Quando acordei no outro dia percebi que estava sozinha no quarto. Me permiti ficar um tempo deitada olhando pro nada pra me livrar dos parentes que estão empesteando essa casa. Joguei um pouco no celular mas depois me obriguei a levantar por culpa da minha bexiga. Troquei de roupa e estava indo pra sala quando uma cena na cozinha me parou. Isaac parecia parte da família comendo com todo mundo à mesa. Tipo, mais da família que eu.

– Olá. — Falei e sentei junto com eles.

– Bom dia, querida. — Minha mãe falou e o resto só sorriu pra mim. Olhei pro Isaac.

– Vai querer ir pra sua casa que horas? — Perguntei.

– Tenho que estar lá pro almoço.

– Daqui a pouco a gente sai. — Comecei a comer. Vi que o Nicholas tava todo risonho junto com o meu irmão. Estreitei os olhos. Espero que eles saibam que vai ter volta.

– Eu vou enxaguar a boca e pegar minhas coisas. — Isaac falou pra mim e eu disse que ok. Nicholas levantou e foi pra sala. Fui atrás.

– Um belo dia pra você, Laurinha. — Ele falou.

– Um péssimo pra você. Resolveu me castigar ontem?

– Tá falando de que?

– Não se faça de cínico. — Ele deu risada.

– Não é porque você não transou ontem que eu tenho culpa.

– Você invadiu o meu quarto ontem. Duas vezes!

– Primeiro: eu não pedi pra te ver nua. — Cruzei os braços.

– Eu estava de toalha.

– Com a porta aberta.

– Eu não sabia que vocês chegariam cedo. E lugar de visita é na sala.

– Segundo: ele nem ia dormir aqui, pra começo de história. E foi sua mãe que colocou eu e o Colin pra dormir lá. Mas pra falar a verdade, até que foi uma boa a gente dormir no seu quarto. Não queremos você engravidando tão nova.

– Ridículo. — Ele riu de novo.

– Eu to brincando, Laurinha. Foi sem intenção de estragar a noite de vocês. Juro! Mas, me diz, porque não assume logo que ele é seu namorado?

– Hm... — Sentei no sofá. Escutei a voz do Isaac na cozinha falando com os outros.

– Todo mundo gostou dele. E ele parece gostar bastante de você.

– A gente já conversou sobre isso. Nada sério, mas exclusivos.

– Isso pra mim tem outro nome.

– Não enche.

– Mas ele passou a noite de Natal com a sua família! E você vai no almoço de Natal da família dele!

– Como amigos. — Olhei pro corredor. Isaac vinha na minha direção.

– Vamos? — Ele perguntou. Me despedi do Nicholas e fomos pra casa dele com o meu carro.

– Meu primo perguntou porque a gente não se assume. — Falei como quem não quer nada. Percebi pelo canto do olho que ele olhou pra mim, mas continuei focada na estrada.

– Bom, você sempre disse que somos só amigos, que não é nada tão sério quanto um namoro.

– Então a culpa é minha?

– Eu... — Ele tentava encontrar alguma coisa pra me falar. — Você quer algo sério, então?

– Você quer?

– Não joga a bola pra mim, não. Você sabe que eu sempre quis.

– Ei! Você nunca me falou isso.

– Não falei porque sabia que você não queria. E era óbvio que eu sim. — Eu não podia falar nada porque ele não estava mentindo. — Você ainda não me respondeu. Quer algo sério?

– Eu gosto de você.

– Laura...

– É que a gente tá tão bem assim. Eu não quero que mude e tudo vire uma merda.

– Mas a única diferença é você não me apresentar como namorado.

– Então estamos namorando. — Ele não falou nada. O semáforo estava fechado. Olhei pra ele.

– Eu não sei o que você quer. — Revirei os olhos. — Não quero que isso seja decidido porque eu falei que queria. Você tem que querer também.

– Se eu disse aquilo, é porque quero. — Isaac ficou quieto. Um tempinho depois chegamos na casa da tia dele. Segurei a mão dele. Ele sorriu e me beijou.

– Acho que não vai ser nenhuma surpresa pra eles.

– Eu também acho. Tava muito na cara.

– E o jeito que você me olha... — Ele falou rindo.

