Unkiss Me

28 Happy New Year, luv


Meus pais, avós e o restante dos parentes mais velhos foram todos pra Jersey, já que o meu tio voltaria da Europa pouco antes do ano novo. Eu, Isaac, meu irmão e meus primos resolvemos ficar na cidade, incluindo os pequenos. No momento, o restante dos parentes tinham acabado de sair e nós discutíamos onde passaríamos o ano novo. Eu pensei que todo mundo iria pra Times, mas tínhamos medo de perder os pequenos e o Isaac não se importava de ficar em casa ou em qualquer outro lugar.

— Espero que seja em algum lugar que dê pra dar um beijo de ano novo. — Colin disse e eu olhei pra ele confusa.

— Mas você não estava namorando com uma menina? — Nicholas riu.

— Colin é tipo você mais nova. — Ele me respondeu.

— Não entendi. — Confessei. Percebi o Isaac me olhando de canto de olho. Eu esperava que ele não parasse de fazer massagem nos meus pés. Eu tinha acabado de tomar banho depois de um dia intenso de trabalho, já que essa semana tem os preparativos pro ano novo. E todos os departamentos estavam empenhados, já que é New York. Ou seja, eu passei o dia inteiro de pé. Não estava aguentando nem as minhas pernas.

— Foi algo passageiro. Nada demais.

— O que importa por agora: Laura, você vai trabalhar? — Uma prima minha perguntou.

— Meu chefe lembrou que eu também sou filha de Deus e me dispensou no dia 31.

— A gente podia ir pra algum lugar. — Alguém disse achando que eu tenho uma árvore de fazer dinheiro.

— Todo mundo é pobre, com exceção do bonitinho aqui. — Apontei pro Isaac. — Se formos ver algo pra alugar agora, deve custar o olho da cara. Fora que eu não tenho dinheiro nem pra dar na esquina. — Nicholas tapou os ouvidos do irmão mais novo dele.

— Não fala assim. — Ele brigou. Revirei os olhos.

— Ficar em casa é tão chato. — Colin resmungou.

— Então vamos pra Times! — Nicholas sugeriu de novo. — A gente dá conta dos pequenos. E outra, vamos ter uma policial no grupo.

— Conta comigo não. — Resmunguei me ajeitando mais no sofá.

— A gente dá conta, sim. — Isaac se pronunciou pela primeira vez. — Vai ser divertido.

— Obrigado! — Nicholas respondeu a ele.

Não deu outra. Exatamente às oito da noite estávamos todos saindo de casa em direção a Times. Fomos de metrô. Não ia ter outro jeito mesmo. E mesmo saindo cedo o movimento era imenso.

— Olha bem aqui pra mim. Se um de vocês soltarem a mão dos adultos, o chinelo vai cantar quando chegar em casa. — Falei pros pequenos.

— Laura! — Colin me repreendeu.

— Assim eles não fazem. — Me defendi. — E, se alguma coisa acontecer, procurem o policial mais próximo e falem que a prima é da polícia. Não esqueçam de dar meu nome. — Eles assentiram e fomos em direção ao metrô mais próximo.

— Não seja dura com eles. — Nicholas falou bravo.

— Eu vou ter que ficar escutando depois. Ainda mais porque você não falou pra ninguém que a gente tá indo pra lá. — Ele me olhou confuso. — Minha mãe ligou hoje. Ela perguntou se vamos passar mesmo em casa e eu falei que sim.

— Rá! Você tá na mentira tanto quanto eu, mocinha. Fora que eu sou o mais velho. Ou seja, quem é o responsável por todos nós é a minha pessoa. E para de neura. Não vai acontecer nada.

— Deus te ouça. — Isaac resmungou e o Nicholas fingiu que não ouvia.

(...)

— Eu preciso fazer xixi. — A irmã mais nova do Nicholas chorou pra mim. Olhei em volta. Claro que não teria nada dentro do metrô.

— A gente já tá subindo as escadas.

— Mas eu quero muito.

— Amor, pra fazer xixi precisa de um banheiro. Já estamos chegando. Aí eu te levo. — Levei a menina no banheiro. Antes de sair deixei claro "não saiam daqui". Mas parece que eles tem algum problema no cérebro porque quando voltamos não achamos ninguém. Ela já olhou pra mim com cara de choro.

