Unknowns

2 New York City


— Bem vindo ao Complexo Seringa. — Sinto a pressão das algemas se desprendendo dos meus punhos e a faixa áspera que cobre os meus olhos é retirada. Estou no meio de uma abóbada de aço, rodeado de aparelhos tecnológicos e de telas expondo fórmulas das quais não entendo absolutamente nada. Fetcher toca de leve o meu ombro e nos encaminhamos até um elevador panorâmico.

O painel tem muitos botões, mas o que me chama atenção é que estampados neles estão números negativos. Olho para Fetcher com o cenho franzido e ela abre um rápido sorriso, enquanto aperta o -10. As portas fecham e o elevador começa a descer.

— Estamos debaixo do Empire State. — fala Fetcher, baixinho.

— Com Empire State você quer dizer o de...

— Sim, Nova York. Qual mais seria? Só não diga para mais ninguém que eu te contei.

Conforme vamos descendo, o elevador ganha velocidade. Não demora a eu começar a ficar enjoado. Fetcher parece já estar acostumada com a sensação, porque não esboça nenhum tipo de reação viável. Além disso, o fato de estarmos debaixo do Empire State, o tão famigerado prédio de Nova York, me deixa agitado. Assim que as portas novamente se abrem, meus olhos encontram um corredor tão comprido que mal consigo identificar o fim.

— O dez negativo é um dos andares de dormitórios, Skeyholm. — começa Fetcher. Seus olhos amarelos estão um pouco mais escuros por conta da iluminação fria do corredor. — Me acompanhe, irei te ensinar a abrir o seu.

Fetcher me interrompe com o braço — o que faz com que as tiras em franja do seu poncho se agitem. Isso é tão elegante —, paramos em frente a uma porta de número 154.

— Eu vou ter um dormitório só para mim?

— É claro. Meus jovens soldados jamais ficariam desconfortáveis.

— Soldado? — pergunto, ofendido. A palavra soldado me traz uma série de pensamentos ruins. Para falar a verdade, muitas outras palavras me fazem sentir assim.

— Vejo futuro em você, garoto — Fetcher puxa o meu rosto para perto de um painel e uma iluminação esverdeada o lê verticalmente. De repente, a porta se abre, mas o dormitório está escuro demais para que eu enxergue alguma coisa. — Pode apostar, eu nunca me engano nesse quesito.

Quando Fetcher vai ligando as luzes pelo interruptor ao lado da porta, um quarto surpreendente vai se aclarando. Uma enorme cama redonda se manifesta logo na frente de uma televisão de plasma pendida à parede. Sofás e namoradeiras cercam uma mesa de centro toda decorada por flores. Do lado de uma poltrona, há uma estante cheia de livros. Lá no fundo, há uma lareira. Algo bem curioso é que as portas do guarda-roupa são de vidro, as quais me permitem enxergar todas as várias peças de roupas penduradas nos cabides ou dobradas cuidadosamente nas gavetas. Detrás de uma porta, há o meu próprio banheiro.

— Uau — não consigo conter uma expressão surpresa.

O walkie-talkie de Fetcher vibra e uma voz masculina levemente destorcida pelas ondas de rádio chama por ela. Pela autoridade que o timbre transmite e pela feição desdenhosa de Fetcher, só pode fazer parte do alto escalão do Departamento. Ele a chama pelo primeiro nome, Mathilda, e pede para que o encontre em sua sala. Algo como “venha aqui, agora” só que com um maldito sotaque russo.

— Positivo, senhor — Fetcher responde e recoloca o walkie-talkie em seu cinto de couro. Ela é uma pessoa muito estilosa, porque até agora só a vi usando alta costura. Um pouco antes de sair pela porta, ela olha para mim com uma expressão cansada. — Fique a vontade, garoto, tome um banho e durma, amanhã é um longo dia.


Acordo no meio da madrugada, ainda cansado da viagem. O fundo dos meus olhos está ardendo um pouco e uma insistente enxaqueca martela pela minha testa. A única coisa que consigo enxergar é a intensa luz vermelha que indica que a televisão está desligada e a iluminação fraca do corredor por debaixo da porta. Meus dedos se esticam à procura do abajur e, depois de muitos segundos, conseguem localizar o interruptor que o acende.

Vejo as cinzas que eram antes o macacão do presídio, em meio à lenha da lareira. Fetcher irá entender que eu precisei de um rito de passagem ao recomeço e que, literalmente, deixei as cinzas no passado.

Grudei a foto 3x4 de Anna, minha irmã, na porta do meu guarda-roupa. Eu sei que para algumas pessoas isso é viver no passado, mas eu preciso de uma foto dela pra não correr o risco de esquecer o seu rosto e, com isso, esgotar o ódio que sinto do policial que atirou na minha irmã. Até hoje me lembro de seu sobrenome, Collins, escrito bem debaixo do seu distintivo. Lembro também de como ele foi um dos únicos policiais que sobreviveu ao meu surto. E de como sua bala acertou em cheio a testa de Annie.

— Eu vou matá-lo — me permito dizer. Consigo sentir o poder me dominando e, de repente, a lareira se acende.


De manhã, meu sono é interrompido por três batidas na porta.

A janela falsa próxima da minha cama deve se adequar com o horário lá em cima, pois uma iluminação amarelada da manhã clareia todo o meu quarto, ainda que a cortina esteja fechada. Talvez eu tenha me esquecido de fechar o blecaute detrás da seda branca.

Alguém bate de novo, impaciente.

