parecendo ignorar o meu pedido. Ele se afasta de mim e se ajoelha. Olho perplexa para o loiro. O que ele estava fazendo? – Eu sei que, no início, a última coisa que nós queríamos era ver a cara do outro. Não que isso fosse surpresa, afinal, estávamos sendo obrigados a nos casar sem nem nos conhecermos. – ele ri fraco, parecendo nervoso. – Eu sei que somos jovens e, daqui algumas horas, estaremos guerreando pela liberdade de seu povo, mas eu preciso ter que você será minha. – Austin pega em minhas mãos e me olha com determinação e felicidade. – Ally, você quer casar comigo?
Meu coração disparou. As lágrimas de felicidade desciam de maneira descontrolada. Eu havia suportado todos os tipos de situações, controlando ao máximo minhas emoções, mas naquele momento eu não conseguia fazer isso.
Jogo-me em seus braços, sorrindo e chorando como uma tola. Se me dissessem alguns meses atrás que eu me apaixonaria por aquele cantor rebelde e que parecia me odiar com todas as suas forças, eu jamais acreditaria.
– Eu já sou sua. Sempre fui. – sussurrei em seu ouvindo. Eu o puxo para mais um beijo. A emoção extasiante dentro de mim, fazia com que eu sorrisse em meio a nossa caricia. Assim que nos separamos, eu o olho e rio em divertimento: — E onde está o anel?
– Não se preocupe. – ele fala com um sorriso divertido, mas com sinceridade. – Quando essa guerra tiver fim, a primeira coisa que vou fazer é comprar o anel de casamento. Eu prometo.
– Obrigada. – digo, voltando a abraçá-lo.
Não permanecemos assim por muito tempo. Em poucos instantes, a porta da sala do trono se enche pelo som de batidas na porta. Austin se levanta e estende sua mão para que eu o acompanhasse.
Assim que me levanto, a porta é aberta, revelando um dos meus guardas. Ele possuía uma expressão séria e parecia esperar o meu consentimento para começar. Sorrio para o homem, o incentivando a falar.
– Vossa Alteza, os líderes das tropas aliadas pedem a vossa presença e a de seu noivo. – diz o homem, após fazer uma reverência.
– Eu já estou indo. Obrigada. – digo e o guarda assente, fazendo uma leve reverência e, em seguida, começa a andar em direção a saída. – Espere.
– Algum problema, princesa Allycia? – pergunta o homem, surpreso, parando de repente e se virando para mim.
– Certifique que a rainha está em segurança no abrigo antibombas e encaminhe a rainha Cecília para o mesmo local. Ela está grávida e não deve correr perigo. – peço e o guarda, prontamente, concorda com os meus pedidos.
– Como desejar, Vossa Alteza. – fala o homem, reverenciando-me mais uma vez.
Olho para Austin e sorrio com nervosismo. Caminho até o trono de minha mãe e pego meu capacete e escudo, colocando-os em minha cabeça e em meu braço esquerdo. Passo a encarar a grandiosa imagem de minha família.
– Está na hora de irmos. – fala Austin, tocando em meus ombros.
Eu aquiesci, o coração tão cheio de amor e tristeza que parecia que ia explodir. Peguei minha espada e, em seguida, saio da sala com Austin ao meu lado.
Fizemos o trajeto até o andar de baixo em silêncio. A roupa parecia pesar mais a cada passo que eu dava. Assim que estamos no topo do último jogo de escadas, Gregory nota a minha presença, reverenciando-me com um sorriso confiante.
Observo cada rosto presente. O enorme salão parecia minúsculo com a quantidade de pessoas que a ocupava. Percebo, então que ainda havia centenas de pessoas do lado de fora e agradeço, mentalmente, por termos uma tropa de guerreiros tão numerosa quanto a de Edgar.
– Silêncio, por favor. – pede Gregory, com a voz elevada. – Os sucessores do trono, princesa Allycia Dawson e príncipe Austin Moon, estão presentes neste momento.
A atenção de todos os aliados se passa para Austin e eu. Todos se curvam, reverenciando-nos e passam a nos observar, esperando que disséssemos alguma coisa. Meu noivo pega em minha mão e a aperta, dando-me total apoio.