— Não precisa ficar nervosa. Qualquer coisa a gente volte pra casa e eu te faço um chocolate quente. — Peguei o celular pra ligar pra eles. Só caía na caixa postal. Três homens e nenhuma responsabilidade. Adorei!

Peguei ela no colo pra passar no meio da multidão. Andamos uns dois minutos mais ou menos e achamos.

— Diz pra mim que a única razão pra vocês terem saído de lá é porque alguém estava morrendo e ninguém queria ajudar. — Falei para os três.

— Seu priminho viu o cara vestido de Homem-Aranha e quis ver de perto. Na verdade ele tá dançando muito bem. — Isaac me disse e eu olhei brava pra ele.

— Sabia que foi um milagre eu ter achado vocês? E pra que vocês tem celular?! Se não tivesse criança aqui eu falaria que é pra enfiar você bem sabe onde. — Ele passou os braços pelos meus ombros.

— Relaxa, amor. Estamos todos bem. Olha lá ele fazendo um moonwalk! — Revirei os olhos.

— Sem contar que vocês demoraram tanto que ficou tedioso. — Nicholas tentou justificar e eu olhei brava pra ele.

— Estamos na Times Square na noite de ano novo, um monte de criança querendo mijar e você jura que achou que seria rápido? — Ele deu de ombros e eu revirei os olhos de novo.

Depois de muito empurra-empurra, de "um pouco mais pra frente. Aqui ainda tá muito longe", conseguimos chegar em um lugar agradável. Claro que cada um tava com uma criança agarrada no pescoço. Agora passava das onze e eu me perguntava se iria rolar o beijo de meia noite.

— Será que a gente consegue dar uma escapada? — Isaac perguntou pra mim. Sorri achando graça.

— Eu duvido muito mas esperança ainda é de graça então... — Mal tinha acabado de terminar a frase e o povo da faculdade apareceu.

— Oi, gente! — Um dos meninos disse. — E as coisas realmente estão sérias. Vocês já estão com crianças!

— Cruzes! — Fiz uma careta. — São meus primos. E esse aqui é meu primo mais velho Nicholas e meu irmão Colin. — Todo mundo se cumprimentou. A menina que não ia com a minha cara de jeito nenhum já deu "aquele olhar" pro Nicholas. E ele fez o mesmo. Depois quem curte gente mais nova sou eu, né?

— Que bom que vocês chegaram. — Isaac começou dizendo. — Podem ajudar a cuidar das crianças. — Ele colocou meu priminho no chão e pegou na minha mão.

— Aonde vocês vão? — Nicholas perguntou olhando bravo pra mim.

— Já é quase meia noite e tem a tradição. — Falei.

— Todo mundo aqui quer seguir a tradição. — Colin resmungou.

— Sim, mas somos os únicos que namoram. Valeu, falou. Até mais. E chequem o celular! — Falei já quase saindo da nossa rodinha.

— Tem ideia de algum lugar? — Perguntei pro Isaac quando chegamos na calçada. Foi difícil passar no meio daquele povo mas sobrevivemos. — Não precisamos de um lugar perfeito. Eu já tenho você. — Ele olhou pra mim sorrindo.

— Acho que foi a coisa mais meiga que você já disse.

— Pra você?

— Hm... Creio que pra qualquer pessoa.

— Eu não sou uma ogrinha.

— Eu não disse isso. — Ele me deu um selinho. Continuamos andamos. Aos poucos a multidão foi ficando mais distante, apesar de que antes não estávamos perto do palco por causa das crianças. — Aqui. — Isaac puxou minha mão pra entrar em um prédio mas eu puxei de volta.

— Você quer invadir um lugar? Com uma policial? Sério, amor?

— Não estamos invadindo nada. Isso aqui tá vazio.

— Certamente é de alguém. E lógico que tá vazio. Ainda tá sendo construído. — Ele puxou minha mão de novo.

— E nós podemos fazer de conta de que a construtora da minha tia cuida disso aqui. — Falou, ignorando o que eu tinha dito, e deu um sorrisinho pra mim, enquanto entrávamos no prédio. Iria ficar bonito.

