Unkiss Me

9 What happened here?


Juro que se eu falar que fiquei mais de uma hora e meia naquela social eu to mentindo. Pra começar, o povo só queria saber de beber. Eu gosto de conversar e ali digamos que estava impossível. Eles são legais, mas só durante os almoços depois da aula, sem estarem bêbados. Juro!

– Você tá muito gata. — Carly disse quando saí do banheiro.

– Ah, valeu. — Falei sorrindo.

– Vai onde?

– Festival de anime. — Isaac disse que em uma hora estaria saindo do campus.

– Que tipo de pessoa vai de saia pra um festival nerd?

– Acha mesmo tão exagerado? — Comecei a me analisar no espelho. Eu tinha gostado tanto dessa roupa.

– Um pouco. Mas ficou legal com a botinha.

– Nunca foi nesse negócio. Não sabia o que colocar. — Comecei a secar o cabelo.

– Eu também não. Mas to começando a achar que você vai ser a única menina lá.

– Claro que não. Existem várias garotas que gostam de anime.

– Nenhuma usa saias e tem cara de patricinha. — Fiz uma careta.

– Não tenho cara de patricinha. — Reclamei.

– Vai passar qual sombra? — Olhei pra ela através do espelho e a vi mexendo no meu estojo de maquiagem.

– Nenhuma. Eu não vou ao shopping.

– Mas vai num encontro. Não deve sair com a cara lisa.

– Não é um encontro, Carly. — Ela riu.

– Adoro suas piadas. — Revirei os olhos.

Uma hora depois, lá estava eu na porta da faculdade. Eu realmente não sabia o que eu faria lá, mas iria fazer companhia pro Isaac.

– Tava quase indo sem você. — Brinquei enquanto ele se aproximava.

– Foi mal a demora. Seu irmão tava me enchendo o saco. — Senti meu rosto ficar um pouco quente porque eu já imaginava o que ele teria falado. — E eu te trouxe alimento. — Ele me passou um pacote de cheetos.

– Salvou o dia, Isaac. — Ele sorriu. — Demora muito pra chegar lá?

– Não muito. De metrô é rapidinho. — E lá fomos nós. Passou pela minha cabeça porque ele não chamou a Laura2 pra ir com ele, mas ficou um pouco óbvio demais que ele não pretende dar esperanças pra garota. Mas...

– E seus amigos de New Jersey? Nenhum deles gosta de anime?

– Alguns. Mas com todo mundo fazendo faculdade fica difícil nos encontrarmos.

– Você sabe que vai ter que me ensinar algumas coisas, né? — Ele riu baixo.

– Sei... Você sabe alguma coisa pelo menos?

– Sei da existência de Naruto, serve? Já até vi uma vez.

– E aí?

– Não curti muito, não. Eu gostava muito de Pokemon. Tinha até um Pikachu de pelúcia junto com uma pokeball. Era uma gracinha.

– Quem não gostava de Pokemon? E não fale que era uma gracinha, por favor. — Isaac disse dando risada. Dei de ombros.

– Já ouvi falar de Death Note, mas, sem ofensas, Isaac, aquilo não faz o menor sentido pra mim.

– Também não diga isso no festival, pelo amor de Deus. Ou vão te tirar de lá a pontapés. Até que você sabe algumas coisas. É legal, Sarah.

– To indo de cabeça aberta, querido.

– Sei disso. E essa saia maneira aí?

– O que tem minha saia?

– Tá bonitinha.

– Sou linda, meu bem.

– É, eu sei. Te vejo todo dia. — Sorri de canto.

(...)

– Olha só! — Apontei pra um bichinho que tinha em um dos estandes. Não sabia de qual anime era e confesso que eu não estava interessada em saber, também. Quando entramos, quase me assustei em ver tanta gente fantasiada.

– Não vejo esse anime.

– Eu também não, mas é lindinho. Tipo Pikachu. — Isaac passou um braço pelos meus ombros. Não falei nada. Continuamos andando. — Já percebeu que eles tão olhando pra mim?

– Já. Entenda que seu tipo de menina é raro aqui. — Revirei os olhos. Entramos em um tipo de tenda onde passava um filme. Isaac me falou no momento em que entramos no festival que ele queria ver. Parece que é o lançamento de alguma temporada do anime preferido dele. Sei lá. Até que era divertido, apesar de eu não entender nada, já que não vi os outros episódios.

– MENTIRA?!! — Tínhamos chegado a parte de games. — Não sabia que tinha isso num festival de animes.

– Como não? Iria ser sem graça.

– A gente pode ficar na fila pra testar! — Falei empolgada. Isaac ria da minha cara.

– Vai demorar pra cacete isso aí, Sarah. — Fiz bico. — Tá, tá, tá.

– Olha lá! Tem uma parte só pra Harry Potter!

– Garota, para de me chacoalhar.