Sorrio para Joseph, Victória e Richard, que nos encaravam com confiança. Olho para os três homens ao lado do trio. Arthur III, rei de Agriont, Trevon Logen, rei de Bethord, e Enrique Magnos, rei de Kenedias, observavam-me com interesse. Suas esposas, com certeza, haviam permanecido em seus reinos para que controlasse qualquer que fosse o problema que houvesse durante a ausência dos reis, além de evitar que fossem expostas a guerra.
Eu sabia bem o que se passava na cabeça dos homens. Eu sou a experiência que promete resultados. Essa era a chance que eles esperavam para me verem em ação como rainha de Krósvia.
Respiro fundo antes de qualquer coisa. Esse seria o meu primeiro discurso como rainha, não oficial, de Krósvia. Todos os representantes de meu povo aguardavam pelas primeiras palavras daquela que iriam os liderar na batalha.
– Uma guerra está prestes a eclodir e confesso que jamais imaginei que as coisas saíssem do controle de meus pais como ocorreu. No entanto, não podemos nos abalar pela situação do reino. Eu acredito na força de cada um de vocês. Um reino não é feito só de um rei e uma rainha e sim por eles e seu povo. A coragem em seus corações irá nos guiar a vitória. Krósvia já passou por muitas guerras e conflitos, mas jamais caiu por completo, isso prova que somos fortes, que somos capazes de qualquer coisa. Nossos inimigos podem ser fortes, mas nós somos mais. Sei que estão em dúvida sobre não temos nosso rei e rainha para nos comandar, mas peço que confiem em mim em minha decisão. – eu não fazia ideia se estava fazendo a coisa certa em revelar que Krósvia está muito pior que imaginavam minhas palavras surtiriam efeito, mas eu precisava tentar. – Eu, como princesa e a primeira na linha de sucessão, assumo o controle provisório de meu país e todas as responsabilidades da liderança de nossas tropas.
A surpresa foi inevitável para todos que estavam presentes. Mas, para a minha surpresa, eles pareciam felizes. De repente, a população começou a se ajoelhar, até mesmo os reis de outras nações.
– Vida longa aos reis! – grita o povo, surpreendendo-me. Olho para Austin e o mesmo tinha um enorme sorriso moldando os lábios. – Viva rainha Allycia e rei Austin.
Aquela ação fez meu coração se encher de esperança. Austin, assim como eu, assumiu o trono e o loiro não parecia odiar a ideia. Saber que tenho o apoio daqueles que devo liderar traz uma sensação inexplicável de paz.
– Como rei provisório de Krósvia, peço a todos que deem o melhor de vocês. – fala Austin, assumindo uma postura tipicamente real. Sua atitude me impressionou, mas não me permitir transparecer isso. – Sozinhos, jamais venceremos, mas juntos, eu acredito que somos invencíveis. – ele se vira para mim e sorri confiante, apertando mais a minha mão. – Nós temos a melhor estrategista e os melhores guerreiros. Acreditem nisso e lutem pela liberdade de Krósvia. Allycia confia em nós para defendermos o reino. Não vamos decepcionar a rainha.
– Pela rainha! – grita Lawrence, levantando sua espada.
– Pela rainha! – grita os outros guerreiros, repetindo a ação do loiro.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, três homens entram no salão, empurrando as pessoas. Observo eles se aproximarem e não precisou muito para que entendesse o motivo de tal desespero.
– Rei Austin e Rainha Allycia. – fala um dos homens, ajoelhando a nossa frente, no final da escadaria. – Trago notícias urgentes.
– O que aconteceu? – perguntou Austin, preocupado.
– Os inimigos começaram a saquear as casas no sul do país. As nossas tropas daquela região estão lutando bravamente, mas não estão conseguindo impedir que uma parte dos soldados rivais de prossiga. Nossos informantes calculam que os inimigos chegarão aqui em menos de uma hora para se aliar aos soldados que cercaram a nossa cidade. – informa o outro homem, demonstrando uma enorme preocupação. – O que devemos fazer, Vossa Majestade?
– Preparem os cavalos e suas armas. Separem um terço dos nossos guerreiros. Eles devem tentar impedir que o máximo de inimigos cheguem a cidade e ajudar aos nossos aliados e população que estiverem feridos. O restante, encaminhem-se para as zonas de maior concentração de soldados rivais em um raio de vinte quilômetros. Certifiquem-se que as crianças e mulheres estejam em segurança e incentive os homens a nos ajudarem. – ordeno, sob a atenção de todos.