— Sua tia tem uma construtora?

— É. Nunca contei?

— Meu namorado realmente tem família rica. — Isaac deu risada.

— O dinheiro não é meu. — Disse com cara de decepção. — Espero que o amor não tenha acabado. — Rolei os olhos.

— Ridículo. — Ganhei um selinho. Ele cumprimentou o guarda noturno e entramos em uma espécie de elevador. — Tem certeza que isso aqui é seguro?

— Tá com medo?

— Não, idiota. Só pretendo chegar em 2016 viva.

— Não vai cair. — Sei lá o que ele fez mas o troço começou a subir.

— Quando você veio aqui?

— Faz um tempinho. Eu tinha planejado pedir você em namoro com a vista de New York como fundo logo depois do Natal, mas você brava aquele dia no carro não ajudou com o plano. — Sorri e passei meus braços pelos seus ombros.

— Seria perfeito. — O beijei.

— Eu sei. — O elevador parou no último andar. Claro que lá em cima não tinha nada além de materiais de construção e neve, mas a vista realmente era maravilhosa. E dava de frente pro palco na Times.

— Aqui é lindo! — Ele sorriu. Nos sentamos perto da beirada do prédio e, claro, de frente pra Times. Abraçamos um ao outro. Estava muito frio. O que a gente queria também? Era quase de madrugada.

— Laura? — Olhei pra ele. — Vou sentir sua falta esse ano. — Ele já tinha falado aquilo várias vezes, mas eu nunca me cansava de ouvir.

— Também vou sentir sua falta. Ficar no escritório não é tão legal quanto fazer trabalho externo.

— Você adorava as festas, né?

— Não vou mentir. Eram divertidas. Mas aquela última foi horrível.

— Me sinto macho alfa quando vejo minha cicatriz. — Ri baixo.

— Obrigada por aquilo mas isso definitivamente você não é.

— Ei!

— Desculpa. — A contagem regressiva tinha começado. Incrível ver tantas pessoas ali por uma única razão. Deixar tudo que aconteceu em 2015 pra trás e começar uma vida nova. Minha vida iria mudar esse ano. Eu tinha certeza. Uma parte dela já tinha mudado. Enquanto a contagem diminuía, eu pensava em alguns planos que guardei pra 2016 e que fariam não só a mim como também algumas pessoas a minha volta um pouco mais felizes. Uma delas estava aqui do meu lado e mal sabia que eu tinha estabelecido um horário no trabalho um pouco diferente do que eu tinha só pra ter um pouco mais de tempo ao lado dele. E também acho que vou ser promovida no trabalho, o que vai fazer meu pai ficar orgulhoso apesar de eu não seguir a carreira que ele queria. Fora a minha mãe que acho que vai ter um ataque cardíaco de emoção quando eu disser que vou fazer a inscrição pra faculdade assim que abrir. Acho que isso também se encaixa em passar mais um tempinho com o Isaac, já que vamos nos ver nos intervalos e entre o campus. Vai ser divertido voltar pra lá e aí sim minha rotina vai dar uma volta de 180º.

— Feliz Ano Novo, amor. — Isaac falou baixo no meu ouvido.

— Feliz Ano Novo. — Também sussurrei e nos beijamos.

— Espero que todos os anos novos sejam assim daqui pra frente.

— Vão ser. — Ele beijou o topo da minha cabeça. Continuamos ali por bastante tempo, só conversando sobre besteiras, nada de interessante, até que vimos o céu ficando mais claro. — New York parece até outra cidade com essa visão, não acha?

— Uhum.

— Eu amo tudo isso aqui. Incluindo você.

— Obrigado. Eu digo o mesmo.

— Acho que é melhor nós irmos. Provavelmente meu irmão deve estar puto com nós dois.

— Não só ele. Mas vamos lá. — Nos levantamos. Mas antes de seguir em frente, Isaac segurou minha mão e me puxou, me dando um outro beijo.

— Uma tristeza dizer isso, mas temos que voltar pra vida real agora. — Ele só sorriu e me beijou novamente.