– Ah, claro... E você não morre de amores por mim. Quem foi que implorou pra eu namorar mesmo?

– Sei lá. Só sei que não fui eu.

– Mentiroso. — Resmunguei. Ele abriu a porta e eu quase levei um susto. A minha família era grande. Mas a dele era uma coisa fora do normal. Eu não quero conhecer esse tanto de gente.

– Ah! Mas eu sabia! — A mãe dele falou e eu senti minhas bochechas esquentarem. Todos nos cumprimentaram e eu virei o assunto do dia. A família inteira dele quis conversar comigo e saber sobre mim. As coisas demoraram pra acalmar um pouco. O almoço foi um alvoroço só. Eu só sorria e respondia. Algum tempo depois, a família do Isaac foi abaixando os ânimos pela novidade.

– Acho que eles gostaram de mim e não foi pouco. — Falei quando estávamos sozinhos sentados no sofá.

– Que bom, né? Fico feliz que eles tenham gostado de você. — Ele passou um braço pelos meus ombros, me abraçando e me deu um beijo na bochecha.

– O que vamos fazer mais tarde?

– A gente podia ir jantar. Só eu e você.

– Enquanto isso, eu vou tirar um cochilo.

– Ou a gente pode ir pro quarto. — Olhei pra ele.

– Sua família toda tá aqui. E se pegarem a gente?

– Não vão, não. Não tenho nenhum primo tipo o seu.

– Engraçado... — Levantei e ele fez o mesmo. Assim que entramos no quarto, fui trancar a porta. — Ué... Cadê a chave?

– Ah, esse quarto não tem. — Arqueei uma sobrancelha. Olhei em volta. Peguei uma cadeira e coloquei embaixo da maçaneta. Depois, já tirei a blusa e fui até ele.

– Tá rápida hoje.

– To querendo ser. — Enlacei minhas pernas em volta da cintura dele e ele colocou as mãos na minha bunda. A gente começou a se beijar e a coisa toda foi rolando. No começo eu estava praticamente me cagando de medo de alguém querer entrar ali, mas isso não demorou muito. Logo, logo eu esqueci a possibilidade e só aproveitei o momento.

(...)

– Aqui é bem simples, não acha? — Isaac disse olhando em volta do restaurante.

– O que interessa é a qualidade da comida. — Falei abrindo a porta e arrastando ele pra dentro.

– Eu nunca vim aqui.

– Óbvio que você nunca veio aqui. Aqui é restaurante de pobre.

– Ei! Eu não faço o tipo riquinho.

– Não falei que você era fresco. Disse que você só vai em restaurante fino. Mas como eu não tenho dinheiro, também não tenho estômago só pra comer meia dúzia de matinho e me fingir de satisfeita. Fora que sou funcionária pública. Não ganho lá essas coisas. — Ele deu risada.

– Certo...

– E a dona Stela é uma das poucas que sempre abrem no Natal. Ela abre só de noite, pros funcionários passarem o dia com a família.

– É um pouco mercenário isso.

– Você quem quis jantar fora, meu querido. E estamos nos Estados Unidos da América! — Pegamos o cardápio. — Vai querer o que?

– Escolhe você.

– Ok. — Pedi o meu prato preferido e esperamos. — Que dia você vai voltar pra faculdade?

– Primeiro dia útil de janeiro. Você vai trabalhar amanhã?

– Vou. Mas já vou voltar pro meu apartamento. Quero a minha paz de volta.

– Seu primo fez de propósito ontem?

– Diz ele que não. Mas capaz de não ter sido mesmo. Mais fácil ter sido ideia do meu irmão. Por quê?

– Nada. Ele e seu irmão falaram sério ontem sobre eu jogar com eles.

– Vocês combinaram algum dia?

– Pensamos em algum dia até quinta. Mas nada combinado direito. Dei meu celular pra eles.

– Você vai virar amiguinho do meu irmão.

– Melhor virar amigo do que ele não indo com a minha cara. — Fiz careta.

– Até que você tem razão. — Tínhamos pedido um vinho e começamos a beber. — Quando vai lá em casa? Não tá pensando em aparecer do nada lá, né? Tudo bem que minha família nem ia ligar, mas eu conheço meus parentes muito bem e eles não iam parar de fazer perguntas pra você.