Seguindo minhas ordens, Gregory escolheu seus melhores homens para enviar para a batalha que ocorria nas zonas inferiores de Krósvia. Meus amigos correm em minha direção, carregando suas espadas e escudos em mãos.
– Rainha, Manu acaba de entrar em contato conosco. – anuncia Lawrence assim que se coloca a minha frente. – O submarino acaba de chegar em Boise. Eles estarão em Krósvia muito em breve.
– Ótimo. – digo, enquanto confiro se tinha munição suficiente em meu colete e se meu revólver estava bem escondido. Levanto meu olhar para meus amigos e os encaro com seriedade. – Alguma informação sobre Edgar, Gavin e Taynara?
– Não exatamente. – responde Jade. – A alguns quilômetros daqui, fora montado uma espécie de fortaleza, onde acreditamos que eles estão. Inúmeros soldados cercam a torre e a passagem para adentrar o local é desconhecida.
– Como permitiram que isso acontecesse? – pergunta Austin, frustrado.
– Não tivemos escolhas. – responde Gregory. – A rainha Penny não permitiu que interferíssemos em qualquer ação dos inimigos.
– E as notícias não param por ai. – fala Joe, aproximando-se de nós com Vick, Richard, Arthur, Trevon e Enrique ao seu lado.
– O que quer dizer com isso? – pergunto, preparando-me para o pior.
– Ally, Brooke e Emily estão lutando ao lado de Edgar e Gavin. – revela Cassidy, demonstrando sua fúria através dos olhos. – Elas estão montadas em seus cavalos, próximas da fortaleza, esperando o momento de atacar.
– Brooke? – fala Austin, sem acreditar.
Eu não sabia o que dizer. Imaginei que eu me livraria de Brooke assim que retornasse para Krósvia. A garota não tem noção da péssima escolha que fez. Caso se junte a guerra, não há volta. O lado vencedor vive. O lado perdedor morrerá da pior maneira possível. No entanto, no fim, todos os lados perdem. Mortes, escassez de alimentos, destruição e sofrimento são inevitáveis.
– Dez, está preparado? – pergunto, ignorando a informação da participação de Brooke na guerra.
– Sim. – afirma o ruivo, dando um longo suspiro.
– Muito bem. – falo, dando um sorriso satisfeito para o rapaz. Passo a sussurrar, sendo possível ser ouvido apenas pelos que estavam ao meu redor: – Pegue o túnel que existe abaixo do castelo. Ele o levará até a saída da cidade. A partir do momento que deixar o túnel, você correrá perigo. Tome bastante cuidado.
– Não se preocupe, Ally. – fala Dez, sorrindo. – Em poucas horas, me juntarei a batalha e seu pai estará em segurança.
Os outros nos olhavam sem entender. Trish continha o olhar preocupado e parecia estar prestes a chorar. Eu odiava separar minha melhor amiga de seu namorado, naquele momento, mas não havia escolhas.
– Ally, o que você quer... – interrompo Austin, evitando que mais perguntas fossem feitas.
– Gregory, Caramelo está pronta? – pergunto ao homem que aparentava cansaço, mas ainda exibia aquele olhar determinado e corajoso.
– Sim, Majestade. – afirma o braço direito de meu pai. – A égua se encontra no estábulo real. Tomei a liberdade para escolher nossos melhores cavalos para seus amigos.
– Obrigada, Gregory. – agradeço e me viro para todos. – Está na hora de partirmos.
– Em qual lugar Vossa Majestade deseja que fiquemos? – pergunta Arthur.
Olho para os reis que me encaravam. Penso por um momento, estudando em qual posição eu deveria colocá-los. Eu deveria aproveitar todas as qualidades de luta de cada um, que eu conhecia bem, e explorá-la da melhor forma possível.
– Rei Arthur seguirá para o leste junto com suas tropas e impedirá que ataquem o abrigo onde estão as crianças e as mulheres. Rei Enrique, peço que se se reúna seu exército marinho e terrestre e protejam o porto que fica ao oeste do país. Mais aliados chegarão pelo mar e existe uma concentração surpreendente de navios e soldados prontos para nos atacar. Rei Trevon e Rei Richard partirão para o norte, protegendo as plantações, os animais e a maior parte da população de Krósvia. Rei Joseph e eu cuidaremos do território central, já que possuímos o maior número de soldados. Se trabalharmos em equipe, conseguiremos impedir que Edgar consiga o que deseja: A destruição total de Krósvia. – digo, recebendo a confirmação de todos os reis presentes. Sinto um grande alivio ao perceber que todos estavam de acordo com o plano.
