Depois que enviei a mensagem pro Steves não recebi mais nenhuma. Não faço ideia do que aconteceu lá ou na sala da minha casa, junto com o meu pai e o Isaac.

Todos nos sentamos ao redor da mesa e começamos a comer. Durante o jantar, meu pai olhava do Isaac pra mim e depois pro Isaac de novo.

– O que vocês faziam no quarto antes de a gente chegar? — Tava demorando pro meu pai fazer essa pergunta. Isaac olhou pra mim.

– A gente não tava transando, se é isso que você quer saber.

– Laura! — Minha mãe brigou. Mas ué... Não falei nenhuma mentira. Vi meu irmão prendendo o riso e o rosto do meu pai ficando vermelho. Isaac ficou vermelho também, mas a vontade dele era de se esconder debaixo da mesa.

– A gente só conversava. Não queria o Colin me enchendo o saco. — Ou me envergonhando na frente do boy.

– Ei! — Ele protestou. — Você vai ter que se acostumar comigo de novo, se vai ficar aqui durante as férias. — Continuamos comendo em silêncio.

“Preciso de você aqui”

Steves me mandou. Respondi que eu estava de férias. Ele me ligou.

– Eu to jantando. — Falei indignada pra ele

– Queria eu ter comido algo nas últimas horas. E é sério. Morgan ficou no seu lugar. Ele pressionou a Carly.

– O que ela falou? — Steves respondeu alguém que não era eu e me deixou esperando. — Puta que pariu. — Soltei quando vi que ele não me responderia. Comecei a me levantar da mesa, desligando a chamada. — Sinto muito. Isaac, te deixo em casa.

– Eu vou de metrô. Não se preocupe. — Dei um beijo na bochecha da minha mãe e do meu pai e baguncei o cabelo do meu irmão. Fui até o quarto pegar a arma e o distintivo, e saí de casa, não sem antes dar um selinho apressado no Isaac quando já estávamos do lado de fora.

Quando cheguei no andar que eu trabalhava, a aparência do Steves me deu dó do coitadinho.

– Parece que você não dorme faz uns dois dias.

– To quase vinte e quatro horas acordado. Fora que não como faz umas sete horas

– Eu podia ter passado num drive pra você. O que ela falou?

– Ela e o Scoot continuam juntos. Ela deu um outro nome também. Os policiais estão indo pro campus essa hora pra fazer a prisão.

– Ela faz engenharia química.

– O que?

– Ela faz engenharia química! Como sou burra! Tava na minha cara o tempo inteiro! Onde ela tá?

– Na sala de interrogatórios. Mas você não pode entrar lá agora. Acha que ela plantou alguma coisa no campus?

– Não tenho ideia. Mas vou pro lá.

– Você está fora da investigação, Parker.

– Desculpa, chefe. Não to suspensa. — Nem esperei pela resposta. Só passei no vestiário pra pegar um colete a prova de balas e saí.

(…)

Assim que cheguei no campus, avistei uma viatura. Fui até lá. Tinha um menino na parte de trás.

– Eles estão prendendo seu amigo? — Perguntei e ele me olhou com cara feia.

– Sou inocente. — Falou emburrado.

– Certo… Novidade eu ouvir essa frase. — Falei irônica. Vi que ele estava algemado junto à uma barra do carro e entrei no prédio.

– Carly é uma ótima atriz. — Ouvi atrás de mim. Era o Adam.

– Já soube?

– É. As notícias correm rápido por aqui. Se eu fosse você, procurava no outro prédio. Não tem ninguém aqui metido nisso. Juro. Conheço cada um.

– Tá sabendo de que?

– Juro por Deus que nada. Aqui tá tranquilo. Na verdade, as pessoas até estão um pouco assustadas com isso.

– Como soube de tudo? — Afinal, o nome do Adam já tinha aparecido na investigação. Tudo bem que foi descartado porque não tínhamos nada contra ele, mas nessa altura do campeonato, não dá pra confiar.

– Viram a Carly sendo levada daqui. Não sei quem foi. Só sei que a notícia se espalhou bem rápido. Bom, se algo desses acontece no campus, a Ômega inteira comenta. E você sabe como é lá. O que um sabe, o restante sabe também.

– Não sai do prédio. Evite que alguém saia também.

– Toma cuidado. Não vou deixar ninguém sair. — Assenti com a cabeça e fui até o outro prédio com a arma na mão.

Quando cheguei na frente, vi várias pessoas do lado de fora.

– Dá licença. — Comecei a pedir pro povo. — O que tá acontecendo?

– Ele tá com os dois policiais lá dentro. Mandou todo mundo sair.