Levanto da cama e vou até a porta, pedindo paciência à pessoa do outro lado, acompanhado de um palavrão que emito em silêncio. Pressiono a placa de pressão para abrir a porta e me espanto assim que encaro uma carrancuda garota de cabelos azuis. Ela me olha de cima a baixo, talvez porque eu esteja usando pijama.

— Fetcher me pediu para levá-lo até a sala dela — ela diz, correndo os olhos pelo meu quarto por cima do meu ombro. — Mas, pelo que posso ver, ela não te disse para se aprontar.

— Tudo bem, eu vou me trocar — falo, abrindo um pouco mais a porta ao perceber que a curiosidade da garota não cabe dentro dela. — Pode entrar se quiser. Como é seu nome?

— Por quê? — ela fala, pronta para entrar. Coloco o braço na sua frente, olhando bem no fundo dos seus olhos castanhos.

— Não deixo desconhecidos entrarem no meu quarto.

— Tanto faz, tanto faz. Meu nome é Trinity Bertrand — ela diz, passando por debaixo do meu braço. A maneira que ela diz o seu sobrenome deixa claro que ela é francesa, mesmo que seu sotaque seja quase invisível. — Mas isso não é importante, afinal você é Hugh Skeyholm, não é? O sobrinho-neto de Peter White.

— Quem é Peter White? — pergunto.

— Acho que estraguei a surpresa — Trinity sorri. — Vá se trocar, você pode perguntar a Fetcher quando encontrá-la.

[...]

— É verdade, você é o sobrinho-neto de Peter White — Fetcher esclarece, arqueando as sobrancelhas. Seus cabelos ruivos estão amarrados em um coque apertado. — Ele fundou o Departamento, dez anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nosso propósito sempre foi proteger o nosso mundo sem a interferência direta da ONU e o plano genial de White foi rapidamente acolhido.

“Peter era o tio de sua mãe, Sheila White. Ela preferiu poupar você dos experimentos científicos que Peter promovia e então fugiu com sua família para um lugar seguro, mudando o seu sobrenome de solteira no cartório. Assim que ele descobriu a traição, mandou matá-los.”

— Aquele dia na casa de verão — digo. — Foi o Departamento?

— Foi sim — murmura Fetcher. Me endireito na poltrona, assustado. — Peter estava cego de poder e isso o trouxe ao completo delírio. Ele sabia que você era tão poderoso quanto sua filha, Donna White. Sabia que, se o tivesse em mãos, poderia dominar o mundo. Ele agiu em silêncio.

— Como descobriram?

— Ele não agia sem escrever nos seus diários de bordo. Assim que ele faleceu, Igor Rift assumiu o comando e teve acesso aos diários do fundador — Fetcher fez uma longa pausa. — E então, com sua aprovação, dei vida a este projeto, que é trazer um propósito para jovens como você, poderosos traumatizados, sem que precisem sofrer com os testes — Sei que o que Fetcher diz é verdade, sinto isso em cada palavra que ela diz, mas minha respiração está ficando ofegante. — Está seguro agora...

E logo estou chorando de novo.

Fetcher abandona a sua escrivaninha e percebo que seus olhos estão úmidos, como se estivesse segurando o choro. Ela se aproxima de mim e então faz a última coisa que eu imaginaria que fizesse: me abraça. Me abraça bem forte e isso me conforta de maneira inesperada. Não sou abraçado há muito tempo e isso é quase... um alívio.

— Está tudo bem agora — Fetcher sussurra. — Está tudo bem...

[...]

— Você está com fome? — Trinity me pergunta, enquanto caminhamos pelos corredores. Concordo com a cabeça, ainda neutralizado com a conversa que tive dentro daquela sala. — A praça de alimentação é um ótimo lugar para esquecer os problemas.

Entramos no elevador e ela aperta o botão -50. Tenho tantos pensamentos dentro da cabeça que nem sequer me enjoo quando a velocidade vai se intensificando. Enquanto vamos descendo, vejo várias pessoas pelo vidro. A maior parte delas usa um jaleco de cientista. Repentinamente, a imagem dos meus pais sendo mortos, junto ao som dos tiros que os mataram, dão uma única e dolorosa martelada sobre a minha testa. Então eu grito.

Trinity se assusta e me segura ao perceber que eu estava prestes a cair.

— Você precisa esquecer isso, está bem? — Trinity parece saber exatamente no que estou pensando, talvez porque ela faça parte do projeto de Fetcher também. — Eu também perdi pessoas, eu também sofri muito, mas me concentro em outras coisas e isso... isso ajuda.

Concordo com a cabeça, mas a última coisa que sou capaz de fazer, neste momento, é me concentrar. A imagem fosca de Annie sendo morta se sobrepõe à desagradável memória dos meus pais e logo o fundo dos meus olhos está ardendo novamente, como se estivesse em chamas.

— Hugh — berra Trinity. Ela segura o meu rosto com as duas mãos e olha bem no fundo dos meus olhos. Não consigo enxergá-la muito bem, porque as imagens que se formam na minha mente são tão vívidas quanto uma fotografia. — Merda, você está muito quente. Ok, ok... eu vou levá-lo até a ala hospitalar. Enquanto isso tente pensar em coisas boas, tudo bem?

— Não consigo... — minha voz soa fraca.

— Você consegue sim — Os dedos de Trinity pressionam o meu rosto com mais firmeza. Trinity possui belos olhos castanhos, mas a sua volta é escura, como se chorasse muito. Ela aperta outro botão no painel do elevador e esta é a última coisa que vejo antes de apagar.