– Tipo...?

– Qual o nome da sua mãe, onde você mora, que curso faz, do que você gosta, onde passou sua infância, se sua família é grande...

– Eu entendi, Laura. — Isaac falou rindo.

– É meio assustador. Até pra mim.

– Eles foram tranquilos hoje de manhã, mesmo fazendo perguntas.

– Ainda bem, né. — Ele ficou olhando pra mim. Até que comecei a ficar constrangida.

– Vou sentir sua falta na faculdade. — Dei um sorriso de canto.

– Quando você menos esperar eu vou estar lá na república.

– Espero que isso seja frequente.

– Sabe quem vai ser seu novo colega de quarto?

– Não. Podia ser alguém novo. O que provavelmente vai ser, já que os caras já tem quarto.

– Ou você fica com o quarto só pra você.

– Seria o meu sonho. Mas eu nem tenho certeza se vou voltar ou não. Minha mãe ainda tá neurótica pelo o que aconteceu naquela festa.

– Isso já faz mais de um mês.

– Você não conhece a minha mãe.

– Bom, ela sabe que o filho dela não pode morar com ela pelo resto da vida.

– Não seria com ela. Seria com a minha tia. O que piora um pouco a situação.

– Pelo menos sua tia não é chata.

– É... — Ele falou desanimado. — Mas prefiro eu e Deus. Por que não volta a morar com seus pais?

– Deus que me livre! Aquela casa vive cheia de parente, só pra começar. — Ele riu.

– Você não gosta deles mesmo!

– Não é questão de gostar. Eu adoro a família da minha mãe e do meu pai, mas toda hora é chato. Duas vezes no ano já tá de bom tamanho.

– Eu não sei o que é isso. Acho que é uma coisa boa.

– Você não faz ideia. Sem contar que... Eu gosto muito do meu apartamento e da minha paz, entende?

– Entendo... — Dona Stela trouxe a comida. Não demoramos muito mais depois que acabamos. Decidimos dar uma volta.

– Nem parece que a cidade é aquela loucura nos dias normais.

– Tá ótimo assim. Deixa eu te perguntar... Acontece que nem naqueles filmes e seriados? Do nada você tá de folga andando e tem que parar pra prender um bandido?

– Hm... Acontece as vezes. Não é porque eu to de folga que os crimes vão parar. — Falei e ri.

– Você me entendeu. — Parei de rir.

– Ok. Desculpa. Na maioria das vezes o policiamento nas ruas não é o suficiente. A cidade é imensa!

– Já teve que parar sua folga por causa de um crime?

– No último Natal.

– Ah, pelo amor de Deus! Jura que você teve que sair da sua casa nesse frio?

– Fiquei a noite inteira na delegacia. Pior é no ano novo. A cidade fica mais cheia de turistas do que o normal. Mas eu não trabalho mais nas ruas, então é mais tranquilo pra mim. Só que, se acontece algo lá na minha divisão eu tenho que parar e ir até lá. Dificilmente cumpro meu horário certinho.

– Imagino que isso deve ser chato. Por isso nunca quis ser policial.

– É que eu gosto. Então, não me importo.

– Sei que você ama seu trabalho. — Sorri. Ele me deu um selinho. Andamos mais um pouco e eu fui pra casa. Chegando lá, Colin já veio falar comigo.

– Acabei de falar com o seu amigo/ficante/namorado. Ele vai vim aqui amanhã de tarde. — Ele falou sentando do meu lado no sofá.

– A gente oficializou. E como assim ele vai vim aqui amanhã? Eu vou trabalhar.

– Mentira?! Mãe! Eles estão mesmo namorando! — Esse menino tinha que berrar pra casa inteira.

– Novidade... — Minha mãe respondeu e eu revirei os olhos.

– E quem liga que você vai trabalhar? Isaac não vai vim aqui pra te ver. Vamos jogar.

– Ele não vai embora antes de eu chegar.

– Lógico que não. Ele vai dormir aqui. — Tá tudo indo rápido demais. Eu perdi o controle desse negócio aqui! Só queria saber o que vai rolar nessa casa com o Isaac aqui e eu em outro lugar.