– Nós vamos lá, né? — Perguntei sorrindo. Ele estava abraçado, pelos ombros, comigo de novo.

– Vamos.

– O que mais tem aqui que eu não sei?

– Dá pra comprar várias coisas aqui. Seja de Harry Potter ou... Sei lá. O que você queira.

– Blusas e essas coisas?

– Sim. Colares, objetos... — Sorri olhando pra ele. — Não sei se tem interessa, mas tem uma caçada na parte de fora do pavilhão.

– Caçada?

– De Supernatural. Fui ano passado. Até que é divertido.

– Isso é sério?

– Lógico que sério.

– Tipo aquele episódio em que tem uma convenção do Sobrenatural? — Isaac fez que sim com a cabeça. — Seria melhor que não acabasse como na ficção. Você seria o primeiro a morrer.

– Ei! Eu não ia, não.

– Aquilo ali é uma arena medieval? — Perguntei forçando a vista pra enxergar direito. Estava longe demais.

– É. Vai querer ir lá também? Não vai dar tempo.

– A gente volta amanhã. Somos os próximos.

– E eu vou ganhar de você. Que novidade. — Ele falou a última frase irônico.

– Quem disse que você vai ganhar? Eu sou ótima jogando.

– Veremos.

– Ah, é? Quer apostar? — Ele sorriu. — Vai ter que comprar o que eu quiser na seção do Harry Potter. — Algumas pessoas, que apenas viam os jogos, começaram a olhar pra nós. Esse povo adora uma competição. Misericórdia!

– Se você ganhar, você quer dizer. O que não vai acontecer. — Fiz cara de emburrada. — Se eu ganhar, e eu vou mesmo, vamos ter outro encontro. E dessa vez você paga. — Olhei pra ele com uma sobrancelha arqueada. Sabe o que é sentir que todos a sua volta olham pra você. Então... — Encontro como amigos, você sabe. — O povo riu. Olhei com cara feia pra eles.

– Feito. — Apertamos as mãos. Resolvamos fazer “melhor de três”, já que o tio da barraca deixou só por ver que todo mundo queria me ver perder. Bando de machistas. Logo quando apareceu “(nome do meu bonequinho) win” eu levantei comemorando, e comecei a rir da cara dele. — HAHÁ!

– É melhor de três, Sarah. Para de graça.

– Isso quer dizer que só falta uma rodada pra eu ganhar. Admite que eu sou melhor que você. O melhor jogador vai vencer, querido. No caso, eu.

– Eu te deixei ganhar essa! — Gargalhei. — Só pra você não ficar humilhada no final.

– Mentiroso!

(...)

– Como era mesmo? “O melhor jogador vai vencer”, não era? — Isaac me encheu o saco.

– Quieto. — Ele riu.

– Nunca vou esquecer da sua cara de derrota.

– Não tenho cara de derrota.

– Tem sim. E ela é hilária. Vai ter que me pagar outra saída.

– Ainda tem o duelo medieval, querido. Quero ver você me vencer no esgrima!

– Você fazia esgrima?

– Hm... Não. Mas acho que me dou bem com espadas.

– Acho que você não devia deixar seu irmão escutar isso.

– Por que não? — Ele me olhou segurando o riso. — Ai que trouxa! Não teve duplo sentido.

– Isso é o que você diz. — Revirei os olhos. Os caras montaram um mini trem representando o Expresso Hogwarts. Isso é mais foda do que eu pensei! E dentro ficavam as lojinhas.

– Esse troço é bom pra cacete. — Falei enquanto comia uns docinhos que eles vendiam.

– Comprei um vira-tempo pra você, enquanto você estava entretida com os feijõeszinhos de todos os sabores.

– Na verdade, agora to comendo sapos de chocolate. E que gracinha! Obrigada! — Ele sorriu.

– Eu sei o que você tá comendo agora porque você tá toda babada de chocolate. E de nada. Vira pra eu colocar. — Me virei tentando limpar envolta da minha boca. Senti o vira-tempo encostar gelado no meu busto. Peguei-o sorrindo. Ah se esse troço funcionasse... Quando senti que o Isaac já tinha fechado o colar, me virei pra ele.

– É tão lindinho.

– É, sim. — Olhei pra cima. Assim, de tão perto, dava pra perceber o quanto ele era mais alto que eu. Meia-cabeça. Dava pra perceber também o quanto os olhos dele eram lindos. E o sorriso dele era tão perfeito que parecia impossível. Por instinto, levantei um pouco o rosto e ele abaixou o dele.

– Moça, achei a varinha da Hermione. Achei que tivesse esgotado, desculpe. — Eu e o Isaac nos afastamos e eu olhei pra mocinha sorrindo de canto. Peguei o dinheiro, paguei e ela me deu a varinha. Mas o que é que aconteceu aqui?