Unkiss Me

12 I will miss you


No dia seguinte era o dia de Ação de Graças. Falei pra minha mãe que a avisaria na hora que eu saísse da república. No momento, eu estava me arrumando. Me depilando, na verdade. A porta do banheiro estava aberta. Carly me ajudava a fazer as malas. Ou melhor. Ela estava sendo a melhor colega de quarto e arrumando pra mim.

– Vai ter alguém gato lá? — Ela perguntou.

– Pelo amor de Deus, Carly! Eu vou ver minha família!

– E daí? Pode ter algum vizinho. Ai, essa blusa é tão linda! Com aquela calça jeans você fica gostosa. Se eu fosse lésbica, iria tentar te pegar. — Ri.

– Ah, claro. Olha a vantagem: já dividimos o quarto. — Falei irônica, ainda rindo.

– Oi. — Ouvi a voz do Isaac e quase dei um pulo, tentando me cobrir com a blusa. Eu tava de calcinha!

– Não entra assim! — Berrei e fechei a porta na cara dele.

– Mas ela que falou pra eu entrar! — Ele disse se referindo a Carly. Abri um pouco a porta e coloquei a cabeça pra fora.

– Me passa um shorts. — Carly jogou na porta e eu peguei. Vesti e abri a porta de novo. Isaac arrastou a cadeira da mesinha de estudo pro banheiro. Dei um selinho nele. — Oi.

– Eca! — Ele apontou pra minha perna. O pedaço de cera já tinha esfriado. Comecei a choramingar. — Ué... Que foi?

– Vai doer pra porra pra tirar agora. — Fiz bico. Ele bateu as mãos nas coxas, pedindo pra eu colocar a perna em cima.

– Tira de uma vez? — Coloquei a perna em cima da dele e fiz que sim com a cabeça. — Não é pra me xingar depois. Muito menos me bater! — Ele começou a fazer gracinha, subindo a mão pela minha perna.

– Tira logo. — Mal terminei a frase e ele arrancou com tudo. — Como você é rude!

– Você pediu pra eu tirar de uma vez.

– Isso tá estranho, gente. Me avisem pra que possa sair do quarto sem escutar o que não quero. — Carly disse ainda de frente pro meu guarda-roupa.

– Cala a boca! — Retruquei. Sentei onde eu estava antes de o Isaac invadir o quarto.

– Isso é nojento. — Ele falou apontando pra cera.

– Não é não. Resolveu se vai pra casa da sua mãe nesse feriado? — Ele estava olhando para as minhas pernas. — Meu rosto é aqui em cima, amigão.

– Vou hoje pra casa. — Ele disse corando um pouco. — Você podia me dar uma carona.

– Claro. — Falei sorrindo.

– Você vai usar salto? — Carly perguntou da porta.

– Misericórdia! Eu vou ficar de moletom o dia inteiro, gata. Nem se dê ao trabalho de colocar roupas legais na mala.

– Como você é sem graça, Sarah! — Dei de ombros. — Então, tá pronta. E não suja meu banheiro! — Ela falou brava, apontando pros pedaços de cera.

– Querida, eu vou limpar. Não precisa de estresse.

– Ainda bem que nasci homem. Não preciso fazer essas nojeiras. — Revirei os olhos.

– Na verdade, isso é um padrão de beleza. Mas como pelos são nojentos, aqui estamos nós.

– Falando nisso, minha sobrancelha tá pela hora da morte. — Carly falou se olhando no espelho. — Acho que vou pedir pra Suzi fazer pra mim. E você devia fazer o mesmo. Ela cobra cinco dólares e faz direitinho.

– Ela cobra pra fazer a sobrancelha das amigas? — Perguntei horrorizada. — Não que eu seja amiga. Mas né...

– Praticamente a república inteira pede pra ela fazer. A coitada começou a cobrar depois de um tempo. A mãe dela é dona de salão de beleza. Suzi já fez milagres até no meu cabelo.

– To precisando de um. — Resmunguei, arrancando outra cera da perna. Isaac fez uma careta, mas logo se recompôs.

– Ben fez um milagre em você, segundo ele. Nem parece que é de mentira. — Estreitei os olhos pra ele.

– O que é de mentira? — Carly perguntou franzindo a testa.

– Sarah é loira falsa. — Ele falou com um sorrisinho de quem aprontou.

– Judas! — Falei apontando pra ele. — E não me chama de “loira falsa”. — Carly deu risada.

– Relaxa, Sarah. Metade do campus já pintou o cabelo de loiro. — Fiz cara de poucos amigos.

– Mas em mim ficou mais bonito! — Resmunguei brava e eles deram risada. Eles continuaram me enchendo o saco desse negócio do cabelo até eu terminar de depilar a perna e mandar os dois pra casa do... — Eu preciso tomar banho. — Falei pra eles saírem do banheiro.