– Mas, e eu, Allycia? – pergunta Vick. – O que farei?
– Preciso que permaneça por aqui. Proteja minha mãe e Cecília. Se tudo ocorrer como eu planejo, meu pai retornará para o palácio e você terá que cuidar de seus ferimentos. Faremos o possível e impossível para proteger o castelo, então, fique responsável apenas pelos cuidados de feridos e da segurança do abrigo antibombas. – digo, pegando nas mãos de Victória e a encarando com certo desespero. Ela era a única pessoa na qual eu poderia contar para cuidar desse assunto.
– Eu farei o meu melhor para mantê-las a salvo e garantir que seu pai fique bem. – concorda Vick, sorrindo, dando-me um forte abraço em seguida. – Fique viva. – sussurra.
– Você também. – peço, a apertando contra mim.
Ao me separar de Victória, passo a encarar meus amigos. Balanço a cabeça, indicando que já estava na hora de partirmos. Cada um estava pronto para seguir seu caminho, orando para que a vitória seja nossa.
Dez se despede de Trish com um intenso beijo. Eles trocam algumas juras de amor e após algumas lágrimas da latina, mais um beijo é compartilhado e o ruivo corre para a parte subterrânea do palácio. A morena me lança um olhar confiante e sorri, como se dissesse que estava tudo bem.
Seguimos em direção ao estábulo do castelo e montamos em nossos cavalos. Antes que eu subisse em Caramelo, Austin me puxa pelo braço para que eu continuasse ali. Lanço um rápido olhar para meus amigos e eles saem, deixando-me sozinha com meu noivo. Por sorte, todos sabiam montar a cavalo e lutariam bem em cima dos animais.
Não dissemos nada. Apenas nos beijamos como se aquela fosse a última vez que iriamos nos ver. Eu queria acreditar que não, mas nós dois sabemos que isso pode acontecer. Abraço-o com força e o beijo mais uma vez.
– Eu te amo. – sussurro em seu ouvido.
– Eu te amo. – fala o loiro, dando um beijo em minha testa.
Após dizer isso, ele se separa de mim e sorri triste, carregando dor em seus olhos. Sabendo que não temos muito tempo, ele sobe em seu cavalo e parte sem olhar para trás.
Assim que me certifiquei que minha proteção estava bem colocada, pego meu escudo e subo em minha égua e sigo com Caramelo para o lado de fora do Castelo Cristal.
Os inimigos continuavam em suas posições. Visualizo Brooke, Emily e Gavin em seus cavalos, observando a movimentação de meus soldados. Ao notarem que eu estava presente, os três sorriem com maldade e eu soube naquele momento que a nossa luta seria inevitável. De alguma forma, nós estávamos destinados a lutar até a morte.
Quando o relógio da praça central da cidade soou por todo o reino, indicando que o meu tempo havia acabado, Edgar apareceu e gritou para que seus homens nos atacassem.
– Vão! – grito para os soldados.
Os soldados a minha frente seguiam bravamente, atacando os inimigos. As ruas da cidade são largas, o que facilitava a locomoção. Surpreendo-me ao notar a quantidade de homens comuns que haviam se juntado a nossa batalha. Eles não trajavam roupas próprias para lutar e nem possuíam armas tão poderosas quanto as dos guerreiros, mas conseguiam derrubar e matar uma boa parte dos soldados rivais.
Com tantas pessoas lutando, era difícil conseguir passar em meio à confusão. Desço de minha égua e vejo inúmeras pessoas fazerem o mesmo, tantos os aliados quanto os inimigos. Após dá um tapinha de leve no ombro de Caramelo, a égua volta para o palácio.
Eu conseguia me desviar dos ataques e acertá-los com precisão. Com o escudo e minha espada, era quase impossível os soldados de Edgar e Gavin me atacarem. Desde criança, meu pai me obrigou a lutar com todos os tipos de arma. Aqueles homens não possuíam nem metade da habilidade que o rei de Krósvia possuía ao manejar uma arma.