– Jura que ninguém pensou em ligar pra polícia? Preciso de reforços na NYU. Dois policiais mantidos reféns. — Disse no rádio. Me aproximei um pouco mais do prédio. Quando entrei, logo pude ouvir vozes da primeira sala. Me aproximei o mais silenciosamente possível. Um dos policiais me viu, mas fingiu que nada tinha acontecido do lado de fora da sala.

– Eu não vou ser preso. — O amiguinho da Carly disse.

– Você só tá piorando a situação. — A policial retrucou. Ele revirou os olhos. Acho que seu braço cansou, porque ele abaixou a arma. Ainda mais porque não tinha nenhuma sirena soando naquele momento. Aproveitei e apontei a arma engatilhada pra ele.

– Larga a arma e coloca as mãos onde eu possa ver. — Falei. Ele virou pra mim um pouco assustado.

– Você só surge em momentos inapropriados, né? Adam estava quase se tornando um cliente quando você apareceu. E ia ser dos bons! O cara tem muita grana. Mas claro que você sabe disso.

– Larga a arma e coloca as mãos onde eu possa ver. — Repeti. Ele não largou. — Não vou repetir de novo. — Ele fez menção de erguer a arma apontada pra mim e eu atirei. Ele caiu, largando a arma. Quando a peguei, percebi que estava sem bala. — Filho da… — Um dos policiais chamou uma ambulância. — Você está preso. Tem direito a um advogado… — Falei os direitos pra ele, seguindo o protocolo, mas daquele jeito né. Sem nenhuma paciência. Quando a ambulância chegou, Steves disse que o acompanharia ao hospital. Eu fui pra delegacia, pra prestar depoimento.

– Sinceramente, o que essa investigação seria sem você? — Meu chefe comentou depois do meu depoimento detalhado e eu sorri orgulhosa. — Não fique brava, Laura. Mas você sabe o procedimento.

– Acho isso ridículo. Só porque eu atirei no cara? Ele não hesitaria em atirar em mim. Sem contar que ele não vai morrer.

– Mas você precisa fazer acompanhamento psicológico. — Contive a vontade de revirar os olhos, mas o meu bico continuava intacto.

(…)

Depois daquilo tudo, passamos a noite inteira na delegacia, recolhendo depoimentos, quantos ainda faltavam serem presos e realocando os que já estavam no sistema.

– Eu preciso dormir. — Steves falou.

– Ele continua no centro cirúrgico?

– Saiu agora a pouco. Morgan tá dentro do quarto com ele.

– Vai descansar um pouco. Eu fico aqui.

– Você tá de férias.

– Quando acontece essas coisas, não existe férias, feriados, folgas. Você sabe disso. — Ele me deu um beijo na testa.

– Quando isso acabar, eu mereço um barril de cerveja.

– Prefiro vinho.

– Que seja! Qualquer coisa com álcool eu to aceitando.

– Parker! Sala de interrogatórios! — Juro que nem sei quem me chamou, mas lá fui eu. Me avisaram que a Carly estava fazendo corpo mole.

– Mas não foi ela que avisou sobre os garotos? – Perguntei pra um dos policiais.

– Tem mais coisa por trás disso. – Revirei os olhos e entrei na sala.

– Olá, Carly. – Ela sorriu pra mim.

– Eu sempre soube que você é policial.

– Hm... To ligada nisso. Me contaram que você não falou sobre tudo. – Ela deu de ombros. Apoiei meu corpo na parede e cruzei os braços, pra fazer parecer tudo menos formal. Em alguns casos funcionava.

– Não sei sobre o que querem que eu fale mais.

– Não me enrola, Carly. — Odiava quando faziam isso. E o pior era que 99% deles tinham essa mania dos infernos!

– Sei que o Scoot deu a relação de todas as pessoas que consumiam. Sabe o que a abstinência pode fazer com as pessoas, né? Tudo isso vai ficar nas costas de vocês.

– Só se for no seu mundo. Não fui eu quem criou aquilo. Quem mais vendia?

– Mais ninguém. Eu já falei demais.

– O que mais que tem pra acontecer, Carly? Não ia terminar tão fácil assim.

– Dizem que sem provas, não há crime, não é mesmo? – Arqueei uma sobrancelha. – Você nunca vai achar nada contra mim. Aliás, o que vocês tem contra mim? A palavra do Scoot. Como se valesse alguma coisa.

– Não só a palavra dele. O que adianta não querer falar? Você vai ficar presa de qualquer jeito. Aliás, ajudar na investigação pode fazer com eu consiga te ajudar.

– Sem provas, sem crime. – Ela repetiu. Continuei olhando pra ela. Não pode ser uma coisa dessas. Saí correndo da sala.