– Vou arrumar minhas coisas. — Isaac me disse. — Passa lá no meu quarto antes de ir.

– Tá. — Nos beijamos rapidamente, já que tínhamos plateia, e ele foi embora depois.

– To indo pra casa. Não esquece da reunião da república segunda-feira! — Ela me deu um beijo na bochecha e saiu. Peguei minha toalha e fui em direção ao banheiro, mas uma coisa me chamou a atenção. A república estava quieta. Poucas meninas circulavam por ali. Deixei a toalha em cima da minha cama e comecei a andar pelos corredores como quem não quer nada.

O quarto onde o Stevens disse que achou as caixas de drogas parecia estar vazio. Abri a porta e chamei um “olá?”. Ninguém respondeu. Entrei, fechando a porta, não sem antes olhar ao redor pra ver se eu fui vista. Tranquei e comecei a fuçar. Achei alguns pacotes, mas não eram muitos. Ou seja, elas ou uma só usava. Tinha várias fotos das duas em festas, vários livros, roupas pra tudo quanto é canto... Mas nada que as incriminassem.

Comecei a fazer essa busca por todos os quartos que não tinha ninguém. Não encontrei nada. Com exceção de um. Fucei bastante e acabei pisando, sem querer, num assoalho meio solto. Tirei e tinha um caderno lá dentro com várias anotações. Já que eles sabiam que tinham policiais por aqui, peguei e levei pro meu quarto. Me certifiquei de que ninguém teria me visto entrando nos quartos ou levando o caderno comigo. Confesso que tenho cara de sonsa. Iria ser difícil alguém desconfiar que era eu sem que soubessem de algo que eu fiz.

(...)

– Meu irmão não tá? — Perguntei pro Isaac quando entrei no quarto deles. Achei estranho, já que, pra mim, ele estaria fazendo as malas.

– Hm... Não. — Cruzei os braços olhando pra ele, tentando esconder um sorriso. — Pedi pra ele comprar uma coisa pra mim. — Ele chegou até mim e colocou as mãos na minha cintura.

– Esperto.

– Tem que ser, né? — Sorri. — Queria passar um tempo com você. — Ele falou baixo, mas a voz dele saiu tão perfeitamente perfeita e tão rouca e tão... Sexy. Acho que deixei escapar um suspiro. Ele sorriu achando graça.

– Acho que vai ser muito produtivo esse tempo e tal... — Olhei pra ele, que ainda sorria. Isaac me beijou. Foi um pouco diferente. Com mais... urgência. Sei lá! Só sei que estava bom. Cada vez que o Isaac abaixava um pouco as mãos, parecia pedir permissão pra que isso fosse feito. E eu não falei nada. Até ele chegar na minha bunda. Tentei não pensar nisso e aproveitar o beijo, mas ouvi um “EI!” gritado da porta.

– Qual é, cara?! Ela é minha irmã! — Escondi o rosto na curva do pescoço do Isaac. Não é nada legal seu parceiro te pegar naquela intimidade toda.

– Vamos ficar 4 dias sem se ver. — Isaac falou.

– Imagina nas férias! — Férias? Eu não queria continuar aqui até as férias. Não queria continuar mentindo pro Isaac durante tanto tempo. — Vamos logo. — Minhas coisas já estavam no carro. Eles pegaram as coisas deles e lá fomos nós. Como nós iríamos pra New Jersey, daríamos carona pro Isaac. Na verdade, digamos que foi sorte, porque minha família mora em New York mesmo. Mas minha tia é de lá. O que é bom, assim não precisaríamos voltar tudo e depois ir pra lá só pra pegar o Isaac de novo.

(...)

– Eu vou ter que ficar aqui dentro vendo e ouvindo enquanto vocês se despedem? — Stevens perguntou fazendo uma careta.

– Como somos dois e você um....

– Bem observado. — Ele interrompeu o Isaac.

– Você aproveita o clima agradável enquanto me despeço da Sarah. — Isaac completou como se ninguém tivesse interrompido-o e eu dei risada.

– Você tem irmã, Isaac? — Stevens perguntou.

– Sou filho único. — Ele respondeu com um sorrindo cínico. Stevens revirou os olhos e saiu do carro.

– Isso é um pouco constrangedor. — Falei rindo de nervoso.

– Vai dizer que tá com vergonha agora? — Dei de ombros. Ele me beijou. Confesso que eu sentiria falta do beijo dele.

– Vou sentir sua falta. — Falei e ele beijou minha bochecha, fazendo carinho na mesma logo após.

– Também vou sentir sua falta, Sarah. — Deixei um suspiro de decepção escapar. — O que foi? Aconteceu alguma coisa?

– Não. — Falei forçando um sorriso. Mas queria ter respondido que era pra ele me chamar de Laura.