As flechas de meus soldados pareciam fazer curvas no ar e acertavam os cavalos e os guerreiros inimigos, levando os mesmos ao chão e facilitando os ataques para nós.
Enquanto eu puxava minha espada de volta que estava no peito de um dos soldados inimigos, percebo o olhar de um homem sobre mim. Ele para a minha frente, surpreendendo-me. Encaramo-nos. Carregando uma espada antiga, mas bem afiada, ele possuía um olhar maligno.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, vi a espada dele descer. Levantei a minha, detendo o gole com um bloqueio alto e desviando-o com um bloqueio baixo. Lembrei-me rapidamente do que meu pai tinha me ensinado: bloqueio curto, deixar a espada inclinada, usar toda a sua força, peso e velocidade do corpo em cada movimento.
Jogo meu escudo no chão. Com a pesada peça, eu não conseguia me mover livremente e ainda atrasava os meus golpes.
Os olhos do inimigo demonstravam ferocidade enquanto ele golpeava. Ele queria me destruir e aquele olhar me dava medo. No entanto, as lembranças da última invasão dos soldados de Edgar retornam a minha mente. Eu tinha visto a destruição quase que por completa de meu povo. Os gritos de dor, agonia e pedidos de socorro das crianças e mulheres ecoavam em minha mente. Eu vi o último suspiro de homens que deram suas vidas por mim. Hoje, eu vingaria a todos aqueles que sofreram nas mãos dos meus inimigos. Encho-me de coragem e volto a erguer minha cabeça, pronta para qualquer golpe.
Os olhos do homem focaram em mim, então ele ergueu a espada e atacou. Eu recuei, bloqueando os golpes dele, nossas espadas batendo ensurdecedoramente uma na outra, o peso dos golpes dele me empurrando para trás.
Eu bloqueava o mais rápido que podia, mas a espada dele continuava a vir em minha direção como um borrão de aço. Sem aviso prévio, a lâmina passou pelo meu ombro, cortando a blusa preta de manga cumprida do uniforme, mas sem atingir a minha pele. Antes mesmo de eu tirar os olhos do corte, a espada dele cortou superficialmente os nós dos meus dedos como mil cortes de papel. Sangue escorreu pelo meu pulso. Senti o sangue quente pingando do meu braço. O homem com quem eu lutava era diferente dos outros que eu havia enfrentado instantes antes. Eu não conseguiria lidar com a força dele e, mesmo possuindo um grandioso corpo, ele era ágil e habilidoso. Eu precisava de um plano para me livrar de seus ataques que não cessavam. Sem conseguir atacar, eu me protegia da melhor forma possível.
Lembrei-me de um truque que aprendi em um dos treinamentos com meu pai: telegrafar. Olhei para a direita. Ele levantou a espada para bloquear. Mas em vez de erguer a minha, golpeei-o por baixo. Ele grito de raiva e de dor, olhando para o próprio pulso. Sangue apareceu onde minha espada tinha cortado a pele dele. Então bloqueei a mão-guia do guerreiro com minha espada e me posicionei atrás dele. Ele virou a cabeça rapidamente, mas, antes que pudesse me bloquear, encostei a lâmina no pescoço dele.
Se o homem se movesse sequer um milímetro agora, a espada afiada lhe cortaria a garganta. O guerreiro sorrio com escárnio. Pude sentir seu corpo tremer enquanto ria. Não pude evitar olhar para a tatuagem com o brasão do reino de Edgar, que brilhava em seu braço esquerdo. Ele se virou para tentar me golpear, mas minha espada lhe cortou de leve a pele de seu pescoço. O homem sorri malignamente. Seus olhos brilhavam como os de um louco. Ele sabia que ia morrer, mas não parecia ligar para isso.
– Mors monarchia! ³– grita o homem, como se incentivasse os outros guerreiros.
Sem hesitar, enfio minha espada em seu pescoço. A força da pancada cortou as artérias do pescoço do guerreiro e sangue jorrou da ferida como um dilúvio. Puxo minha espada de volta e o vejo cair sem vida.
Levanto meu olhar e encontro os olhos de Emily. A loira sorria com maldade e satisfação. A hora da nossa luta prometida havia chegado. Agora, não haveria interrupções nem fugas. A morte de uma de nós seria inevitável.
✻
Continua...
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